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A saúde pública com gripe

O que está por traz do surto que teve início no México e como o capitalismo deixa a humanidade gripada.

As notícias são cada vez mais alarmantes: a OMS (Organização Mundial de Saúde) já declarou o nível de alerta 5 (numa escala de 1 a 6). Já são 8 casos confirmados de morte, mais de 150 casos prováveis de morte, milhares de infectados no México, casos confirmados em todos os continentes. Sim, ao que parece, a Gripe Suína – ou Influenza A – chegou para ficar.

Nas TVs e nos jornais, as fotos da população e de profissionais de saúde com máscaras para se proteger da gripe dominam a cena. O governo mexicano ordenou que o exército distribuísse máscaras pela Cidade do México (que já acabaram), ordenou o fechamento de escolas, templos, cinemas, teatros e estádios de futebol. Depois pediu à população que permaneça em casa! O governo da Inglaterra está atrás de fornecedores para comprar milhões de máscaras. Outros países adotaram decisões mais “drásticas”: o Egito, ao que parece, tomou a decisão de matar 300 mil porcos (como se isto detivesse a doença, que se transmite agora de pessoa a pessoa) e o governo da Argentina simplesmente proibiu os vôos vindos do México de aterrissarem no país.

Sim, o desespero toma conta das pessoas e dos governos. Algumas questões, entretanto, precisam ser explicadas para que possamos entender o que está acontecendo e como, sob o capitalismo, até medidas globais de combate a uma doença seguramente perigosa conduzem ao caos e trabalham de forma ineficaz neste combate, favorecendo a própria doença.

A gripe – de 1918 até hoje

A pandemia de gripe de 1918 matou, segundo as estimativas, entre 30 milhões a 100 milhões de pessoas no mundo todo. O site da Fiocruz (um dos mais respeitados institutos de pesquisa médica do Brasil e do mundo), nos conta:

“Ainda hoje restam dúvidas sobre onde surgiu e o que fez da gripe de 1918 uma doença tão terrível. Estudos realizados entre as décadas de 1970 e 1990 sugerem que uma nova cepa de vírus influenza surgiu em 1916 e que, por meio de mutações graduais e sucessivas, assumiu sua forma mortal em 1918.

Essa hipótese é corroborada por outro mistério da ciência: um surto de encefalite letárgica, espécie de doença do sono que foi inicialmente associada à gripe, surgido em 1916.” (Seção de História do site da Fiocruz).

As cenas que hoje as pessoas descrevem com horror no México são assim descritas pela historiadora da Fiocruz:

“Imagine a avenida Rio Branco [avenida com maior trânsito de pedestres no Rio de Janeiro] ou a Avenida Paulista [avenida que é o centro financeiro de São Paulo] sem congestionamentos ou pessoas caminhando pelas calçadas. Pense nos jogos de futebol. Mas, ao invés de estádios cheios, imagine os jogadores exibindo suas habilidades em campo para arquibancadas vazias. Pois, durante a pandemia de 1918, as cidades ficaram exatamente assim: bancos, repartições públicas, teatros, bares e tantos outros estabelecimentos fecharam as portas ou por falta de funcionários ou por falta de clientes.

Pedro Nava, historiador que presenciou os acontecimentos no Rio de Janeiro em 1918, escreve que ‘aterrava a velocidade do contágio e o número de pessoas que estavam sendo acometidas. Nenhuma de nossas calamidades chegara aos pés da moléstia reinante: o terrível não era o número de casualidades – mas não haver quem fabricasse caixões, quem os levasse ao cemitério, quem abrisse covas e enterrasse os mortos. O espantoso já não era a quantidade de doentes, mas o fato de estarem quase todos doentes, a impossibilidade de ajudar, tratar, transportar comida, vender gêneros, aviar receitas, exercer, em suma, os misteres indispensáveis à vida coletiva’.”

