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Avançar sem esquecer – 90 anos da Revolução Alemã

Noventa anos depois ainda há muito o que aprender com a Revolução derrotada que poderia ter mudado a história da humanidade.

Passaram-se 90 anos desde a Revolução Alemã de 1918-1919, um dos mais importantes acontecimentos da história mundial. Se os trabalhadores alemães tivessem tomado o poder em 1919, a história mundial teria sido muito diferente. Uma revolução vitoriosa na Alemanha teria significado que a revolução se espalharia pelos países mais desenvolvidos, rompendo-se assim o isolamento da Revolução Russa.

A maioria das pessoas conhece muito pouco da Revolução Alemã; nas escolas não nos dizem nada a respeito. Mas as lições da Revolução Alemã são decisivas para todos que almejam uma sociedade diferente. Não apenas podemos aprender de acontecimentos como a Revolução Russa, mas também das derrotas. A teoria marxista é tão somente as experiências colhidas da classe trabalhadora. Temos de aprender dessas experiências a fim de que possamos cumprir o que os trabalhadores alemães começaram e pelo que Rosa Luxemburgo(1), Karl Liebknecht(2) e milhares de outros deram suas vidas: uma sociedade socialista sem guerras, sem fome e miséria.

A guerra e a II Internacional

Como explicou Lênin, as guerras freqüentemente têm conseqüências revolucionárias. E a Revolução Alemã nasceu da I Guerra Mundial (1914-1918). A revolução também pôs fim ao pesadelo da guerra mundial com seus 10 milhões de mortos.

Anos antes do início da I Guerra Mundial, tornou-se claro aos partidos da Segunda Internacional que uma guerra mundial estava a caminho. A Segunda Internacional, baseada nas idéias de Marx e Engels, compunha-se de todos os partidos social-democratas e de uma ampla variedade de indivíduos desde reformistas, a exemplo de Bernstein(3) e Kautsky(4), aos revolucionários Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, o dinamarquês Stauning(5), Lênin e Trotsky na Rússia. No congresso mundial de 1907, e novamente em 1912, a II Internacional aprovou resoluções no sentido de resistir a uma nova guerra por todos os meios, inclusive uma greve geral.

O SPD e a guerra

O Partido da Social-Democracia alemã (SPD) era o maior e mais poderoso partido da II Internacional. Em 1912 contava com 1 milhão de membros, mais de 15 mil operários militantes de tempo integral e 90 jornais diários. À semelhança de outros partidos da II Internacional, o SPD tinha aprovado resoluções contra a guerra em congressos mundiais, mas, como a maior parte dos outros partidos da Internacional, terminou adotando, na prática, postura exatamente contrária às resoluções anteriormente aprovadas.

Quando se iniciou o conflito em Agosto de 1914, todos os membros social-democratas do parlamento alemão, o Reichstag(6), votaram favoráveis aos créditos de guerra e, na realidade, para que fossem enviados trabalhadores para matarem outros nas frentes de batalha. Quando Lênin leu a capa do Vorwärts(7), jornal do SPD, com essa notícia, ficou chocado e inicialmente pensou tratar-se de uma falsificação. Infelizmente não era.

Esse apoio à guerra foi o resultado de um período mais longo de degenerescência das camadas dirigentes em muitos partidos da II Internacional que Rosa Luxemburgo tinha combatido persistentemente. Após anos de crescimento econômico, os líderes tinham aprendido a negociar reformas, e suas condições de vida os tinham afastado mais e mais dos trabalhadores que representavam. Por isso, tornou-se seu interesse apoiar a burguesia em seus “próprios países”, afastando-os da classe trabalhadora internacional. Após essa traição, Rosa Luxemburgo chamava a Internacional de um “cadáver fedorento”.

Mesmo que todos os membros do SPD no Reichstag tivessem votado pela aprovação dos créditos de guerra em Agosto, nem todos concordavam com esta política. Vários deles tinham votado a favor somente em respeito à disciplina partidária. Rapidamente tornou-se claro para Karl Liebknecht, um membro do SPD no Reichstag, que não era bastante suscitar críticas dentro do grupo parlamentar, mas que era necessário demonstrar desacordo abertamente. Em Dezembro de 1914 foi ele o único membro que votou contra a guerra no Reichstag, alcançando por esta razão enorme prestígio entre os trabalhadores, a quem a guerra já começara a desagradar.

O descontentamento com a política belicista começou a espalhar-se rapidamente dentro do SPD, e crescente número de organizações partidárias locais aprovavam resoluções contra a política de suas lideranças. Rosa Luxemburgo e Franz Mehring(8) juntaram-se e publicaram o jornal Die Internationale, com Karl Liebknecht tornaram-se conhecidos como o Internationale Group, o núcleo do futuro Partido Comunista. No dia de Ano Novo de 1916, o grupo realizou seu primeiro congresso, e decidiu lançar um jornal clandestino intitulado Spartacus, homônimo do escravo rebelde do Império Romano. Os membros do grupo ficaram a partir daí conhecidos como Espartaquistas. Ambos, o grupo Internacional e os Espartaquistas, estavam organizados no interior do SPD, com o propósito de conquistar o SPD para a prática de uma política revolucionária internacional.

Os Espartaquistas participaram da reunião em 1915, realizada em Zimmerwald(9) com outros que tinham permanecido fiéis aos princípios do internacionalismo proletário. Àquela altura, os internacionalistas formavam apenas um punhado de lutadores, mas a situação logo mudou. Amiúde, é o caso em que a burguesia, ajudada pelos trabalhadores das organizações operárias, obtém êxito em acirrar um sentimento de defesa nacional. Mas o apoio à guerra pelos trabalhadores desaparece à medida que o conflito se prolonga e eles vêem que a defesa da “Nação” nada significa mais do que a defesa da propriedade da classe capitalista nacional. Exatamente quatro anos depois da reunião de Zimmerwald muitos dos participantes constituíram o cerne do que se tornou a poderosa III Internacional Comunista.

Crescente oposição à guerra

No 1º de Maio de 1916, teve lugar uma manifestação de mais de 10 mil pessoas na Potzdamer Platz após agitações realizadas pelos Espartaquistas nas fábricas de Berlim. Liebknecht foi detido sob a acusação de propaganda anti-bélica e sentenciado a uma pena de 2 a 6 anos de prisão. No dia de seu julgamento 50 mil trabalhadores das indústrias de munição paralisaram o trabalho e promoveram várias manifestações de protesto. Resultado: centenas de operários espartaquistas foram presos e, em Julho, Rosa Luxemburgo também foi mais uma vez detida.

