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Bolívia: a colaboração de classes leva à primeira derrota eleitoral do MAS

O quadro das eleições regionais de 29 de março na Bolívia deixa claro: o MAS perde em governadorias-chave e em todas as cidades mais povoadas do país, além de vários municípios de porte médio, onde o MAS governava em sua maioria. Isto se chama derrota e não será buscando eufemismos ou aplicando compressas quentes que será possível entender suas razões.

O quadro das eleições regionais de 29 de março na Bolívia deixa claro: o MAS perde em governadorias-chave e em todas as cidades mais povoadas do país, além de vários municípios de porte médio, onde o MAS governava em sua maioria. Isto se chama derrota e não será buscando eufemismos ou aplicando compressas quentes que será possível entender suas razões.

O voto departamental

No que diz respeito às governadorias, há alguns resultados que parecem irreversíveis devido às amplas diferenças reveladas nas contagens rápidas de boca de urna. Para o MAS iriam as governadorias de Cochabamba, Oruro, Pando e Potosí. Rubén Costa e o MDS (direita) ganhariam com cômoda maioria de 2/3 em Santa Cruz. Em Tarija se espera o resultado oficial para se saber se o ex-deputado de Convergência Nacional, Adrián Oliva, ganhará sem segundo turno. Oliva leva uma vantagem ampla sobre o candidato do MAS, que se encontrava no governo até recentemente no Departamento com o orçamento mais alto do país. Em benefício de Oliva trabalham tanto a rejeição ao candidato do MAS, o advogado Pablo Canedo, anteriormente ativo autonomista da Media Luna, famoso também por uma “poética” composição musical em que cantava “estou cagando para o MAS”, quanto a presença do dirigente campesino e ex-deputado pelo MAS, Luis Alfaro, que retirará votos ao MAS nas áreas rurais.

Em Chuquisaca, as pesquisas de opinião prognosticam um inevitável segundo turno. Contudo, com a metade das atas de votação já computadas, o ex-dirigente da CSUTCB, Damian Condori, candidato que rompeu com o MAS, soma já 52%, com 15 pontos percentuais e 18 mil votos de vantagem sobre o candidato do MAS à reeleição, Esteban Urquizo. Em Beni, as contagens rápidas de boca de urna creditavam uma vitória parcial ao candidato do MAS, Alex Ferrier, latifundiário e ex-membro do MNR, cuja postulação – como ele mesmo reconheceu – se deve ao Ministro Quintana, ex-adenista e atual plenipotenciário do MAS nas regiões amazônicas, onde evidentemente trabalha para substituir os velhos aparatos de poder mantendo suas estruturas. Contudo, com 13% das atas computadas, o candidato de NACER – aliado de última hora da UD do inabilitado Suarez – está ganhando com uma vantagem de 6 mil votos e 6 pontos percentuais, insuficientes para evitar um segundo turno.

Finalmente, o MAS perde a governadoria de La Paz, até agora seu reduto eleitoral, que lhe é arrebatado por uma aliança entre a agrupação cidadã, SOL.BO, do alcaide de La Paz, e Tercer Sistema, do ex-ministro da educação do governo Morales, o sociólogo aimará Felix Patzi. Esta é, sem dúvida, a derrota mais dolorosa e politicamente significativa. Ademais, Patzi, que nunca fez mistério de suas ambições à cadeira presidencial, declarou haver ganhado contra o próprio Morales, aludindo à presença constante do presidente na campanha por esta governadoria. Levando em consideração que a oposição poderia se unir em caso de segundo turno em Chuquisaca e Beni, o quadro final poderia ser que o MAS, que até ontem governava em sete das nove governadorias, fique com as quatro onde venceu, inclusive perdendo votos, como em Potosí.

As eleições municipais

Ainda pior é o quadro nas eleições municipais. O MAS perde em quase todas as cidades mais povoadas do país e em 7 das 9 capitais departamentais, enquanto nas últimas duas (Potosí e Sucre) mantém uma vantagem mínima sobre seus opositores diretos. Em La Paz, o MAS fica atrás do reeleito alcaide Revilla (SOL.BO), entregando-lhe desta vez uma maioria de 2/3 no Conselho Municipal. Em Santa Cruz de la Sierra, segundo dados preliminares, o relativo declive do questionado alcaide Percy Fernández – apoiado também por trânsfugas que transitaram pelo MAS, como Romy Paz – não foi aproveitado pelo MAS, que perderia pontos com relação a 2010.