O site do Ministério da Saúde (Brasil) fala das últimas pandemias de gripe:

“O intervalo entre as três principais pandemias de influenza que ocorreram no século passado foi de 39 anos entre as chamadas Gripe Espanhola e a Gripe Asiática e de 11 anos entre esta e a Gripe de Hong Kong. Não é possível prever exatamente quando uma nova pandemia ocorrerá, mas é possível, por meio do monitoramento dos vírus influenza e da situação epidemiológica nacional e internacional, identificar indícios de que este fenômeno possa estar mais próximo de acontecer. Para a eclosão de uma pandemia é necessário, basicamente, o surgimento de uma nova cepa (tipo) do vírus influenza com capacidade para provocar doença no homem e que esta cepa tenha facilidade de ser transmitida por contágio inter-humano direto (ou seja, de pessoa-a-pessoa).” (Ministério da Saúde)

Traduzindo, aconteceu uma pandemia em 1918-19, outra em 1957-58 e depois em 1968-69. Abaixo, um histórico mais preciso das pandemias de gripe do século XX:

“A ‘gripe espanhola’ de 1918-1919 originou a taxa de mortalidade mais elevada alguma vez associada à gripe. Devido a esta doença, morreram cerca de 500 mil pessoas só nos Estados Unidos. No mundo inteiro, durante esta pandemia, a gripe foi a causadora de 20 milhões de mortes.

A ‘gripe asiática’, de 1957-1958, provocou 86 mil mortes nos Estados Unidos.

A ‘gripe de Hong-Kong’, de 1968-1969, originou um menor número de mortes do que as pandemias anteriores. Durante este período morreram 34 mil pessoas vítimas da gripe nos Estados Unidos. Esta reduzida taxa de mortalidade foi atribuída a dois fatores: em primeiro lugar, as estirpes das gripes ‘de Hong-Kong’ e ‘asiática’ tinham semelhanças genéticas (a imunidade desenvolvida na população contra a estirpe ‘asiática’ pode ter conferido alguma proteção contra a estirpe ‘da gripe de Hong-Kong’); em segundo lugar, pensa-se que uma estirpe de gripe semelhante à do vírus da ‘de Hong-Kong’ poderá ter circulado entre os finais do século XIX e os primeiros anos do século XX, havendo ainda algumas pessoas com mais de 60 anos de idade com imunidade residual.

Pensa-se que a maioria das pandemias de gripe tem tido origem na China, que é por alguns considerada o epicentro da gripe.

Com efeito, a agricultura tradicional praticada na China faz com que as aves, os suínos e os seres humanos estejam em contato próximo. Esta situação propicia um “laboratório” natural para novas recombinações de vírus da gripe.” (Site da Roche de Portugal)

Claro está que não concordamos com o “diagnóstico” do laboratório – frio como é frio o capitalismo frente às necessidades da humanidade – de que a gripe de Hong-Kong, que matou mais de 34 mil pessoas nos EUA tenha sido “moderada”. Mais ainda, se contarmos a estimativa que a gripe de 1958 matou 2 milhões de pessoas e a 68 matou 1 milhão de pessoas.

Entretanto, é preciso lembrar que a gripe mata por ano por volta de 250 mil a 500 mil pessoas no mundo inteiro! Consultando o site da OMS eu fiquei pasmado ao ver que estas estatísticas não constam das páginas principais. Essas mortes poderiam ser evitadas? A maioria das mortes atinge pessoas mais idosas, que já tenham outras doenças e que, nestes casos, é difícil dizer que os recursos hoje existentes poderiam salvá-las. Por outro lado, o segundo grupo atingido é o de crianças e, neste caso, é evidente que a falta de um diagnóstico rápido e preciso, a falta do atendimento a saúde, é que levam à morte.

Claro está que isto é agravado pelas condições de vida da criança. É preciso lembrar que neste período de crise econômica a fome atingirá, este ano, 1 bilhão de pessoas! Não é preciso ser mágico para imaginar quem vão ser os mais atingidos pela gripe e não precisamos ser cientistas ou possuir um alto cargo na OMS para declarar que “os pobres vão sofrer mais as conseqüências desta crise”. Também é verdade que dependendo da variedade do vírus, teremos uma gripe mais mortal ou uma mais simples, as mais letais permitindo que entrada de outras infecções “oportunistas” (que se aproveitam da baixa imunidade gerada pela gripe) como pneumonia.

