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As manifestações do dia 13 e os dilemas da burguesia

As manifestações militantes pelas Diretas Já, Fora Collor e de junho de 2013 tiveram a capacidade de mudar a situação política no país. As atuais manifestações pelo impeachment são desnervadas e se dissolvem como pó logo após seu encerramento. A grande diferença é de classe. As manifestações deste domingo foram convocadas por grandes empresas, federações patronais, Associação Nacional de Médicos, jornais burgueses e partidos. Reuniram uma numerosa pequena burguesia que tem visto seu padrão de vida ameaçado e que, desiludida e chocada com o aprofundamento da crise, destila seus preconceitos de classe e sua raiva impotente.

Os três grandes jornais burgueses se apresentaram nesta segunda como a burguesia e seus políticos, divididos. Cada um pensa uma coisa diferente.

Apresentaram três editoriais distintos. O Estadão continua na linha de tirar Dilma o mais rápido possível. Sua palavra de ordem é “Impeachment Já!”.

A Folha diz que “a palavra está com a presidente. Os atos superaram as previsões mais pessimistas do Planalto… o país permanece dividido – e numa crise que, de uma forma ou de outra, é urgente superar”, ou seja, gostaria de uma renúncia.

O Globo não conseguiu chegar a nenhuma conclusão sobre o que fazer. Parece estar em outro mundo e discute sobre a prisão (ou não) de condenados em segunda instância.

Todos eles dizem que as manifestações deste domingo foram maiores que as Diretas Já e teriam sido “as maiores manifestações do Brasil”. Mentem como sempre. Inflam os números e dizem o que desejam que tivesse acontecido. As manifestações das Diretas Já foram realizadas há 32 anos atrás e colocaram milhões nas ruas em todo o Brasil. As manifestações do “Fora Collor” foram ainda maiores. E milhões estiveram nas ruas em junho de 2013.

Como sempre, a PM e a imprensa diminuem pela metade as manifestações militantes e duplicam as atuais manifestações aguadas.

Aliás, esta é uma diferença brutal. As manifestações militantes pelas Diretas Já, Fora Collor e de junho de 2013 tiveram a capacidade de mudar a situação política no país. De abrir um novo momento político.

As atuais manifestações pelo impeachment são desnervadas e se dissolvem como pó logo após seu encerramento. A grande diferença é de classe. As manifestações deste domingo foram convocadas por grandes empresas, federações patronais, Associação Nacional de Médicos, jornais burgueses e partidos. Todas as TVs se dedicaram a convocar e divulgar em transmissão permanente, PSDB, DEM, PPS, Solidariedade e outros se lançaram com força.

E reuniram uma numerosa pequena burguesia que tem visto seu padrão de vida ameaçado e que, desiludida e chocada com o aprofundamento da crise, destila seus preconceitos de classe e sua raiva impotente.

Mas, também nestas manifestações, que só existem por causa da traição da direção do PT e seu governo, se expressou a raiva contra a corrupção, contra os políticos e suas instituições. Alckmin e Aécio foram hostilizados e postos para fora na Avenida Paulista. A trânsfuga Marta Suplicy teve que sair corrida. E isso Brasil afora.

Em diferentes manifestações pelo país se viam cartazes contra o PT, mas também contra o PSDB e outros políticos burgueses.

O caráter destas manifestações aparece nas pesquisas feitas pela Folha e pela Veja. Elas mostram que, apesar dos atos terem crescido, eles continuam sendo uma reunião da pequena burguesia e de camadas médias, insufladas pela grande burguesia e sua mídia. Os dados da Folha mostram que a idade média dos participantes era de 45,5 anos, 77% tinha cursado universidade, e 63% com renda superior a 5 salários mínimos, enquanto a maior parte da população no país ganha até 5 salários mínimos (72%).

Estes números revelam que, amplamente, a classe trabalhadora e sua juventude não foram arrastadas pela propaganda enganosa e não aderiram ao chamado para os atos.

Mas, este não é o maior problema para os dirigentes da classe dominante. As vaias que os políticos dos partidos burgueses, principalmente a clara hostilidade contra o PSDB, são um mau presságio para suas saídas “institucionais” (Impeachment, cassação, etc.).

A pesquisa da Veja entre os manifestantes deixa esta situação mais às claras: mais de 78% querem novas eleições e apenas 11% acham que o vice, Michel Temer, deveria assumir (que é o resultado se houver impeachment). 65% acham que a oposição não está cumprindo nenhum papel positivo na crise e 91% acham que há membros dos partidos de oposição envolvidos nos escândalos de corrupção (a taxa para Dilma e Lula é de 99%). Os manifestantes convocados pela burguesia, cuja maioria votou a favor de Aécio, acham que a oposição de direita é quase tão corrupta quanto o governo Dilma.  Aí está o dilema da burguesia.

A questão “com Dilma está ruim, mas quem pode entrar no lugar dela? E o que pode acontecer?” virou um pesadelo para essa gente. Não é à toa que o PMDB resolveu pensar mais 30 dias antes de desembarcar do governo.

Os trabalhadores e a juventude estão observando toda esta situação. A maioria condena toda a corrupção e a política do governo. E não está disposta a defender um governo e um partido que traiu o seu voto e a sua confiança e que está aplicando uma política de ataques à classe trabalhadora.

Como defender a Lei “Antiterrorismo”, instrumento de criminalização dos movimentos sociais, o ajuste fiscal com cortes em áreas sociais, mais privatizações e mais Reforma da Previdência aumentando a idade mínima e anunciando congelamento do Salário Mínimo e novos impostos?

Assim, muito provavelmente os atos do dia 18 chamados pela Frente Brasil Popular (PT, PCdoB, CUT, UNE, MST e outros) não terão muita força. Os jovens e professores que fazem manifestações diárias no Rio em defesa da educação e dos seus salários dificilmente irão. Os operários que estão ocupando fábricas no interior de São Paulo também não.  Os trabalhadores com razão sentem-se traídos pelos antigos dirigentes e não estão dispostos a defendê-los.

A Esquerda Marxista está nas ruas e nas lutas com os trabalhadores e, portanto, nada tem nada a fazer nos atos do dia 18 que defendem este governo. Nossa condenação, nossa acusação contra as investigações da Lava Jato é de que ela é um instrumento de ataque às liberdades democráticas e de criminalização das organizações dos trabalhadores e da juventude sob a capa de combate à corrupção do PT. E, de fato, de acobertamento de todos os políticos e partidos burgueses corruptos.

O judiciário não é neutro. Ele tem lado e tem classe. É um instrumento da burguesia e seu Estado para garantir a opressão e a exploração da classe trabalhadora. E hoje o judiciário e sua polícia estão na frente do ataque contra as organizações dos trabalhadores e da juventude, contra as liberdades democráticas. Eles não nos enganam com sua falsa moral e suposta neutralidade. Eles são a espada que pretende cortar todas as cabeças da esquerda para poder descarregar nas costas da classe trabalhadora o custo catastrófico desta gigantesca crise que eles mesmos criaram.   

Eles não perdem por esperar. Estaremos no dia 31 em Brasília com as nossas bandeiras, pela construção de uma saída para a atual situação que nada tem a ver com a direita e nem com os reformistas desmoralizados. A classe vai encontrar um caminho político para sua resistência como está fazendo, de uma forma ou outra em todo o mundo.

Nossa luta é contra a reforma da previdência, contra o ajuste fiscal, pelo não pagamento da dívida, pela estabilidade no emprego, por uma Assembleia Popular Constituinte e um Governo dos Trabalhadores. 

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