No entanto o gelo tinha-se quebrado. A oposição à guerra começara a expressar-se num crescente número de lugares. Por exemplo, 30 mil operários realizaram manifestações contra a guerra em Frankfurt em Novembro de 1916.

Crescente oposição dentro do SPD

A crescente oposição das massas à guerra refletiu-se dentro do SPD e também entre seus membros no Reichstag. Em Março de 1915, 25 membros do SPD votaram contra os créditos de guerra. Em Agosto, o número chegou a 26 e, em Dezembro, 48 dos 108 parlamentares do SPD votaram contra tais créditos no parlamento. A crescente oposição à política belicista entre as massas alemães gerou uma pressão dentro do SPD, e as correntes oposicionistas tornaram-se mais ousadas.

Em Março de 1916, minoria apreciável recusou-se a votar o orçamento no Reichstag. Ela angariou amplo apoio no seio do partido e conseguiu controlar os organismos partidários em Berlim, Bremen, Leipzig e noutros centros industriais chaves. A oposição realizou sua primeira conferência nacional em Janeiro de 1917 e assumiu forma mais organizada. A maioria das lideranças do SPD não podia aceitar semelhante situação, e imediatamente expulsou a ala oposicionista. Esta levou consigo 120 mil afiliados do SPD para o novo e independente Partido Social Democrático da Alemanha – o USPD, enquanto 170 mil permaneceram no velho SPD.

O USPD entre reforma e revolução

O USPD formava uma aglomeração de tendências políticas unidas em oposição à guerra. Consistia de reformistas e revolucionários: Kautsky e Bernstein, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht eram todos membros do novo partido. O grupo espartaquista continuava a formar uma corrente autônoma do novo partido. O novo partido refletia o fermento em expansão entre a classe trabalhadora, e tornou-se um partido centrista clássico. Centrismo é um fenômeno em que o partido oscila entre idéias marxistas e reformistas. É instável. Os partidos centristas usualmente surgem em situações revolucionárias ou pré-revolucionárias, como na Revolução Espanhola com o POUM(10). O importante, no que toca aos partidos centristas, é a direção em que eles se movem. Em 1918 o USPD movia-se no sentido da revolução.

Fome e greves

As condições eram horríveis no inverno de 1917-18. Milhares de crianças alemães morriam de hipotermia. E os trabalhadores alemães sobreviviam com rações de fome. Nestas circunstâncias, a vitória da Revolução Russa em 1917 despertou efeitos eletrizantes. A revolução era discutida por todo o país, nas fábricas e nas trincheiras.

O primeiro decreto do novo governo Bolchevique dirigido aos povos de todo o mundo apelava para um armistício imediato e uma paz democrática baseada na autodeterminação das nações e na renúncia a anexações. Produziu poderoso efeito psicológico junto à classe trabalhadora mundial. No exército francês houve motins em massa; na França, na Grã-Bretanha, Áustria-Hungria realizaram-se vigorosas greves. Em Abril de 1917, a Alemanha experimentou a segunda greve geral contra a guerra. Mais de 200 mil operários pararam em Berlim e Leipzig.

Toda essa situação prosseguiu em Janeiro de 1918, culminando na maior parada dos anos de guerra, quando mais de um milhão de trabalhadores das indústrias bélicas protestaram contra o tratado de Brest-Litovsk(11), que o regime germânico impôs ao governo bolchevique. A greve foi amplamente organizada por um grupo denominado Delegados Sindicais Revolucionários, que mais tarde se juntou ao USPD, mantendo, porém, vida própria no interior do partido. Quando a greve terminou derrotada, mais de 100 mil grevistas foram convocados pelo exército e mandados para a frente de batalha. Lênin comentou mais tarde que essa ação marcou “uma mudança de sentimento no proletariado germânico”.

Uma classe dirigente desesperada

A classe dominante na Alemanha aterrorizou-se diante da fermentação revolucionária nas frentes de batalha. Nas palavras de Hintze, secretário de estado: “É necessário evitar uma sublevação de baixo para cima por meio de uma revolução de cima para baixo”. Rapidamente um governo “parlamentar” foi organizado encabeçado pelo príncipe Max von Baden, primo do Kaiser. Com o intuito de apaziguar as massas, incluíram o social-democrata Scheidermann(12) no governo.

Em Outubro, anunciou-se uma anistia para presos políticos, inclusive Liebknecht. Tal medida foi saudada por 10 mil operários berlinenses, mas Rosa Luxemburgo foi mantida na prisão. No entanto, essas reformas vieram muito tarde.

A frente militar começou a entrar em colapso. Mais de 200 mil soldados desertaram em 1918. O estado-maior dirigiu-se ao governo propondo armistício com os aliados, mas a proposta foi recusada. Numa atitude desesperada, o alto-comando germânico decidiu, em 28 de Outubro, lançar uma ofensiva no mar do Norte para salvar a honra da marinha alemã, arriscando as vidas de 80 mil homens numa patente ação suicida. Era a palha que quebrava a espinha do camelo.

Os marinheiros em vários navios de guerra realizaram manifestações, do que resultaram cerca de mil prisões. Os marinheiros restantes, preocupados com seus companheiros detidos, promoveram reuniões e manifestações. Uma patrulha enfrentou os manifestantes, abriu fogo e nove marinheiros foram mortos. Proibiu-se a manifestação, mas de qualquer forma os atos públicos de solidariedade para com os companheiros encarcerados continuaram. O choque pôs em movimento todos os marujos em Kiel e não houve recuo. Nessa noite, realizaram-se reuniões nos navios, e nos dias seguintes organizaram-se conselhos de marinheiros e soldados. Oficiais foram detidos e desarmados. Em terra firme, o SPD e o USPD juntos convocaram uma greve geral em apoio aos marinheiros, formando-se ao mesmo tempo conselhos de soldados. Em Novembro de 1918, a Revolução Alemã iniciou-se com motins em Kiel.

