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Blairismo “morto e enterrado” – é tempo de se transformar o trabalhismo

“A era de Blair terminou para valer em 8 de junho”.

“O triunfo de Corbyn foi o último prego no ataúde do Novo Trabalhismo”.

Estas palavras não são de algum socialista ou de algum membro de Momentum, mas de alguns dos mais severos críticos de Jeremy Corbyn – no caso, a revista The Economist (de 10 de junho de 2017) e The Daily Mirror (de 9 de junho de 2017), respectivamente – na sequência da enorme virada trabalhista na eleição de 8 de junho.

Blairistas proeminentes, parlamentares trabalhistas de direita e a hostil mídia dominante passaram os últimos dois anos espancando Corbyn por sua suposta falta de qualidades de liderança e elegibilidade. Entretanto, os chocantes resultados eleitorais, com o trabalhismo vendo sua maior votação desde os dias de Clement Attlee em 1945, reduziram essa cacofonia ensurdecedora a um silêncio avassalador.

Os Blairistas com o pé atrás

Desde o primeiro dia, os opositores do líder trabalhista fizeram de tudo para garantir que suas previsões de uma pesada derrota sob a liderança de Corbyn se tornasse uma profecia confirmada. Parlamentares velhacos, dirigidos por seu patrão mafioso, Tom Watson, procuraram minar e sabotar a todo momento o líder, que foi democraticamente eleito (por duas vezes). Para atingir seus objetivos, esses gângsters estavam até mesmo dispostos a mergulhar o partido na crise com o seu fracassado “golpe da galinha” do último Verão. Na verdade, antes mesmo disso, o trabalhismo já estava realmente se aproximando dos Tories nas pesquisas de opinião.

As patifarias não se detiveram mesmo depois do anúncio de Theresa May de eleições antecipadas, com os parlamentares trabalhistas carreiristas, tais como John Woodcock e outros, apresentando-se abertamente contra Jeremy Corbyn e pedindo aos seus eleitores a votar neles, mas não por Corbyn, para o Parlamento.

Assumindo que a derrota seria pesada, possivelmente um triunfo eleitoral esmagador Tory, os Blairistas continuaram a afiar suas facas durante a recente campanha eleitoral, esperando nas sombras e preparando-se para outra disputa na liderança, ou mesmo uma ruptura para formar um novo partido “centrista”. Nessas intrigas e maquinações, a direita trabalhista contou com o pleno apoio do establishment capitalista, que está disposto a ter um confiável “Segundo XI” [Second Eleven Trophy – prêmio alternativo no jogo de Críquete, NDT], para as grandes empresas.

Mas Corbyn desafiou as expectativas de todos os seus críticos, deixando-os em silêncio e impotentes – seus planos maquiavélicos foram para o brejo. Como The Economist, o confiável porta-voz dos estrategistas sérios do capital, foi obrigado a admitir com relutância, “O Partido Trabalhista agora pertence a Jeremy Corbyn”.

O pão da humildade

Os opositores de Corbyn no Partido Trabalhista tiveram agora que admitir seus erros e engolir uma saudável fatia do pão da humildade. A maior satisfação de todas foi ver ninguém menos que o arquiteto do Novo Trabalhismo, o próprio “Príncipe das Trevas”, Lord Mandelson.

Há apenas poucos meses, Mandelson tinha anunciado orgulhosamente que estava “trabalhando todos os dias para derrubar Jeremy Corbyn”. Agora, em uma entrevista depois da eleição, o principal porta-voz do Blairismo reconheceu que “estava errado” sobre Corbyn. “Estou muito surpreso”, confessou Mandelson ao entrevistador da BBC, “ocorreu um terremoto na política britânica e não o previ”.

Embora nosso venerável Lorde não consiga admitir que também cometeu erros ao desperdiçar seus esforços para depor o líder trabalhista durante os últimos dois anos, aceita que, por trás dos recentes ganhos eleitorais do trabalhismo, “Jeremy Corbyn permanece líder do Partido Trabalhista pelo tempo que quiser”. (Isso, contudo, não deteve Lord Mandelson, ex-comissário de comércio da União Europeia, de apelar aos parlamentares trabalhistas “moderados” (leia-se, os Blairistas) a se unir a Theresa May na luta por um Brexit suave, no interesse da City de Londres).

Esfregando sal nas feridas dos Blairistas, Ken Livingstone, o veterano trabalhista de esquerda e ex-prefeito de Londres, assegurou que “O Novo Trabalhismo está morto e enterrado”. “Restarão poucos e velhos Blairistas amargurados que nunca ficarão de acordo com isso”. Livingstone afirmou na rádio da BBC, “mas a grande maioria se dará conta de que este é o verdadeiro Partido Trabalhista de volta”.

Embora alguns direitistas iludidos do Partido Trabalhista – tais como Chris Leslie, ex-chanceler sombra – tenham em vão tentado sustentar a fantasia de que um líder diferente poderia ter ganho a eleição, até mesmo os mais consistentes adversários internos de Corbyn tiveram que admitir a derrota e louvar a campanha inspiradora do líder trabalhista.

