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Bernie: Construa um Partido Socialista de Massas da Classe Trabalhadora!

Artigo publicado pela seção norte-americana da Corrente Marxista Internacional (CMI) um mês antes de Bernie Sanders declarar apoio a Hillary Clinton, no último dia 12.

Nota da edição: Este artigo foi publicado pela seção norte-americana da Corrente Marxista Internacional (CMI) um mês antes de Bernie Sanders declarar apoio a Hillary Clinton, em evento de campanha em Portsmouth, New Hampshire, em 12 de julho.

9 de junho de 2016

Já temos os resultados das finais das primárias estaduais e eles não constituem uma surpresa real. Com a mídia, a máquina do Partido Democrata e muito dinheiro por trás dela, Hillary Clinton tem mais delegados comprometidos que Bernie Sanders, e com centenas de superdelegados no bolso, ela é a candidata do partido. No entanto, Bernie Sanders ganhou primárias e cáucuses em 22 estados e teve mais de 11 milhões de votos. A forte presença de Sanders, incluindo suas mais recentes vitórias em Dakota do Norte e Montana, é uma prova de que milhões de pessoas não querem se conformar em ver Hillary Clinton versus Donald Trump.

Dada a natureza do Partido Democrata e das forças reunidas contra sua campanha, Socialist Appeal acreditava que as chances de Sanders de derrotar Clinton eram poucas, para dizer o mínimo. Nós argumentamos consistentemente que ele deveria concorrer independentemente dos Democratas, que representam um dos pilares do domínio das grandes empresas. Pensamos que ele cometeu um erro ao continuar sua campanha dentro do Partido Democrata. Sanders aparentemente acredita que pode influenciar a plataforma do partido se permanecer na corrida até a convenção do partido em julho. Mas é Wall Street quem realmente manda nos EUA e a máquina do Partido Democrata lutará com unhas e dentes, ao lado dos Republicanos, contra quaisquer reformas que ameacem a riqueza da classe, por mais modestas que sejam.

A cúpula do partido o está pressionando sem misericórdia para entrar na linha. Querem que deixe a corrida rapidamente para que Clinton possa se centrar em Trump, mas também querem que ele traga muitos de seus apoiadores, o máximo, possível para o lado de Clinton. É um ato de equilíbrio de alto risco, e pode-se estar seguro de que seu encontro com o Presidente Obama não foi um alegre papo sobre as finais da NBA. De fato, como Sanders declarou claramente depois do encontro: “Vou fazer tudo ao meu alcance, e trabalharei o mais firmemente que possa para assegurar que Donald Trump não se torne presidente dos Estados Unidos”. Ele agregou que planeja se encontrar com Hillary Clinton no futuro próximo para discutir como podem “trabalhar juntos” para derrotar Trump. Isto soa como se já tivesse feito sua escolha – uma escolha que vai irar e desanimar milhões de seus apoiadores.

No entanto, não tem porque ser este o final de sua campanha! Pelo contrário, pensamos que este poderia ser o verdadeiro início de uma genuína mudança revolucionária.

A classe trabalhadora necessita de seu próprio partido

A imensa maioria da população estadunidense é da classe trabalhadora. Se não trabalharmos por um salário, não comeremos. A pequena percentagem no topo da sociedade é a classe capitalista que é proprietária das grandes corporações – este topo de 1% possui mais que os 90% da base. Em um sistema democrático genuíno, a maioria governaria. Mas estamos ante uma contradição evidente: a classe trabalhadora nos EUA não tem nenhum partido político para representar seus interesses. Os milionários e bilionários têm em conjunto os principais partidos, o Democrata e o Republicano. Quando um desses partidos se desacredita, o outro é utilizado. Eles enganam constantemente as pessoas a votar pelo “mal menor”, mas, com o tempo, a incapacidade do “mal menor” de melhorar os problemas sistêmicos do capitalismo criam um “mal maior”. Ambos os partidos foram tão longe à direita nas últimas quatro décadas que é cada vez mais difícil para as pessoas decidir qual dos dois males é “maior”.

As contradições estão crescendo e a classe trabalhadora está buscando um caminho para se expressar politicamente. Infelizmente, os líderes dos sindicatos AFL-CIO, SEIU e NEA não mostraram o caminho a seguir. Durante décadas, as cúpulas sindicais disseram aos trabalhadores para eleger os Democratas, e isto levou a um desastroso beco sem saída. Depois de oito anos com os Democratas presidindo na Casa Branca, mesmo durante uma recuperação econômica capitalista, o desemprego e o subemprego persistem em altos níveis, os salários estão baixos e os locais de trabalho são ditaduras brutais dos patrões e seus gerentes.