Conselhos de trabalhadores e soldados

A revolução alastrou-se com a velocidade de um raio. Em 06 de Novembro, conselhos de soldados, marinheiros e trabalhadores tomaram o poder em Hamburgo, Bremen e Lubeck. Durante os dois dias seguintes, Dresden, Leipzig, Chemnitz, Magdenburg, Bruswick, Frankfurt, Colônia, Stuttgart, Nuremberg e Munique acompanharam.

Em 09 de Novembro, conselhos de trabalhadores e soldados constituíram-se em Berlim, o anterior centro da revolução, no quartel supremo do exército. Trabalhadores e soldados espontaneamente criavam os conselhos como na Rússia em 1905 e, de novo, em 1917, e recentemente na Bolívia. Em poucos dias um poder surgiu desafiando o estado. Uma situação de poder dual existia, situação também similar à da Rússia entre Fevereiro e Outubro de 1917.

Na realidade, o poder permaneceu nas mãos dos trabalhadores e soldados, mas eles não compreenderam o que fazer para mantê-lo. Como na Rússia em Fevereiro de 1917, eles ainda não distinguiam a diferença entre as várias tendências socialistas. Por lealdade e tradição, muitos trabalhadores permaneceram no SPD porque tinham lutado para construí-lo, mesmo que não concordassem com a política de suas lideranças. Na Alemanha, à semelhança do que ocorreu na Rússia, somente através da experiência podiam os trabalhadores avaliar seus partidos e aprender, então, a distinguir uns dos outros. De início, as massas viam o SPD como sua organização tradicional, a despeito da traição de seus líderes. Nesse contexto, o USPD desempenhou importante papel, mesmo que secundário. Os trabalhadores entregaram o poder aos líderes do SPD.

Revolução – um pecado

Mesmo que a liderança do SPD recebesse o poder das mãos dos trabalhadores, ela não tinha intenção de aplicá-lo no interesse destes. Os novos líderes na direção do SPD, Ebert(13), Noske(14) e Scheidemann, sentiam tão somente desprezo pelos trabalhadores e marinheiros, e faziam o possível para mantê-los acomodados. Estes dirigentes consideravam sua mais importante tarefa deter a revolução. Quando o príncipe Max von Baden indagou de Ebert, líder do SPD, se ele estaria do seu lado se convencesse o Kaiser a abdicar, Ebert respondeu-lhe: “Se o Kaiser não abdicar a revolução será inevitável. Eu não desejo isto – de fato, eu a odeio tal qual um pecado”. Mas o Kaiser tinha perdido todo o contato com a realidade e recusou abdicar. Ao invés disto, pediu que o povo fosse metralhado afim de deter a revolução, ao que um general teve de dizer-lhe que não mais dispunha de um exército obediente a suas ordens. Sob pressão das massas, o SPD retirou-se do novo governo e Max von Baden imediatamente anunciou que o Kaiser tinha abdicado, só informando o Kaiser após o fato.

Viva a República!

A classe dirigente juntamente com Max von Baden estava desesperada. A única saída que viam era a indicação pelo Kaiser de Ebert como Chanceler do Reich a fim de desviarem o ímpeto revolucionário das massas no sentido do parlamentarismo. Entretanto as massas em Berlim permaneciam nas ruas. Desde cedo, na manhã de 09 de Novembro, o USPD distribuía panfletos nas fábricas de Berlim, convocando o povo para um levante. A revolução estava na ordem do dia. Soldados de armas na mão; mulheres e crianças e as massas trabalhadoras berlinenses reuniram-se no centro da capital.

Ebert tentou chegar a um acordo com o USPD para que este participasse do governo; mas o USPD retardou a resposta. O SPD apressou-se em convocar o que chamava de conselho de operários e soldados, reivindicando a formação de uma república socialista. A demonstração alcançou o edifício do parlamento, e quando o social-democrata Scheidemann a ela dirigiu-se do balcão espontaneamente declarou que Ebert tornara-se Chanceler. E então gritou “Viva a Grande República Alemã!” Quando Ebert soube da notícia se enfureceu e disse a Scheidemann que ele não tinha o direito de proclamar a república, mas já era muito tarde. A notícia espalhou-se. Mais tarde, no mesmo dia, Liebknecht, da mesma sacada declarou que a república socialista tinha sido aceita. Mesmo que a república socialista estivesse distante da realidade, a declaração revelava o estado de espírito reinante em Berlim.

Poder dual

Nessa manhã os delegados dos trabalhadores revolucionários organizaram enorme manifestação dos conselhos operários e soldados em Berlim. Convocaram um comício para o dia seguinte com representantes de todas as fábricas e quartéis. O SPD aceitou a iniciativa, mesmo que ela contradissesse sua própria proposta de convocação de uma Assembléia Constituinte. O SPD levou toda a noite a mobilizar seus seguidores nas fábricas e especialmente nos quartéis. Enquanto isto, o SPD e o USPD concordaram em formar um governo com três ministros de cada partido.

Da reunião participaram 1500 delegados, operários e soldados armados. O SPD tinha preparado os soldados dizendo-lhes que defendessem “os interesses de todo o povo” contra o domínio de uma só classe, o que, em termos concretos, significava que eles deviam aceitar a coalizão governamental contra o poder dos conselhos. Mesmo assim a maioria dos representantes operários ficou com o USPD. De armas na mão, os soldados organizados pelo SPD impuseram a eleição de um conselho de comissários do povo com a mesma divisão de representantes da coalizão governamental, isto é, a paridade entre o SPD e o USPD.

Ebert subitamente achou-se à frente ao mesmo tempo de um governo parlamentar e de um governo revolucionário de comissários do povo. O SPD conseguira enorme vitória no desenrolar da revolução que fizera tudo para evitar. Em local diferente dos conselhos operários e de soldados, o SPD manobrou defendendo posições muito além de sua representação e exigiu paridade entre os partidos todas as vezes que estivessem em minoria, muito além de sua representação paritária em cujas direções sempre estiveram em minoria. Mesmo que os líderes do SPD fizessem todo o possível para evitar a revolução, naquele exato momento ela tinha começado.

Assembléia Constituinte

Não obstante o poder permanecesse com os conselhos de trabalhadores, os comissários do povo rapidamente familiarizaram-se com a burocracia do velho estado e também com alto comando alemão. O objetivo dos líderes social-democratas era o de restabelecer a ordem tão cedo quanto possível, de forma que o poder pudesse voltar para a classe dominante e uma revolução socialista fosse evitada. Com este propósito, precisavam convocar a Assembléia Constituinte.

