Início / Artigos / Internacional / As diferenças entre Iglesias e Errejón, um reflexo da luta de classes

As diferenças entre Iglesias e Errejón, um reflexo da luta de classes

A II Assembleia Cidadã nacional de Vistalegre tem uma enorme transcendência para Podemos e para a esquerda espanhola.

A II Assembleia Cidadã nacional de Vistalegre tem uma enorme transcendência para Podemos e para a esquerda espanhola. Não é por acaso que vem marcada pela polarização entre as posições dos camaradas Pablo Iglesias e Íñigo Errejón.

Balanço de Vistalegre I

O fato de haver produzido uma divisão aberta no núcleo dirigente original da organização acerca da estratégia e das táticas a serem seguidas prova que as conclusões políticas e organizativas surgidas da Assembleia Cidadã fundacional de Vistalegre I se demonstraram equivocadas.

As teses de que a crise econômico-social era conjuntural e que se impunha a tarefa de ganhar imediatamente as eleições a qualquer custo antes que o regime se recompusesse, conduziu à moderação do discurso e do programa do Podemos. Daí o titubear e zig zag à direita e esquerda que deixaram desorientada grande parte da militância e de seus votantes atuais e potenciais.

Na realidade, quando o discurso do Podemos mostrava um perfil à esquerda ganhava posições e apoio eleitoral, como nas eleições de 20 de dezembro de 2015 (conhecidas como 20D – Nota do Tradutor), para perdê-los quando girava à direita em direção à moderação “para não assustar” à classe média, como nas eleições de 26 de junho de 2016 (conhecidas como 26J – N.T.).

Com o argumento de construir uma “máquina de guerra eleitoral”, criou-se um aparato rígido e com tendências burocráticas que incomodava os camaradas com posições mais à esquerda. O debate político e as decisões ficavam concentrados na cúpula da organização, esvaziando os círculos de discussão política e alijando a milhares de ativistas.

Houveram erros táticos prévios a 26J, como não haver sabido convencer parte da base votante do PSOE[1] que seus dirigentes preferiam o governo do PP[2] a governar com Podemos e IU[3] como uma manobra, culpando-os falsamente pela continuidade do governo de direita. Isso demonstra – contrariamente à opinião do camarada Errejón – que o eixo esquerda-direita segue sendo a principal consideração para as famílias trabalhadoras em suas simpatias políticas, porque é visto corretamente como a linha divisória entre ricos e pobres, entre empresários e trabalhadores, entre restringir ou ampliar os direitos democráticos.

Finalmente, reconheceu-se a necessidade de ampliar as alianças eleitorais para a esquerda a nível nacional para 26J, ainda que no caso de IU tenha sido mal feito e tardiamente.

As teses do camarada Errejón

As posições conflitantes de Iglesias e Errejón expressam, em última instância, a pressão das diferentes classes sociais na sociedade, como ocorre em todo debate político intenso e profundo.

O camarada Errejón tem muito claro a quem se dirige. Seu documento Recuperar a ilusão defende uma orientação para a classe média e chama à moderação a imagem e o discurso, com “propostas transversais, nem de esquerda nem de direita”. Trata com desprezo à esquerda, que qualifica de “folclórica e impotente” e dá caricatura vulgar ao marxismo, sem o mencionar, afirmando que o Podemos deve estar contrário “dos que acreditam que as posições na história estão fixadas pela economia”. Também deixa patente seu desprezo pela mobilização popular: “Historicamente nada assustou menos os de cima que as minorias ruidosas de protesto”. E isto no país do 15M[4]! Onde só entre 2012 e 2013 houve duas greves gerais e 130 atos de protesto diários! Que criou as condições para o posterior surgimento de Podemos.

Para a corrente do camarada Errejón é possível encontrar pontos de acordo entre todos: trabalhadores, classes médias, empresários, para “reescrever o contrato social”.

Seu raciocínio é a própria simplicidade. Se conseguirmos agradar a todas as classes sociais, se afirmamos que todos devemos nos unir por amor à pátria e à nação, então viveremos felizes no melhor dos mundos felizes. Assim todo o povo votará em nós: pobres e ricos, empresários, trabalhadores e jovens! Não vê que é fácil assim?

Não é por acaso que o camarada Errejón receba lisonjas de dirigentes do PSOE, do PP e da mídia do regime. Ele se queixa disso. Mas não são os mesmos dirigentes direitistas do PSOE, os do PP e dos Ciudadanos os que afirmam que o esquerdismo está defasado? Não defendem, com igual ardor que o camarada Errejón, o “povo unido” e a pátria? Falando francamente, não há interesses comuns como a pátria ou o povo entre os empresários e os trabalhadores, entre os ricos e os pobres. Esse discurso só serve para ocultar os interesses de classe e o papel dominante e explorador na sociedade dos grandes empresários e banqueiros.

