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As eleições do Sinte-SC e as lições aos marxistas

Nasceu uma Alternativa para o sindicato dos trabalhadores em educação de Santa Catarina.

Nos dias 22 e 23 de junho o SINTE/SC — Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Santa Catarina — passou por processo eleitoral. Concorreram às eleições sindicais três chapas: chapa 3 impulsionada pela Corrente Sindical Esquerda Marxista; chapa 1 impulsionada pelo PSTU/Conlutas e chapa 2 impulsionada pela Articulação Sindical/CUT.

Essa foi a primeira vez que a Corrente Sindical Esquerda Marxista impulsionou uma chapa no processo eleitoral em nível estadual e o resultado obtido foi 5,51% dos votos válidos. Tivemos a confiança e o apoio de 798 professores. Já na regional¹ de Joinville vencemos as eleições pela terceira vez e garantimos uma boa votação para nossos conselheiros. Estadualmente os números parecem pequenos, mas para nós essa é uma importante vitória, é o nascimento de uma Alternativa no Sinte. 

Foram 14.989 votantes e os resultados são seguinte:

Chapa 1 (PSTU) – Ação e Luta Oposição obteve 5.370 votos, constituindo um percentual de 37,09%

Chapa 2 (Articulação) – SINTE Unificado, Forte e de Luta obteve 8.311 votos, constituindo um percentual de 57,40%

Chapa 3 (Esquerda Marxista) – Alternativa SINTE obteve 798 votos, percentual de 5,51%

Da história do Sinte podemos tirar algumas lições fundamentais para entendermos o movimento sindical nacional e, quiçá, mundial.

Um pouco da história recente do Sinte

A base do Sinte conta hoje com aproximadamente 60 mil trabalhadores em educação e pouco mais de 28 mil filiados entre aposentados e ativos. O Sinte foi um dos primeiros sindicatos a filiar-se à CUT e foi conhecido, também, como um dos mais combativos do país na década de 80. Lideranças nacionais como a senadora Ideli Salvatti surgiram da base desse sindicato, mas hoje esqueceram de onde vieram e viraram as costas para essa categoria.

Hoje, o Sinte, sem dúvida, passa por um momento difícil de sua história e precisa ser reconstruído. A recente eleição foi fundamental para entendermos isso. Em nossa avaliação, a qual explicamos durante a campanha, dois fatores marcam o Sinte neste momento: a burocracia sindical das alas majoritárias da CUT e o esquerdismo da Conlutas. Ambas as políticas são faces de uma mesma moeda. Não falamos aqui em indivíduos, pois por mais boa vontade que um militante tenha e sabemos que há inúmeros militantes sadios nestas duas alas, uma política errada conduz ao abismo, a realidade não perdoa o menor erro teórico, como explicou Leon Trotsky.

Desde 2007, primeira eleição após o Congresso de Araranguá, o Sinte era uma entidade proporcional, ou seja, várias chapas disputavam e quem alcançasse 20% (no caso de duas chapas) ou 10% (no caso de mais de duas chapas) dos votos fazia parte da direção. O que aparentemente é democrático, acabou por tornar-se um grande entrave na organização dos trabalhadores, chapas opostas entraram na entidade e paralisaram o sindicato. Ações simples, como editar um jornal com uma posição unitária apontando o caminho para a categoria, tornavam-se um evento, quando não uma guerra. Assim, pequenas questões tornavam-se grandiosas, pois cada parte da direção precisava se diferenciar da outra. Essa situação causou sérios problemas à entidade no que diz respeito à organização e à construção da unidade contra o inimigo maior, o governo.

Por outro lado, a proporcionalidade abriu brecha para que a parte minoritária da direção se eximisse de qualquer responsabilidade. Desde 2007, a entidade foi dirigida pela ala majoritária da CUT e pela Conlutas, mas esta segunda passou todos esses anos se intitulando oposição e agindo como se não estivesse na direção da entidade. Mesmo tendo dirigentes liberados e condições reais de organizar as bases da categoria, mesmo quando tinha acordo com algum encaminhamento da ala majoritária da CUT, tratava de se diferenciar, um esquerdismo permanente que serviu apenas para o desmantelamento do sindicato.