O MAS perderia em capitais e cidades de porte médio onde governava, como Cobija, Quillacollo, Villazón, La Guardia etc. Perde onde havia chegado ao governo cooptando alcaides opositores como em Oruro ou Yacuiba, onde propunha Carlos Bru Cravero, ex-oposicionista, alcaide desde 2006 e que se auto-define como “o empresário mais poderoso da região”. Perde onde estava na oposição, como em Trinidad. E, sobretudo, perde nas cidades-símbolo do “processo de mudança” e em suas antigas fortalezas, como em El Alto, principalmente, e em Cochabamba, a cidade da guerra da água, onde ganha um “Democrata” diretamente envolvido na matança de campesinos de 2007.

Enquanto falta menos de um terço das atas eleitorais, o MAS estaria conquistando pela primeira vez a Prefeitura de Sucre, mas com uma relativa e estreita maioria que deixa o Conselho Municipal na ingovernabilidade. Em Potosí, as coisas são semelhantes ou mesmo piores. O MAS ganha pela primeira vez a Prefeitura, mas com uma maioria de 31%, com uma quantidade de votos inferior à de 2010, que se traduz em um vereador a menos e com duas forças opositoras à frente, que lhe deixam a pouco menos de dois pontos percentuais e que são maioria no Conselho. Este é o preço por ter representado na Villa Imperial o conservadorismo em vez da mudança, cooptando ao velho alcaide Joaquino e parte de seu AS sem entender – nem com a perda de votos nas eleições nacionais – que o declínio se devia não somente ao surgimento do MAS como também ao despertar de um povo que na busca de seu desenvolvimento quer enterrar o modelo de gestão de sinecuras e corporativo do AS.

A oposição que ganha

É recorrente na interpretação oficial do voto de domingo ver nesta campanha eleitoral a reconfirmação do MAS como única força política de dimensão nacional. Está correto, mas também o estava antes do domingo, visto que a sigla do MAS é a única que se postulava em todo o território nacional; e isto é muito pouco para se celebrar. A oposição que ganhou as eleições é variada e dividida, mas este não é um limite insuperável no futuro; quem poderia imaginar Rebeca Delgado – ex- “livre pensadora” do MAS – ao lado de um conhecido extremista de direita como o alcaide eleito de Cochabamba? Ou Alejandro Almaraz, ex-viceministro da terra e opositor a partir de uma linha indigenista e ecologista, à frente de uma aliança aparafusada no partido do empresário do cimento Doria Medina? Ou a Felix Patzi com o núcleo de poder da construção e das finanças que gira em torno de Revilla e que fez do município de La Paz o mais endividado do país? Ou ao MNR – único reduto do velho regime – ganhar câmaras de vereadores e prefeituras?          

A realidade é que em muitos casos a oposição preferiu participar separada para ter uma noção de seu número e valorizar candidaturas como a de Soledad Chapetón, nova prefeita de El Alto, claramente identificada com UN. Mas as raízes desta frente variada que ganha as eleições estão na oposição nacional de outubro passado, que está tomando sua revanche e que foi afastada pelo MAS. Não emerge deste quadro opositor nenhuma “liderança” nova ou de dimensão nacional, talvez com a exceção parcial da própria Chapetón, de Damian Condori, Patzi de Costas, que seguramente veremos mais tarde serem muito mimados pela mídia dominante. Mas no MAS as coisas vão pior e o empurrão de ânimo que a oposição recebe nesta primeira derrota eleitoral do MAS é uma séria advertência do que pode ocorrer daqui para a frente.

É uma derrota?

Numa conferência de imprensa Evo Morales exigia dos jornalistas não mostrar os resultados como uma derrota, assegurando, como já havia feito o vice-presidente García Linera, que, uma vez computados os resultados oficiais, se verá um avanço do MAS em todos os municípios. É verdade que não se podem projetar os resultados dos votos nos principais centros urbanos sobre a área rural. Mas se perdeu em quase todos os centros urbanos maiores, diferentemente de 2010.

Além disso, também é verdade que em muitíssimos municípios rurais da Bolívia havia agrupamentos cidadãos, formados no calor das divergências com dirigentes locais e nacionais do MAS, que contêm uma contestação mais profunda à linha do governo, particularmente no tema agrário e de gestão democrática do próprio instrumento (MAS), e não deixam pressagiar nada bom. Como exemplo, podemos citar a província de Linares de Potosí, onde um agrupamento cidadão local, formado a partir de ayllus originários, ganhou nos municípios de Puna e Caiza – que somam uma população de mais de 50 mil habitantes – antes governados pelo MAS. Temos notícias de exemplos similares também em Oruro, Chuquisaca e La Paz, principalmente.