A meta dos Espartaquistas era convocar um Congresso Nacional dos Conselhos de Trabalhadores e Soldados como base para uma genuína república operária. À medida que a ameaça imediata de revolução se tornou menos intensa, a burguesia que apoiara a monarquia, agora, de súbito, se voltou para os republicanos, e colocou todo seu peso no apoio da convocação de uma Assembléia Constituinte com o objetivo de sabotar a ação dos conselhos operários.

A exigência de uma Assembléia Constituinte suscitou acirrada controvérsia entre os revolucionários. No decorrer da luta contra a autocracia, a demanda de uma Assembléia Constituinte tinha sido a reivindicação democrática das massas, mas agora havia outro poder: o poder dos conselhos operários e soldados. Na Rússia, este poder constituiu a base do poder dos trabalhadores.

Os bolcheviques recorreram ao slogan de uma Assembléia Constituinte Revolucionária para estabelecer uma ligação com as aspirações democráticas das massas e sua luta contra o tzar. Dependendo da relação de forças das classes, pode uma Assembléia Constituinte transformar-se num fórum em que representantes operários ganhem o mais amplo apoio possível para um programa de mudanças revolucionárias. Os bolcheviques recorreram ao slogan de “todo o poder aos sovietes”. Eles explicaram as vantagens de uma democracia soviética relativamente a uma Assembléia Constituinte e a impossibilidade de unir os conselhos de trabalhadores ao Estado burguês.

Ganhar as massas

Os Espartaquistas, então uma diminuta minoria da classe trabalhadora alemã, assumiram uma atitude de extrema esquerda em relação à Assembléia Constituinte. Eles haviam compreendido o real significado dos Conselhos de Trabalhadores e Soldados, mas não entenderam que a grande maioria dos trabalhadores alemães ainda mantinha ilusão na democracia parlamentar e que a tarefa dos revolucionários era pacientemente explicar e destruir tais ilusões.

Nas palavras de Lênin, sua tarefa era conquistar as massas. Ao invés disso, os Espartaquistas rejeitavam todos aqueles que defendessem a idéia de uma Assembléia Constituinte e denunciavam os líderes do SPD e do USPD como “disfarçados agentes da burguesia”. Mesmo que Luxemburgo e Liebknecht tivessem compreendido que as massas tinham de passar por este estágio, os jovens Espartaquistas se impacientavam e diziam que, se necessário, eles dissolveriam a Assembléia Constituinte através das armas.

Os Espartaquistas eram revolucionários corajosos, mas lhes faltava a compreensão da estratégia e da tática. Viram isto como se fosse uma escolha simplista entre a burguesia e a democracia socialista. Assumiram essa atitude involuntariamente, fazendo o jogo das lideranças reformistas, que podiam, em conseqüência, retratar os Espartaquistas como terroristas e antidemocratas.

No entanto, Lênin explicou que uma coisa é dispor de uma posição teórica elaborada, e outra, bem diversa, é aplicá-la em situações concretas. A tarefa é ligar-se ao estágio de consciência das massas; explicar-lhes pacientemente e com elas avançar, acumulando experiência com elas passo a passo e gradativamente elevar sua seu nível de consciência.

Golpe evitado

No final de Novembro, o estado-maior alemão, juntamente com Ebert, planejou ocupar Berlim com tropas leais, tomando o poder das mãos dos conselhos e formando um governo forte. Em Dezembro, seis corpos de tropas marcharam sobre a chancelaria, proclamaram Ebert presidente e tentaram impor definitivamente um regime militar. Ebert vacilava e dizia que precisava discutir o assunto com seus colegas governamentais. Entretanto, soldados obedientes ao governo empastelaram o jornal espartaquista, o Rote Fahne (Bandeira Vermelha), e atacaram uma manifestação desta corrente, matando 14 manifestantes, enquanto outra tropa prendia o Comitê Executivo dos Conselhos de Trabalhadores e Soldados berlinenses. Espontaneamente, uma multidão de operários enfrentou os soldados do Reichswehr(15), libertou os membros do Conselho Executivo e a partir daí afastou a ameaça de golpe.

Os líderes do SPD tentaram culpar os Espartaquistas, que reagiram organizando manifestações de massa. Uma demonstração de 150 mil populares demonstrou o ódio dos trabalhadores de Berlim em 08 de Dezembro. Mais tropas começaram a chegar a Berlim e foram saudadas por Ebert, porém os soldados confraternizaram com seus companheiros da capital alemã; a classe dominante viu-se obrigada a recuar.

Congresso Nacional dos Conselhos

Em l6 de Dezembro, um Congresso Nacional dos Conselhos de Trabalhadores e Soldados reuniu-se em Berlim. A liderança do SPD articulou-se com conselhos locais, e de suas articulações surgiram regras para a eleição dos delegados, quer dizer, uma conferência totalmente fora de sintonia com a situação no resto da Alemanha. Quatro quintos dos 489 delegados eram membros do SPD ou apoiavam-no, 195 eram partidários e ativistas sindicais de tempo integral – superando os 187 delegados operários remunerados. Como se poderia prever, vasta maioria apoiava a convocação da Assembléia Constituinte, agendando-a para Janeiro de 1919.

De qualquer maneira, a maioria apoiava o SPD e era muito avançada em muitos aspectos. Ela apresentava resoluções majoritárias exigindo a abolição do exército permanente e o estabelecimento de milícias populares. Exigiam que todas as divisas e galões fossem abolidos, permitindo-se ainda que todos os soldados elegessem oficiais com o direito de imediata destituição, se necessário, e ainda que aos conselhos de soldados coubesse a responsabilidade pela manutenção da disciplina em todas as forças armadas. Outra resolução chave, aprovada por vasta maioria, exigia a imediata nacionalização de todas as principais indústrias.

Mas os ministros do SPD não tinham a intenção de satisfazer tais reivindicações, e estabeleceram laços ainda mais estreitos com o alto-comando alemão. Em 23 e 24 de Dezembro ocorreram enfrentamentos entre o exército regular e marinheiros amotinados em Berlim. O governo havia solicitado a desmobilização da metade dos marinheiros e quando eles a recusaram o governo mobilizou suas tropas contra eles, matando 67 marinheiros. Não foi a primeira vez que lançaram tropas contra trabalhadores e soldados, mas desta vez isto acarretou a renúncia dos ministros do USPD. O membros do SPD, inclusive Gustavo Noske, o proclamado cão de guarda dos governantes, os substituiu.

