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“Carnaval, carnaval, carnaval fico tão triste quando chega o carnaval”

 

Passada a euforia do carnaval, do descanso para uns e cansaço para outros, caímos na avenida da dura realidade da vida. Para ajudar a recompor as ideias, vai aí uma bela crônica de Lucas Nogueira, que relata sua experiência no barracão de uma escola de samba. Leiam, ficarão surpresos!

Passada a euforia do carnaval, do descanso para uns e cansaço para outros, caímos na avenida da dura realidade da vida. Para ajudar a recompor as ideias, vai aí uma bela crônica de Lucas Nogueira, que relata sua experiência no barracão de uma escola de samba. Leiam, ficarão surpresos!

(O título da crônica é um trecho da música “Quando o Carnaval Chegou” de Luiz Melodia)

 

Escrito por: Lucas Nogueira

Sempre que chega o carnaval, eu me lembro do ano de 2009 quando trabalhei  no atelier da Portela,  escola de Samba da Zona Norte do Rio de Janeiro, região que morei durante muitos anos da minha vida.

Trabalhar no atelier significa dizer que eu era uma das pessoas que era responsável por produzir aquelas belíssimas fantasias que desfilam na Avenida do Samba.

Embora parecesse algo gratificante, não foi nada do jeito que imaginei que seria.

Eu e um amigo chegamos lá uns 11 dias antes do desfile, no Terreirão do Samba. Nossa função era simples, como a chefe da mesa que eu trabalharia explicou, se tratava de um trabalho comum de montar fantasia, tal como meu amigo, que me indicou ao serviço, já havia feito outras vezes. Nossa tarefa ela basicamente recortar e colar vários tipos de materiais para enfim, a fantasia surgir.

O problema eram as condições nas quais teríamos de fazer isso.

Durante esses sete dias (seguidos) trabalhávamos 16 horas por dia. O café da manhã era as 7h00min. Tínhamos uma pausa de uma hora pra almoçar, e mais uns 40 minutos pra jantar. Como o horário de início era às 07h30min e o fim do expediente era em por volta das 01h00min da madrugada ficava difícil voltar pra casa, uma vez que o local era perigoso e longe da casa da maioria das pessoas que trabalhavam ali, além do que não recebíamos dinheiro de passagem. Portanto, tomávamos banho lá e também dormíamos lá.

Era óbvio que esta carga horária (128 horas por semana) não valia o salário que recebíamos R$150,00 pelos sete dias trabalhados.

Porém, o nível de exploração não parava por aí.  Além de ser um trabalho muito desgastante devido à sua repetição (ficávamos um dia inteiro fazendo a mesma tarefa; cortar bolinhas de plásticos, ou colar bolinhas uma na outra, etc), havia outros elementos que interferiam nesse desprazer, em algumas situações nós tínhamos que bancar o “trabalhador satisfeito”. Essas situações eram duas especificamente: quando o “dono” da escola ia lá acompanhar o progresso da produção e quando a Rede Globo ia fazer entrevistas com os funcionários.

Nesses momentos eu não podia ficar sentado no chão, devia ficar em pé. E muito menos podia ficar sem camisa, ainda que os barracões sejam lugares extremamente quentes.

A rede Globo fazia as entrevistas e os entrevistados sempre estavam felizes e confiantes na sua escola de samba do coração, logo atrás estavam as “passistas” que iam basicamente para aparecer na reportagem da Globo (ou testarem suas fantasias).

Se me perguntarem por que aceitávamos essa situação, eu responderia que cada um ali tinha o seu motivo, mas, a maioria estava lá porque precisavam do dinheiro, seja para sustentar seus filhos, ou mesmo ter R$150,00 a mais pra poder curtir seu carnaval.

Eu posso garantir que se eu soubesse que seria explorado daquele jeito, ficar sete dias dormindo quatro horas por dia em cima das espumas das fantasias, me alimentando mal, pra ganhar o equivalente a R$1,17 por hora trabalhada (ou seja, um terço do salário mínimo), sem direito a passagem, auxílio acidente ou qualquer outro tipo de direito trabalhista, com a mais plena certeza, eu não teria aceitado o serviço.

Sendo muito sincero, eu me senti igual aos chineses que trabalham, comem e dormem dentro da mesma fábrica, e suas vidas se resumem a esta existência semiescrava.

O que posso dizer que absorvi dessa situação foi que eu mesmo não acreditava que eu conseguiria viver nessas condições tão injustas de sobrevivência. Mas por outro lado, essa experiência me fez ver como que esse evento tão grandioso que é o Carnaval das escolas de Samba, segue os interesses de um pequeno grupo de pessoas, que lucram muito dinheiro com isso.

Enquanto a maioria das pessoas que trabalharam arduamente pra construir esse evento tão magnífico que é o desfile no Sambódromo e nem sequer tem condições de comprar a fantasia que eles mesmos fizeram, que em geral vão pertencer aos turistas ou às celebridades que têm direito dessa honra que é curtir seu carnaval na Avenida.

Pouco antes do carnaval de agora encontrei uma amiga. Alguém que conheci nesse período de trabalho na escola de samba. Ela passava na outra calçada, me viu, acenou e perguntou: – Vai pro barracão esse ano? Eu respondi:- Não. Ela abriu seu sorriso imenso e falou:- Eu também não, graças a Deus né?

Lembro-me do samba de Luiz melodia e penso nas tantas pessoas que precisam trabalhar nos terreirões do samba…

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