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A revolução que ainda borbulha sobre a evolução humana

Em Arqueologia, as novas evidências e as suas explicações resultantes vêm confirmar tudo aquilo que os marxistas já sabiam há muito tempo ao explicar a correspondência do materialismo dialético com o mundo natural.

A evolução tem sido um assunto de interesse dos marxistas desde sempre. Engels escreveu bastante sobre esse tópico, viu muitas falhas na teoria original e tampou vários buracos teóricos, por exemplo, nos seus textos sobre o trabalho realizado para criar o cérebro humano moderno, o que foi extensivamente provado pela ciência e pelos registros fósseis desde o tempo de Engels. Ele foi capaz de antecipar todas essas descobertas aplicando o método marxista do materialismo dialético.

As novas evidências fósseis desenterradas em Djebel Irhoud, Marrocos, forçou os cientistas a repensarem a evolução do homo sapiens. Um dente do maxilar inferior e peças que acompanhavam o funeral foram datadas de 280 mil até 350 mil anos atrás pela termoluminescência e datação por série de urânio, combinados com a espectroscopia de ressonância paramagnética eletrônica. Essas são as mais confiáveis peças datadas de restos de humanos modernos. As conclusões tiradas desses achados são duas: 1) o homo sapiens evoluiu há pelo menos 100 mil anos antes do que era pensado; 2) o homo sapiens evoluiu em vários locais do continente africano, e não em apenas um local.

Os cientistas há muito tentam determinar as fronteiras nítidas entre os vários hominídeos antigos e os primeiros humanos modernos. Com base nas novas evidências, entretanto, tais fronteiras nítidas só podem ser definidas onde existem lacunas no registro fóssil existente. A dialética há muito lançou a ideia do gradualismo. Stephen Jay Gould contribuiu para o entendimento dialético da evolução por meio de sua teoria do equilíbrio pontuado.

Entretanto, ao invés de expandir a contribuição de Gould, os cientistas estão mecanicamente colocando o gradualismo e o equilíbrio pontuado lado a lado como as duas únicas opções!

Ao referir-se às descobertas em Djebel Irhoud, a revista Nature comentou o seguinte: “Em particular, não está claro se a morfologia ‘moderna’ atual emergiu rapidamente em aproximadamente 200 mil anos atrás entre vários representantes ou evoluiu gradualmente entre os últimos 400 mil anos”. Os dados estatísticos e morfológicos comparados do homo sapiens encontrado em Djebel Irhoud mostram que eles são quase indistinguíveis dos humanos modernos, com pequenas variantes. Esses dados morfológicos mostram também uma clara diferenciação entre os restos de Djebel Irhoud e os dos neandertais. Isso sugere que estes homo sapiens antigos cruzaram com neandertais ou que eles “representam uma população arcaica, de sobrevivência tardia, no norte da África”.

Os pesquisadores acadêmicos modernos tendem a insistir em uma forma rígida de gradualismo ou em uma simples “ruptura” na linha evolucionária após anos de equilíbrio. Por exemplo, muitos cientistas não acreditam que há evidências suficientes para provar que os neandertais e o homo sapiens cruzaram em Djebel Irhoud, embora outras estudos recentes indicaram que essas “espécies” separadas cruzaram em algum outro local.  Acredito que deveríamos colocar em questão como é feita a distinção das “espécies” no registro humano fóssil. Grupos de hominídeos antigos morfologicamente diferentes não significam automaticamente que estamos defronte de espécies inteiramente diferentes em si e incapazes de ter descendentes férteis com outros hominídeos.

A existência de acúmulos quantitativos que experimentam transformações qualitativas em ambos os aspectos, sociais e naturais, não pode ser negada. Entretanto, essa ideia fundamentalmente correta – que longos períodos de inatividade são seguidos por saltos repentinos – pode também ser aplicada de uma maneira mecânica rígida. Isso pode ser visto por meio da falta de suplementação à teoria do equilíbrio pontuado. Os processos na natureza se desenvolvem de maneira fluida, orgânica. A evidência em Djebel Irhoud demonstra a correção de uma análise dialética do desenvolvimento sobre uma análise mecânica rígida.

A Nature explica: “A evolução consiste em dois fenômenos, porém bem separados, de adaptação e diversificação”. A adaptação ocorre temporalmente enquanto os animais se ajustam aos novos e sempre mutantes ambientes. Sob a influência de tais mudanças ambientais, a inclinação dos pontos é alcançada tanto que trazem à vida diferenças psicológicas com consequências revolucionárias.

O melhor exemplo disso é o salto qualitativo na evolução do cérebro humano, que se tornou possível somente pela transição para um ser completamente bípede, o que deixou as nossas mãos livres. Isso, por sua vez, reagiu dialeticamente no nosso cérebro e vice-versa, até que o cérebro e mãos modernos evoluíssem. Infelizmente, as vozes autoritárias como a Nature continuam a falhar em reconhecer o fluxo infinito como prova de que a evolução procede dialeticamente, afirmando: “Esta evidência anatômica e a proximidade cronológica entre estes dois grupos (os primeiros humanos modernos e as formas do médio Plioceno arcaico africano) reforçam a hipótese de uma mudança anatômica rápida ou mesmo, como sugerido por muitos, uma sobreposição cronológica”.

De fato, as evidências mostram que ambas estas conclusões estão corretas! Mudanças anatômicas rápidas podem ser vistas no momento em que os primeiros homo sapiens emergiram nos registros fósseis e coexistiram com outros grupos de hominídeos humanos pré-modernos, possivelmente até mesmo intercruzando.