A fundação do KPD

Rapidamente a situação radicalizou-se e polarizou-se. No fim de Dezembro, a pressão aumentou dentro da Liga Espartaquista para que ela se transformasse de uma vaga organização federativa num Partido Comunista centralizado.

Em primeiro lugar, os Espartaquistas deram um ultimato ao USPD para que um congresso de emergência fosse convocado com o intuito de discutir-se a nova situação. Era claro que os dirigentes do USPD não aceitariam a exigência, e os Espartaquistas prosseguiram em seus propósitos realizando o congresso em 29 de Dezembro. Ao congresso compareceram 127 delegados, e o Partido Comunista da Alemanha (KPD) foi fundado. À semelhança de muitos outros partidos comunistas recém-fundados, o KPD compunha-se de jovens de tendência ultra-esquerdista. O partido aprovou resolução, contrariando uma advertência de Rosa Luxemburgo, de 62 votos contra 23 votos, para que se boicotassem as eleições da Assembléia Nacional Constituinte em Janeiro. A medida foi um erro. Lênin explicou em relação à Rússia que o slogan “abaixo o governo” era errôneo enquanto os bolcheviques não conquistassem a maioria dos trabalhadores organizados em seu favor.

Outra resolução propôs o boicote de trabalho dentro dos sindicatos tradicionais. A resolução afirmava que “os comunistas estavam determinados a continuar da forma mais determinada na luta contra os sindicatos!” Muitos dos comunistas jovens não chegaram a compreender que as massas podiam transitar através de suas organizações tradicionais, os sindicatos de trabalhadores. Antes da revolução de Novembro, existiam 1,5 milhões de trabalhadores sindicalizados. No final de Dezembro de 1918, eram 2,2 milhões, e lá para o fim de 1919 já chegavam a 7,9 milhões.

Com grande dificuldade, a liderança do partido adiou qualquer decisão sobre o congresso de fundação, mas a disposição era clara no seio da maioria do novo Partido Comunista. Durante o congresso, negociações foram conduzidas com os quadros sindicais revolucionários para que se filiassem ao KPD. Mas quando eles notaram a tendência ultra-esquerdista predominante no congresso preferiam permanecer no USPD. Desta maneira o KPD perdeu importante oportunidade de firmar uma base entre os operários, especialmente em Berlim, e as tendências ultra-esquerdistas surgidas no congresso de fundação puderam manter forte presença no partido.

A situação chega a um ponto crítico

No início de Janeiro de 1919, o Estado encontrava-se em crise. Parte da classe operária começou a impacientar-se, especialmente em Berlim. Mas havia grave perigo de que os trabalhadores berlinenses tentassem tomar o poder sozinhos e ficassem isolados; a mesma coisa aconteceu na Rússia em Julho de 1917. Os trabalhadores de São Petersburgo impacientaram-se e quiseram retomar a iniciativa revolucionária, mas não estavam à frente dos trabalhadores e camponeses do resto da Rússia. Os bolcheviques advertiram os trabalhadores em São Petersburgo contra a organização de uma manifestação de massa armada, mas dela participaram e tentaram dar-lhe um caráter organizado e pacífico. Essa atitude conseguiu para os bolcheviques enorme prestígio junto à classe trabalhadora, que se prepararam para conseguir maioria no seio dos sovietes.

Mas a classe dirigente estava ficando impaciente e buscava alguma ação. Ebert e os oficiais do exército planejaram atacar os Espartaquistas. Em 29 de Dezembro Ebert solicitou a Noske e aos Freikorps – uma fração de voluntários anti-bolqueviques do exército – para dirigir o ataque. Noske tornara-se o Comissário Popular da Defesa em 06 de Janeiro. Campanha virulenta contra os Espartaquistas – especialmente Luxemburgo e Liebknecht – foi desencadeada pela imprensa burguesa, coadjuvada pelo jornal social-democrata. Simultaneamente, o governo SPD também iniciou campanha contra o chefe de polícia de Berlim, Emil Eichorn, porque ele era membro do USPD e reconhecido revolucionário. O SPD atacava Eichorn objetivando provocar os Espartaquistas, o USPD e os operários de Berlim levando estes a uma ação prematura. Muitos trabalhadores viam Eichorn como o último baluarte para a defesa da cidade.

Em 03 de Janeiro Eichorn foi concitado a renunciar, mas recusou fazê-lo. O executivo do USPD em Berlim, que mantinha conversações com os quadros sindicais revolucionários, aprovou uma resolução de apoio a Eichorn e reuniu-se com os líderes do KPD.

Deliberação sem fim

Juntos o USPD, o KPD e os quadros sindicais promoveram uma manifestação de massa em 05 de Janeiro de 1919. Cem mil trabalhadores marcharam em direção aos quartéis da polícia. Um comitê revolucionário foi organizado com representantes do USPD, KPD e os quadros sindicais revolucionários. Foram informados de que a guarnição de Berlim os apoiava e que podiam confiar na ajuda militar. Com este provável apoio, decidiram aproveitar a oportunidade para tentar derrubar o governo do SPD. No dia seguinte, 500 mil trabalhadores declararam-se em greve e aconteceu grande manifestação. Vários locais foram ocupados pelos operários: o Vorwärts, jornal do SPD, as estações ferroviárias, armazéns de produtos alimentícios etc. O comitê revolucionário ficou em sessão permanente durante a mobilização de massas, mas não tinha um plano de ação claro, daí porque não podia oferecer diretrizes claras.

