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As lições da Grécia: o fracasso do reformismo

O primeiro-ministro grego Alexis Tsipras anunciou na semana passada (20 de agosto) que deixará o cargo. Ele perdeu sua maioria parlamentar e o Syriza está dividido, com o líder da esquerda Lafazanis anunciando a formação de um novo partido, a Unidade Popular. Em um discurso transmitido pela televisão na noite passada, Tsipras afirmou que o governo do Syriza iria aceitar sua renúncia e convocar eleições. Tsipras disse que os gregos ainda têm lutas pela frente, mas que a Grécia está “determinada a honrar” o mais recente chamado pacote de resgate. O que isto significa?

O primeiro-ministro grego Alexis Tsipras anunciou na semana passada (20 de agosto) que deixará o cargo. Ele perdeu sua maioria parlamentar e o Syriza está dividido, com o líder da esquerda Lafazanis anunciando a formação de um novo partido, a Unidade Popular. Em um discurso transmitido pela televisão na noite passada, Tsipras afirmou que o governo do Syriza iria aceitar sua renúncia e convocar eleições. Tsipras disse que os gregos ainda têm lutas pela frente, mas que a Grécia está “determinada a honrar” o mais recente chamado pacote de resgate. O que isto significa?

Esse pacote, no valor de 86 bilhões de euros – traz condições severas na forma de um novo conjunto de “reformas” ditadas pela Troika. Depois de um debate tempestuoso no parlamento, o governo grego aceitou aumentar os impostos, privatizações maciças e drásticas, além de cortes de gastos. Isso significa o abandono completo de tudo o que Tsipras prometeu ao povo da Grécia quando foi eleito em 25 de janeiro.

Todos na Grécia sabem o que essas políticas significam: mais cortes, mais queda do nível de vida, mais desemprego, mais desespero. E para quê? Após cinco anos de cortes selvagens, as dívidas acumuladas da Grécia aumentaram de 125% para 185% do PIB e agora estão caminhando para 200%! Um sucesso verdadeiramente surpreendente! E de todo o dinheiro do resgate concedido à Grécia: apenas dez por cento vai para a Grécia. O resto vai direto para os cofres dos bancos europeus, sobretudo alemães.

É evidente, mesmo para os mais cegos, que a Grécia não pode pagar essas dívidas enormes. Em privado (e até mesmo em público), os economistas burgueses admitem este fato óbvio. No entanto, eles continuam a apertar o povo grego e empurrá-lo para além dos limites da resistência humana. Não podem ser impostos mais cortes e ajustes ao povo grego, sem o risco de provocar uma explosão social.

A radicalização das massas na Grécia foi mostrada de forma muito clara no referendo de julho, quando o povo grego votou maciçamente pela rejeição a um novo pacote de resgate com base em mais austeridade. Mas, tendo mobilizado as massas e conquistado uma grande vitória, os líderes do Syriza imediatamente acenaram a bandeira branca de rendição e cederam a todas as exigências dos credores europeus.

Esta capitulação vergonhosa causou decepção generalizada e provocou uma onda de renúncias do Partido nas últimas semanas. O clima inicial de choque e desorientação se transformou em fúria a medida que a dura realidade das novas políticas tornou-se clara para as pessoas. Isto é o que está por trás da divisão no Syriza e o chamado de Tsipras por novas eleições.

Cegueira reformista

Em janeiro os gregos elegeram um governo do Syriza, que prometia dar um fim à austeridade. Mas se você aceita os limites do capitalismo tem de aceitar as leis do capitalismo. Isso significa que você deve gerenciar a crise do capitalismo, o que por sua vez significa inevitavelmente impor austeridade contra a classe trabalhadora, ao mesmo tempo em que entrega grandes quantidades de dinheiro público para os banqueiros e capitalistas.

Em sua cegueira reformista, Tsipras e Varoufakis acreditavam que poderiam convencer Merkel e outro burguês europeu qualquer, a fazer concessões para a Grécia através de negociações. Mas, como previmos, as negociações não deram em nada. Os burgueses europeus estavam determinados a esmagar o Syriza. Caso contrário, abriria-se um precedente para outros partidos anti-austeridade em outros países, como o Podemos, na Espanha.