Uma outra explosiva conclusão tirada dos restos encontrados em Djebel Irhoud é que a evolução dos humanos modernos foi um fenômeno pan-africano. Anteriormente, foi presumido que o homo sapiens evoluiu no leste e no sul da África. Além das evidências encontradas nos registros fósseis, existem também dados ambientais que suportam a ideia de uma migração anterior pelo continente africano. Como a Nature explica, “o deserto do Saara foi imensamente reduzido durante uma série de episódios do tipo ‘Saara verde’ do médio Pleistoceno, com um período especialmente marcado, porém curto, de cerca de 330 mil anos atrás. A continuidade biológica entre o leste e o noroeste da África é também suportada por fortes semelhanças de fauna, especialmente para o médio Pleistoceno, o que sugere, pelo menos, uma frequente comunicação entre essas regiões”.

Ambas as evidências, tanto o registro fóssil quanto o ambiental, mostram que os primeiros hominídeos poderiam e de fato migraram por todo o continente africano. Os estudos recentes também sugerem que a migração aconteceu em um ritmo mais rápido nesse período que o presumido anteriormente. Se a sobrevivência de alguns depende da caça e da coleta, a migração para seguir as fontes sazonais de comida faz todo o sentido.

As populações extrativistas eram necessariamente nômades até que o planeta passou por um período de aquecimento extensivo que permitiu aos extrativistas se instalar em assentamentos semipermanentes. Entretanto, o crescimento da população levou a restrições nas fontes de alimentos, o que permitiu e compeliu as pessoas a se estabelecerem em assentamentos permanentes. Isso eventualmente levou a uma revolução na agricultura e ao surgimento das classes e do estado em diferentes continentes, independentes uns dos outros.

A ideia de que o homo sapiens evoluiu por toda o continente africano, e não em uma única região, reavivou o debate entre o modelo de “continuidade multirregional” e o modelo “fora da África”. O modelo de continuidade multirregional começa com a migração do homo erectus para fora do continente africano por toda a Eurásia. Enquanto essa migração ocorria, as populações ficaram geograficamente isoladas umas das outras e, portanto, evoluíram mais rápido. Isso resulta na formação do homo sapiens simultaneamente por todas essas regiões. Entretanto, este modelo não é mais sustentável dadas as evidências dos primeiros humanos modernos encontrados na África.

O modelo fora da África também leva essa conclusão ao seu extremo. Esse modelo postula que o homo sapiens evoluiu completamente na África e depois migrou para a Eurásia, substituindo as outras populações de hominídeos. Mas fica a questão: por que devem existir e/ou quando existem elementos em ambos os modelos que são provados corretos pelo registro fóssil?

As evidências sugerem que o homo sapiens evoluiu em um processo similar ao descrito no modelo de continuidade multirregional, porém concentrado por todo o continente africano. Mais tarde, uma vez que essas populações conseguiram ir para “fora da África”, elas com certeza levaram outros hominídeos à extinção, porém eles podem ter continuado o processo de intercruzamento com os hominídeos que migraram antes.

Tudo isso explica porque Djebel Irhoud agitou o entendimento dos cientistas sobre a evolução humana, pois os fatos põem ainda mais pressão sobre eles para adotar conscientemente uma perspectiva materialista dialética. As implicações disso são: os humanos modernos existiram em congruência com os outros humanos antigos enquanto eram distintamente diferenciados; e existiram em várias regiões por todo o continente africano. As evidências sintetizam duas teorias da evolução humana em uma só.

A complexidade da natureza não está além do conhecimento. Entretanto, compreendê-la depende da capacidade de se interpretar os dados com a flexibilidade que somente a dialética oferece. Conclusões erradas são tiradas quando as evidências são forçadas a se encaixar em expectativas com base em uma visão filosófica pré-ordenada. As evidência devem ditar as conclusões e as lições filosóficas têm extrapolado isso. Esse é o método do materialismo dialético usado pelos marxistas. Por meio dele podemos analisar a ciência, a natureza, a história e a pré-história e desenvolver perspectivas para o futuro.

A existência humana e os relacionamentos desenvolveram-se por meio de processos influenciados por eventos, socialmente baseados em condições materiais e de um meio ambiente mais amplo. O desenvolvimento de nossa espécie não teve uma progressão linear, porém se consistiu em períodos de fluxo e refluxo. O mesmo pode ser visto no desenvolvimento das sociedades, dos meios de produção e da luta de classes. Desenvolvemos nossos impressionantes cérebros, a habilidade para o trabalho, a capacidade de pensamento abstrato e a razão para sobrepujar as restrições materiais de nossos ambientes imediatos.

Atualmente nós temos os meios de produção desenvolvidos a tal ponto que frequentemente sofremos crises crônicas de superprodução, já que o sistema produz “demais” – e mesmo assim milhões morrem de fome e vivem em condições degradantes por todo o mundo. Devemos aprimorar nossa compreensão teórica e aprender com os processos como evoluímos e nos desenvolvemos. Devemos utilizar todo esse conhecimento para lutar e construir uma sociedade que garantirá o longo caminho evolucionário que tomamos como espécie e não um que nos leve a um salto qualitativo para o esquecimento e uma extinção prematura.

Artigo originalmente publicado em Socialist Revolution USAsite da seção norte-americana da Corrente Marxista Internacional (CMI), sob o título “The Simmering Revolution in Evolution“.

Tradução Ivison Poleto.

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