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Cai Mubarak! É hora dos trabalhadores terem voz!

Vitória do povo trabalhador egípcio! E agora?

Às 18h do dia 11/02/11 (horário de Brasília), as manchetes do portal UOL mostravam a hipocrisia da burguesia e o seu medo mortal das massas. Logo no alto a manchete principal, como se isso fosse uma garantia de respeitabilidade, dizia: “Marechal de 79 anos comandará a transição”. Abaixo, chamadas secundárias explicavam que o Brasil espera que a transição se faça com “paz e tranquilidade”. Embaixo, duas notas tranquilizadoras: numa, a Suiça anuncia que vai congelar os bens de Mubarak e noutra um “especialista” político declarava em linguagem bem direta que o Egito precisa demonstrar que pode ser uma democracia.

No site do jornal O Estado de São Paulo (também às 18h), a manchete é mais direta: “Mubarak sai, Exército está no comando” (notem que não utilizaram o verbo cair). Nas chamadas, o congelamento dos bens na Suíça e a declaração do governo brasileiro defendendo liberdades políticas e civis. Nas notícias de última hora, o destaque para Israel que quer “tranquilidade” no Egito.

A manchete do New York Times, que tem a responsabilidade de “orientar” a burguesia imperialista, explica que o Exército está no controle e a praça explode de felicidade! Sim, se a burguesia range os dentes de raiva porque perdeu um dos seus quando na boca de um especialista explica que falta demonstrar que o Egito pode ser uma democracia (a ditadura era e é muito bem vinda para eles), se outros mostram que os governantes devem realmente tentar até o fim manter-se no poder, senão o que acumularam em muitos anos de roubo e corrupção pode ser congelado como foi na Suíça, a manchete do New York Times concentra o medo da burguesia:

“O exército (o alto comando, o marechal de 79 anos) está no comando, mas a praça está alegre! E quem fez a revolução, quem derrubou o tirano foi o povo!” Na Globo News outro especialista explicava que cai Mubarak e com ele um pedaço do regime, agora tem que saber o que vai ficar de pé!

Sim, por isso o governo do Brasil e o governo de Israel concordam: tudo tem que ser feito com “paz e tranquilidade”. Agora, qual tranquilidade?

Num país em que 70% dos jovens com menos de 30 anos estão desempregados, num país no qual se pagam salários mensais médios de 150 reais, num país aonde o trabalhador ao entrar no emprego assina uma carta pedindo demissão para depois o patrão não ter que pagar os direitos trabalhistas da demissão, num país como esse, que calma podem ter os milhões e milhões que saíram as ruas, que provaram o gostinho do poder e que viram que sim, eles podem derrubar tiranos?

Que calma e tranquilidade terá o povo para com o alto comando do Exército que durante estes trinta anos foi o esteio e o guardião fiel de Mubarak e que por isso tem centenas e centenas de privilégios? Sim, onde estarão a paz e a tranquilidade dos famintos, dos que têm fome e que agora querem comer?

Paz! Tranquilidade! Durante 30 anos a Suíça nem cogitou em reclamar do bilhões em depósito que lá fazia Mubarak. Durante 30 anos nenhum governante lembrou-se de reclamar que o povo do Egito precisava de sindicatos livres, de imprensa livre, de direito à crítica, de direito à greve, embora a todo o momento reclamem que Chávez não dá esses direitos (o que é uma mentira deslavada, apenas Chávez cortou o financiamento oficial para os veículos da direita, não renovou concessões de TV daquelas que apoiaram a tentativa de Golpe de Estado e proibiu essas empresas de comunicação de receberem recursos estrangeiros, coisa que eles desrespeitam a todo o momento). Sim, ninguém reclamou. E agora, quando depois de 30 anos de miséria, de dor, de sofrimento a juventude e os trabalhadores no Egito saem às ruas e querem participar, todos vem dar o seu “conselho”: cuidado, democracia pode ser um perigo, cuidado, tem que ter paz e tranquilidade, cuidado, que o Exército está aí.

A imprensa busca hoje destacar o papel do novo (velho) líder do imperialismo, o presidente Obama, destacando a sua pressão, a pressão que o comando do Exército dos EUA exerceu sobre o Exército do Egito (que só sobrevive devido à ajuda de 3,5 bilhões de dólares anuais que lhes fornece os EUA). O que a imprensa procura esquecer é que no começo da crise este mesmo Obama pedia a transição segura e gradual e foi forçado pelos acontecimentos a se adaptar e a exigir que saísse Mubarak pra que tudo continuasse como dantes no quartel de Abrantes. O grande problema é que o “povo está alegre”, o povo sentiu a sua força e por mais que especialistas e outros queiram destacar que o importante é a transição gradual, quem saiu às ruas sabe que foram eles que derrubaram Mubarak. Quem fez as greves sabe que foram eles que derrubaram Mubarak.