Por último, o vírus da gripe sofre mutações rápidas e as vacinas não acompanham todas as mutações. Em outras palavras, a pessoa pode ter sido vacinada contra a gripe e ser atingida por uma mutação do vírus que se desenvolveu pouco tempo atrás. O vírus se desenvolve não só na raça humana, como em aves e porcos. As maiores pandemias de gripe parecem ter se originado em vírus vindos do porco e que se adaptaram ao corpo humano, podendo reproduzir-se e serem transmitidos de um humano para outro.

A gripe aviária que assustou o mundo por sua capacidade letal não conseguiu chegar a este estágio. O susto atual é que esta epidemia vem acompanhada com uma capacidade de transmissão de humano para humano muito alta. Como a maioria das doenças causadas por vírus, os remédios não são simples e foram desenvolvidos mais nos últimos anos, a partir do combate contra a AIDS, os chamados anti-virais.

Origens do surto atual de gripe

A gripe, ao que tudo indica, originou-se no México, contrariando as expectativas e a história de todas as pandemias anteriores. Segundo alguns pesquisadores, poderia ter sido feita pela combinação virótica entre cepas (tipos de vírus) da gripe suína, aviária e humana. Segundo outros, foi a combinação de dois tipos de gripe suína passada posteriormente para humanos. O fato da gripe ter vindo recentemente impede que se tenha uma resposta concreta para isso.

Por outro lado, o medo gerado na OMS tem sentido: a gripe tem um alto nível de transmissão e caso se torne mais letal, o número de mortes poderá ser absurdo. Apesar disso, as autoridades de saúde do México e das Américas (onde a gripe mais se difundiu) demoraram a reagir. O jornal The Financial Times mostra estes dados – e não temos porque duvidar da imprensa capitalista quando ela própria mostra as mazelas do sistema:

“Funcionários graduados de serviços de saúde latino-americanos e internacionais foram informados sobre o surto de gripe suína no México pelo menos duas semanas antes de lançarem alertas públicos quanto à doença.

A demora alimenta dúvidas quanto à possibilidade de que mais pudesse ter sido feito para prevenir a difusão da infecção pelo mundo. A Veratect, consultoria americana que monitora reportagens veiculadas na internet, confirmou ontem que a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) teve acesso a alertas sobre um surto no México em 10 de abril, mas não emitiu alerta público até o dia 23 de abril.” (The Financial Times, reproduzido pela Folha de São Paulo, 30/04/2009).

Treze dias de atraso numa situação em que se contam em horas o tempo de contágio? Realmente é brincar demais com a vida humana. Mas seria só este o atraso? O texto continua:

“A OMS informou que a primeira notificação que recebeu sobre o surto foi em 16 de abril, por meio da Opas. Dois dias mais tarde, em 18 de abril, a organização recebeu confirmação do CDC (Centro de Controle de Doenças dos EUA) de que havia dois casos da gripe na Califórnia.”

Então, não é apenas porque temos um país “atrasado” (o México) que a demora aconteceu. Dois casos há haviam sido relatados e confirmados no Centro de Controle de Doenças dos EUA e os testes já podiam ser feitos (os primeiros testes são feitos de forma negativa. Pelos resultados clínicos se confirma que é gripe e são comparadas amostras do vírus com amostras disponíveis de surtos anteriores. Este é o teste que ainda está sendo feito no Brasil, até a chegada de amostras do novo vírus, provavelmente em 30 de abril ou 1º de Maio. Depois os casos passam a ser confirmados com a comparação direta com os vírus obtidos dos primeiros casos).

Enfim, em 18 de abril a OMS (8 dias antes do “alerta”) já tinha os dados. Mas resolveram esperar. Muito tempo para uma doença em que, no primeiro dia (e às vezes até no segundo dia), a pessoa não apresenta sintomas, mas transmite a doença; para uma situação em que o remédio disponível – os antivirais – deve ser aplicado com início entre o 4º ou 5º de contaminação e em que a duração da doença em cada pessoa – quando sobrevive – é entre 7 e 14 dias.