Confrontado com a oposição implacável dos líderes da zona do euro, Tsipras convocou um referendo. Isso teve o efeito de mobilização de massas em defesa do governo. O povo grego saiu às ruas preparado para lutar contra a austeridade. Se Tsipras fosse um marxista ele poderia ter usado o movimento para mudar a sociedade. Ele teria feito um chamado aos trabalhadores para ocupar os bancos e, em seguida, os nacionalizaria.

Ele poderia ter feito um apelo internacionalista para os trabalhadores europeus para que seguissem o exemplo de uma Grécia socialista. Isso poderia ter sido o início de um movimento anti-austeridade de massas e militante em toda a Europa – a única maneira de forçar Merkel e os outros a recuar. Mas, como um reformista, Tsipras nem sequer considerou essa possibilidade. Em vez disso, ele pensou que poderia usar o resultado do referendo como “alavanca” para obter um acordo melhor. No final, ele conseguiu um acordo ainda pior do que o que tinha sido estrondosamente rejeitado pelo povo da Grécia em julho.

Agora, o governo que foi eleito para se opor a austeridade está se preparando para realizar cortes selvagens. Isto, inevitavelmente, mergulhou a Grécia e o Syriza em uma crise profunda. Tsipras, que era extremamente popular há não muito tempo atrás, agora está profundamente desacreditado diante de uma parte importante da população. Isso se refletiu em uma crise de liderança. Sob tais condições era impossível para Syriza manter-se unido por muito tempo. Mesmo antes ocorreu uma divisão formal, Tsipras já estava baseando-se nos partidos da oposição burguesa, pois ele tinha perdido o controle de seu próprio partido.

O que uma nova eleição resolve?

A razão pela qual Tsipras chamou uma eleição tão cedo é a esperança de que não haverá tempo suficiente para o novo partido – lançado pelo líder da Plataforma de Esquerda, Panagiotis Lafazanis – sair do chão. Não está claro quanto apoio a Unidade Popular pode tirar do Syriza. Mas é evidente que Lafazanis vai atrair apoio entre muitas pessoas que estão com raiva de Tsipras.

Apesar disso, segue sendo mais provável que o Syriza seja o partido com a maioria dos votos, embora ele vá perder bastante apoio. Mas as alternativas à direita são ainda mais desacreditadas. Depois de obter 27,8% dos votos na eleição de janeiro, o partido Nova Democracia agora consegue resultados regularmente abaixo de 20%.

Se Tsipras receber votos suficientes ele provavelmente irá formar uma coalizão com o Pasok e To Potami. No entanto, não é ainda certo que Pasok consiga ganhar algum assento no novo parlamento. E se o Syriza ficar com menos de 20 por cento, Tsipras pode ter de formar uma coalizão com a Nova Democracia. Isso certamente será a sentença de morte para o Syriza. Em qualquer caso, o que vai surgir será uma coalizão fraca e instável e um governo de crise que provavelmente não vai durar muito.

O cenário está sendo montado para uma intensificação da luta de classes, caracterizada por uma crescente polarização à esquerda e à direita. O centro político representado agora por Tsipras não pode resolver nada. Ele vai começar a se desintegrar. Haverá um crescimento do KKE e da Unidade Popular à esquerda e do Amanhecer Dourado à direita.

A situação atual está repleta de potencial revolucionário. O que falta é uma verdadeira direção revolucionária que possa oferecer às massas uma saída para a crise. O Partido Comunista (KKE), apesar das táticas sectárias ultra-esquerdistas – e em parte por causa delas -, inevitavelmente, ganhará apoio depois que Tsipras capitulou. A Tendência Comunista do Syriza, que se opõe às capitulações de Tsipras e que defendeu políticas socialistas, está ganhando a atenção de trabalhadores que estão em processo de ruptura com Syriza, e também membros do KKE.

Ao camarada Lafazanis deve ser dado o crédito por resistir de pé contra a capitulação dos líderes do Syriza. Mas suas políticas não oferecem nenhuma alternativa real. Ele defende sair da zona do Euro, mas em um certo estágio, é provável que a Grécia vai ser expulsa de qualquer forma. No entanto, em uma base capitalista isso só levaria a uma crise ainda mais profunda, uma moeda em colapso, hiperinflação e novas quedas nos padrões de vida. Dentro ou fora do Euro e da UE, não existe uma solução para os problemas da Grécia em uma base capitalista. Problemas sérios exigem soluções sérias.

