Início / Artigos / A Revolução Egípcia

A Revolução Egípcia

As chamas da fúria estão se espalhando por todo o Egito, e nada pode detê-las. O destino do regime de Mubarak está na corda bamba.

Hoje (28/01) houve confrontos violentos nas ruas do Cairo e de outras cidades egípcias – a luta pelo poder entrou numa nova fase. Os protestos foram convocados após as orações de sexta-feira. O regime alertou: todos os protestos serão reprimidos com força total por parte do Estado. O palco estava preparado para um confronto dramático.

A situação tornou-se explosiva com velocidade extraordinária. Nos últimos dias centenas de milhares de pessoas foram às ruas exigindo liberdade. Com uma coragem admirável enfrentaram os cassetetes, os tiros e o gás lacrimogêneo da polícia. Hoje, eles enfrentaram um verdadeiro batismo de fogo. Os protestos, que costumavam ter predominantemente a participação de estudantes, já agregam o exército de pobres e deserdados das favelas do Cairo e de outras cidades. Robert Fisk escreveu:

“Há vários indícios de que as autoridades do Cairo se deram conta de que algo está se passando. Vários egípcios disseram-me que, em 24 de janeiro, as forças de segurança estavam retirando as fotos de Gamal Mubarak das favelas – para que não provoquem as multidões. Mas o grande número de prisões, os espancamentos por parte dos policiais nas ruas – que não fazem distinção entre homens e mulheres – e o colapso do mercado de ações egípcio ostentam as marcas do pânico ao invés da astúcia.”

A repressão pode ter êxito?

Diante disso a revolução enfrenta um desafio assustador. O regime tem um milhão e meio de soldados em seu aparato de segurança, no qual injeta milhões de dólares para mantê-los fiéis. O objetivo desse terrível aparato não é defender o Egito contra os agressores estrangeiros. Não é para lutar contra Israel. Seu objetivo é manter o povo egípcio sob controle. Mas isso pode ser alcançado?

No papel trata-se de uma força formidável, contra o qual o povo não tem chance de vencer. Mas alguém poderia ter dito o mesmo sobre cada regime tirânico da história. Luís XVI da França, o Czar Nicolau da Rússia e o Xá do Irã, todos possuíam um aparato de repressão cem vezes mais forte do que esse à disposição de Hosni Mubarak. No entanto, na hora da verdade, esses monstros poderosos desabaram como um castelo de cartas.

Porém a demonstração de força bruta não revela força, mas fraqueza: com exceção da polícia e do Exército, o governo não tem poder. Napoleão observou certa vez que se podem fazer muitas coisas com baionetas, mas você não pode sentar em cima delas. Em última análise, o exército e a polícia são uma base muito estreita para sustentar um regime impopular. Para seu choque e espanto as autoridades estão chegando à conclusão de que o aparelho repressivo não pode deter os protestos. O caráter espontâneo desses oferece certa proteção contra o Estado, embora seja uma fraqueza que terá efeitos negativos mais tarde.

Hoje, o regime mobilizou toda a sua força para abortar a Revolução. Os membros de uma unidade de elite antiterrorismo da polícia foram obrigados a tomar posições em pontos estratégicos ao redor do Cairo, em preparação para uma onda de protestos em massa. Desde as primeiras horas da manhã as forças de segurança já estavam tomando o controle de todos os pontos-chave da cidade, em uma tentativa de impedir que os manifestantes se organizassem.

Mas todas essas medidas foram em vão. Os manifestantes tomaram as ruas em maior número do que antes. Havia 80 mil manifestantes em Porto Said, 50.000 em Beni Suef, que fica a 100 quilômetros ao sul do Cairo, e grandes manifestações em Alexandria e Suez e outros lugares mais. Como no Irã no ano passado, é impossível prender os organizadores, quando as manifestações são organizadas por meio do Facebook e do Twitter. O exército de informantes é impotente para combater tal situação.

