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Escola Marxista de Inverno de Montreal 2018. Foto: Arquivo CMI

Canadá: 220 celebram os 200 anos de Marx em Montreal

A Escola Marxista de Inverno de Montreal tornou-se o maior encontro marxista no Canadá, mas o evento deste ano teve algo especial. Houve um recorde de participação da escola, com cerca de 230 pessoas participando. Houve participantes de Ontário, Quebec, Alberta, Colúmbia Britânica, Estados Unidos, México, França, Grã-Bretanha e Suíça. Duas centenas de anos depois do nascimento de Karl Marx, a Escola Marxista de Inverno 2018 mostrou que as ideias marxistas estão avançando de maneira geral.

A história do Manifesto Comunista

Marco La Grotta, atuante com Socialist Fightback Students em Toronto e membro do comitê editorial de Fightback [Contra-ataque], realizou a primeira apresentação do fim de semana intitulada “O Manifesto Comunista Hoje”. Ele pontuou que não há outro livro que tenha provocado tanto medo nos corações da classe dominante que o manifesto escrito por Karl Marx e Friedrich Engels em 1848, precisamente porque ele se mantém altamente relevante hoje. Marco citou a revista The Economist, a qual em um artigo recente explicou que havia muito para ser aprendido de Marx, e que para evitar ser sua próxima vítima você deve levá-lo a sério!

Marco La Grotta discutindo o Manifesto Comunista. Foto: Arquivo CMI

Prosseguindo em sua breve introdução, Marco começou a explicar a história do desenvolvendo das ideias de Marx. Ele explicou que Marx foi influenciado pela filosofia hegeliana e as ideias de Ludwig Feuerbach nos anos de 1840. Ele mostrou como Marx adotou o método dialético de Hegel, e foi também influenciado pelo idealismo de Hegel. Isso foi quando Feuerbach produziu uma impressão sobre Marx com sua crítica materialista da religião. Mas Feuerbach também teve seus limites na noção de que seu objetivo não era acabar com a religião, mas aperfeiçoá-la. Marx criticou Feuerbach porque ele evitava completamente o mundo da política. O jovem Marx sempre foi politicamente ativo, e ele não tinha nada além de desprezo pelos filósofos que não tinham intenção de transformar o mundo.

Marco contou que foi em Paris que Marx estudou o materialismo francês, o comunismo e a classe trabalhadora. Marx entendeu que era a classe trabalhadora que seria a força capaz de liderar a próxima revolução, e libertando-se a si mesma por sua vez liberaria toda a humanidade. Marco explicou que foi em Paris que “Marx tornou-se marxista”.

Foi nessa época que Marx escreveu seu primeiro livro no qual ele forneceu uma explanação concisa do materialismo histórico – “A Miséria da Filosofia”, publicado em 1847. Esse foi também o período em que Marx e Engels aderiram à Liga dos Justos, uma sociedade secreta de revolucionários alemães. Foi nesta liga que Marx e Engels lutaram por suas ideias de socialismo científico que eles tinham desenvolvido recentemente. Isso levou a Liga dos Justos a transformar-se em Liga Comunista e publicar um programa, escrito por Marx e Engels: “O Manifesto do Partido Comunista”.

Camaradas de Fightback vendendo materiais. Foto: Arquivo CMI

No fim de sua apresentação, Marco sublinhou a confiança inabalável na classe trabalhadora e o otimismo pelo futuro da humanidade que motivaram Marx e Engels. Marco esclareceu que nós não temos motivos para ser cínicos, e que não há causa maior do que lutar pela emancipação da humanidade. Ele terminou declarando que ele estava confiante de que nós iríamos nos livrar do capitalismo ainda durante nossas vidas.

Você pode assistir o vídeo da apresentação de Marco aqui:

Revoluções de Marx: 1848-Comuna de Paris

Jérôme Metellus, marxista parisiense e editor do jornal marxista francês Révolution, começou a sessão da tarde falando sobre o assunto “Revoluções de Marx: 1848-Comuna de Paris”. Ele começou sua fala proporcionando um panorama da Revolução Francesa de 1848. Jérôme mencionou que enquanto a Grande Revolução Francesa de 1789 tinha eliminado o velho modo de produção feudal, uma contrarrevolução política se estabeleceu depois de 1795. Houve uma série de regimes, um após o outro, que eliminaram todas as conquistas políticas da revolução – primeiro com o império sendo estabelecido em 1804 por Napoleão Bonaparte, e então os monarcas Bourbon voltando ao poder em 1815 sob Luiz XVIII.