A única estratégia que o povo grego pode usar para assumir o controle de seu destino de volta em suas próprias mãos é pôr fim à ditadura dos banqueiros e capitalistas – não apenas aqueles em Berlim e Bruxelas, mas também os de Atenas. É necessário expropriar os banqueiros, magnatas do transporte e o resto da oligarquia parasitária que realmente governa Grécia. Só desta forma será possível planejar a economia de uma forma racional, abolir o desemprego e a falta de moradia e criar as bases para uma sociedade realmente justa e democrática.

A crise do capitalismo grego pode continuar por anos, com fluxos e refluxos. Uma coalizão instável seguirá outra, com oscilações violentas no plano eleitoral para a esquerda e para a direita que vai durar por algum tempo antes de uma solução final ser encontrada – ou revolucionária ou contrarrevolucionária.

Mas, em última análise, o burguês grego e europeu vão exigir um fim ao que veem como “caos”. Eles vão dizer: “há muitas greves, muitas manifestações e protestos nas ruas. Exigimos ordem!” Se a esquerda não oferece nenhuma saída, poderia, eventualmente, preparar o caminho para um regime bonapartista na Grécia. No entanto, mesmo um regime bonapartista reacionário seria instável. Ele não iria resolver nada e provavelmente não iria durar muito. Ele só iria preparar caminho para uma ainda maior convulsão revolucionária, como vimos em 1974. Os trabalhadores gregos têm tradições revolucionárias e boa memória. Lembremo-nos que a Junta que governou no período 1967-1974 foi derrubada por uma revolução.

A crise europeia

A crise do capitalismo europeu é revelada em sua forma mais gritante nos países capitalistas mais fracos, como a Espanha, Portugal e Grécia, onde o processo foi mais longe do que em qualquer outro lugar. Mas a Espanha esta apenas a um passo atrás da Grécia, e a Itália a apenas um passo atrás da Espanha. O sonho de uma Europa unida sob uma base capitalista foi despedaçado sob o peso da rocha da austeridade.

Mais de duas décadas atrás, salientamos que é impossível unir economias que se deslocam em sentidos diferentes. Na base do crescimento, alguma aparência de unidade poderia ser mantida por um período. Mas na base da crise econômica todos os velhos antagonismos nacionais reapareceram. Forças econômicas centrífugas poderosas estão tendendo a dissolução e essas forças estão crescendo o tempo todo.

O impacto da crise grega será sentido muito além das fronteiras da Grécia. Em toda a Europa há um medo de que as políticas de austeridade não serão um ajuste temporário, mas um ataque permanente sobre os padrões de vida. Em países como Grécia, Portugal e Irlanda , essas políticas já resultaram em cortes profundos em salários nominais e pensões, sem ter resolvido o problema do déficit. Assim, todos os sofrimentos e privações do povo foram em vão. Em toda parte os pobres são mais pobres e os ricos são mais ricos.

A ideia da integração europeia tem sido abalada. Nas negociações com a Grécia, a Alemanha se comportou como o maestro de uma orquestra, dando todos os tons e notas. A burguesia francesa, teoricamente a segundo no comando da Europa, tinha que curvar sua cabeça humildemente enquanto a altiva Merkel rejeitou todas as suas preocupações e objeções. Aqui vemos a crua realidade por trás da máscara sorridente de “solidariedade europeia”. Em seu tratamento da Grécia, a burguesia alemã está agindo como o pior tipo de usurário. “Você não pode pagar as suas dívidas? Venda sua mobília! Você já vendeu sua mobília? Vamos jogá-lo na rua!”

A crise do Reformismo

No período que se seguiu à Segunda Guerra Mundial, os partidos social-democratas e trabalhistas realizaram muitas reformas. Estes partidos ganharam um nível de apoio que lhes deu um certo grau de estabilidade. Mas esse período terminou. Tão profunda é a crise do capitalismo que a burguesia não pode nem mesmo tolerar a continuação das conquistas do passado, muito menos permitir novas reformas. A crise do capitalismo é, portanto, também a crise do reformismo.

