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Artistas, Arte e Revolução

O debate que se dá entre os artistas que se declaram ‘de vanguarda’ e a necessidade da ação revolucionária para a liberação da arte e da independência da arte para a revolução.

Os artistas não constituem um grupo à parte das relações de classe, do estado ou do sistema econômico. Pode parecer muito estranho iniciar este texto por um fato tão óbvio: ainda que a matéria do trabalho do artista seja basicamente a imaginação, ele é um ser deste mundo, com todas as necessidades materiais de qualquer outra pessoa. Necessidades estas que precisam ser obtidas pelos mesmos meios que todas as pessoas se utilizam na sociedade capitalista: a venda de mercadorias produzidas por elas, ou a venda da sua força de trabalho, usada para produzir mercadorias. Por mais óbvio que pareça o fato de que o artista está neste mundo e, sendo assim, não observa este mesmo mundo do alto, sem participar dele, em outras épocas esta relação se fazia muito mais clara que hoje, principalmente para os próprios artistas. Exatamente porque em outras épocas a arte e, consequentemente, os artistas encontravam-se a serviço do poder oficial para poder sobreviver.

No antigo Egito, esculturas, pinturas, arquitetura e música, eram usadas para exaltar o faraó (o deus vivo que governava o império) e seu poder. Na Grécia antiga, o teatro tinha a finalidade moral de edificar os valores considerados positivos para o cidadão. Este era o objetivo de toda arte na Grécia e por isso todos os trabalhos artísticos, da escultura à música, eram públicos e custeados pelo governo. Apenas as pinturas decorativas de vasos, por assim dizer, escapavam deste caráter e retratavam cenas cotidianas; mas estas mesmas cenas costumavam exaltar os costumes e valores do povo grego, como suas guerras e conquistas.

Durante o longo período da história da Europa, chamado Idade Média, a arte era usada para divulgar a moral da Igreja enquanto instituição, através de esculturas e pinturas com imagens de santos ou de acontecimentos descritos na Bíblia, ou ainda nos retratos dos papas. O teatro encenava espetáculos públicos chamados autos – peças populares que consistiam em fábulas segundo os princípios morais da igreja – e as missas continham longas partes cantadas e tocadas especialmente compostas por músicos comissionados pela igreja.

A arte serviu nessa época também ao interesse dos nobres, que eram a classe política dirigente: pintores realizavam retratos de membros de famílias desta classe; esculpiam-se monumentos retratando e exaltando estas mesmas pessoas; músicos compunham e executavam danças para animar as festas da nobreza, etc. Em certos países e culturas da Ásia e da África a arte chegou a ter sua prática proibida para quem pertencesse às castas (ou classes) mais humildes. Os conhecimentos das técnicas e procedimentos artísticos, nesses lugares, eram passados de pai para filho, sob condição de que fossem divulgados somente para membros de sua casta.

Seria possível enumerar exemplos ao longo de todo texto, mas a intenção era demonstrar como a arte foi usada pelo poder oficial ao longo da história, para transmitir ou inculcar a ideologia que lhe era conveniente. Mesmo em pleno século XX, regimes totalitários e autoritários chegaram a criar instituições oficiais para controlar a arte (como associações ligadas ou dirigidas pelo estado, no nazismo e no stalinismo, ou ainda a censura e a nomeação de interventores em entidades como sindicatos ou associações de artistas, durante ditaduras militares, como a brasileira). Esse controle dos usos e conteúdos da arte se deve ao fato de que, se ela pode cooptar de forma eficiente para o poder, também possui igual potencial subversivo, que pode ser usado contra este mesmo poder.

A arte desperta o imaginário e a razão para possibilidades muito além daquelas que aqueles que possuem o poder desejam ou gostariam que a maioria das pessoas vivenciasse ou experimentasse.

Por falar diretamente aos nossos sentidos (escuta, visão, etc.), a arte permite uma ressensibilização destes mesmos sentidos em termos humanos, o que nos leva a transcender nossas necessidades animais instintivas (como comer, dormir, etc.), e nos revela novas necessidades e possibilidades, verdadeiramente humanas, e até então não percebidas, dada nossa urgência em suprir nossas primeiras necessidades animais.