Aqueles militantes que, como eu, lutaram contra a ditadura nos anos 70 e ajudaram a construir o PT, relembram este tipo de sentimento, o sentimento que o poder está nas ruas como esteve nas “Diretas Já!”, como esteve no “Fora Collor”. Esse é o sentimento que percorre a juventude e a classe trabalhadora e ela não vai se deixar espoliar assim tão facilmente. Sim, Obama repete à exaustão que o importante agora é garantir eleições democráticas o quanto antes possível.

Mas, perguntam-se os analistas um pouco mais sérios: quem serão os candidatos, quem são os partidos políticos? Ou seja, quais as estruturas que a burguesia pode montar para impedir que o poder das ruas se transforme em um poder dos comitês dos bairros e empresas, ligados entre si, em um soviete? Este é todo o temor de Obama e por isso a sua fúria com Mubarak que não queria cumprir o script. O velho homem não entendia que o seu tempo tinha passado e que agora eram necessários novos atores. Afinal, se a peça continua tão mal representada como no último discurso de Mubarak, pode ser que a platéia queira se transferir das cadeiras para o palco e os que hoje assobiam e vaiam podem resolver que querem eles próprios decidir o seu destino. Em outras palavras, Mubarak precisava sair para que a burguesia não fosse derrubada.

Mubarak saiu. O povo, os jovens, os trabalhadores, se sentem vitoriosos. E aonde vai agora todo este movimento, aonde irão os que hoje enchem as praças, lotam as assembléias de greve e patrulham as ruas do seu bairro nos seus comitês de autodefesa?

O camarada Alan Woods explicou num artigo publicado hoje que o pontapé final em Mubarak foi dado pelos trabalhadores, pelas greves que explodiram no país inteiro. Sim, a todos os que esqueceram, a todos que “previram”, a todos que constataram que a classe trabalhadora está morta e enterrada, podemos lembrar as palavras imortais de Mark Twain: “as notícias sobre a minha morte foram bastante prematuras”. Sim, a classe trabalhadora mostrou que está viva, paralisando serviços no canal de Suez, paralisando confecções, paralisando transportes urbanos, paralisando serviços públicos.

Mubarak, como todo ditador, acreditava piamente que o “seu” povo o amava. A sua fala na quinta à noite (10/02) foi patética: dirigindo-se ao povo como “meus filhos e irmãos”, dizendo que também foi jovem e entendia a revolta dos jovens. A questão é que existem “jovens” e “jovens”, alguns como o filho de Mubarak que têm bilhões e fogem para alguma colônia de férias, que se tratam em hospitais na Inglaterra e na Alemanha, outros que sofrem e morrem no dia a dia, simplesmente de fome, sem trabalho e sem comida. E por isso os que não tinham trabalho, os que têm trabalho, mas ganham 100 reais por mês, os que que ganham mais que isso, mas muito e muito longe dos bilhões que Mubarak acumulou, estes responderam na praça com um só grito: vá-te! Que espécie de irmão e de pai é esse que mata, que tortura, condena à morte por fome e inação, que condena ao desespero sem ao menos um emprego digno, que quando seus “filhos” vão reclamar manda atirar e matar?

O tempo em que ditadores podem aparecer como “pai dos pobres” já passou. Os trabalhadores estão se organizando em sindicatos e reivindicando. Construíram uma nova Central Sindical, destruindo a velha central governista e a nova central chama os trabalhadores a fazerem greves, a reivindicarem além da queda de Mubarak mais salários e mais empregos, a reivindicarem seus direitos, a entrarem em greve e constituírem comitês de autodefesa para se protegerem.

Sim, Mubarak caiu e uma nova múmia do alto dos seus 79 anos, carcomida por anos de Estado Maior e de presença em governos ditatoriais, se apresenta como o novo fiador da “transição” lenta, gradual e pacífica. Quanto tempo até que os trabalhadores e jovens percebam que os passos a dar terão também que passar por cima desta nova múmia e conquistar o seu próprio lugar ao sol? Eles fizeram a Revolução! Agora, começam a dar os primeiros passos no sentido da sua organização com a construção da Central Sindical. Um pouco diferente do Brasil (aqui, durante a queda da ditadura, primeiro se constituiu o PT e depois se constituiu a CUT). Mas o rumo é o mesmo: é o rumo da sua auto-organização, de se construir os seus instrumentos de voz e poder!

Viva a revolução Egípcia! Viva a revolução mundial!

Trabalhadores do mundo, uni-vos!

Rio de Janeiro, 11 de fevereiro de 2011.

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