O Estado tentou bloquear o Facebook. Eles bloquearam a internet e os telefones celulares. Mas o povo mostrou estar um passo à frente. Blogueiros divulgaram maneiras de contornar a vigilância e as informações foram espalhadas de boca em boca. Por volta do meio-dia (em Londres) as telas de televisão já estavam mostrando as cenas do conflito em massa nas ruas da capital egípcia. Os cordões policiais são incapazes de conter as manifestações. A televisão mostra massas de manifestantes empurrando as fileiras policiais e a polícia recuando desordenadamente.

Depois de perseguir a polícia, milhares de manifestantes foram capazes de ocupar toda a enorme Praça Tahir depois de esta ter sido mantida a maior parte do dia sob forte presença policial. Após o confronto, poucos policiais eram vistos ao redor da praça. Em dado momento, até mesmo a violência do aparato de segurança do Estado torna-se contraproducente. Em vez de medo, desperta indignação e fúria. Na cidade de Suez pessoas contra-atacaram a polícia, que havia atirado em manifestantes, e queimaram uma delegacia. E quando esse ponto é alcançado, sempre aparecem fissuras nas fileiras das forças do Estado. A maioria dos soldados e policiais comuns reluta em matar concidadãos e se recusam a cumprir as ordens de disparar contra manifestantes desarmados. Em Suez há relatos de incidentes desse tipo.

O papel da juventude

Os manifestantes que foram às ruas em todo o Egito nos últimos dias são em grande parte jovens desempregados e sem futuro. Um jovem egípcio disse à BBC: “Nós somos pobres. Não temos trabalho, nem futuro. O que devemos fazer? Devemos nos lançar ao fogo?” A única esperança que esses jovens têm é lutar por uma mudança fundamental na sociedade. Eles deixaram de lado todo o medo e estão dispostos a arriscar suas vidas na luta por liberdade e justiça.

Muitos dos manifestantes são estudantes universitários que não conseguem encontrar trabalho e, portanto, não podem se casar e constituir família. Eles são impelidos por um profundo sentimento de injustiça e por uma ardente fúria e ressentimento contra um sistema que lhes nega um futuro e um regime corrupto que se enriqueceu às custas do povo.

O correspondente do The Guardian no Cairo, Alaa Al Aswany, que participou da grande manifestação de terça-feira, ficou profundamente impressionado com a “bravura deslumbrante” dos manifestantes, e impressionado com sua determinação para fazer uma coisa – mudar o regime:

“Eu sempre terei admiração por esses revolucionários. Tudo o que eles dizem revela uma forte consciência política e um desejo de liberdade que desafia a morte. Pediram-me para dizer algumas palavras. Mesmo já tendo falado centenas de vezes em público, dessa vez foi diferente: estava falando para 30.000 manifestantes que não estavam dispostos a ouvir um pedido de compromisso, e interrompiam com gritos de ‘Abaixo Hosni Mubarak’, e ‘O povo diz, fora com o regime’.

Eu disse que estava orgulhoso com o que haviam conquistado e com os avanços para acabar com o período de repressão, acrescentando que, mesmo se formos espancados ou presos já provamos que não temos medo e somos mais fortes do que eles. Eles têm as mais ferozes ferramentas de repressão do mundo à sua disposição, mas temos algo mais forte: a nossa coragem e nossa crença na liberdade. A multidão respondeu com gritos: ‘Vamos terminar o que começamos’.” (The Guardian, Quinta-feira, 27 de janeiro de 2011).

O fator decisivo é que as massas perceberam o tamanho de sua força coletiva e estão perdendo o medo. Começando com o mais jovem, mais enérgico e determinado indivíduo, a atmosfera desafiadora é transmitida aos mais velhos, as camadas mais cautelosas e inertes da população. O The Guardian relata um exemplo significativo dessa atmosfera:

“Até os cidadãos mais comuns estão desafiando a polícia. Um jovem manifestante disse-me que, quando fugia da polícia na terça-feira, entrou em um prédio e tocou a companhia de um apartamento ao acaso. Eram 4h da manhã. Um homem de 60 anos abriu a porta, o medo era evidente em seu rosto. O manifestante perguntou ao homem se poderia escondê-lo da polícia. O homem pediu para ver sua carteira de identidade e convidou-o a entrar, acordou uma de suas três filhas para preparar algum alimento para o jovem. Comeram e beberam chá juntos e conversaram como velhos amigos.