É um escândalo! Mas o problema é bem pior que isso:

“Bob Hart, vice-presidente da Veratect, disse que sua empresa relatou em 30 de março a seus clientes – OMS, CDC, governos, empresas e ONGs – a internação em um hospital canadense, oito dias antes, de um advogado que sofria de uma doença respiratória ao voltar do México.”(ibidem).

Quanto tempo demora o teste para ver se é uma nova cepa de vírus? Segundo o Laboratório Oswaldo Cruz, o tempo de demora é de dois dias. Ou seja, se tivesse sido feito o teste, já se saberia (no Canadá), no máximo em 3 de Abril, da existência de uma nova variedade do vírus! Mais de 20 dias perdidos e tendo como resultado, depois disso, na disseminação da doença de forma indiscriminada no México, onde a população não foi alertada e as mortes se acumulam e também nos EUA! Em outras palavras, a pandemia mundial poderia ter sido detida e talvez boa parte das mortes no México poderiam ter sido evitadas!

Devemos lembrar que a saúde pública no México está sendo privatizada e isto teve influência direta no surto de gripe (ver artigo dos camaradas mexicanos Ubaldo Oropeza e Luis Enrique Barrios no site da CMI). A saúde nos EUA também é toda privada, apesar de todas as agências de controle. E a OMS, apesar do seu nome pomposo, segue este modelo e o máximo que consegue, além das “normas” e “diretrizes” é apelar para que a indústria doe mais remédios para os países pobres e que “tente” produzir uma vacina.

Combatendo a gripe: prevenção, remédios e vacina

As medidas tomadas pelos governos são, em certa medida, muito mediáticas. A mais espetacular e mais idiota – e não conseguimos achar um adjetivo mais simples – foi a decisão de matar 300 mil porcos no Egito. Outras, como o fechamento de fronteiras, podem funcionar por alguns dias se a gripe não se disseminar. Mas, à medida em que ela passe do México e EUA para outros países, a gripe dissemina-se pelo mundo. Uma notícia de 30 de abril dando conta que os turistas estão abandonando em massa o México, em particular a praia de Cancun, permite especular que a gripe vai aumentar a sua disseminação pelo mundo. Lembremos que os primeiros casos fora do México foram a trabalho, turismo ou estudos. Foram estudantes que levaram a gripe para Nova York. Um fuzileiro Naval que voltou do México que levou a gripe para a Califórnia. E pela fronteira entre EUA e México, no momento atual, devem estar seguindo milhões de norte-americanos com medo da gripe e fugindo do país vizinho, carregando o vírus em ondas crescentes.

Os casos em outros países foram, em principio, de pessoas que voltaram do México. Além dos EUA e México – que concentram a maioria dos casos – mais 10 países têm casos confirmados e alguns, como o Brasil, tem vários doentes sendo acompanhados e sendo testados enquanto este texto é escrito. Todos os que tiveram já os resultados divulgados foram negativos, mas a onda fugitiva do México se amplia e com ela a difusão da gripe pelo mundo. Assim, enquanto os vôos do México para a Argentina estão proibidos, o que eles farão quando a gripe chegar ao Brasil e outros países vizinhos? E quando chega na Europa e EUA? Proibir vôos e navios? Seria simplesmente parar toda a economia e isto não é suportável no momento. Além disso, apesar de todo o alarme e toda a prevenção – e ela deve ser feita – fora do México o número de casos ainda é baixo (menos de 200).

Claro que numa economia socialista a situação poderia ser tratada de modo diferente: médicos, enfermeiros e auxiliares poderiam ter sido deslocados para o México. Tratamento teria sido oferecido aos mais pobres e, além disso, garantido a eventuais turistas também o tratamento e acompanhamento. Se necessário, além de aulas, teatros, cinemas e jogos, também o trabalho seria suspenso, exceção feita ao essencial como serviço de saúde e distribuição de alimentos. Todas as áreas afetadas do México poderiam ser suportadas pela produção em outros países e áreas não afetas. Mas isso exige cooperação e cooperação o capitalismo não pode oferecer nem ao menos para fazer chegar um aviso em tempo hábil de possibilidade epidêmica, como mostramos acima!