No final dos anos de 1840, uma imensa crise econômica atingiu toda a Europa, e foi sobre essa base que a oposição burguesa agiu como um canal de descontentamento. Em fevereiro de 1848, quando Luiz Felipe proibiu uma série de banquetes políticos organizados pela oposição, as massas afluíram às ruas e o banquete foi transformado em uma manifestação de massa. Essa insurreição levou ao fim do regime de Luiz Felipe e ao estabelecimento da Segunda República Francesa.

Jérôme Metellus sobre a Revolução Francesa de 1848. Foto: Arquivo CMI

Há um pensamento muito recorrente de que a burguesia francesa foi revolucionária e lutou de forma firme por uma república, mas isso não é verdade. Mesmo em 1789, a maioria da grande burguesia francesa na verdade apoiou a monarquia. A burguesia possuía mais pavor dos trabalhadores do que da monarquia. Foram de fato as massas, como tinham feito em 1789, que mais uma vez inundaram as ruas para lutar por uma república. No entanto, não foram as massas que tomaram o poder, mas novamente a burguesia que roubou o poder.

Durante os quatro anos da Segunda República, houve uma luta feroz entre forças de classe que tentaram colocar seu selo sobre a república. Os trabalhadores lutaram por uma “república social” enquanto a república para a burguesia era apenas válida desde que ela fosse usada para reforçar sua dominação de classe. Houve um impasse na luta de classes, na qual nem a burguesia ou os trabalhadores puderam colocar o poder sob suas mãos. Isso levou a uma situação que Marx referiu-se como “bonapartismo”, na qual Luiz Bonaparte, o sobrinho de Napoleão Bonaparte, foi capaz de manobrar entre as diferente classes, jogando-as uma contra a outra. Ele foi capaz de ser bem-sucedido em fazer isso tudo enquanto acumulava mais poder para si mesmo, até por fim destruir a república com um golpe de estado em 1851 e então estabelecendo o Segundo Império Francês em 1852.

Jérôme então avançou para falar sobre a Comuna de Paris de 1871. Sob a base de um enorme crescimento econômico, o Segundo Império foi capaz de sobreviver por quase duas décadas. Mas a Guerra Franco-Prussiana de 1870 trouxe para a superfície todas as contradições da sociedade francesa. A guerra foi um desastre completo para a França e, em certo momento, Bonaparte foi capturado e as tropas prussianas cercaram Paris. Isso levou à criação de uma Terceira República encabeçada por Adolphe Triers.

Paris estava cercada pelo exército prussiano, defendida pelo povo armado de Paris organizado através da guarda nacional. O governo burguês republicano estava com medo dos trabalhadores parisienses armados, então eles negociaram uma rendição aos prussianos e uma batalha comum contra os trabalhadores de Paris. Em 28 de janeiro de 1871, Thriers capitulou aos prussianos, mas a guarda nacional continuava armada. Thriers tentou desarmar os trabalhadores, mas isso acabou sendo um grande fracasso e o governo republicano, junto com a burguesia parisiense, abandonou a cidade.

Jérôme também falando sobre a Comuna de Paris. Foto: Arquivo CMI

Em 18 de março, a classe trabalhadora acordou com o poder em suas mãos. Isso abriu caminho ao episódio incrível do primeiro governo de trabalhadores na história da humanidade, que a despeito de eventualmente ter sido derrubado, produziu avanços impressionantes. Apenas para nomear alguns, a Comuna de Paris estabeleceu a separação entre igreja e Estado, a abolição do trabalho noturno, e a educação pública universal. Além disso, a comuna nacionalizou, sob controle democrático dos trabalhadores, todas as fábricas que tinham sido fechadas, e reorganizou-as em uma única federação de empresas que constituíram o embrião de um plano de produção socialista.