De manhã, quando as chances de prisão eram menores, o homem acompanhou o jovem manifestante até a rua, parou um táxi para ele e ofereceu-lhe algum dinheiro. O jovem recusou o dinheiro e agradeceu. Eles se abraçaram e o velho homem disse: ‘Eu é que deveria agradecer-lhe por defender a mim, as minhas filhas e todos os egípcios’.” (The Guardian, Quinta-feira, 27 de janeiro de 2011).

E agora?

Uma coisa está clara. O dia de hoje terminou com uma derrota catastrófica para Hosni Mubarak. Enquanto escrevo estas linhas os eventos se sucedem com velocidade vertiginosa. Rumores espalham-se rapidamente. Um diário do Cairo noticiou que um dos principais conselheiros do presidente Hosni Mubarak fugiu para Londres levando 97 malas com dinheiro. Outros relatos revelam um presidente gritando furioso com altos funcionários da polícia para não tratar com tanto rigor os manifestantes.

Ao cair da noite, os manifestantes permanecem nas ruas, desafiando o toque de recolher anunciado pelo governo em todo o Egito. Os edifícios públicos começaram a ser tomados. Segundo a Al Jazeera há alguns minutos atrás, o Ministério das Relações Exteriores no Cairo foi invadido, tomado por manifestantes e incendiado. Pela primeira vez, um escritório do Partido Democrático Nacional foi incendiado, e os bombeiros não fizeram nada para apagar as chamas.

Há uma crescente preocupação em Washington. Esta tarde, Hillary Clinton admitiu que os EUA estão “profundamente preocupados com o uso da força” contra os manifestantes. Pediu ao governo egípcio para conter as forças de segurança, mas também disse que os manifestantes deveriam abster-se de violência. Disse: “Esses protestos deixam evidente que existem mágoas profundas dentro da sociedade egípcia e o governo egípcio precisa entender que a violência não vai fazer com que essas queixas desapareçam”. E acrescentou: “Como parceiros, acreditamos fortemente que o governo egípcio precisa iniciar imediatamente a implantação de reformas políticas, sociais e econômicas”.

Para bom entendedor isso significa: “Não seja tolo Mubarak. Se você tentar usar os militares para esmagar a rebelião você é quem vai se arrebentar. O movimento é grande demais para ser afogado em sangue. Você deve usar a astúcia. Faça algumas mudanças, ou pelo menos, dê a impressão de que haverá mudanças. No final, é claro, você terá que partir. Isso é lamentável, mas todos nós temos que fazer sacrifícios em dado momento. Você é um homem de idade e seu prazo de validade expirou. Você pode ter uma aposentadoria confortável e salvar o capitalismo. Ou você pode se apegar ao poder e acabar como Sadat, morto. Isso seria muito ruim para você. Mas se você provocar demais as massas haverá uma revolução completa, e isso seria muito ruim para todos nós.”

Porém, Mubarak parece não ter ouvido. Desligado do mundo real em seu palácio, cercado por vaquinhas de presépio e bajuladores, Mubarak está agarrado ao poder, mesmo com o poder se esvaindo. Declara toque de recolher, mas as pessoas permanecem nas ruas. Chama o Exército “para ajudar as forças de segurança”, mas o povo aplaude o Exército e convida os soldados a se juntar a ele. Aqui e ali, ouvimos relatos de que a confraternização está tendo efeito. A Associated Press relatou cenas semelhantes na praça central do Cairo. Um de seus repórteres viu os manifestantes aplaudindo um policial, que havia tirado seu uniforme e se juntado a eles. Os manifestantes triunfantes ergueram-no sobre seus ombros.

