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Black Bloc, cinegrafistas, delação. A moral deles e a nossa

O cinegrafista Santiago Andrade, da Rede Bandeirantes, que acaba de falecer, foi atingido por um artefato explosivo na manifestação contra o aumento das passagens na última quinta-feira (6/2/14). Imediatamente, duas versões se contrapuseram:

O cinegrafista Santiago Andrade, da Rede Bandeirantes, que acaba de falecer, foi atingido por um artefato explosivo na manifestação contra o aumento das passagens na última quinta-feira (6/2/14). Imediatamente, duas versões se contrapuseram: uma, mostrada no Facebook onde se comparavam as fotos das “bombas de efeito moral” da polícia com a explosão. Outra, com fotos e vídeos, da Rede Globo acusando manifestantes de terem soltado um rojão contra o cinegrafista. Duas versões?

Isso poderia continuar, mas Fábio Raposo, adepto da “tática” dos Black Bloc (tem uma pintura deles em seu apartamento) se entrega confirmando que ele “entregou” o artefato explosivo para outro homem que teria então feito o disparo. 

A polícia, imediatamente, começa a vasculhar a vida de Fábio, seus telefones e computadores, para detectar a qual “organização” Fábio é filiado. Pode piorar?

Pode. E Fábio começa a negociar uma “delação premiada” para poder escapar da acusação. Seu advogado, Jonas Tadeu Nunes, que foi advogado de vários integrantes de milícias (formações criminosas que achacam pessoas e comerciantes nos bairros populares do Rio, formadas muitas vezes por ex-integrantes da polícia, ex-traficantes, etc.), vem negociando tal questão. 

E quem disse que já se chegou no fundo do poço?

Uma ativista que ficou conhecida nas ocupações e manifestações do ano passado, apelidada de Sininho, comparece à Delegacia para “prestar solidariedade” (se é que alguém que pretende denunciar manifestantes para livrar a sua cara, que ele mesmo entregou, merece solidariedade) e um dos ativistas que estava com ela ameaça um cinegrafista dizendo “pode acontecer com você”. O cinegrafista, que ao que parece não tem sangue de barata, reage e bate com a câmera no tal ativista. 

E o advogado não perde tempo: faz um termo de denúncia contra…Marcelo Freixo (PSOL). Sim, exatamente o deputado que ocupou um lugar central na comissão da Assembleia Legislativa de denúncia das milícias. Denuncia rapidamente repudiada por Freixo. 

Qual a origem desta confusão toda?

A começar por que existe uma camada de militantes e ativistas que deixou de acreditar na luta de classes e que acha que a luta contra o capitalismo é uma questão “moral”. O resultado é que esta camada não consegue distinguir entre o trabalhador que segura sua câmera e o dono da emissora e ataca os dois!

Os métodos de levar rojões e bombas às manifestações, de quebrar, de atacar, enfim toda a “tática Black Bloc” só faz afastar a juventude e os trabalhadores que eles dizem defender. O resultado está aí: sem firmeza moral de espécie alguma, um dos “adeptos” da tal tática se entrega para a polícia e negocia a delação de outros. Belo resultado! 

E a tentativa de solidarizar-se com tal indivíduo só daria nisso: em mais confronto e, o pior, atacar um trabalhador com se este fosse cúmplice do patrão! 

Para combater, a primeira coisa que precisamos é de clareza. É isto que os marxistas fazem: analisam a partir da luta de classes e não a partir de uma “moral” eterna que no primeiro embate sério se torna a velha moral burguesa de tratar de me defender ainda que a custa dos meus companheiros. Este não é o comportamento dos marxistas, dos verdadeiros revolucionários. 

E, é claro, a esta altura do campeonato, o que interessa se as fotos mostram que a explosão é muito semelhante a explosão das bombas da PM?

Triste desfecho de uma situação trágica.

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