As duas políticas deixaram um rastro cruel. Durante a campanha tivemos a oportunidade de dialogar com centenas de trabalhadores em educação em todo o estado. O diagnóstico é triste, inúmeras disfiliações e muitos dizendo que não desejavam o sindicato filiado à CUT. Questionados sobre o porquê, respondiam sempre com alusão aos dirigentes sindicais da ala majoritária do Sinte, sem mais. Ao mesmo tempo, afirmavam não saber da proporcionalidade, ou seja, nem mesmo a estrutura do sindicato a maior parte da categoria não conhecia. Para finalizar, a reclamação de que o sindicato nunca havia passado pela escola, nem em campanha, foram dezenas. Ou seja, um abandono geral. Daqui, é preciso lembrar os primórdios das ideias marxistas, “As ideias da classe dominante são as ideias dominantes em cada época, quer dizer, a classe que exerce o poder objetal dominante na sociedade é, ao mesmo tempo, seu poder espiritual dominante.”² Portanto, se  o sindicato não se dispõe a disputar a sociedade, a consciência desta sociedade, começando pela tarefa básica de explicar à categoria a função do sindicato, por conscientizar os trabalhadores, então,  esse sindicato está condenado à imobilidade.

Aqui vale lembrar que os dirigentes sindicais não foram capazes nem de denunciar a situação precária que a própria entidade vive, por exemplo, a retirada dos liberados sindicais das regionais, no governo Luiz Henrique da Silveira. Ou seja, as duas alas que dirigiram o sindicato na última década estavam tão apegas ao aparelho sindical que não perceberam que o próprio aparelho estava sendo destruído.

A burocracia sindical

O processo eleitoral foi marcado pela burocracia. Primeiramente, os dirigentes do Sinte não mediram esforços em tentar impedir a homologação de nossa chapa. Houve trabalhadores que se retiraram da chapa porque, após o protocolo, os dirigentes da CUT os pressionaram pessoalmente. Mas passamos por esse primeiro duelo. Quando acreditamos que estava resolvido, a CSP/Conlutas começou a pressionar a Comissão Eleitoral, chegando ao cúmulo de afirmar que queria a impugnação porque nossa chapa estava fazendo campanha antes do prazo. Companheiros trotskystas exigindo impugnação por propaganda extemporânea seria algo cômico, se não fosse trágico. Essa é uma rendição total à “ordem burguesa” estabelecida nas eleições parlamentares. O sindicato nada tem a ver com isso, o sindicato é livre e independente do Estado, deve primar pela mais ampla democracia operária. 

Ao fim, a CSP Conlutas não pôde persistir nessas alegações, pois beberia de seu próprio veneno ao ser obrigada a adotar a mesma postura nas regionais. De todo modo, registramos em todos os momentos nossa indignação e inclusive fizemos a defesa da manutenção de companheiros que sofriam a mesma tentativa de impugnação, caso esse da chapa regional dos companheiros do Sinte pela Base, na regional de Florianópolis.

 

 

A CUT

Todo o processo eleitoral foi marcado pela discussão sobre a Central Única dos Trabalhadores. O governo e a política do Sinte ficaram em segundo plano. Se por um lado isso foi ruim, por outro elevou a discussão. Onde estivemos explicamos que a CUT, ou qualquer outra central, não é um fetiche, é uma necessidade dos trabalhadores. Pudemos discutir questões maiores como a Lei do Piso, greve geral e, em especial, o papel da direção, seja na central, seja no sindicato.

Os trabalhadores em educação nos expuseram suas indagações e o que achavam da entidade. Nos pareceu razoável que o consenso quase geral seja não confiar nas direções atuais, nem do Sinte, nem da CUT, nem da Conlutas. Para os trabalhadores, não é possível enxergar na atual direção cutista uma política de independência frente ao governo nem na Conlutas uma política que consiga unificar a categoria. Eles estão certos e essa também é nossa opinião.

Ao mesmo tempo, trabalhamos para explicar à categoria que abandonar as entidades não é o caminho. A desfiliação do Sinte ou a retirada do sindicato da CUT não trazem soluções alguma. Pelo contrário, trazem atraso. O enfraquecimento da entidade apenas nos trará prejuízo, pois um sindicato fraco é uma arma sem munição, enfraquecê-lo é a política dos governos. Nós trabalhadores não podemos nos deixar iludir. Importante ainda observar que no último período a CUT perdeu espaço, mas não para a Conlutas e, sim, para a UGT. Segundo dados oficiais do Ministério do Trabalho essa central cresceu 7,19% desde 2010. Ou seja, nossa desagregação é o crescimento das centrais patronais. Esse é o reflexo da política de governo adotada pela CUT nos governos Lula e Dilma, mas é também de um esquerdismo histérico dos próprios movimentos de esquerda e da criação de inúmeras centrais no lugar do combate para varrer as direções que não nos servem.