Se algumas medidas de prevenção são úteis – como suspensão de escolas e espetáculos públicos, lavagem das mãos, etc. – outras seriam necessárias, como a suspensão de trabalho. Já outras são simplesmente, como se diz no Brasil, “para inglês ver”, como as máscaras respiratórias.

Especialistas relatam que elas teriam melhor efeito se usadas pelos doentes – e a pessoa pode estar doente sem saber – e que, no melhor dos casos perderiam efeito em duas ou três horas, já que a umidade das respiração levaria a torná-la não só uma transmissora, como também portadora do vírus. E como a maioria das pessoas não deve tomar os cuidados básicos ao chegar em casa, como ferver as mascaras antes entrar em contato com outras pessoas da família, é de duvidar de sua eficácia, se não puder ela mesma se tornar em um meio a mais de transmissão.

As máscaras que estão sendo usadas são simples panos sobre boca e nariz e o vírus é muito menor que os furos existentes. Máscaras usadas na construção civil impedem a passagem de partículas menores, mas mesmo assim são vulneráveis. Uma máscara melhor teria que fazer uma filtragem de ar e, provavelmente, só seria hoje disponível para pessoal médico, se o for (lembremos que em operações quem usa as mascaras são médicos e auxiliares para impedir a transmissão de doenças aos pacientes).

O site da Fiocruz explica como se dá a transmissão da gripe – e reparem na referência explícita aos lenços:

“A transmissão da gripe entre humanos se dá por meio de gotas de saliva e outras secreções das vias aéreas. Embora seja mais comum a transmissão de pessoa a pessoa, também é possível adoecer a partir do contato com objetos contaminados, como, por exemplo, talheres, lenços e teclados de computador, já que os vírus da gripe se mantém viáveis – com plena capacidade para entrar em um organismo e aí se reproduzir – no ambiente por cerca de uma hora.”

O segundo tipo de tratamento é atacar o vírus diretamente com anti-virais. Estudos feitos nos EUA mostram que pelo menos dois anti-virais já não atuam nos principais tipos de gripe – que criaram imunidade a partir do seu uso indiscriminado.

E, provavelmente, aqueles que têm um pouco mais de dinheiro – grande, média e pequena burguesia; trabalhadores mais qualificados – correm para hospitais e clínicas particulares com quaisquer sintomas de gripe e não deve ser difícil achar um médico que faça uma receita com o anti-viral. Resultado: aumenta a possibilidade de que um próximo surto da gripe não possa ser contido pelos anti-virais de hoje.

Novamente, em um sistema estatizado de saúde – totalmente estatizado – os anti-virais só seriam aplicados em pacientes que correm risco de vida (novamente – eles só fazem efeito se aplicados até o 4º ou 5º dia da contaminação). Um grande número de pessoas, inclusive, pode permanecer em casa ao invés de ir ao hospital – é sempre maior o risco de se pegar uma infecção oportunista (que entra no organismo debilitado pela gripe) num hospital do que em casa.

Mas a desordem capitalista, a existência de decisões individuais que buscam a salvação a qualquer custo, acaba custando muito caro em vidas e mais doentes, não só entre os “outros”, mas inclusive para si e para sua família.

Isto quer dizer que todos que estão doentes devem esperar sentados? Claro que não, devem buscar o melhor tratamento disponível no meio do caos que aumenta na saúde (o caos, pelo menos em países como México e Brasil, já existe há muito tempo). Agora, a soma destes tratamentos individuais aumenta o risco da pandemia como um todo, ao invés de afastá-la.

