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Centenário de Apolônio Carvalho aos 32 anos do PT!

Hoje, quando o PT está próximo de completar 32 anos, e para Apolônio se presta justa homenagem, não podemos nos esquecer que o grande feito deste combatente foi o de ter ajudado a construir um partido que se ergueu contra a ditadura e os patrões

“Aqui morou Apolônio Carvalho, combatente da liberdade”, diz a placa no portão do prédio no Leblon, no Rio de Janeiro, onde ele residiu. Uma homenagem dos vizinhos.

Apolônio Carvalho nasceu em 09 de fevereiro de 1912, em Corumbá, hoje Mato Grosso do Sul, na época apenas Mato Grosso, e faleceu às 18h30min do dia 23 de setembro de 2005, vítima de insuficiência respiratória, na cidade do Rio de Janeiro. Nos 93 anos que se passaram entre a primeira e a segunda data, Apolônio, que se definia como “um produto de sua época”, participou ativamente do cenário político brasileiro e internacional.

Mudando-se para no Rio de Janeiro, ingressou na Escola Militar do Realengo e formou-se como tenente do exército em 1933. Serviu em Bagé (RS) onde passou a integrar a ANL (Aliança Nacional Libertadora), declarada ilegal em 1935. Nas próprias palavras Apolônio definia-se na época como “um democrata e patriota (…), integrado num movimento social extremamente forte e também com diretivas políticas que chamavam o Brasil à elementos novos ligados à soberania nacional num país ainda profundamente dependente, como era o Brasil da época”, dando aqui suas motivações: “Em 1929 houve a maior crise da história do capitalismo. Com terríveis efeitos sobre as vidas das populações. Então, nós jovens, éramos a favor da justiça, da igualdade, do respeito humano. Isso fez com que nós entrássemos na luta armada. Depois na luta política. Então passamos pelos altos e baixos dos partidos. Faço questão de falar um pouco das coisas positivas do Partido Comunista, porque muita gente fala, olhando só unilateralmente para o lado negativo que não foi só do nosso Partido Comunista Brasileiro, mas dos partidos comunistas de todo o mundo.“

Ainda na ALN, participou da tentativa fracassada de depor o Governo Vargas em 1935, à qual manteve posicionamento crítico, inclusive ao final da vida, declarando: “…uma sociedade nova (contida nos ideais socialistas) não deveria vir como foi tentado em 1935 e como eu tinha sido intentado antes, na proclamação que Prestes fizera em nome do Partido Comunista, a 5 de julho de 1935, chamando os militares a uma ação violenta contra o governo de Getúlio e a derrubarem o governo de Getúlio, eu passava a sentir o problema do socialismo através de uma floração de sociedades mais avançadas, não através da violência, que da noite para o dia transforma as cores, a essência, o sentido da vida e das coisas do Brasil da época”
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O golpe foi articulado por Luis Carlos Prestes e seus contatos locais diretamente com a então III Internacional estalinizada, num intento desesperado, aventureiro e fracassado de protagonizar uma revolução vitoriosa que pudesse tirar a pecha de Stalin de ser “organizador de derrotas”, conforme lhe havia conferido Leon Trotski em um escrito que analisava a sucessão de erros da oscilação da III Internacional entre a adaptação e a conciliação de classes, da coexistência pacífica para desenvolver o “socialismo num só país” e uma série de ações mal construídas, como a revolução chinesa de 1927.

Apolônio é então preso pelo regime Vargas, conheceria na cadeia Graciliano Ramos e Luis Carlos Prestes. O primeiro descreveu as condições dos presos políticos em seu famoso livro “Memórias do Cárcere”, de modo fiel, conforme declarações do próprio Apolônio. O segundo o apresentaria ao PCB, ao qual se filiou em 1937.
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Por ordem do partido, uma vez que dispunha de treinamento militar, viajou à Espanha, para integrar as Brigadas Internacionais durante a Guerra Civil da Revolução Espanhola, em mais uma derrota ocasionada pela traição do “organizador de derrotas”. Precisou abandonar o país e apresentar-se na fronteira francesa, onde foi preso e permaneceu confinado num campo de prisioneiros de dezembro de 1940 até agosto em 1941, quando consegue fugir. Em 1942 a França foi invadida pelas tropas nazistas alemãs. Após a fuga, Apolônio filiou-se ao PC Francês onde conheceu Renée France, com quem viria a se casar. Com ela integrou a resistência francesa, tendo recebido condecoração por heroísmo no país, a medalha da “Legião da Honra”.

Volta ao Brasil em 1946, com Renée e seu primeiro filho, ela já grávida do segundo. O retorno foi uma resposta a uma ordem do PC brasileiro.

Presidiu a União da Juventude Comunista (UJC), que teve como integrantes o poeta Manoel de Barros e o futuro técnico da seleção brasileira, João Saldanha. A organização seria dissolvida em 1947, por ordem do presidente Dutra. Um mês depois, o PCB retorna à ilegalidade, com ele Apolônio.