A seguinte citação de um dirigente anônimo do KPD, alguns anos mais tarde, afirma isso claramente:

“A massa estava aqui desde muito cedo, a partir das nove horas, debaixo do frio e da névoa. Os líderes estavam em sessão algures, deliberando. A névoa tornou-se mais densa e as massas continuaram a aguardar. Mas os líderes ainda deliberavam. Chegou o meio-dia, e a fome juntou-se ao frio. E os líderes continuavam a deliberar. Enquanto isto, as massas deliravam de excitação. Elas queriam ação, algo que aliviasse o delírio. Ninguém sabia o quê. E os líderes deliberavam. A névoa tornou-se mais densa; seguiu-se o crepúsculo. A massa voltou para casa tristonha, pois ansiavam por algum acontecimento grandioso, e nada tinha sido feito. E os líderes continuavam a deliberar. Tinham deliberado no Marstall(16). Eles continuaram nos quartéis da polícia, e ainda deliberavam. Os trabalhadores permaneceram lá fora na vazia Alexander platz, portando carabinas, metralhadoras leves e pesadas. Lá dentro eles, os dirigentes, ainda deliberavam. Nos quartéis da polícia, as armas permaneciam apontadas, e havia marinheiros por todo canto, e em todos os cômodos dando para a rua havia uma massa febril de soldados, marinheiros e trabalhadores. Lá dentro os líderes permaneciam sentados a deliberar. Permaneceram sentados toda tarde, toda noite… e deliberavam. E sentados estavam pela madrugada do dia seguinte – e ainda deliberavam. Eles deliberavam e deliberavam”. (Pierre Broué, The German Revolution 1917-1923).

A liderança do KPD, a Zentrale, tinha chegado à mesma conclusão que os bolcheviques em Julho de 1917: era muito cedo para derrubar o governo, visto que os trabalhadores mais avançados, o operariado de Berlim, ficaria isolado. Mas os membros do KPD atuando no comitê revolucionário – Liebknecht e Pieck(17) – foram impulsionados pela vigorosa manifestação e mudaram de posição. Terminaram apoiando a resolução que conclamava à insurreição. Mas, enquanto o comitê revolucionário conclamava à insurreição, não se tinha feito nada para prepará-la e não havia plano algum para tomar o poder. O comitê revolucionário ficou completamente impotente e sua vacilação e discussão interminável, sem plano e sem diretrizes claras, ensejaram que a contra-revolução ganhasse força. A vacilação também implicou nas conseqüências catastróficas de confusão e desorientação da classe trabalhadora.

Trotsky, em sua obra-prima Lições de Outubro, explica como o tempo é fator decisivo numa revolução. Uma situação revolucionária pode, afinal, ser decidida em 24 horas. Liderança revolucionária que vacila torna-se, assim, fatal para a revolução.

“Se há vacilações da parte dos líderes, transmitidas aos seguidores elas geralmente tornam-se perigosas na política, e logo se transformam em risco mortal nas condições de insurreição armada”. (Trotsky, Lições de Outubro).

Mesmo que a liderança do KPD inicialmente tivesse sido contrária à insurreição, todos eles, inclusive Rosa Luxemburgo, recusaram conclamar a uma retirada quando a luta começou. Afirmaram que era uma questão da honra e dos princípios revolucionários. Mas algumas vezes a retirada pode tornar-se necessária nos embates, a fim de preparar-se devidamente a próxima ofensiva. A revolução não se decide por motivo de honra, mas pela relação de forças entre as classes.

Contra-revolução e greves

Em 10 de Janeiro e nos dias seguintes, os Freikorps e outras tropas convocadas por Noske entraram na cidade. O governo estava determinado a tomar de volta o edifício do Vorwärts e atacou-o com artilharia pesada. Os 300 operários que o ocupavam renderam-se. Outros 156 foram mortos.

Rapidamente os dois dirigentes do KPD, Jogiches(18) e Eberlein foram presos, e um prêmio de 100 mil Marcos foi oferecido pelas cabeças de Liebknecht e Luxemburgo. Até mesmo o Vorwärts aderiu à campanha afirmando que era melhor que esses dirigentes fossem mortos!

Em 15 de Janeiro, os oficiais reacionários dos Freikorps prenderam Liebknecht e Luxemburgo, que foram levados para “investigação”. Liebknecht foi levado sob escolta e oficialmente “fuzilado quando tentou escapar”. Em seguida, Luxemburgo teve a cabeça esmagada a coronhadas de metralhadora, levada ao Tiergarten e atirada inconscientemente no canal. Seu corpo só foi encontrado em 31 de Maio. Os oficiais responsáveis pelo assassinato escaparam mais ou menos impunes. Na realidade, os responsáveis pelos assassinatos eram os governantes da social-democracia.

Os alemães e a classe operária internacional tinham perdido dois dos mais proeminentes líderes. Rosa Luxemburgo até o fim manteve sua inabalável fé na coragem e na capacidade de luta da classe operária. Seu último artigo, “A Ordem Prevalece em Berlim”, que foi publicado no Rote Fahne um dia antes de seu assassinato, fecha com as palavras:

“A ordem prevalece em Berlim! Vocês, lacaios idiotas! Tua ‘ordem’ assenta na areia. Amanhã a revolução se reerguerá outra vez, estrugindo suas armas, e para teu horror proclamará com clarins vibrantes: eu fui, eu sou, eu serei!”

Após o esmagamento do levante espartaquista, os Freikorps e outras forças contra-revolucionárias tomaram a iniciativa em várias províncias a fim de restaurar “a lei e a ordem”. Dissolveram os conselhos de operários e soldados à força, e milhares foram mortos enquanto tentavam defender suas organizações. No fim de Fevereiro, 1500 delegados reuniram-se na Assembléia Geral dos Conselhos em Berlim a fim de discutir ações de solidariedade para com os trabalhadores da Alemanha Central. A composição refletiu um equilíbrio de forças diverso no seio da classe trabalhadora, e mostrou que a sorte da revolução não estava decidida.

Os representantes do USPD e do KPD agora superavam os do SPD. Surgiram proposições para a dissolução dos Freikorps e libertação dos prisioneiros políticos; e 90% dos presentes votaram a favor de uma greve geral de apoio às resoluções.

Num só dia, Berlim foi tomada por uma greve maciça. Lutas surgiram em Berlim e ergueram-se barricadas quando os Freikorps tentaram restaurar a ordem. Noske assumiu poderes ditatoriais em Berlim e imediatamente deu ordens para que 30 mil soldados dos Freikorps entrassem na cidade. Em 09 de Março os Conselhos de Trabalhadores e Soldados decidiram pôr um fim à greve com o intuito de aplacar Noske e os Freikorps. Mas o contrário aconteceu: Noske anunciou que qualquer pessoa portando armas contra as tropas governamentais seria fuzilada de imediato.

Quando a luta terminou de 2 mil a 3 mil trabalhadores tinham sido mortos e pelo menos 10 mil feridos. Em 10 de Março, Jogiches, presidente do KPD, foi assassinado numa delegacia de polícia quando “tentava escapar”.

