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Arqueologia e austeridade em Joinville, SC

 O fracasso da gestão da cidade se mostra no modo de tratar a cultura na cidade sob a ótica da austeridade, aglutinando setores completamente distintos (Cultura, Esporte e Turismo) numa única Secretaria de Educação, só enfatiza o fracasso da gestão da Cultura em Joinville.

“As ideias dominantes numa época são essencialmente as ideias da classe dominante daquela época”.

Karl Marx

Para Trotsky essa máxima de Marx se aplicava também para a cultura e seu conjunto. Nesse aspecto, essa citação pode nos ajudar a ilustrar a atual situação em que se encontra o Patrimônio Arqueológico sob a guarda do município de Joinville.

Há mais de quatro décadas o município adquiriu uma coleção arqueológica de aproximadamente 12.000 peças. Essa coleção, refere-se a uma ocupação pré-colonial de cerca de 5.000 anos, da qual herdamos um riquíssimo acervo que conta com artefatos de significativo apelo científico, estético e educativo, que, ao longo desses 40 anos já está estimada em 45.000 peças.

Em uma cidade construída sob as bases do discurso da hegemonia germânica, esse Museu de Arqueologia cumpre o papel de dialogar com a sociedade a partir da perspectiva da diversidade étnica da ocupação desse território.

Desde que o Museu Arqueológico de Sambaqui de Joinville abriu suas portas ao público em 1972, desenvolveu uma prática museológica, pela qual é nacionalmente reconhecido, pautada na socialização do conhecimento produzido pela arqueologia, com setores muitas vezes alijados dos espaços de cultura, destinados em sua grande maioria às elites. Partindo dessa premissa, o Museu Sambaqui priorizou a aproximação com as populações de entorno dos sítios arqueológicos, com as associações de bairro, com os trabalhadores alunos de programas de educação para jovens e adultos, além de alunos e professores da rede pública de ensino.

No entanto, esse trabalho e esse acervo, que é Patrimônio da União, encontram-se em risco, uma vez que o prédio onde se localiza o Museu é frequentemente atingido por enchentes. Por mais que os trabalhadores alertem, registrem e peçam a remoção do Museu desse local, acervo e trabalhadores continuam à mercê das águas que invadem o prédio periodicamente. Essa opção política ao longo dos anos pela não transferência do Museu, tem deteriorado não só a materialidade dos artefatos, mas as condições para a produção de significados a partir deles e o direito ao acesso ao Patrimônio Cultural.

Passados cinco dias da última enchente nas dependências do Museu, a situação continua calamitosa, peças milenares ainda estão embaixo d’água e os servidores trabalhando no salvamento dos acervos sem a menor condição ambiental. Quanto tempo mais será preciso para que os entes responsáveis (União e Município) viabilizem as condições mínimas necessárias para preservação desses bens?

Essa desarticulação entre os responsáveis legais pelo patrimônio, aliada a atual postura dos gestores em relação ao modo de tratar a cultura na cidade sob a ótica da austeridade aglutinando setores completamente distintos (Cultura, Esporte e Turismo) numa única Secretaria de Educação, só enfatiza o fracasso da gestão da Cultura em Joinville.

Nesse pequeno recorte da situação cultural, é possível perceber que se por um lado, a cultura pode ser instrumento de consciência e emancipação política, por outro lado, a sua anulação pode servir como instrumento de opressão.

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