Viveu na URSS, de 1954 a 1957, época em que são revelados “os processos de Moscou” e as atividades de Stálin. Apolônio afirmava que nessa época superara a “visão ilusória a fantasiosa do socialismo”. Através dos “processos de Moscou”, Stálin eliminaria toda oposição constituída contra ele no Partido Comunista, desde o Comitê Central do partido bolchevique, até a eliminação da chamada “Oposição de Esquerda”, constituída contra ele dentro do partido. Aqueles que não foram diretamente atingidos pelos processos, seriam eliminados fisicamente, mesmo em terras distantes, como Leon Trotski, no México e seu filho, Leon Sedov, em Paris.

No ano de 1954, Jorge Amado publica o livro “Subterrâneos da Liberdade”, um romance em três partes -“Os Ásperos Tempos”, “Agonia da Noite”, “A Luz no Túnel”- cujo personagem “Apolinário” constituía uma homenagem a Apolônio. Uma apologia ao estalinismo!

Manteve desde então uma posição semicrítica ao PC. Mas ao retornar ao Brasil colaborou com a revista pecebista “Novos Rumos”, inclusive participou da Comissão de Educação do partido, ministrando aí cursos de formação política.

Durante a ditadura militar, que deu o golpe em1964, defendeu a luta armada e fundou o PCBR (Partido Brasileiro Comunista Revolucionário). Preso e torturado em 1969 é depois libertado no ano seguinte por meio de uma troca de 39 presos políticos pelo embaixador alemão, o qual havia sido sequestrado por um comando guerrilheiro.

Exilado, morou na Argélia e depois na França onde permaneceu até a anistia, em 1979.

Participou da fundação do PT, em fevereiro de 1980, no colégio Sion.

Neste dia 09 de fevereiro, onde Apolônio completaria 100 anos, sua esposa Renée lançará o livro de memórias dos 68 anos de convívio com ele, fruto de horas de entrevistas, chamado “Uma História de Lutas”.

No centenário de Apolônio relembramos a trajetória deste “combatente da liberdade”, que mesmo não tendo rompido completamente com o estalinismo, soube dar um passo decisivo em seu combate quando aderiu à construção do PT, um PT que na época se reivindicava das lutas dos trabalhadores, um partido sem patrões e que lutava pelo socialismo.

Apolônio não fez crítica alguma ao foquismo e à guerrilha. Tentou justificar ações como a luta armada, embora mantivesse posição crítica à manutenção do PCBR após a fundação do PT, a trincheira que ele considerava adequada para o combate na luta de classes desde sua fundação, ou como definiu sua esposa, um partido que já nasceu das massas. Não sabemos se ele rompeu ou não com as teses estalinistas da aliança de classes, ao menos suas declarações ao final da vida não tratavam do assunto, ou os entrevistadores evitavam tocar nele. Mas o fato concreto foi que ele, ao assumir a tarefa histórica da construção de um partido como era o PT, na prática rompia com todo o legado do velho Partido Comunista estalinizado.

A vida de Apolônio foi uma vida de lutas, e hoje, em um momento onde novas vagas revolucionárias começam a tomar o mundo e sacudir a história que até muito recentemente havia sido declarada acabada, lembrá-la, serve de exemplo para muitos seguirem combatendo pela organização independente dos trabalhadores.

A crise que destrói a economia da Europa e dos EUA, se alastra feito um rastilho de pólvora e contamina as economias de todo o mundo com gravidade maior que a da grande crise de 1929, dialeticamente, vai impulsionando o ressurgimento da sede e fome de justiça e igualdade entre o povo trabalhador, a mesma sede e fome de justiça e igualdade que possuía Apolônio.
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A trajetória de Apolônio, embora com um viés estalinista e de todos os revolucionários históricos não se encontra acabada, posto que a revolução é permanente e haverá de concluir-se apenas com a vitória final de todo o proletariado internacional, na construção do socialismo, rumo a uma sociedade sem classes, sem exploração, uma sociedade comunista.

Hoje, quando o PT está próximo de completar 32 anos, e para Apolônio se presta justa homenagem, não podemos nos esquecer que o grande feito deste combatente foi o de ter ajudado a construir um partido que se ergueu contra a ditadura e os patrões, para abrir a via da luta pelo socialismo, no terreno de classes e contra qualquer aliança com a burguesia, o inverso daquilo que faz a maioria dos que hoje o homenageiam.

A lembrança viva deste combatente deve servir de inspiração aos construtores da nova sociedade sem classes, que hoje lutam na Primavera Árabe, nas greves gerais da Grécia, nos protestos recentemente organizados nos EUA e em vários países do mundo.

Como disse Apolônio no título de seu livro de memórias: “Vale a pena Sonhar”.

Ou como disse certa vez Vladmir Ilich Lênin: “É preciso sonhar, mas com a condição de crer em nosso sonho, de observar com atenção a vida real, de confrontar a observação com nosso sonho, de realizar escrupulosamente nossas fantasias. Sonhos… acredite neles.”

Desde que não carreguemos nas costas o pesado fardo da burguesia, todo sonho é possível!

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