Como resultado, muitos trabalhadores e jovens buscaram na campanha de Bernie Sanders uma forma de defender e lutar por seus interesses políticos. Sanders se identifica como um socialista e faz campanha por uma “revolução política contra a classe bilionária”. Isto obteve um eco massivo na classe trabalhadora. Mais de 2,4 milhões de pessoas contribuíram financeiramente para sua campanha. Outros milhões deram o seu tempo e energia para propagar a campanha. Com uma liderança, os milhões de pessoas em torno da campanha de Sanders poderiam formar a base de um partido socialista de massas nos EUA – um partido da classe trabalhadora. Este partido poderia construir ramificações em todos os sindicatos, locais de trabalho, bairros e escolas. A Corrente Marxista Internacional acredita que Bernie deve romper com os Democratas e pedir aos seus apoiadores e, em particular, aos trabalhadores organizados, para formar tal partido. Isto significará uma nova etapa na luta pelo socialismo e por um governo de, por e para a classe trabalhadora.

O beco sem saída do Partido Democrata

A “democracia americana” é o domínio disfarçado da classe capitalista. Em qualquer questão importante, o público não tem voz. Em 2002, quando Bush, com o apoio de Clinton, invadiu o Iraque, a maioria da população dos EUA não concordou e centenas de milhares tomaram as ruas, mas isto não deteve a invasão. Em 2008, G. W. Bush e os Democratas no Congresso, apoiados pelo então presidente eleito Obama e a senadora Hillary Clinton, resgataram os grandes bancos e empresas de seguros. A maioria dos estadunidenses se opôs a isto. A vasta maioria dos estadunidenses apoia um sistema de saúde do tipo “cliente único”. Mas nada disto faz qualquer diferença porque o povo trabalhador não controla este país – quem o faz são os ricos.

Uma das grandes razões de a classe dominante seguir com isto é porque ela controla ambos os principais partidos. Muitos obstáculos legais, muito dinheiro e o seu controle da mídia impedem que surjam novos partidos para desafiá-los. É provável que devido a isto Bernie Sanders tenha feito uma “escolha pragmática” e concorreu à presidência como um Democrata, apesar dele ser um independente durante toda a vida e de ter sido muito crítico do Partido Democrata no passado. Este “pragmatismo” levou-o a apoiar os Democratas “de fora” e a trabalhar com eles enquanto estava no Congresso. O problema com o pragmatismo, em oposição a uma visão materialista dialética da realidade, é que o pragmatismo somente revela uma parte do processo geral e, dessa forma, obscurece a realidade. Bernie pode ter recebido muito mais cobertura como Democrata do que receberia como independente, mas, em troca, ficou acorrentado por suas regras – regras que não permitirão a ele e à classe trabalhadora vencer.

Parece que o próprio Bernie não esperava se sair tão bem, razão porque, provavelmente, não pensou totalmente no que aconteceria se tivesse realmente ganhado a indicação Democrata e a presidência. Ele sabe muito bem que a maioria dos Democratas no Congresso o sabotariam, sem contar os Republicanos e Wall Street. A única forma de lutar contra isto e de vencer é através da construção de um partido de massas composto pela classe trabalhadora, controlado democraticamente por ela e de sua confiança. Em tal partido, os membros do Congresso se comprometeriam a aceitar o salário de um trabalhador e a doar o restante de seu salário ao movimento. Eles seriam obrigados a lutar e a votar pelas políticas decididas democraticamente pelos membros do partido.

O chicote da reação de Trump

Os Marxistas explicaram que a eleição de Obama em 2008 e sua reeleição em 2012 significariam que a “Escola dos Democratas” iria ensinar aos trabalhadores e à juventude que este partido não oferece nenhuma solução aos problemas enfrentados pelas massas. Tirando algumas conclusões desta experiência com Obama, muitos se moveram na direção de Bernie Sanders. Enquanto isto acontecia à esquerda, uma outra camada da sociedade, incluindo muitos trabalhadores desencantados com os Democratas, bem como pequenos empresários assustados com a crise capitalista, começaram a comprar a demagogia populista de direita de Donald Trump.