As ideias da corrente de Errejón não são novidade. São similares às que impôs Felipe González no PSOE contra a ala marxista, no final dos anos 1970, “para ganhar as classes médias”. Tendo sucesso em Vistalegre, levariam Podemos ao desastre, ao solapamento ideológico com o PSOE e Ciudadanos e a frustrar as expectativas por mudança real em milhões de trabalhadores, jovens e explorados de nosso país. Além de impor um estado de exceção interno contra tudo o que cheira a esquerda, radicalismo ou socialismo.

Vistalegre II

O debate prévio à Assembleia não agradou a muitos militantes. Os documentos das correntes principais (Pablo Iglesias, Íñigo Errejón, Anticapilatistas) só foram colocados à disposição da militância três semanas antes da Assembleia Cidadã. Os círculos não podem fazer emendas. Os militantes e círculos podem apresentar aportes sobre temas políticos e organizativos e as votar, mas carecem de caráter vinculante!

Fora isso, houve um calendário de debate confuso e a informação chegava incompleta aos círculos. Assim, somente o núcleo mais ativo da organização teve a oportunidade de avaliar com detalhe o conteúdo das diferentes propostas, aportes e documentos.

Agora Iglesias e Errejón abdicam do modelo organizativo de Vistalegre I. Isto resulta pouco crédito ao segundo. Foi seu setor quem organizou o aparato por meio do ex-secretário de organização Sergio Pascual – afastado por Iglesias há meses – e quem mostra um maior desdém pela base. Ainda que compartamos sua crítica de outorgar poderes especiais ao Secretário Geral, como convocar unilateralmente referendos entre a militância; não são os aspectos organizativos, sempre melhoráveis, mas os políticos os que determinam nosso apoio ou rechaço a determinada corrente.

Já mostramos nosso completo rechaço às posições e à lista do setor do camarada Errejón, que representam a ala de direita de Podemos.

As outras duas correntes (Iglesias e Anticapitalistas) refletem melhor o Podemos que a classe trabalhadora necessita, mantém a aposta pela coligação da esquerda e situam o motor político na mobilização social frente ao institucionalismo do setor de Errejón. Ambas contam, portanto, com nossa simpatia.

Por um acordo da “esquerda” contra a “direita”

Aparentemente, desde um ponto de vista ideológico, não parecem existir diferenças substanciais entre Pablo Iglesias e Íñigo Errejón. Nenhum assinala uma alternativa fora do capitalismo, defendem um nacionalismo estreito e seu programa está limitado a uma série de reformas progressistas.

Entretanto, enquanto Errejón e seus seguidores demonstram-se hipersensíveis ao chicote disciplinador da classe dominante, o setor de Iglesias, ao se apoiar no setor mais dinâmico da classe trabalhadora e da juventude, deixa a porta aberta a ser influenciado pelo mesmo, a progredir numa evolução de acordo com o desenvolvimento da luta de classes que pode conduzir, mais adiante, a formular conclusões socialistas, ainda de maneira inacabada e insuficientemente desenvolvidas.

As posições dos Anticapitalistas estão mais à esquerda, ainda que com um alto grau de ambiguidade, não indicando abertamente a adoção de medidas socialistas contra o grande capital em um hipotético governo de Unidos Podemos.

Contudo, o ataque da ala de direita de Errejón é muito forte e conta com a simpatia descarada dos meios de comunicação do regime. A apresentação de duas listas separadas de “esquerda” poderia outorgar o sucesso à “direita” e lhe assegurar maioria na direção.

Por isso apelamos à coligação de ambas as correntes. Se os camaradas Anticapitalistas consideram impossível mesclar seu documento político com Iglesias, têm o peso e os meios suficientes para dar a conhecer suas propostas à militância por várias vias. Trata-se de assegurar a continuidade de um Podemos orientado à esquerda e baseado na classe trabalhadora e nos demais setores populares excluídos e não ostentar peso no partido.

Se tal coligação não se der, apostamos em agrupar o voto na corrente com mais possibilidades de bater o setor de Errejón, a do camarada Pablo Iglesias e que o futuro órgão de direção do partido se configure com base numa coligação entre ambos setores de esquerda.


[1] Partido Socialista Operário Espanhol (N.T.).

[2] Partido Popular (N.T.).

[3] Izquierda Unida – Esquerda Unida (N.T.)

[4] Série de manifestações iniciadas em 15 de maio de 2011 (N.T.).


Artigo publicado originalmente em 31 de janeiro de 2017, por Lucha de Clases, seção espanhola da Corrente Marxista Internacional, sob o título: “Las diferencias Iglesias-Errejón, un reflejo de la lucha de clases”.

Tradução de Nathan Belcavello

Deixe seu comentário

Leia também...

A Reforma da Previdência e a segurança jurídica

Uma notícia interessante ficou guardada nos cantos dos jornais[i]: a MP 795, aprovada pela Câmara …