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Aço no Paquistão: “Elefante Branco” ou presa saudável?

A classe trabalhadora, em escala mundial, está entrando na arena da historia para decidir seu próprio destino e enquanto isso ocorre há uma onda de agitação entre os trabalhadores de diversas empresas no Paquistão

A existência de uma gigantesca empresa produtora de aço em um país atrasado como o Paquistão só pode ser um milagre. A idéia de estabelecer uma indústria de aço paquistanês surgiu durante a era Ayub Khan (1958-1969), mas os EUA, assim como os demais países avançados, se recusaram a dar qualquer tipo de assistência técnica, pois a criação de uma indústria básica avançada como essa é uma ameaça às suas agendas imperialistas.

No entanto, em 1972, Zulfiqar Ali Bhutto, com apoio da União Soviética, lançou as fundações da usina de aço. Grupos religiosos, a burocracia estatal e demais beneficiados do capital financeiro e seus mestres, os importadores de aço, se apressaram a bombardear o projeto intitulando-o de “elefante branco”. A Steel Mills começou a funcionar em 1982 com o objetivo de suprir a demanda e industrializar o país a um ritmo mais acelerado.

Na época, graças à empresa estatal, 800 mil a um milhão de pessoas, direta ou indiretamente ganhavam a vida fornecendo 30% do aço consumido no país. Graças a engenharia soviética a produção dobrou, sendo que poucas mudanças foram feitas no design da fábrica. Contudo, como já foi mencionado, a Steel Mills foi uma dor de cabeça para os capachos do capital financeiro bem como para os empresários de importação do material, eles não pouparam esforços para sabotá-la.

Apesar de todos esses atos covardes da classe dominante do país, a empresa ajudou na construção de uma infra-estrutura básica, mas esse progresso foi barrado pela interferência do capital financeiro internacional. O proletariado empregado nas usinas possui um histórico de luta revolucionaria e expressou-se como uma classe independente em diversas oportunidades.

A privatização da Steel Mills foi anunciada, seguindo a receita de entidades imperialistas como o FMI, durante a era Musharraf, e houve tentativas de se vender a empresa que valia 200 bilhões de rupias por apenas 22 bilhões. Os trabalhadores imediatamente se prepararam para a luta e o Estado foi forçado a retroceder, temendo a reação operária no restante do país.

Com o intuito de desviar a atenção da classe trabalhadora, para impedir que ela visse o poder que ela tem, a Suprema Corte decidiu interromper a privatização, mas sob a alegação de que estava sendo vendida a preços muito baixos, sentença que na verdade servia para justificar a venda. A Steel Mills escapou da armadilha temporariamente, mas logo voltou a ser alvo dos ataques daqueles que desejavam comprá-la por um preço que pagariam por sucata, como mandavam seus instintos de classe. Agora, essa “clique” saqueadora volta a atacar, dessa vez com o apoio do Partido Popular Paquistanês, para realizar seus sonhos luxuriosos. A nomeação de dois burocratas imensamente corruptos como Moeen Aftab Sheikh para presidente e Sameen Ashgar como diretor de comércio pelo presidente Zardari é uma tentativa de naufragar qualquer plano de progresso na empresa e assim, criar a desculpa necessária para a privatização.

As condições financeiras da Steel Mills se deterioraram a tal ponto que os funcionários não estão mais sendo pagos com a regularidade devida e bônus está obviamente fora de questão. A produção foi reduzida em 20% de sua capacidade e a unidade geradora de energia que fornecia o suficiente para a Steel Mills e também para a Steel Town, a vila operária, foi fechada. Matéria Prima e minério de ferro também não se encontravam a disposição. Com 60% da capacidade produtiva é o suficiente para gerar recursos para pagar mensalmente o fornecimento de eletricidade, gasolina e outros combustíveis, que juntos custam aproximadamente um bilhão de rupias. Mas devido à má gestão da empresa e à corrupção dos atuais administradores a produção foi reduzida para um quarto da capacidade total, o que esta provocando um déficit de mais de 1.5 bilhões de rupias por mês. A direção da Steel Mills também embolsou como “gratificação” ou para seus próprios ganhos, volumosas somas de dinheiro que pertencem aos trabalhadores. Devido à crise capitalista internacional, a economia paquistanesa vive uma decadência terminal e não é capaz de salvar sequer uma única instituição econômica.

Em meio a toda essa situação o Sindicato Popular dos Trabalhadores tem agido como um tampão a serviço da burocracia estatal e hoje é totalmente apartada dos trabalhadores. Esses líderes trabalhistas – na verdade, traidores – estão lutando para manter seus próprios privilégios e ignoram a luta pelos direitos dos operários. Esses burocratas, que praticam sua gatunagem em nome de Zulfiqar Ali Bhutto, nada mais são do que um câncer contaminando a classe trabalhadora. O Sindicato Popular foi eleito em Junho de 2010 com 95% dos votos, mas até agora não apresentou uma proposta de luta ou de reivindicações. Mais de cinquenta carros que pertencem à Steel Mills estão à disposição dos burocratas sindicais e nada menos que seiscentos representantes de compras e aqueles que possuem cargos no sindicato estão dispensados de seus deveres, o que vale algo como 10% da força de trabalho (se os trabalhadores recentemente efetivados forem considerados).

Há uma atmosfera de revolta em meio aos trabalhadores diante da piora das condições econômicas bem como da alta dos preços e a traição daqueles que foram eleitos para representá-los tem sido o combustível maior desse ódio crescente. Nada mais resta a esses trabalhadores a não ser iniciar uma luta final contra toda essa corja que os oprime em seu ambiente de trabalho, bem como contra o sistema capitalista em seu conjunto.

A classe trabalhadora, em escala mundial, está entrando na arena da historia para decidir seu próprio destino e enquanto isso ocorre há uma onda de agitação entre os trabalhadores de diversas empresas no Paquistão. A recente luta dos trabalhadores das Linhas Aéreas Paquistanesas e da Companhia de Energia Elétrica de Karachi são dois exemplos. Esses dois movimentos foram incapazes de alcançar seus objetivos devido a erros ideológicos e práticos de suas lideranças bem como frente ao isolamento mútuo e da calmaria política. Contudo, não se pode falar em fracassos uma vez que conseguiram vitórias limitadas.

Agora a situação está mudando radicalmente uma vez que cada vez mais trabalhadores estão sendo levados a lutar. Há rumores de redução de pessoal nas Linhas Aéreas Paquistanesas bem como de aumento da corrupção na burocracia e nos ministérios. Os trabalhadores da Companhia de Telecomunicações do Paquistão estão se preparando para retomar sua luta, mas desta vez, em um nível mais alto. Os ativos trabalhadores da Autoridade de Desenvolvimento em Água e Energia estão testando sua liderança, talvez pela última vez, ao mesmo tempo em que os trabalhadores fabris comuns demonstram insatisfação com as políticas direitistas do atual governo do Partido Popular.

Nessas condições, uma faísca poderia levar a um movimento político muito avançado da classe trabalhadora no Paquistão. A necessidade atual é a de uma intervenção dos marxistas para auxiliar os trabalhadores a encontrar um caminho para além dessa situação onde o movimento é comandado por sindicalistas fantoches e unir as lutas isoladas em uma corrente socialista radical.

Traduzido por: Arthur Penna

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