Trump se conectou com o fervente ânimo anti-Establishment e derrotou todos os 17 candidatos da cúpula do partido. Os “neoconservadores” que controlavam o partido durante o governo de G. W. Bush foram empurrados para o lado, assim como os tradicionais Republicanos de Reagan. O apelo do Partido Republicano nas recentes décadas era precisamente o seu conservadorismo. Após as agitações da década de 1930, da II Guerra Mundial, e mais uma vez no final dos anos 1960 e 1970, o partido se aproveitou com êxito dos desejos de milhões de pessoas de conservar o que tinham, evitar os tumultos e a mudança e manter o status quo. Mas a crise capitalista virou o status quo de cabeça para baixo e seus fracassados defensores ficaram profundamente desacreditados. Donald Trump personifica este descontentamento e adicionou, ele próprio, mais instabilidade. Ele é visto como uma “ameaça ao domínio da lei” por acadêmicos conservadores e praticamente sem ajuda destroçou o Partido Republicano em sua forma moderna.

Trump está lançando uma retórica abertamente racista que raramente se escuta em público da boca de candidatos presidenciais sérios. Nixon e Reagan costumavam se utilizar de eufemismos para atrair os racistas, mas não pronunciavam abertamente as palavras que Trump tem utilizado. Este já é outro sinal da degeneração e decadência do capitalismo estadunidense e de seus representantes.

No entanto, a experiência histórica mostra mais uma vez que os ataques reacionários podem se transformar em seu contrário e que, na verdade, podem avivar as chamas da revolução. Muitos jovens não vão permitir que Trump e sua retórica racista fiquem sem resposta. Viu-se isto recentemente em San Jose, Califórnia, e, antes disto, em Chicago. Em última instância, a campanha de Trump está criando uma juventude mais politizada para lutar contra ele e a classe que ele representa. Se ele ganhar as eleições, sua presidência será instável para se dizer o mínimo.

No entanto, é a própria instabilidade da vida e a redução dos níveis de vida que dão possibilidades a demagogos da variedade de Trump. O mal menor não vai derrotar Trump. Em primeiro ligar, foi o fracasso do “mal menor” Obama que levou à frustração que deu origem a Trump como um candidato viável. Apoiar Hillary Clinton para derrotar Trump é – para citar o falecido David Bowie – “apagar o fogo com gasolina”. Se Sanders não concorrer em novembro, algumas pesquisas mostram que até 20% de seus seguidores votariam por Trump. Trump deve ser combatido com mobilizações de massas e com a solidariedade dos trabalhadores, mas algo maior é necessário – um partido socialista de massas armado com um programa que possa atender às necessidades dos 99%, começando com empregos para todos, com salários mais altos, com educação e saúde gratuitas, com a propriedade pública das 500 maiores empresas e com o controle democrático dos trabalhadores em todos os locais de trabalho. Para acabar com Trump e todos como ele, devemos acabar com o capitalismo!       

A eleição de 1860

Abraham Lincoln foi eleito presidente em 1860. Ele ganhou com menos de 40% dos votos. Normalmente, menos de 50% dos votos significariam uma derrota, mas havia quatro candidatos principais concorrendo naquele ano. O país se encontrava em crise e profundamente dividido à beira da Guerra Civil, um conflito titânico entre a escravidão nas plantações do Sul e o capitalismo industrial do Norte. As coisas ainda não chegaram a um ponto tão febril, mas as tensões entre as classes e dentro da classe dominante estão remontando. Dependendo de como as coisas se desenvolvam, 2016 poderia ser semelhante a 1860. Depois de haver vencido seus rivais, o arrivista Trump (que costumava ser um Democrata) suscitou uma guerra civil dentro do Partido Republicano, levando a uma potencial eleição com candidatos múltiplos.

O Partido Libertário, um partido de direita que se apresenta como “pró-liberdade” e anti-intervencionista, está com 10% em algumas pesquisas. Outros, à direita, em particular os que se encontram em torno do analista conservador Bill Kristol, estão considerando seriamente a possibilidade de concorrer com outro candidato neoconservador “tradicional” contra Trump e Clinton.

À esquerda, o Partido Verde andou cortejando Sanders durante algum tempo. No entanto, isto parece um pouco com um rato suplicando para o elefante. Embora o interesse no partido esteja crescendo em meio ao presente caos eleitoral, os Verdes são, em última análise, um partido da pequena burguesia liberal. Eles não lutam pelo socialismo e pelo fim do capitalismo e nunca tiveram uma base de massas. Coisas mais estranhas já aconteceram e nada pode ser descartado em um ano como este, mas parece altamente improvável que Sanders e seus milhões de apoiadores se juntem a um pequeno partido com estas características quando ele tem uma base de apoio para lançar algo muito maior por sua própria conta.

