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“Bem-vindos ao Marrocos, trituramos gente aqui!”

Abalos políticos no Marrocos depois de atrocidade sofrida por trabalhador que buscava sobreviver vendendo pescados.

As massas estão revidando, iradas contra o regime do Rei Mohamed VI.

Dezenas de milhares de marroquinos indignados tomaram as ruas neste fim de semana, depois que um vendedor de pescados foi triturado até a morte dentro de um caminhão de lixo em Al-Hoceima, enquanto tentava recuperar os peixes que lhe foram confiscados pela polícia local. Os peixes de Mouhcine Fikri foram confiscados na sexta-feira, enquanto as autoridades aplicavam uma lei que proibia a venda de peixes-espada nesta temporada. Testemunhas do incidente afirmam que a polícia ativou deliberadamente o compressor do caminhão de lixo quando Mouhcine Fikri saltou para dentro dele a fim de recuperar seu pescado.

Imagens do corpo esmagado dentro do caminhão foram publicadas na mídia social e provocaram um frenesi de reações indignadas. Duas hashtags árabes #طحن_مو  (“Moeram-no”) e #كلنا_محسن_فكري (“Somos todos Mouhcine Fikri”) tornaram-se virais na web. O centro da ira é o “Hogra”, um termo árabe que se refere ao sentimento de abusos e injustiça nas mãos do estado. Este é um sentimento poderoso que se liga à experiência diária de muitas pessoas pobres. É a realidade do desprezo, da exploração e da opressão nas mãos dos patrões, dos latifundiários, das autoridades locais e regionais, dos diretores de escolas, dos líderes religiosos, da polícia, dos políticos e dos homens e mulheres do Rei. Em outras palavras: do próprio regime. Este sentimento é reforçado pelo alto desemprego, pelos salários baixos e pelos altos preços. Muitas pessoas se identificam com o destino do vendedor de peixes. Como declarou um manifestante: “Aqui, todos se sentem triturados pelo caminhão de lixo”. O caminhão de lixo se tornou uma metáfora para o sistema de opressão e exploração. Uma das palavras de ordem nas manifestações era: “Mouhcine foi assassinado, Makhzen é o culpado”. Makhzen é a palavra usada para designar as instituições do estado monárquico, da monarquia absoluta que controla a sociedade e a riqueza da sociedade marroquina. O povo entende que o comportamento da polícia local está amplamente vinculado ao aparato do estado e ao sistema econômico.

Os ativistas da mídia social e os manifestantes não acreditam na tese oficial do suicídio de Mouhcine Fikri ou de sua morte acidental. Eles estão convencidos de que ele foi deliberadamente morto pela polícia e exigem que  a mesma seja punida. As autoridades policiais naturalmente rejeitaram essas acusações.

Foram realizadas manifestações de massa, não somente na cidade nortista de Al-Hoceima, como também em Casablanca, Rabat e em muitos outros lugares. Foram, em parte, espontâneas, mas os ativistas do velho Movimento 20F participaram de sua organização. Essas demonstrações são, provavelmente, as maiores já vistas no reino desde a vaga de protestos que se seguiu à Primavera Árabe em 2011. Na região nortenha do Rif, as manifestações tomaram um caráter quase insurrecional, e uma greve geral foi convocada hoje para toda a região. Esta zona é, historicamente, um foco de revoltas e dissidência. A guerra do Rif, no início dos anos 1920, liderada pelo legendário Abdel Krim contra os poderes coloniais da Espanha e da França, foi a primeira revolta anti-imperialista de massas da história. Esse espírito ainda vive. Mas a vitória contra a opressão do estado marroquino somente pode ser ganha em uma batalha conjunta com o resto da classe trabalhadora e da juventude do país. O separatismo, defendido por algumas forças políticas do Rif, somente enfraquecerá o movimento revolucionário contra o regime.

A morte de Mouhcine Fikri e a indignação em massa que provocou por todo o Marrocos, é uma reminiscência da autoimolação do pobre vendedor ambulante Mohamed Bouazizi na Tunísia em 2012. Esse acontecimento trágico se transformou na fagulha que iniciou a Revolução Árabe. Não é o primeiro “incidente” do tipo nesse ano em Marrocos. Dezenas de pessoas que sofreram por causa do comportamento brutal e humilhante das autoridades, suicidaram-se na frente de prédios oficiais ou em locais de mercado. Esta vaga de protestos indignados das massas não chega de surpresa. Todo o material incendiário social e político já estava presente e esperando por um incidente, por uma fagulha, para lançar-se em movimento. Em nenhum lugar do Oriente Médio a situação mudou para melhor desde o início das revoluções árabes. Neste ano, somente a Tunísia já testemunhou duas revoltas de massas como resultado da política brutal de austeridade. O Egito está à beira de uma nova explosão social, enquanto mergulha cada vez mais na espiral da recessão, dos ataques aos níveis de vida e da repressão. Os dias do novo faraó, Abdul Fatah al-Sisi estão contados. Para ter êxito, os novos movimentos não podem se limitar a trocar um presidente ou rei por outro. Devem ter como objetivo erradicar o velho aparato de estado e o sistema capitalista, e substituí-los por um estado democrático dos trabalhadores e por uma economia planificada.

As autoridades vivem com medo de uma repetição dos tempestuosos acontecimentos durante a revolução árabe. O regime marroquino sobreviveu ao furacão da revolução, graças a uma combinação de concessões materiais e reformas cosméticas, e à corrupção dos líderes sindicais e do movimento de protesto. Isso deu a impressão de estabilidade sob “a orientação sábia e progressista” do Rei. Isso alimentou a ideia da “exceção marroquina” no Oriente Médio. Pensaram que tinham domesticado as massas. Os Marxistas marroquinos sempre sustentaram o contrário. Os últimos dias confirmaram nossa análise contra todas as perspectivas derrotistas e desmoralizadoras de todas as tendências de esquerda do país.

O Rei Mohamed VI, agora despachou seus representantes para visitar a família da vítima e oferecer as condolências reais. Também prometeu uma investigação. O ministro do interior e da justiça fez o mesmo. Não é a primeira vez que as autoridades prometem “investigações exaustivas e transparentes”. Mas estas nunca levam a coisa alguma. O estado é traiçoeiro. Todos os funcionários estão tentando desesperadamente projetar uma imagem de personalidades e instituições interessadas. Ao fazer isso, o regime está pondo em ação os mecanismos destinados a protegê-lo de questionamentos mais amplos. Se necessário, alguns policiais serão sacrificados para tentar acalmar as massas furiosas. O regime tratará de se apoiar nos líderes dos partidos desacreditados e também nos reformistas de esquerda e nos islâmicos de Al Adl Wal Ihssane para descarrilar o movimento. Mas nada de fundamental mudará. Somente fortalecerá a compreensão da necessidade de um verdadeiro partido revolucionário para realizar a única revolução que satisfará as demandas das massas: a revolução socialista. Uma nova etapa da revolução marroquina se abriu. As massas do Marrocos estão reatando o nó dos acontecimentos de 2011 quando “o povo exigiu o fim do regime”.

Abaixo o regime assassino e opressor!

Abaixo o capitalismo!

Longa vida à revolução socialista no Marrocos e em toda a região!

Junte-se à seção marroquina da CMI!


Artigo publicado originalmente em 31 de outubro de 2016, no site da Corrente Marxista Internacional (CMI), sob o título “‘Welcome to Morocco, we grind people here!’“.

Tradução Fabiano Leite.

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