Outros cuidados elementares: o doente usar máscara (isto sim, faz efeito, diminuindo a difusão do vírus), todos os parentes lavarem as mãos, utensílios e demais objetos tocados pelo doente (inclusive lençóis, sofá, maçaneta, computador, etc.). Novamente aqui a miséria impõe um limite: é fácil dizer a alguém que mora no “asfalto” carioca que lave a mão toda hora, mas dar este conselho em todos os morros não é eficaz. Um grande número deles não possui água encanada ou, se o possui, dependem de um armazenamento próprio em cima do morro que não pode ser “gasto” dessa forma sob pena da água acabar.

O terceiro tipo de tratamento é preventivo, fazer uma vacina. É uma tarefa simples e difícil. Produzir a vacina pode ser fácil. Produzi-la com a toxicidade necessária para que crie os anticorpos e não infecte os humanos é mais difícil. Lembremos do trágico exemplo da vacina de 1978 nos EUA. A maioria dos especialistas concorda que uma vacina demoraria quase 6 meses para ser confeccionada. Por outro lado, nas pandemias anteriores ainda não havia tecnologia para se produzir vacinas para gripe. Agora, é possível produzi-las e são necessárias.

Probabilidades

Hoje as autoridades declaram e repetem que não se pode prever o que acontecerá com este surto de gripe no próximo momento. Uma declaração muito pouco científica. Qualquer previsão, se podemos fazê-la, sempre corre o risco de ser errada. Mas quando se joga com a vida de milhões de pessoas – e foram milhões que morreram nas últimas pandemias de gripe, então o melhor é prever o pior. As duas vertentes que tentam explicar a origem da gripe concordam em uma coisa: o novo vírus surgiu nos porcos e veio para os humanos (podendo ser a junção de dois tipos anteriores de gripe suína ou de um vírus suíno, um vírus aviário e um vírus humano).

A experiência mostrou que, nestes casos, demora um pouco para o vírus sofrer mutação e se adaptar melhor ao organismo humano. Em outras palavras, demora um pouco para que ele passe a ter efeitos mais mortais e seja transmitido de forma mais intensa que é hoje.

É a única previsão possível? Claro que não. O vírus pode se adpatar e “normalizar”, igual a uma gripe comum (das que matam entre 250 mil a 500 mil por ano). Então, todas as providências que visem a criar remédios e vacinas são necessárias. E, novamente, todas estas medidas esbarram exatamente na barbárie capitalista.

Desde o uso indiscriminado de anti-virais que criam vírus resistentes, até a volta de infecções que podiam ser combatidas com antibióticos e que hoje não podem mais por terem se tornado resistentes, são conseqüência direta da barbárie capitalista, onde a saúde é administrada individualmente sem considerar os problemas gerais.

É evidente que temos que salvar os doentes e protegê-los por todos os meios possíveis. Mas se uma dosagem de antibiótico não é acompanhada, se no final sobraram bactérias vivas, pode ter sido selecionada uma linhagem resistente (como se seleciona também linhagens resistentes de vírus) e esta agora não poderá mais ser combatida com aquele antibiótico. Em outras palavras, a desordem e o descontrole levam à proliferação de doenças que poderiam ser combatidas facilmente.

Depois as vítimas principais da gripe encontram-se principalmente entre os mais pobres, os que têm fome ou com a resistência minada pela má alimentação (gordura nem sempre é sintoma de boa alimentação, se não houver ingerido as vitaminas e combinações corretas de proteínas, gorduras e açucares, o organismo tende a engordar ou emagrecer, mas, sempre, perde a sua resistência natural). E boa alimentação depende de… ganha um doce quem falou “dinheiro”. Mas a crise atual tem suas vítimas iniciais justamente entre os mais pobres, entre os trabalhadores.

Resumindo: é preciso acabar com a pobreza, é preciso acabar com a falta de higiene, é preciso acabar com a falta de alimentação ou a má alimentação. É possível fazer isso? Ora, em momento de crise vamos ter é justamente o contrário: é o aumento dos pobres. Em outras palavras, a gripe, agora, pode não se disseminar. Mas o caldo de cultura para tal, a miséria que aumenta no mundo, mostra que esse episódio não será o último nesta história da gripe e de suas conseqüências para a humanidade.

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