O caráter fictício da democracia burguesa está sendo exposto nas mentes de milhões devido aos acontecimentos recentes. De que valem referendos populares e as eleições se as grandes potências e os bancos ignoram todos esses processos e tomam todas as decisões sozinhos no final? O vazio das ilusões acarinhadas do reformismo e da social-democracia tem sido cruelmente revelado por todo o continente. As coisas estão acontecendo e se acelerando em muitos países, e ao mesmo tempo.

A ascensão e queda de partidos e líderes é como um barômetro que reflete mudanças rápidas na consciência das massas. Às vezes leva décadas para um partido perder a sua base de massa. Mas sob as condições atuais, pode ser que isso ocorra em alguns anos ou até meses. Com base nos acontecimentos, o Syriza, uma formação relativamente nova, rapidamente substituiu o Pasok. Mas, nestes tempos, novas formações também podem ascender e cair rapidamente. Organizações de massas que já existem há décadas, mesmo gerações, entram em crise e se dividem, até desaparecer.

Até recentemente, o Pasok foi o principal partido da classe trabalhadora grega. Foi em grande parte destruído como resultado de suas traições. Ele foi testado e deixou a desejar. O resultado foi o colapso do Pasok e a ascensão do Syriza. Mas muito rapidamente o Syriza entrou em crise. Era a decadência e a degeneração do Partido Socialista e dos partidos “comunistas” que levou à ascensão do Syriza e do Podemos. Procurando uma maneira de sair da crise, as massas testam uma alternativa após a outra. Os antigos líderes e programas são analisados ​​e descartados. Mas a Grécia demonstrou que estas novas formações, por sua vez, se não rompem com o capitalismo e adotam políticas socialistas claras, também podem desaparecer tão rapidamente como surgiram. Essa é a natureza do presente período histórico.

Na Espanha temos a ascensão do Podemos. Na Grã-Bretanha agora vemos o fenômeno Corbyn. Tudo isso é uma expressão de um profundo descontentamento na sociedade que está à procura de uma expressão política. Vemos o mesmo processo básico em todos os outros países. As massas estão se esforçando para encontrar uma maneira de sair deste pesadelo. Elas olham para diferentes partidos e líderes, descartando um após o outro na lata de lixo da história. Há uma raiva crescente contra as elites políticas, contra os ricos, os poderosos e privilegiados. Esta reação contra o status quo, que contém as sementes embrionárias de desenvolvimentos revolucionários, pode durar até muito depois do momento em que a economia começar a registrar sinais de melhoria.

Um número crescente de pessoas que já não acreditam no que os políticos dizem ou prometem. Há intensa desilusão com os políticos e nos partidos políticos em geral. Os que são eleitos e traem as esperanças das pessoas, aplicando políticas de austeridade em violação às promessas eleitorais feitas, encontram-se rapidamente desacreditados. Os líderes políticos que foram muito populares porque pareciam estar dispostos a uma mudança acabaram sendo desprezados e detestados quando repetiram as mesmas políticas desacreditadas do passado. O que aconteceu com Tsipras é um notável exemplo disto.

Objetivamente falando, isso é muito favorável para os marxistas. A situação atual oferece grandes possibilidades para aqueles preparados para aproveitá-las. Mas possibilidades muito maiores vão se abrir no próximo período de tempestades e estresses. Esta não é uma crise normal. Mudanças bruscas de consciência estão implícitas na situação. Em tal momento, a rotina, do tipo de preguiça mental que se apega obstinadamente com as fórmulas do passado em condições completamente diferentes, seria fatal para uma tendência revolucionária. Precisamos aprender a esperar o inesperado.

Alterações súbitas e acentuadas na situação objetiva exigem giros táticos correspondentemente afiados. A tendência comunista anunciou que se juntou à Unidade Popular. Nas condições atuais, é a única decisão correta. Estamos confiantes de que a tendência comunista vai continuar a construir as suas forças, ganhando e educando novos quadros que lhe permitam crescer junto com o desenvolvimento da revolução grega.

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