Democracia burguesa

Seguindo o derramamento de sangue em Berlim, as eleições foram realizadas em 19 de Janeiro. O KPD delas não participou o que, conforme mencionado, significou um erro desde que a massa operária ficaria sem nenhuma alternativa.

Tanto o SPD quanto o USPD conseguiram bons resultados, o SPD obtendo 11,5 milhões de votos e o USPD, 2,5 milhões. O SPD primeiro procurou o USPD com vistas à formação de um governo de coalizão, mas o USPD recusou. O SPD então se aproximou dos partidos burgueses, que até mesmo aceitaram a idéia de socialização com o objetivo de evitar a revolução. Mas essa derrota não foi o fim. Diversas vezes, subseqüentemente, a classe trabalhadora alemã tentou tomar o poder, antes que fosse definitivamente derrotada em 1923.

A despeito dos muitos erros do KPD, ele teve muitas oportunidades para assumir a liderança da classe operária e levá-la exitosamente a uma revolução completa. Ele falhou, mas não devido ao fato de que a classe trabalhadora alemã não pudesse ou não quisesse lutar – muito pelo contrário. Essa é sempre a desculpa daqueles que são incapazes de apontar o caminho para o avanço e que usam a classe trabalhadora como desculpa para suas próprias falhas. A classe operária alemã demonstrou enorme espírito combativo, coragem e criatividade. O problema residia na ausência de um partido revolucionário. A Revolução alemã, juntamente com a experiência da Revolução Russa, mostra mais do que outra coisa a necessidade de um partido revolucionário.

A classe trabalhadora alemã demonstrou coragem e determinação de luta sem limites. O que lhe faltava era uma liderança com um plano claro e consciente. Tal liderança não pode ser improvisada no calor da luta; tem de ser cuidadosamente preparada de antemão. O erro de Luxemburgo e Liebknecht é que eles não conseguiram formar uma organização de quadros, que significa marxistas treinados e com raízes entre as massas. Sua falta de quadros treinados permitiu que tendências ultra-esquerdistas ganhassem ampla influência dentro do KPD, e assim não houve liderança capaz de conduzir os trabalhadores à vitória.

A falha de Rosa Luxemburgo em construir um partido de massas revolucionário não decorreu, conforme alguns alegam, devido ao fato de que ela não tivesse rompido mais cedo com a Social-Democracia a fim de formar um pequeno grupo independente e isolado das massas. Lênin e os bolcheviques eram a ala revolucionária da Social-Democracia Russa até 1912, e a história mostra que os partidos comunistas não surgem de um céu azul, mas de cisões maciças das velhas social-democracias. Quando as massas começam a se movimentar, elas o fazem através de suas tradicionais organizações.

O erro de Luxemburgo foi, conforme explicado no livro Germany: from revolution to counterrevolution (Alemanha: da Revolução à Contra-revolução), de Rob Sewell, que ela não criou antes uma tendência bem organizada e homogênea no interior do SPD. O Internationale Group não foi criado antes de 1916 e era, à semelhança dos Espartaquistas, uma federação vaga de indivíduos e grupos. Foi apenas nos últimos dias de sua vida que Rosa Luxemburgo chegou a compreender a necessidade de um partido revolucionário.

Faz agora 90 anos desde que a primeira revolução alemã foi derrotada. Hoje vivemos num mundo de guerras. Fecham-se fábricas, milhões formam filas de miseráveis, quando ao mesmo tempo necessitamos de escolas, hospitais e moradias decentes. Não há dúvida que há necessidade de construir-se uma sociedade socialista sob o controle da classe trabalhadora, a grande maioria. Conforme observamos, os conselhos de trabalhadores alemães, a classe operária, eram detentores de grande coragem e capacidade de organização.

No futuro, a classe trabalhadora movimentar-se-á outras vezes para tomar o poder. Cabe a todos nós fazer tudo dentro de nossas possibilidades para construir as forças que poderemos oferecer à classe operária: uma direção revolucionária consciente. É preciso construir a Corrente Marxista Internacional dentro do movimento operário. Cabe-nos estudar a Revolução Alemã e conscientizar-nos de que os sacrifícios não foram em vão!

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Tradução do artigo Forward without forgetting – 90 years after the German Revolution, de Marie Fredericksen, publicado no site da CMI, em 27/02/2009.

Tradução de Odon Porto de Almeida.

Notas do tradutor

1) Rosa Luxeburgo (1871-1919). Nasceu em Zamoshc, Polônia, no seio de uma numerosa família judia. Aos 18 anos de idade, a fim de evitar a prisão por causa da agitação revolucionária em que se empenhava, teve de mudar-se para Zurique (Suíça), onde continuou suas atividades políticas, ao mesmo tempo em que estudava economia; doutorou-se em 1898. Manteve contatos com social-democratas russos, entre os quais Georgy Plekhanov e Pavel Axelrod. No entanto, suas diferenças teóricas foram sempre agudas, e ela chegou a romper simultaneamente com o Partido Social-Democrata Russo e o de sua pátria. Seu assassino, o soldado Otto Runge (1870-1945), foi preso e submetido a uma farsa de julgamento, recebendo uma pena de prisão irrisória. Logo que Hitler assumiu o poder (1933), o assassino, há bastante tempo livre, conseguiu uma indenização de 6 mil marcos alegadamente por serviços prestados à pátria alemã.

2) Karl Liebknecht (1871-1919). Filho de Wilhelm Liebknecht, um dos fundadores e dirigente, em 1907, da Juventude Internacional socialista. K.Liebknecht, na qualidade de membro do Reichstag, foi o único deputado a opor-se à aprovação dos créditos de guerra em 1914. Como outros, liderou o levante de Berlim em 1919, motivo pelo qual foi barbaramente assassinado por milicianos contra-revolucionárias em Berlim.

3) Eduardo Bernstein. (1850-1932). Filho de um funileiro alemão. Estudou técnicas comerciais e bancárias. A partir de 1872 participou do movimento socialista alemão. Perseguido em sua pátria, exilou-se em 1878 na Suíça. Em 1899, publicou em Londres uma obra que o caracterizou como o teórico do revisionismo, renunciando, portanto, ao Marxismo revolucionário. Voltando para a Alemanha em 1901, manteve polêmicas com Kautsky, permanecendo, no entanto, segundo alguns, teoricamente marxista. Foi deputado ao Reichstag, em três períodos distintos. No decorrer da I Guerra Mundial, fundou com outros correligionários o USPD.

