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Centenário de Adoniran Barbosa

Prestamos nossa homenagem ao centenário de João Rubinato, o Adoniran Barbosa, um verdadeiro trabalhador brasileiro. Um trabalhador das artes, que atuou em várias das suas modalidades. Criador de uma obra original, é um dos grandes nomes do nosso samba.

Filho de imigrantes italianos, nasceu em 06 de agosto de 1910 João Rubinato, na cidade de Valinhos, interior de São Paulo.

Já na cidade de Jundiaí, passou a ajudar o pai no serviço de cargas em vagões da E.F. São Paulo Railway Company (que depois mudaria o nome para Estrada de Ferro Santos – Jundiaí, ainda muito jovem. Na mesma cidade trabalhou como entregador de marmitas e varredor numa fábrica. Mudou-se para Santo André em 1924, e lá trabalhou como tecelão, pintor, encanador, serralheiro e garçom, na casa do então Ministro da Guerra, Pandiá Calógeras. Posteriormente, mudou-se para São Paulo com a família, onde aprendeu o ofício de metalúrgico – ajustador no Liceu de Artes e Ofícios. Foi obrigado a abandonar a função porque seus pulmões ficaram afetados pelo pó do ferro esmerilhado. Empregou-se em outras funções, entre as quais a de vendedor.

Em São Paulo iniciou sua carreira de ator, fazendo uso da experiência de sua breve carreira nos picadeiros circenses, e trabalhou no rádio de 1941 a 1951. Em 1946 já trabalhava na Radio Record e representava dezesseis personagens em seu programa. Muitos dos seus personagens figurariam mais tarde nas suas canções. Adoniran Barbosa era um desses personagens, que João Rufino aproveitou para apresentar-se publicamente como compositor e intérprete das próprias canções. O nome foi adotado no ano de 1935, em homenagem aos seus amigos Adoniran Alves e Luís Barbosa.

Nesse mesmo ano, ganhou o concurso carnavalesco da prefeitura de São Paulo, com uma parceria com Jota Aimberê, a marchinha “Dona Boa”. O dinheiro do prêmio foi gasto na comemoração com os amigos, algo que ele repetiria muitas vezes ao longo da vida. A marchinha “Dona Boa” foi a primeira composição de Adoniran a ser gravada, na Columbia, por Raul Torres.

Ele era um verdadeiro cronista urbano, um contador de histórias da modernidade que viveu. Os personagens de suas canções eram inspirados em gente simples do povo, trabalhadores comuns e pessoas que viviam em condições precárias no bairro do Bixiga, nas antigas malocas locais.

Sua canção “Iracema”, por exemplo, era inspirada na notícia de uma mulher que foi atropelada na Avenida São João, no centro de São Paulo:

“Iracema, eu nunca mais eu te vi
Iracema meu grande amor foi embora
Chorei, eu chorei de dor porque
Iracema, meu grande amor foi você

Iracema, eu sempre dizia
Cuidado ao travessar essas ruas
Eu falava, mas você não me escutava não
Iracema você travessou contra mão

E hoje ela vive lá no céu
E ela vive bem juntinho de nosso Senhor
De lembranças guardo somente suas meias e seus sapatos
Iracema, eu perdi o seu retrato.”

Também a famosa “Saudosa Maloca”, que conta a história de moradores expulsos de um prédio ocupado:

“Foi aqui seu moço
Que eu, Mato Grosso e o Joca
Construimos nossa maloca
Mais, um dia
nois nem pode se alembrá
Veio os home cas ferramentas
O dono mandô derrubá
Peguemos tudo as nossas coisa
E fumos pro meio da rua
Preciá a demolição
Que tristeza que nóis sentia
Cada táuba que caía
Duia no coração”

Ou a história do sambista pobre, que dá sua “Prova de carinho”, fazendo uma aliança da corda mi do seu cavaquinho. Por curiosidade, cavaquinho não tem corda mi.

“Com a corda mi
Do meu cavaquinho,
Fiz uma aliança pra ela,
Prova de carinho.”

Também na canção Filosofia, expressa sua consciência da condição marginal de artista popular e, com ironia, retribui o menosprezo àqueles, que por pertencerem a outra classe social, desqualificam seu trabalho:

“O mundo me condena
E ninguém tem pena
Falando sempre mal do meu nome
Deixando de saber
Se eu vou morrer de sede
Ou se vou morrer de fome.

(…)

Quanto a você
Da aristocracia
Que tem dinheiro
Mas não compra alegria
Há de viver eternamente
Sendo escrava desta gente
Que cultiva hipocrisia.”

E a composição, “Morro do Piolho” :

“Quando chego lá no Morro do Piolho
As vizinha fica louca, os vizinho fica de olho.
Charutinho pra cá, charutinho pra lá, vem aqui colá.
Só dá eu, nunca vi coisa igual.
Me elegeram lá no Morro do Piolho, onde eu sou fundador.
Com muitos votos eu ganhei a eleição,
para vice foi eleito o
panela de pressão.
A Pafucinha foi queixa de mirô:
“Como é que esse malandro teve a consagração ?”.

O Morro do Piolho era um quadro do seu programa radiofônico na rádio Reccord, para onde se dirigiu a convite de Otávio Gabus Mendes no ano de 1941, após passar um ano na rádio Cruzeiro. O programa era uma série de radioteatro intitulada “Serões Domingueiros”, em parceria com o produtor Osvaldo Moles. Eles trabalharam juntos por cerca de 26 anos. O personagem Charutinho era uma criação e interpretação sua para o programa “Histórias da Maloca”, que permaneceu no ar na rádio Record até o ano de 1965 e chegou a ganhar uma versão para a televisão.

Como ator ainda trabalhou no cinema, inclusive no clássico de Lima Barreto, “O Cangaceiro”, que ganhou a Palma em Cannes, no ano de 1953, vivendo o personagem Mane Mole.

Faleceu em São Paulo, SP, no dia 23 de novembro de 1982, pobre e um tanto decepcionado com a forma que foi tratado pela mídia em geral.

Aqui prestamos nossa homenagem ao centenário de João Rubinato, o Adoniran, um verdadeiro trabalhador brasileiro. Um trabalhador das artes, que atuou em várias das suas modalidades.

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