A comuna também estabeleceu um estado, como nunca havia sido visto antes. Esse era um estado radicalmente diferente baseado na classe trabalhadora, e foi feito para defender os interesses dos trabalhadores. Não havia um exército permanente mas o povo armado; todos os oficiais eram eleitos, responsáveis e revogáveis a qualquer tempo; e nenhum oficial recebia mais que o salário de um trabalhador médio. Essa breve experiência forçou Marx a atualizar suas ideias sobre o Estado, como ele viu claramente que os trabalhadores não poderiam fazer uso do Estado burguês, mas no curso da revolução iriam destruí-lo e construir um novo à semelhança da Comuna de Paris. A experiência da Comuna de Paris mostrou que os trabalhadores são capazes de dirigir a sociedade e deu-nos um vislumbre de qual tipo de sociedade nós vamos criar.

Você pode assistir o vídeo da apresentação de Jérôme aqui:

Marxismo em ação: A Primeira Internacional

No domingo de manhã, Hélène Bissonnette, militante da La Riposte Socialiste [O Contra-Ataque Socialista] em Montreal, fez uma exposição sobre a história da Primeira Internacional, também conhecia como Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT). Hélène expôs que a Internacional era uma aplicação da célebre frase de Marx que “os filósofos não fizeram mais que interpretar o mundo de forma diferente; trata-se porém de modifica-lo”[1]. Essa foi a primeira tentativa de unir os trabalhadores do mundo em uma genuína organização internacional. Essa tarefa origina-se do caráter internacional do capitalismo. Foi por meio da Primeira Internacional que Marx e Engels trabalharam incansavelmente para espalhar as ideias do socialismo científico entre a classe trabalhadora.

A fala de Hélène mostrou as dificuldades com as quais se confrontaram Marx e Engels na Internacional depois que ela foi fundada em 1864. Desde o início, havia uma abundância de tendências políticas unidas nessa organização: owenistas, cartistas, sindicalistas reformistas, proudhonistas, republicanos, socialistas utópicos etc. Marx e Engels tiveram que trabalhar pacientemente, lutando por suas ideias. Para usar as palavras de Marx, eles tinham que ser “suaves na forma, duros no conteúdo”. Essas são palavras preciosas de sabedoria para aqueles que hoje estão lutando pelas ideias marxistas dentro do movimento dos trabalhadores! Nós precisamos encontrar um jeito para conectar nossas ideias revolucionárias com as massas, usando táticas flexíveis sem fazer nenhuma concessão sobre princípios fundamentais.

Hélène utilizou uma boa parte de sua apresentação falando sobre a luta que Bakunin liderou contra Marx e o Conselho Geral da AIT. Bakunin teve primeiro uma breve atividade em uma organização burguesa na Suíça, a Liga Para a Paz e a Liberdade. Ele então formou a Aliança Para o Socialismo Democrático e pediu ingresso na Internacional. Bakunin queria ter sua própria organização dentro da Internacional, com estruturas separadas, seu próprio programa, e seus próprios encontros. Isso equivalia a pedir para formar uma internacional dentro da Internacional. Apesar de várias manobras de Bakunin para ter sua organização admitida, ela foi por fim recusada, então ele teve que dissolvê-la e integrá-la como um indivíduo. Ele então secretamente reativou sua organização, criando muitos problemas para a Internacional.

Mas o que eram a ideias que Bakunin estava colocando dentro da Internacional? Muito notável, ele colocou em discussão a ideia de que os trabalhadores devem se abster de todas as lutas políticas que ocorrem na sociedade burguesa. Hélène descreveu bem que isso era uma incompreensão completa de como a luta de classes acontece. Na luta por melhores condições de vida sob o capitalismo, a classe trabalhadora está confrontada inevitavelmente com a luta por demandas políticas tais como liberdade de associação, liberdade de expressão, o direito de greve etc. A fim de lutar por seus interesses de classe, os trabalhadores são forçados a formar suas próprias organizações. Marx explicou que os trabalhadores seriam forçados a criar seus próprios partidos políticos, separados daqueles da burguesia. Ao invés de fazer isso, Bakunin sugeria condenar os trabalhadores a serem subordinados aos partidos burgueses. Hélène também explicou que Bakunin exigia igualdade para as classes, enquanto os marxistas estavam exigindo a abolição das classes.