Outros minimizaram lembrando que também em 2010 o MAS não reconfirmou seu caudal de votos da histórica eleição de 2009. A respeito disso, deve-se esclarecer que uma coisa é a confiança que a maioria do povo continua repondo em Evo Morales; outra coisa diferente é como percebe seu entorno e o MAS. Em 2009, a soma de votos dos candidatos diretos do MAS representou 69% dos votos a Evo, percentagem que subiu a 72% em 2014, produto, como analisamos, de um partido mais enraizado no território, mas de forma clientelística e com divisões internas. Esse voto ao MAS (não a Evo) nas eleições nacionais e subnacionais de 2009, 2010 e 2014 esteve sempre entre 1,9 e 2,1 milhões de votos, mas decresceu paulatinamente de 40 a 35% do eleitorado registrado. E, nestas eleições, vamos chegar a um provável mínimo histórico da confiança da juventude, do povo pobre e trabalhador com relação ao MAS.

Com relação a outubro passado, estas eleições subnacionais confirmaram de forma dramática a perda de votos no Ocidente e não confirmaram o avanço eleitoral parcial no Oriente. Podemos entender a tentativa de Evo Morales de amortecer o golpe e esfriar os ânimos da direita, prevendo além disso algum segundo turno. Mas quando analisamos estes resultados devemos chamar as coisas por seu próprio nome, sem buscar consolos ou justificativas confortáveis.

Esta foi uma derrota, simbólica e numericamente importante, da qual nenhum lutador social ou revolucionário autêntico pode se alegrar pensando em ganhar espaço nas brechas abertas, porque, e pelas mesmas razões que a explicam e pelo papel que joga este partido, esta chamada “crise de hegemonia do MAS” teve uma saída em direção à direita.

Partido ou movimento?

Em um discurso assumido como “conciliador” pela maioria dos analistas, o vice-presidente García Linera atribuía a derrota às “debilidades das lideranças locais”. O próprio Evo Morales falava de “voto de castigo contra a corrupção” e de “candidaturas desatinadas”. Embora seus discursos toquem em alguns temas reais, esta forma de descarregar responsabilidades e crítica fora do governo e da direção do partido nos parece a pior forma de enfrentar o problema. Em primeiro lugar porque não é um mistério para ninguém que é a partir do governo e da direção do partido que, há tempo, se busca cooptar personagens desbandados do aparato político da direita, bem como do empresariado. Em segundo lugar porque houve responsabilidades diretas de ministros na promoção, defesa e até imposição de algumas candidaturas. Em terceiro lugar porque não está em jogo a infalibilidade de um ou outro dirigente, mas a luta da classe trabalhadora, do movimento campesino e indígena e da juventude de nosso país.

O MAS surgiu em meio a uma crise econômica e institucional e a um vazio político dramáticos. Um dirigente cocalero, empurrado à luta pelos abusos dos agentes da DEA e da UMOPAR, ganhou o apoio incondicional de sua base se convertendo, primeiro, no deputado mais votado e, depois, no alvo dos ataques de todos os partidos do velho regime, do Estado e até da Embaixada. Esta “cobertura midiática” e seu discurso social radical fizeram com que em torno dele, Evo Morales, se cristalizasse um projeto político que reivindicava o poder para os povos e trabalhadores da Bolívia. O primeiro passo deste projeto político foi a constituição de um “movimento” novo, que pretendia combinar a liderança pessoal de Evo Morales com uma “democracia horizontal” entre os movimentos sociais, que, constituindo-se na força real da organização, esvaziavam ao mesmo tempo de significado real a militância nesta.

Por si mesmo, e como era inevitável, este modelo replicado em cascata foi conformando uma burocracia que, manobrando entre e no interior dos movimentos sociais, apoiando-se alternativamente em um e outro, dividindo-os e inventando outros, contribuiu para gerar um ambiente de democracia interna puramente formal. E nos próprios movimentos sociais se premiou a lealdade ao chefe de plantão e à prorrogação em vez da capacidade autônoma de representação de demandas sociais. Tudo isto, combinado com o poder, é um caldo de cultura da corrupção. E isto foi, por exemplo, o que ocorreu em El Alto, onde a COR e FEJUVE, que haviam designado Patana, são subordinados a interesses de alguns dirigentes prorrogados com métodos mafiosos (como o dos grêmios) ou divididos pela luta pelo poder. Enfim: foram reproduzidos os defeitos dos partidos tradicionais sem nenhuma de suas virtudes.