Defendemos a liberdade sindical, somos a favor do artigo 2º da Convenção 87 da OIT: “Os trabalhadores e os empregadores, sem distinção de qualquer espécie, terão direito de constituir, sem autorização prévia, organizações de sua escolha, bem como o direito de se filiar a essas organizações, sob a única condição de se conformar com os estatutos das mesmas”. Ao mesmo tempo, explicamos que é necessária a mais ampla unidade, pois a nossa divisão em diversas centrais só ajuda nosso inimigo comum.  Nossa política norteia-se pelo entendimento de que precisamos varrer as direções pelegas dos sindicatos, portanto, disputar as entidades, mesmo as mais difíceis, como explicou Lenin: E é essa, precisamente, a tolice cometida pelos comunistas alemães “de esquerda”, que deduzem do caráter reacionário e contrarrevolucionário dos chefetes dos sindicatos que é necessário … sair dos sindicatos!!., renunciar ao trabalho neles!!, criar formas de organização operária novas, inventadas!! Uma estupidez tão imperdoável, que equivale ao melhor serviço que os comunistas podem prestar à burguesia.”³

Nossa proposta é a unidade, não a dos clubes de amigos, mas aquela construída na luta, na política, na discussão fraterna com a categoria e na organização. Chamamos os vários militantes combativos da base de nosso sindicato, tanto da CUT majoritária, quanto da Conlutas, e repetimos: a política de desorientação não nos leva a nada. Precisamos construir a unidade sob um programa claro.

O resultado da eleição e as tarefas

A direção majoritária do Sinte ganhou as eleições com uma maioria considerável, teremos mais do mesmo pelos próximos três anos no que depender desta direção.

Para a Corrente Sindical Esquerda Marxista esta vitória não representa, nem de longe, os anseios da categoria. Os trabalhadores em educação anseiam por uma direção que esteja de fato ao nosso lado, na organização e mobilização da categoria pela reconquista de nossos direitos, ou seja, o descongelamento de nossos salários, o que está previsto até 2018, a retomada da isonomia salarial entre efetivos e contratados, a aplicação do Lei do Piso e a solução dos outros infinitos ataques pontuais que estamos sofrendo diariamente.

Portanto, impulsionaremos o agrupamento que tem o nome da chapa pela qual concorremos: Alternativa Sinte. De nossa parte, a tarefa agora é a reconstrução do sindicato, independente da direção querer ou não. Vamos filiar os trabalhadores, discutir os ataques dos governos em nossa carreira, promover o mais amplo diálogo. Discutir uma campanha do Sinte contra a Lei da Mordaça, tema que apresentamos durante o processo eleitoral, é fundamental. Essa é uma pauta de todos os governos e do Congresso Nacional que pretende extinguir nossa liberdade de expressão, a livre organização sindical e o movimento estudantil. 

A construção de um sindicato forte, diante do qual os governos tremam, é nosso objetivo. Acreditamos que Trotsky estava certo quando disse que o problema da humanidade é um problema de direção. Portanto, construir as novas direções deste sindicato está na ordem do dia.

* Maritania Camargo é professora da Rede Estadual de Ensino de Santa Catarina e militante da Esquerda Marxista.

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¹O Sinte é composto por 30 regionais. No processo eleitoral é eleita uma direção estadual com representação mínima de 10 regionais e direção regional para cada uma das 30 regionais. Além disso, cada regional elege Conselheiros nominais proporcionalmente ao número de filiados. A chapa impulsionada pela Corrente Sindical Esquerda Marxista ganhou a regional de Joinville com 260 votos e elegeu dois, dos quatro conselheiros. É a terceira vez que obtém a maioria dos votos na regional, agora sem proporcionalidade.

² Da obra “A Ideologia Alemã” de Karl Marx e Friedrich Engels.

³ Da obra “Esquerdismo Doença Infantil do Comunismo” de Vladimir Ilitch Lenin

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