4) Karl Kausky (1854-1938). Nasceu em Praga, Tchecoslováquia. Graduado pela Universidade de Viena (Áustria) em 1874. Em 1875 filiou-se ao Partido Social-Democrata deste pais. Tornou-se um dos mais conhecidos teóricos da II Internacional. Embora amigo íntimo de Engels, por vezes deste foi alvo de severas críticas. Empenhou-se em popularizar as obras de Marx. Mais tarde, Lênin não o poupou, chamando-o de ‘renegado’. Persistentemente assegurava que a democracia capitalista era a mais importante meta da classe trabalhadora. Considerava que a classe operária alemã superestimava o perigo do nazismo.

5) Stauning Thorwald (1873-1942). Político dinamarquês. Fundador, em 1910, do Partido Socialista daquele país. Presidente do conselho de ministros em vários períodos. Realizou importantes reformas sociais e firmou em sua política externa o princípio de neutralidade absoluta da Dinamarca. Após a ocupação nazista, impôs ao general Pryor, comandante-em-chefe do exército dinamarquês, sua orientação, assim conseguindo, de certo modo, até sua morte, evitar a ingerência da potência ocupante na política de sua pátria.

6) Reichstag – Na república de Weimar (1919-1933), denominação da câmara de deputados eleita por sufrágio universal.

7) Vorwärts – Em alemão quer dizer avante.

8) Franz Mehring (1846-1919). Crítico literário, autor e historiador alemão. Inicialmente jornalista liberal. Ocupou a liderança da ala esquerdista do SPD, ajudou a fundar o KPD. Muito ligado a Rosa Luxemburgo e K. Liebknecth. Faleceu pouco depois do assassinatos dos dois. É autor de variada obra. Sua biografia de Karl Marx foi publicada no Brasil nos anos 1940s pela Editorial Calvino Ltda.

9) Zimmerwald – Localidade perto de Berna, onde se reuniram, de 5 a 8 de Setembro de 1915, delegados socialistas de 11 países. Na reunião, aprovou-se uma resolução redigida por Trotsky, exigindo paz sem anexações, ao mesmo tempo em que propugnava pela autodeterminação dos povos.

10) POUM – Partido Obrero de Unificación Marxista – Partido comunista não-stalinista, fundado em Barcelona em Setembro de 1935. Defendia a unificação entre o Partido Comunista da Espanha e o Partido Socialista Obrero Español (PSOE). Integrou a frente Popular nas eleições de 1936. Todos os seus dirigentes pertenceram ao Partido Comunista da Espanha. Foi possivelmente a organização de esquerda mais radical da Espanha, um dos motivos por que se transformou em alvo da criminosa perseguição stalinista, até ser praticamente dizimado através de expurgos em que seus principais dirigentes, em geral acusados de trotskysmo, pereceram. A rigor, os tristes Processos de Moscou, entre 1936 e 1938, tiveram seu prelúdio na Espanha.

11) Tratados de Brest-Litovsk – Assinados pela Alemanha e seus aliados com a Ucrânia e a Rússia socialista em Fevereiro e Março de 1918. Foram objeto de duradoura polêmica, entre os bolcheviques, porém considerados por Lênin como uma pausa para que a Rússia, então reconhecidamente enfraquecida, respirasse, momentaneamente na expectativa de revoluções nos países mais industrializados. Foram revogados pelo Tratado de Versalhes, assinado em 28 de junho de 1919.

12) Phillip Scheidemann (1865-1939). Líder da ala de extrema-direita do Partido Social Democrata. Aliou-se à Reichswehr e aos corpos francos para esmagar a revolução comunista em Berlim em 1919. Após a ascensão de Hitler ao poder, exilou-se na Dinamarca onde faleceu.

13) Frederico Ebert (1871-1925). Seleiro, dirigente sindical, jornalista. Exerceu a liderança do Partido Social-Democrata. Como partidário da manutenção da monarquia, era contrário à proclamação da República. Colaborou para o esmagamento das tentativas revolucionárias de 1923.

14) Gustav Noske (1868-1946). Político alemão, filho de operário e operário por sua vez, exerceu vários ofícios. Iniciou sua militância no SPD e foi redator de jornais do mesmo partido. Em 1906 elegeu-se deputado ao Reichstag, dedicando-se a assuntos militares e navais, o que facilitou suas ligações com o Estado-Maior germânico durante a I Guerra Mundial. Nomeado governador de Kiel, esmagou a rebelião dos marinheiros em 1918. Favoreceu a criação dos corpos francos, tornando-se, em 1919, o odiado carniceiro do movimento revolucionário dos trabalhadores alemães.

15) Reichswehr – (em alemão, exército do Império). Designação do exército alemão de 1919 a 1935. Seus efetivos deviam limitar-se a 96 mil soldados e suboficiais, engajados por doze anos, ficando a Alemanha privada de carros de combate e artilharia pesada, por injunção do tratado de Versalhes.

16) Marstall – Cavalariça militar. Originariamente, um estábulo construído na primeira metade do século XVI às margens do rio Neckar, em local onde existiu um arsenal solarengo. A partir de 1971, passou a servir de salão de conferências da Universidade de Heidelberg.

17) Wilhelm Pieck (1876-1960). Operário, atuou na social-democracia a partir e 1894. Pertencente à ala esquerda social-democrata da qual faziam parte Rosa Luxemburgo e Liebknecht – fez parte desde o início do movimento Espartaquista. Deste originou-se o Partido Comunista da Alemanha (KPD) em 1919. Foi eleito ao parlamento da Prússia e depois ao Reichstag. Em 1933 emigrou, fugindo do domínio nazista. Presidiu uma conferência realizada em Bruxelas em 1935 para estudar as causas da ascensão de Hitler ao poder. Em 1939 vai para a União Soviética, donde volta para sua pária em Maio de 1945. Em 1946 foi eleito co-presidente do Partido Socialista da República Democrática da Alemanha juntamente com Grotewohl.

18) Leo Jogiches, ou Jan Tyzka (1867-1919). Companheiro de Rosa Luxemburgo. Participou do movimento operário polonês e alemão. Preso em março de 1919, foi assassinado numa prisão de Berlim.

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