Tudo isto não é novidade para todos aqueles setores da base social e juvenil do MAS que, frente ao talvez inesperado golpe eleitoral, reclamam uma transformação orgânica do instrumento (MAS) e a cessação da prática de “convidados”. Esta reorganização interna somente é possível eliminando os privilégios de dirigentes do movimento e das organizações sociais, e centrando-se na militância, em sua liberdade de crítica e em seu ativismo social concreto pela construção do instrumento, bem como em seu direito, baseado no princípio de “uma cabeça, um voto”, de definir não somente candidaturas como também o curso das políticas públicas.

O fracasso da colaboração de classes

Mas sequer isto é realmente suficiente. Por acaso Patana, Felipa Huanca, Reymi Ferreira, Ana Lucía Reis e outros eram convidados? Não foi, em troca, um convidado Cervantes com quem o MAS ganhou a prefeitura de Potosí? A realidade é que estas eleições oferecem argumentos a todos e se a reflexão fica no tema das candidaturas ou da corrupção que não se explica, não há saída à busca de compreensão do que ocorreu. Isto porque o problema de fundo é político e não organizativo, e como tal deve ser tratado.

Um partido como o MAS pode triunfar eleitoralmente, formar lideranças sociais locais autênticas e evitar de recorrer a “convidados” somente com a mobilização constante das massas. Para que esta se mantenha e o projeto político do MAS seja crível é necessário que os setores mais avançados do movimento revolucionário operário e camponês se reconheçam incondicionalmente na ação do governo e do partido, encontrando neles a possibilidade de avançar no terreno das conquistas sociais e democráticas, assim como da organização.

Em troca, enquanto o governo e o MAS namoram com personagens da direita debandados, cooptando-os, e com empresários e agroindustriais, oferecendo-lhes garantias e uma representação política que perderam, as principais demandas das bases camponesas e indígena são adiadas e o vice-presidente dita conferências magistrais interrogando-se sobre as dificuldades de sindicalização em um contexto de elevada precariedade laboral, esquecendo que o governo do qual faz parte poderia promulgar leis contra este flagelo em vez de mendigar investimentos ao setor privado.

Sem uma mobilização social adequada dos setores de vanguarda, é inevitável que as classes médias comecem a refletir em seu voto a inércia geral da sociedade, por mais teleféricos que se construam ao seu redor. É hoje o MAS capaz desta mobilização? Seguramente que sim, mas não por tempo indeterminado e seguramente não através da busca da colaboração de classes, mas rompendo com esta, o que é responsabilidade primária da COB e de sua direção.

Tampouco se poderá fazê-lo se se continua sujeitando as transformações sociais aos limites do Estado burguês e de sua estrutura econômica que são, em última instância, os que repelem e afastam as massas da participação democrática real, porque estão projetadas exatamente para isto.

Visto a partir de uma ótica democrático-burguesa, de fato, o que ocorreu no domingo é algo absolutamente normal; um reequilíbrio periódico de poderes políticos que não afeta a estrutura econômica real. Se o objetivo é reformar o capitalismo, a isto mais cedo ou mais tarde havia ou há que se acostumar. Os que, em troca, não temos o socialismo como o traje guardado somente para os desfiles cívicos eleitorais, extraímos do domingo a lição do enésimo fracasso de toda teoria que postule a possibilidade de “acumular forças”, “fazer hegemonia” ou “levar a democracia aos seus limites antes do socialismo”, aceitando e garantindo as regras do jogo burguês.

A relativa recuperação da direita em nível nunca registrado nos passados dez anos é uma derrota simbólica e numericamente dolorosa para o movimento revolucionário operário e camponês, mas absolutamente decisiva. Trata-se, contudo, de uma advertência importante se estamos conscientes que temos pela frente períodos difíceis, onde as condições econômicas que permitiram lograr certo equilíbrio social e político, nacional e internacionalmente, já não estão presentes. Para nós, este é um motivo a mais para nos esforçarmos por estar dentro de qualquer luta contra a colaboração de classes e o avanço da direita, seja qual for seu disfarce, defendendo o programa pela liquidação do Estado burguês e de sua estrutura econômica de classe. É assim que expressamos nossa lealdade à luta de nosso povo.

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