Hélène Bissonnette discutindo a Primeira Internacional. Foto: Arquivo CMI

Por último mas não menos importante, houve conflito em torno da questão da autoridade. Bakunin recusou-se a reconhecer a autoridade do Conselho Geral da AIT, o qual era reeleito no congresso anual da organização. Essa luta tem levado a um mito frequente de que marxistas são “autoritários”. De acordo com Bakunin, os trabalhadores deveriam evitar a autoridade como uma praga. Em sua apresentação, Hélène explicou que a questão da autoridade para os marxistas pode ser resumida da seguinte forma: qual classe tem a autoridade na sociedade, os trabalhadores ou os patrões? Uma revolução socialista é claramente um ato autoritário no qual os trabalhadores impõem sua vontade sobre a burguesia.

A Primeira Internacional operou de acordo com os princípios do centralismo democrático. Isso significa que havia completa liberdade de discussão, mas unidade na ação. Hélène usou o exemplo de uma greve para explicar que, se a maioria dos trabalhadores vota pela greve, então todos os trabalhadores vão à greve. Um fura greve que atravessa a linha de piquete, contra a vontade da maioria dos grevistas, é claramente autoritário, tentando impor sua vontade individual sobre a maioria dos trabalhadores. Bakunin queria basicamente ser parte da Internacional, mas também ter a autonomia para não ser submetido às decisões e ao programa democraticamente decidido da Internacional. Esse individualismo anarquista levou Bakunin a usar todos tipos de métodos antidemocráticos à disposição para fazer valer suas ideias na Internacional, tais como enviando secretamente seu programa para diferentes seções da Internacional, distribuindo cartas difamando Marx e o Conselho Geral etc. Esses métodos são a antítese dos métodos democráticos do movimento dos trabalhadores, do centralismo democrático.

A luta com Bakunin influenciou pesadamente a Internacional. Mas houveram também muitos outros debates e problemas, mais notavelmente nas seções britânica e americana. Nessas duas seções, elementos reformistas e pequeno-burgueses entraram na organização. Na Grã-Bretanha, um crescimento relativo do capitalismo permitiu à burguesia conceder concessões para uma camada dos trabalhadores, o que levou à formação de uma burocracia que não tinha nenhuma intenção de lutar contra o capitalismo. Similarmente, nos Estados Unidos, a internacional atraiu elementos pequeno-burgueses como Victoria Woodhull, que era uma banqueira e estava liderando um ramo da seção americana! Hélène explicou que a classe trabalhadora não vive em um vácuo e está sujeita às pressões burguesa e pequeno-burguesa. Ela sublinhou a importância de os marxistas lutarem contra a influência dessas ideias dentro do movimento dos trabalhadores. Com um olhar para os sindicados da Inglaterra, Hélène expôs que foi necessário para Marx e Engels manter relações com eles, apesar de seus líderes reformistas. Os marxistas devem ser capazes de conectar suas ideias com as massas dentro dessas organizações.

220 participantes compareceram. Foto: Arquivo CMI

O esmagamento da Comuna de Paris e o subsequente crescimento capitalista tornou a vida difícil para a AIT. A Internacional dedicou-se à tarefa de socorrer os refugiados da Comuna de Paris e o crescimento capitalista forçou muitas seções a dar ênfase nas lutas econômicas locais. Essas condições objetivas difíceis, combinadas com conflitos internos dentro da Internacional, levaram ao seu declínio. O Congresso de Hague em 1872 marcou seu fim informal e a AIT foi oficialmente dissolvida em 1876.

Apesar de a Internacional durar apenas 12 anos, foi durante esse período que Marx e Engels estabeleceram as fundações para o que iria vir depois. A Segunda Internacional, fundada por Engels em 1889, foi uma internacional de massas baseada sobre as ideias do socialismo científico. A luta que Marx e Engels levaram por suas ideias na Primeira Internacional não foi em vão! São suas ideias e seus métodos que nós usamos hoje para construir a Corrente Marxista Internacional (CMI). A tarefa de construir uma organização internacional para os trabalhadores está mais do que nunca na ordem do dia!