Karl Marx já havia mencionado este processo nos seus Manuscritos Econômicos e Filosóficos, chamando-o de humanização dos sentidos, porque estes se voltam para objetivos humanos. É claro que para que isso ocorra, nossas primeiras necessidades animais devem ser supridas, pois nossa própria sobrevivência depende disso. E suprir apenas essas necessidades básicas nunca foi possível para todas as pessoas em nenhum momento da história da humanidade. O motivo óbvio dessa carência, ainda que quase sempre convenientemente omitido, é que essa mesma história foi e continua sendo a história da luta de classes. Mas se antes podia se dizer que essa carência era infligida às pessoas por conta da falta de condições materiais, porque não havia meios de produção para satisfazer as necessidades de todos, mesmo as básicas, hoje o que se dá é a superprodução e o desperdício, gerando lucro e acúmulo de riquezas para poucos, enquanto a maioria das pessoas carecem do mínimo necessário.

Retornando à questão da arte na história, essa se vê parcialmente liberada de cumprir as determinações do poder oficial após as primeiras grandes revoluções, como a francesa, que chegou a inspirar alguns artistas e teve, entre eles, entusiastas que viviam em outros países.

Artistas como o pintor espanhol Francisco Goya e o compositor austríaco Ludwig van Beethoven, ambos propagandistas da república como forma de governo. Através das revoluções, ocorreram transformações nas relações dos modos de produção de toda sociedade. Na arte, a relação entre o seu produtor e o seu consumidor também mudou. Essa relação, que até então era praticamente direta, passa agora por tantas mediações, que já não se torna mais possível o comprador (que antes era o financiador) da arte determinar completamente sua forma e o seu conteúdo segundo seus interesses de classe, algo até então muito comum de se fazer. Pode-se dizer que a arte encontra-se, a partir de então, emancipando-se (mesmo que ainda só parcialmente), uma vez que seu controle tornou-se mais difícil, e, consequentemente, seu uso tornou-se potencialmente muito mais perigoso. Claro que os artistas se dão conta disto.

O artista engajado criticamente nos problemas sociais e políticos do seu tempo, aderente à revolução ou idéias progressistas, não é uma criação recente, mas foi necessário que muito tempo transcorresse para que ele amadurecesse sua crítica sob uma ótica socialista. Entre os séculos XVIII e XIX, por exemplo, se desenvolveu o movimento artístico chamado romantismo, cujos integrantes declaravam-se abertamente contra o capitalismo. Mas praticamente todos esses artistas ainda possuíam uma nostalgia reacionária dos tempos pré-capitalistas, tempos estes que eles consideravam melhores e de valores mais autênticos.

Até praticamente o século XX, e mesmo no seu início, o grande problema era que a maioria dos artistas que se declaravam revolucionários, ainda que muito preocupados em denunciar a desumanidade do capitalismo, não se engajavam na luta prática, relegando-se a uma prática “revolucionária” somente em suas respectivas atividades artísticas. Houve exceções, como alguns poetas e artistas plásticos russos na revolução de 1917, e também os artistas alemães da corrente autodenominada dadaísta, durante a revolução alemã de 1918, que chegaram nos dois casos a combater com armas.

Acontecimentos como esses se devem ao fato do século XX ter sido o momento histórico com maior acúmulo sobre a relação das artes e a revolução como meio de transformação social e política. A responsabilidade de um artista do século XXI para essa questão torna-se assim muito maior, algo que ele simplesmente não pode ignorar.

O poeta francês André Breton, inicialmente ligado ao dadaísta Tristan Tzara e depois líder do movimento surrealista, percebeu a insuficiência do engajamento exclusivamente artístico para os fins da revolução e, em 1938, lançou o “Manifesto por uma Arte Revolucionária Independente”, escrito juntamente com Leon Trotsky e assinado com Diego Rivera, muralista mexicano. Esse manifesto clama o engajamento dos artistas pela prática revolucionária, para que assim a arte possa realmente se libertar das determinações e interesses tanto da ditadura do mercado capitalista, como das ditaduras totalitárias (lembremos que o ano é 1938, com ditaduras nazistas e fascistas por toda Europa, mais o stalinismo instalado na URSS e o capitalismo em toda parte).