Como já explicamos, este é o momento perfeito para Sanders lançar um partido socialista de massas e concorrer em todos os 50 estados, não somente para enviar mensagens, mas para ganhar. Em uma corrida multipartidária, ele bem que poderia terminar no topo. Afinal, Trump e Clinton têm as mais baixas taxas de aprovação de qualquer candidato em décadas. E mesmo que perca, quem quer que ganhe vai se encarregar de ainda mais austeridade e instabilidade e muito provavelmente de uma profunda depressão econômica. Isto prepararia o terreno para ainda maiores lutas políticas e econômicas no futuro. Como Marxistas, estamos a favor de uma política de classe e não por uma política do mal menor.

O papel do indivíduo na história

Os Marxistas explicam que, em última análise, a luta de classes – a luta pelo excedente produzido pela classe trabalhadora – é a força motriz da história. Os indivíduos algumas vezes se elevam das massas e desempenham um papel que, em última instância, expressa forças de classe, embora nem sempre conscientemente. Neste contexto, um indivíduo no lugar certo e no tempo certo pode desempenhar um importante papel para conduzir o movimento à frente – ou pode frustrar o movimento e levar a classe trabalhadora a uma derrota ou a um desvio custoso.

Bernie Sanders está em um momento crítico da história. Porque era um senador independente, o único entre 100 a se identificar como socialista, ele foi capaz de preencher o grande vazio à esquerda da política estadunidense, e terminou canalizando as aspirações das camadas mais avançadas da classe trabalhadora. Neste momento, ele poderia sozinho virar a política dos EUA de cabeça para baixo, levando sua campanha para um novo partido.

65% da geração do milênio [Geração Y ou geração do milênio ou geração da Internet -NDT] e 52% de todos os apoiadores o querem concorrendo como independente. Somente 24% da geração do milênio o querem apoiando Clinton se não for indicado. Se Sanders terminar endossando Clinton, mesmo que seja “em seus próprios termos”, haverá profunda decepção e desmoralização generalizada. É provável que isto adie a construção de um partido de massas dos trabalhadores durante vários anos, talvez até mais tempo. Mas também haveria uma enorme irritação e uma busca de respostas, e um profundo desejo de retirar lições desta experiência. No panorama amplo, mesmo uma capitulação absoluta poderia ter somente um efeito temporário, uma vez que a situação exige que a classe trabalhadora encontre um caminho para construir seu próprio partido. De uma forma ou de outra, isto será realizado.

Os que viram em sua campanha um farol de esperança de um futuro socialista, foram transformados pela experiência. Depois que se levantaram do pó, ficaram ansiosos para lançar os alicerces de um futuro partido socialista de massas, com ou sem Bernie. O caminho não será fácil ou linear, mas é o caminho que a classe trabalhadora dos EUA deve pisar mais cedo ou mais tarde.

Ajude a construir uma liderança genuína da classe trabalhadora

Se Sanders ou o movimento em torno dele lançar um partido de massas de esquerda, todos os seguidores da CMI vão lutar para construir este partido e para convencer seus membros a adotar um programa socialista revolucionário que inclua o fim da ditadura do capital e a expropriação das 500 maiores corporações. Ainda há tempo para Sanders produzir um verdadeiro e duradouro impacto na história dos EUA e mundial. Não há momento mais precioso que o atual! Contudo, se ele lançar no lixo esta oportunidade histórica e apoiar o candidato de Goldman Sachs e Charles Koch, seus seguidores devem manter em mente a visão de longo prazo da história; a luta pelo socialismo está longe de terminar e é natural que haja algumas derrotas pelo caminho.

Exortamos a todos os que querem ver a classe trabalhadora ter o seu próprio partido, a todos os que querem lutar pelo socialismo a se juntarem à Corrente Marxista Internacional. A CMI se posiciona por uma política revolucionária da classe trabalhadora e pelo fim do capitalismo. Somente uma sociedade socialista pode trazer a justiça social, racial e ambiental que os seguidores de Sanders desejam tão fervorosamente. Juntos, podemos preparar as forças que podem intervir e conduzir as colossais batalhas de classe que temos à frente.

Artigo publicado originalmente em 9 de junho de 2016, no site da seção norte-americana Corrente Marxista Internacional (CMI), sob o título “Bernie: Build a Mass Socialist Party of the Working Class!.

Tradução de Fabiano Leite.

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