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Bolívia: parem com a repressão policial!

O movimento indígena na Bolívia realizou em setembro manifestação contra a construção de uma estrada na Amazônia boliviana que impactará negativamente suas vidas. El Militante – seção boliviana da CMI relata a brutal violência lançada contra a sua luta.

Romper com o capitalismo para atender às demandas sociais e de-fender o avanço revolucionário
Condenamos a maneira brutal, a violenta, injustificada e premeditada repressão policial da marcha indígena em defesa do TIPNIS (1) e exigimos a imediata liberação, dos presos sem acusação, de todos os seus dirigentes arbitrariamente detidos. A marcha foi reprimida com brutal violência, inclusive com companheiras indígenas separadas dos seus filhos, amarradas, amordaçadas e espancadas como animais.

A marcha indígena levanta reivindicações que integram as lutas populares das quais surgiu o processo revolucionário. Nenhum militante de base, de organizações sociais, da classe trabalhadora, ou mesmo do MAS (2), decidiu que essas reivindicações sejam menos importantes ou secundárias, em relação à construção de uma estrada.

A resposta do governo a estas reivindicações tem sido uma campanha de desprestígio e criminalização dos dirigentes indígenas e de deputados do próprio MAS, como o companheiro Pedro Nuni, acusado de ser cúmplice de um complô internacional da direita e do imperialismo. O melhor favor para a direita é mesmo a repressão brutal da marcha indígena e a obstinação com que se quis impedir, a todo custo, o seu avanço até La Paz, inclusive inventando um conflito entre setores diante dos quais o governo buscava creditar-se como mediador sem apresentar qualquer contrapartida. E, “este favor”, o fez o próprio governo e não uns dirigentes “disponíveis” ao diálogo com a direita, com a embaixada dos EEUU ou com ONGs interessadas em “projetos políticos”.

Denunciamos a hipocrisia da direita e do imperialismo, que agora se disfarçam como defensores dos direitos dos povos indígenas e do meio ambiente. Na verdade, eles são os que durante séculos, exploraram, humilharam e suprimi-ram as legítimas aspirações do povo boliviano.

As infiltrações da direita e do imperialismo sempre serão possíveis, enquanto não se coloque um fim, de uma vez por todas, no poder econômico e políti-co do imperialismo e da burguesia nativa, enquanto existam demandas soci-ais não atendidas.

Até quando o povo terá que pagar pela especulação, pela inflação, pelo “gasolinazo” (3) sem qualquer reforma social implementada por nosso governo, enquanto os especuladores, banqueiros, industriais e empresas multinacionais realizam inéditos e espetaculares lucros obtidos explorando o povo trabalhador?

Os 2/3 (a maioria do povo) estavam para buscar compromissos com as multi-nacionais e a burguesia nativa. Foram forçados a se dirigirem ao governo para que este procedesse da única maneira possível: se há sabotagem das multinacionais, as multinacionais devem ser nacionalizadas; se os produtores de açúcar especulam, os engenhos devem ser expropriados; se os ban-queiros lucram com a inflação que eles mesmos provocam, os bancos devem ser nacionalizados. Isto é governar para as maiorias.

As razões da obstinação em construir a estrada e que ela deva passar através do TIPNIS são muitas: não ligar Beni a Cochabamba (alternativas para isso haveria), trata-se de ligar a Bolívia à economia brasileira que financia e apóia o projeto da estrada; a abertura do TIPNIS – que já foi declarada área de interesse para exploração de petróleo (decreto DS 676 em 2010) – para a exploração de multinacionais para estimular investimentos sempre menores; dar o sinal verde para uma burguesia agroindustrial com sede de terra e muito pouco produtiva, para expandir suas fronteiras agrícolas, inclusive destruindo até mesmo parques, com as práticas erosivas de corte e queima.

Isto quer dizer que o problema não é o “modelo produtivo-extrativo” de desenvolvimento. O problema é o sistema capitalista de exploração do homem e da natureza, porque não existe um modelo alternativo que possa afirma-se sem romper definitivamente com a manutenção do capitalismo. O que ameaça o TIPNIS e nos impede decidir autonomamente sobre nossos recursos e sobre a defesa de nosso planeta é a pressão de multinacionais, o apetite da burguesia nativa e as ilusões de poder reformar o Estado burguês e de complementar a economia comunitária com a economia capitalista.

A COB já tinha convocado uma grave geral de 24 horas para quarta-feira, 24 de setembro. Nas palavras de seus próprios dirigentes, a COB declara a greve em apoio à marcha indígena sem querer somar-se fisicamente a ela, porque viam o tema “distorcido por alguns politiqueiros”.

Esta cautela era produto das denúncias do governo sobre as infiltrações da direita e da atitude geral da classe trabalhadora de defesa e insatisfação com o processo. E sem dúvida a classe trabalhadora não pode simplesmente relegar-se ao papel de força auxiliar na tutela dos direitos democráticos.

A greve geral deve ser a ocasião para propor ao movimento indígena e à juven-tude, mobilizada em todo o país, um programa revolucionário de unidade e luta pelo aprofundamento do processo, pela definitiva expulsão das multinacionais e da burguesia nativa que é a condição imprescindível para defender o meio ambiente e afirmar os direitos indígenas que não podem defender-se sob o capitalismo, nem mesmo com a nova Constituição Política.

A Central Operária Boliviana e a classe trabalhadora podem neste momento evitar que o amplo e justificado repúdio à brutal intervenção policial seja capitalizada pela direita, inclusive aquela que se infiltra no movimento indígena para que o índio derrote o índio. Isto se pode conseguir exigindo em primeiro lugar na greve geral:

– Imediata liberação, de todos os dirigentes arbitrariamente e brutalmente deti-dos na operação policial; que ninguém seja processado.

– A renúncia de todos aqueles ministros que deliberadamente nos levaram a esta situação, começando pelo Ministro do Governo Sacha Llorenti;

– A revogação do DS 676 que entrega o TIPNIS às multinacionais. Completar as nacionalizações para acabar com a chantagem, a sabotagem e a pressão das multinacionais;

– Por uma reforma agrária que liquide realmente e exproprie o latifúndio e que apóie econômica e materialmente as reformas voluntárias e comunitárias da associação entre os campesinos e indígenas, evitando os enfrentamentos entre os pobres pela posse da terra.

1-Terra Indígena Parque Nacional Isiboro Sécure (Tipnis)

2-Partido político em que a principal liderança é o presente boliviano Evo Morales

3-Elevação do preço da gasolina e do diesel em 83 e 72%, decretado pelo Governo Evo Morales

Traduzido por: Maritânia, Chico Lessa e Marcela

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