“Eu estava claramente equivocado ao sentir que Jeremy seria incapaz de fazer isto bem”, confessou Owen Smith, o desafiante do ano passado na eleição à liderança do trabalhismo, “e penso que ele provou que eu estava errado, que muitas pessoas estavam erradas e tiro o chapéu para ele”. Por outro lado, Chuka Umunna, um proeminente acólito Blairista e que odeia Corbyn, declarou que, “Jeremy Corbyn permanece como líder do Partido Trabalhista, com toda a razão, depois desta campanha”.

A bolha da mídia liberal

No entanto, essa reviravolta não é exclusiva à direita Blairista. A mais categórica reviravolta depois dos resultados de 9 de junho foi, de fato, a do renomado jornalista de Guardian e autoproclamado líder light da esquerda, Owen Jones. Há alguns meses, nosso estimado autor estava rebolando de desespero e apelando pelo afastamento de Corbyn. Agora, acaudalando um movimento de massas que ele não previu ou teve alguma fé, Jones admite humildemente que, “não estava pouco errado ou levemente errado, ou mesmo muito errado, mas totalmente errado”.

Havendo-se pintado no passado como um “pragmático”, em contraste ao “utópico” de extrema-esquerda que o admoestava por sua suavização, Jones agora admite que, “tendo um pé no movimento trabalhista e o outro na mídia dominante, isto sem dúvida deixou-me mais suscetível ao pensamento coletivo”. “Nunca mais”, promete nosso ex-queridinho da esquerda. Só podemos esperar que tais desculpas e garantias sejam sinceras e relembradas quando as coisas se tornarem novamente difíceis no futuro.

Completar a revolução Corbyn!

Lançamos esta palavra de advertência por uma razão. Neste momento, depois do enorme êxito eleitoral do trabalhismo, está claro que todo o impulso está por trás de Corbyn e da esquerda. Um movimento de massas enraizado nos trabalhadores e na juventude foi galvanizado com base em um programa claro e ousado antiausteridade, antiguerra e explicitamente de esquerda. De acordo com alguns informes, dezenas de milhares de novos membros filiaram-se ao Partido Trabalhista no decorrer da eleição e a partir dela. Enquanto isso, as pesquisas de opinião pós-eleição sugerem que se outra votação fosse convocada agora – com os Tories em crise e com a popularidade de Corbyn crescendo – o trabalhismo alcançaria sua própria e massiva vitória, levando 45% dos votos contra 39% dos Tories.

Sem dúvida, a direita trabalhista está desmoralizada e desorientada. Como os Tories e a imprensa burguesa, jogaram tudo contra Corbyn e falharam. Mas, embora estejam desacorçoados agora, nunca aceitarão a derrota. Basta olhar para a interminável enxurrada de bile e veneno que lançaram na direção do movimento de Corbyn durante os últimos dois anos para se ver o que pensam tais damas e cavalheiros e que interesses realmente defendem.

Embora proeminentes direitistas do trabalhismo, como Ivette Cooper e Chuka Umunna, tenham declarado que agora estarão dispostos a servir sob a liderança de Corbyn em seu gabinete sombra, a realidade é que o establishment Blairista nunca realmente se reconciliará com a liderança ou o programa de Corbyn, ou com o controle do partido pela esquerda.

Corbyn tentou parecer magnânimo, afirmando que “alcançará” o resto do Partido, incluindo antigos opositores. Resta ver se tais palavras são genuínas ou meramente simbólicas. Mas, está claro que Corbyn e as outras principais figuras da liderança da esquerda devem agora utilizar a autoridade que conquistaram e a energia que geraram nos últimos dois meses para transformar de forma irreversível o Partido Trabalhista de uma vez por todas, convertendo-o em um movimento político de massas capaz de dar um pontapé nos tories e acabar com a austeridade.

As centenas de milhares de novos membros do Partido Trabalhista e de trabalhadores e jovens radicalizados devem ser organizadas nesta tarefa com toda a rapidez. Momentum deveria estar convocando a todos os apoiadores e ativistas de Corbyn – velhos e novos – para que adiram a todos os níveis do Partido, recuperando-o de baixo para cima. Com uma crucial conferência do partido convocada para setembro, não há tempo a perder.

Funcionários das seções partidárias e do CLP; delegados da conferência; conselheiros e parlamentares: todos estes – para não mencionar as estruturas democráticas do partido e do aparato oficial – devem ser substituídos, renovados e rejuvenescidos, para representar os desejos socialistas e as demandas que o movimento de Corbyn significa.

Somente assim poderemos continuar no caminho da luta em que nos encontramos: colocando Corbyn no número 10 de Downing Street; colocando o trabalhismo no governo; e colocando em vigor políticas socialistas radicais para as futuras gerações.

Publicado originalmente em 15 de junho de 2017, no site da Corrente Marxista Internacional (CMI), sob o título “Blairism ”dead and buried” – time to transform Labour!“.

Tradução de Fabiano Leite.

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