Esse é apenas um incidente isolado? Ou mostra uma tendência mais ampla? Em tal situação, de mudança rápida, dramática e caótica, a atmosfera pode oscilar violentamente em minutos. Em Alexandria, o Exército está nas ruas, mas os soldados estão com os polegares erguidos em sinal positivo para os manifestantes. Também em Suez o povo aplaude os soldados, que os vê como aliados. Há relatos não confirmados de que o exército e a polícia entraram em confronto. Se isso for verdade, Mubarak está em sérios apuros.

Robert Fisk é um dos poucos jornalistas ocidentais que mostra um entendimento sério da real situação no Oriente Médio. Na edição do The Independent de hoje, ele escreve:

“Já há sinais de que aqueles que estão cansados do governo corrupto e antidemocrático de Mubarak estão tentando convencer a mal paga polícia do Cairo a se juntar a eles. ‘Irmãos! Irmãos! Quanto eles te pagam?’ alguém na multidão começou a gritar essas palavras para os policiais, no Cairo. Mas ninguém está negociando, não há nada a ser negociado a não ser a saída de Mubarak, o governo egípcio não diz e nem faz nada, o que é muito melhor do que fizeram nas últimas três décadas”.

A Revolução Egípcia

Independentemente do resultado dos protestos de hoje, uma coisa é certa: a Revolução Egípcia começou. Os céticos e esnobes intelectuais que constantemente harpeiam sobre o alegado “baixo nível de consciência” das massas têm agora a sua resposta. Os ocidentais “especialistas” que caracterizavam com desprezo os egípcios como “apáticos”, “passivos” e “indiferentes à política” têm agora que engolir suas palavras. As massas, quer seja no Egito, Irã, Grã-Bretanha e nos EUA, só podem aprender com a experiência. Em uma revolução, elas aprendem muito mais rápido. Os trabalhadores e jovens egípcios têm aprendido mais em poucos dias de luta do que em 30 anos de existência “normal”.

Há apenas alguns meses o presidente e sua camarilha dominante imaginavam que tinham tudo sob controle. Estavam tão confiantes que já preparavam o filho mais novo de Mubarak, Gamal, para ocupar o posto do pai. Gamal, um ex-banqueiro de investimento, foi educado na elitista Universidade Americana do Cairo, e trabalhou para o Bank of America. Esteve profundamente envolvido na “liberalização” econômica do Egito, que satisfez os ricos e fez sofrer os pobres. Essa informação é suficiente para deixar claras as suas convicções políticas. No ano passado, cartazes foram afixados por todo o Cairo chamando Gamal a concorrer à Presidência nas eleições, previstas para este ano.

Os manifestantes mostraram sua atitude para com o filho escolhido, cantando “Gamal, diga a seu pai que os egípcios te odeiam” e rasgavam seus retratos.

Com velocidade vertiginosa tudo se transformou em seu contrário. Nas ruas do Cairo e de outras cidades o povo egípcio não está apenas falando de revolução, o povo está construindo a revolução. Esse é um fato indiscutível. A questão colocada é: quem ou o que substituirá o regime de Mubarak? Mas não é essa a questão que predomina na mente dos manifestantes. Talvez os jovens nas ruas não saibam exatamente o que querem. Mas eles sabem exatamente o que não querem. E isso é suficiente neste momento.

A tarefa imediata é a derrubada de Mubarak e seu regime podre. Isso vai abrir as comportas e permitir que o povo revolucionário encontre seu caminho. Eles estão diariamente descobrindo sua força nas ruas, a importância da organização e mobilização de massa. Isso por si só já é uma conquista tremenda. Tendo passado pela experiência de uma ditadura de trinta anos, não permitirão a instalação de um novo regime similar ou qualquer ardil para recriar o antigo regime com um novo nome. A Tunísia é prova suficiente disso.

