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A Terceira Margem – Crítica

Ouvi algumas histórias sobre mulheres e crianças de tribos indígenas serem pegas no laço. Os fazendeiros contratavam capangas para expulsar os indígenas de suas terras. Esses homens matavam as pessoas, queimavam as aldeias e, em alguns casos, raptavam as mulheres e as crianças.

Difícil mensurar o sofrimento e o trauma de ser obrigado a viver com estranhos, após ser arrancado violentamente de seu lar. Em um ambiente hostil, eram obrigados a aprender uma nova língua e cultura, enquanto as mulheres eram dadas como esposas a homens que elas desconheciam. Ouvi isso várias vezes em mesas de bar, almoço de família ou escola, mas nunca havia parado para pensar sobre. Ao assistir o documentário “A Terceira Margem” de Fabian Remy, percebi o quanto triste e assustadora podem ser essas histórias.

O média-metragem trata sobre João Kramura, um jovem raptado por indígenas da tribo Caiapós na década de 1950, quando tinha apenas 10 anos. João viveu com os Caiapós durante oito anos até ser encontrado pelos irmãos Villas Boas, quando realizavam a expedição Roncador-Xingu, denominada Marcha para o Oeste, na década de 1940. Então com 18 anos, João foi levado novamente para a civilização, onde viveu com sua família até a morte.

Remy sonhava há bastante tempo em contar essa história, mas quando pode fazer o personagem principal havia morrido. O documentarista então convida Thini-á, um indígena da tribo Fulni-ô para conduzir a busca sobre o passado de João. Thini-á deixou a tribo dos Fulni-ô, em Pernambuco, quando tinha 15 anos, abalado com um massacre que matou vários parentes, inclusive seu pai.

O filme é então visto com a câmera de Remy, mas conduzido pelos passos de Thini-á, ele quem faz as entrevistas e reflete sobre toda a história de João e dos Caiapós. Isso dá ao documentário um tom participativo, um olhar orgânico, não estranho, pois o indígena está em casa com seus iguais. A obra possui um tom de busca e reencontro. Apesar da história ser de João, Thini-á é quem parece vivê-la.

Durante o filme, os indígenas sempre falam da saudade da tribo e da dor da separação, os tempos modernos parecem deixa-los deslocados, como párias. Ao ter contato com o homem branco, não podem mais viver no isolamento e precisam lutar por manter seus costumes, língua e cultura. João era um indígena nesse sentido, ele sentia saudade da tribo e do tempo na mata, sempre dizia querer voltar.

Ao ser raptado pelos Caiapós, ele nunca foi tratado como um estranho, mas como igual. A tribo adotou João como um filho. Segundo uma senhora indígena, ele até cantava a música de guerra ao branco. Quando pensamos nos indígenas sequestrados não conseguimos imaginar um sentimento como o de João, nem o de nossa sociedade como o da tribo. Durante todo o filme percebemos, apesar de viverem nas cidades, que nenhum deles canta música de guerra ao índio.

Antes de ser uma história sobre João, o filme é uma história sobre a vida de Thini-á e sobre nossas diferenças com os indígenas. Difícil não nos sentirmos tocados, como Thini-á, que ao fim do filme decide mudar o rumo de sua vida.

Filme visto no Festival de Cinema da Bienal de Curitiba (FICIBIC).

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