Você pode assistir o vídeo da apresentação de Hélène aqui:

150 anos de O Capital de Marx

A sessão final da Escola Marxista foi apresentada por Adam Booth. Adam é um marxista britânico, editor de Socialist Appeal [Apelo Socialista] e coautor do livro recentemente publicado “Entendendo O Capital de Marx”. Adam começou notando que, apesar de ter 150 anos de idade, “O Capital” é mais relevante agora do que quando foi escrito. Desde a bolha Bitcoin e a especulação financeira até a “ameaça” de automatização e “desemprego tecnológico”, até a economia sob demanda [gig economy] e trabalho precário, Marx descreveu todos esses processos em O Capital.

Adam explicou como foram na verdade economistas burgueses clássicos tais como David Ricardo e Adam Smith que, através de uma investigação científica do funcionamento interior do capitalismo, primeiro estabeleceram a teoria do valor do trabalho, que explica que o trabalho é a fonte de todo valor. Essa ideia é obviamente extremamente perigosa para a burguesia, e todos os economistas burgueses desde então têm procurado refutar Smith e Ricardo. Portanto, coube a Marx colocar a nu as leis do sistema. Em suas próprias palavras, ele esperava “acertar um golpe teórico na burguesia do qual ela nunca iria se recuperar”. E eles nunca tiveram a capacidade de responder sua crítica.

Adam Booth falando sobre O Capital de Marx. Foto: Arquivo CMI

Marx começa “O Capital” falando sobre a mercadoria. A mercadoria é um bem ou um serviço produzido para troca no mercado. Embora esse processo existisse nas sociedades de classes anteriores, ele era bastante marginal, e o capitalismo como sistema apenas se sustenta com a produção de mercadorias se tornando predominante. Adam explicou que cada mercadoria tem um caráter duplo, que é tanto útil (valor de uso) – sem essa qualidade ninguém iria querê-la e além disso ela não seria trocada – e sua relação quantitativa com outra mercadoria por meio do mercado (valor de troca).

Adam frisou que o valor dessas mercadorias não é determinado subjetivamente ou simplesmente através da oferta e demanda de um modo unilateral, como os economistas burgueses argumentam, mas através de suas relações com todas as demais. Por meio da comparação das mercadorias umas contra as outras no mercado, percebemos que elas compartilham uma propriedade comum – elas são todas produtos do trabalho humano. Marx desenvolveu a velha teoria do valor do trabalho de Ricardo e Smith e expandiu-a com o conceito do tempo de trabalho socialmente necessário. Marx explicou que quando mercadorias são trocadas, não é apenas o tempo de trabalho contido em cada mercadoria que é trocada, mas o tempo de trabalho socialmente necessário – determinado pelo nível geral da técnica e produtividade em qualquer sociedade dada – que determina o valor da mercadoria. O sapateiro usando velhos métodos será forçado a adotar as novas técnicas sob pena de extinção no mercado. O preço de uma mercadoria no mercado somente flutua acima ou abaixo desse real valor da mercadoria.

Adam descreveu o processo pelo qual o capitalista se dissocia de ter qualquer coisa a ver com a produção. Nos dias de hoje, os gerentes são eles próprios meros trabalhadores assalariados. De fato, o capitalista preferiria não ter que se preocupar com a produção de forma alguma. Essa decadência senil do sistema mostra-se hoje com um incremento de especulação sem precedentes, muito embasada no capital fictício, comercializando não valor, mas títulos de um suposto lucro futuro.

Mas de onde vem os lucros? Sob o capitalismo, o que parece acontecer é que o capitalista paga o trabalhador por seu trabalho, e tudo é justo e perfeito. Mas Marx destacou que isso não é verdade, pois se o capitalista paga o trabalhador pelo valor total de seu trabalho o lucro não é produzido. O que o capitalista está de fato pagando é o que Marx chamada como “valor da força de trabalho” – a habilidade do trabalhador trabalhar. Adam explicou que o valor da força de trabalho é uma mercadoria e além disso que o valor de uma mercadoria é determinado pelo mesmo modo que o valor de qualquer mercadoria em particular. Os salários portanto tendem em direção ao que é necessário para manter e reproduzir o trabalhador. Por isso é que o mercado, se deixado por si próprio, vai sempre tender a puxar para baixo os salários até apenas o mínimo. Mas o valor produzido pelo trabalhador durante suas horas de trabalho é muito maior que aquilo que ele recebe de volta na forma de salários. Nisso reside o segredo do lucro do capitalista – ele vem do trabalho não pago da classe trabalhadora.