Vencidas as ditaduras totalitárias no final da segunda grande guerra, temos a hegemonia da sociedade capitalista, estabelecida no senso comum em 1989, após a queda do muro de Berlim. Este mesmo capitalismo, em qualquer modo ou variação que se apresente, será sempre um sistema utilitário, onde tudo (principalmente os próprios seres humanos) tem um preço e pode ser usado para um fim. Este fim, ao qual tudo e todos se encontram sujeitados no capitalismo, é exatamente o acúmulo de riqueza e a geração de lucro para pequenos grupos de pessoas, que são os detentores da propriedade privada dos meios de produção. Sujeitando a tudo e a todos humanos, o capitalismo os transforma em objetos comercializáveis: as mercadorias. A arte neste mundo capitalista, que a tudo torna mercadoria, parece algo inútil e, consequentemente, incapaz de gerar valor de troca. Porém, na prática, a arte revela-se como mais um objeto transformado em mercadoria, como qualquer outra coisa; quer sob a forma de discos, cds, dvds, livros, hoje produzidos em escala industrial; quer sob a forma de objetos tidos como únicos: espetáculos de teatro, ópera, concertos, pinturas e esculturas, que podem ser adquiridos somente por aqueles que podem pagar por eles, como ainda são consumidos como símbolos de posição social econômica e cultural.

Mas há ainda o artista que se recusa a vender sua criação no mercado, zela por sua independência e até busca denunciar a falsidade dos valores da sociedade burguesa. Surgido juntamente às revoluções que mudaram radicalmente a história e o mundo, este artista considera-se revolucionário e critica a sociedade burguesa, não apenas através do conteúdo da sua arte, mas também ao recusar-se a aderir às formas e fórmulas de arte consagradas pela mesma burguesia que ele critica. Alguns destes artistas se autodenominam “vanguarda”, sendo que alguns buscam chocar a burguesia zombando dos seus valores, e outros vão ainda mais longe ao pregar a necessidade do fim dela (a burguesia), por meios revolucionários. Assim o fazem porque perceberam que, se dispõem de mais liberdade que a maioria das pessoas, mesmo eles não são livres na sociedade capitalista, onde absolutamente ninguém é livre.

Por mais valor que estas críticas possuam, e elas possuem, o artista engajado deve se colocar nas questões do seu tempo integralmente, não se limitando a tomar partido individualmente, somente através da sua arte. Deve ele tomar partido como o ser concreto que é, ativamente na prática política e organizando-se coletivamente com todos aqueles que partilham seus pensamentos. Porque toda humanidade (incluindo ele, o artista) só será realmente livre em uma sociedade livre. E o único modo de conquistar essa liberdade será através de ações pela transformação radical de toda a sociedade. Não pretendo aqui desprezar as contribuições dos artistas engajados na sua prática artística, mas conclamá-los para a prática política, pois é ela que resolve os problemas sociais, como o próprio problema de fazer uma arte livre sem vender-se para o mercado, este, um problema que todo artista vive em seu dia-a-dia.

Uma teoria ou arte revolucionária sem prática revolucionária implica, para o artista, encerrar-se numa “ilha virtual de liberdade”, para citar o físico Mario Schenberg, quando este se referia aos estéreis debates acadêmicos a respeito da emancipação humana, que não redundavam em nenhuma ação. Iludido em sua “ilha virtual de liberdade” e assim crendo-se já emancipado, porque aparentemente livre em pensamento, mas ainda tão cativo quanto qualquer outro trabalhador no capitalismo, o artista corre o risco de ser assimilado, embalado, etiquetado e, por fim, estocado na prateleira de bens de consumo destinados aos “descontentes com o sistema”. Produz assim uma revolta domesticada, que, por sua impotência em conduzir mudanças reais, serve duplamente ao sistema: primeiro, como mercadoria comercializada e segundo, como justificativa da ideologia que prega que o capitalismo é um sistema democrático por permitir a circulação de críticas contra ele (desde que limitadas à forma do discurso, ante ações diretas os capitalistas sempre mostram sua verdadeira face repressiva).

Como Herbert Marcuse descrevia no livro “A Ideologia da Sociedade Industrial”, essa crítica impotente e sob a forma de revolta domesticada, volta-se contra sua própria intenção, ao reproduzir apenas a “necessidade da aparência de uma via alternativa em uma sociedade unidimensional”. É por isso que o papel do artista realmente revolucionário é muito maior do que restringir-se a denunciar ou desmascarar a desumanidade do capitalismo através da sua arte. É participar das lutas concretas do seu tempo, tanto quanto cantar, pintar, esculpir, narrar ou encenar estas lutas. Vivenciá-las e colaborar nelas é o que se espera de um artista realmente revolucionário. Por isso que encerro atualizando as palavras de ordem proferidas por Trotsky, Breton e Rivera em 1938:

O que queremos:
A independência da arte – para a revolução
A revolução – para a liberação definitiva de toda a arte e de toda a humanidade.

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