A fonte do lucro capitalista tem levado a derrocadas. A razão para as crises econômicas, assim como a crise econômica global que nós estamos experimentando atualmente, decorre da natureza do sistema em si mesmo. O salário não pago da classe trabalhadora que leva aos lucros do capitalista também significa que os trabalhadores não podem comprar de volta os muitos produtos que eles produziram. Isso leva ao que Marx descreveu como uma “crise de superprodução”, uma situação completamente irracional na qual a sociedade entra em crise porque ela produziu muito mais do que o mercado atual absorve. As forças de produção entram em contradição contra os limites estreitos do mercado.

Convidado da seção britânica, Adam fez uma excelente introdução ao O Capital. Foto: Arquivo CMI

O capitalismo, embora tenha jogado um papel progressista no passado no sentido que desenvolveu massivamente os meios de produção, agora tornou-se um grande freio no desenvolvimento da sociedade. O “livre mercado” se tornou no oposto com monopólios gigantes controlando partes enormes da economia, restringindo investimento e inovação.

Hoje, nós estamos a uma década dentro da maior crise econômica na história do capitalismo. Governos capitalistas têm tentando todas as suas “soluções” e nenhuma delas tem funcionado. Desde irresponsável política monetária, baixas taxas de investimentos, flexibilização quantitativa, austeridade, déficit com gastos keynesianos – nenhuma dessas medidas têm resolvido os problemas fundamentais. Mesmo economistas capitalistas têm falado sobre “50 anos de estagnação”, um “mergulho permanente” ou “estagnação secular”.

Essas leis [do sistema econômico] têm sido impostas a nós, como uma força onipotente controlando nossas vidas. Mas essas leis podem ser entendidas, superadas e substituídas. É a tarefa dos marxistas analisar e explicar essas leis para que possamos, como Engels disse, fazer um “salto do reino da necessidade para o reino da liberdade”.

Você pode assistir o vídeo da apresentação de Adam aqui:

Marxismo em marcha!

Durante todo o fim de semana, o entusiasmo entre os participantes era evidente. Houve uma “Grande Festa Marxista” no sábado à noite, onde os participantes encheram o bar e dominaram a pista de dança! As discussões geradas pelas quatro apresentações foram um testemunho do alto nível político dos camaradas. Nós podemos ver que Fightback / La Riposte Socialiste está crescendo não apenas quantitativamente, mas também qualitativamente. Alex Grant, editor da revista Fightback, fez o encerramento da escola. Alex frisou que enquanto o pessimismo reina entre a burguesia e os reformistas, os marxistas são os únicos cheios de otimismo. As ideias marxistas estão em marcha e crescendo em popularidade a cada dia! Em uma atmosfera elétrica, a escola terminou com o tradicional canto de “A Internacional”, a música da Comuna de Paris, seguida da canção comunista italiana Bandiera Rossa.

Cantando “A Internacional”. Foto: Arquivo CMI

Militantes e simpatizantes da Corrente Marxista Internacional deixaram a escola encorajados e preparados para impulsionar as ideias do marxismo dentro do movimento dos trabalhadores. Este ano, nós tivemos o privilégio de receber grupos socialistas da Cidade de Quebec e Kamloops, que vieram a Montreal especificamente para a Escola Marxista de Inverno. Nós estamos felizes por trabalhar com socialistas de todo o país, e esta escola foi um passo adiante importante para o objetivo de construir uma organização revolucionária pan-canadense genuína. Nós apelamos para todos que acreditam em uma mudança revolucionária a juntar-se a nós nesta batalha.

[1] Obras Escolhidas, Karl Marx e Friedrich Engels. Editora Alfa Omega. Volume 3.

Artigo publicado originalmente em 22 de fevereiro de 2018, no site da Corrente Marxista Internacional (CMI), sob o título “Canada: 220 celebrate 200 years of Marx in Montreal“.

Tradução: Johannes Halter

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