Apesar das tentativas dos meios de comunicação em exagerar o papel da Irmandade Muçulmana, está claro que o elemento islâmico está demasiadamente ausente nesses protestos, que se desenvolvem sob a bandeira da democracia revolucionária. A esmagadora maioria dos ativistas é de jovens das escolas e universidades que, sem dúvida, não estão sob a influência do fundamentalismo islâmico. Ainda não está claro se a participação tardia da Irmandade Muçulmana nas manifestações de hoje teve algum efeito real sobre o aumento do número de manifestantes nas ruas.

Agora, as massas sentiram o gosto de seu próprio poder, e não ficarão satisfeitas com meias-medidas. Eles sabem que o que conseguiram foi conquistado com suas próprias mãos. Mohamed Al-Baradei, líder da oposição e prêmio Nobel, ex-funcionário da ONU, voou de volta ao Egito na noite passada, mas ninguém acredita (exceto talvez os americanos) que possa tornar-se uma liderança para os protestos que surgiram em todo o país sem a ajuda de qualquer “líder” da burguesia. Hoje as câmeras de televisão estrangeiras estão fazendo uma modesta tentativa de destacar a participação de Al-Baradei nas manifestações. Mas tudo o que conseguiram foi mostrar imagens de um homem idoso desnorteado que mal sabia onde estava e o que estava fazendo.

A luta pela democracia irrestrita permitirá a construção de genuínos sindicatos e partidos operários. Mas também colocará a questão da democracia econômica e a luta contra a desigualdade. A democracia pode ser uma frase vazia se recusar-se a colocar as mãos sobre a riqueza obscena da elite dominante. Confiscar os bens da classe dominante! Expropriar a propriedade dos imperialistas, que apoiaram o antigo regime e exploraram o povo do Egito! A luta pela democracia, se for perseguida até o fim, deve inevitavelmente levar à expropriação dos banqueiros e capitalistas, e levar ao estabelecimento de um governo operário e camponês.

Revolução Mundial

Em 1916, Lênin escreveu estas linhas:

“Quem espera uma revolução social pura nunca viverá para ver uma. Tal pessoa presta um desserviço à revolução ao não entender o que a revolução é…

A revolução socialista na Europa não pode ser outra coisa senão uma explosão da luta de massas por parte de todos, com a participação de oprimidos e descontentes. Inevitavelmente, os setores da pequena burguesia e dos trabalhadores atrasados participarão da mesma – sem essa participação, a luta de massas é impossível, sem ela a revolução não é possível – e inevitavelmente trarão para o movimento seus preconceitos, suas fantasias reacionárias, suas fraquezas e erros.

Mas, objetivamente, atacarão o capital. E a vanguarda consciente da revolução, o proletariado avançado, expressando a verdade objetiva de uma dispersa e discordante, diversa e aparentemente fragmentada luta de massa, será capaz de unir e dirigi-la até tomar o poder, controlar os bancos, expropriar os trustes que todos odeiam (embora por razões diferentes!), e introduzir outras medidas ditatoriais, que em sua totalidade, serão equivalentes à derrubada da burguesia e à vitória do socialismo que, no entanto, não será imediatamente purgado da escória da pequena burguesia.” (Lênin, A Rebelião Irlandesa de 1916)

Essas linhas poderiam ter sido escritas hoje. Toda a situação mundial mudou decisivamente e os eventos no Egito revelam tudo isso de uma maneira dramática. Indubitavelmente, entramos em uma era de revolução mundial. Em nenhum outro lugar o caráter internacional da revolução é mais claro do que no Norte da África e Oriente Médio. Espalha-se incessantemente de um país a outro: da Tunísia à Argélia, da Jordânia ao Egito, do Iêmen ao Líbano.

Os eventos da Tunísia foram naturalmente inspiradores. As pessoas puderam ver com seus próprios olhos que até mesmo o aparelho de segurança mais poderoso não pode impedir a derrubada de um ditador odiado. As pessoas nas ruas do Cairo repetiam as palavras de ordem dos manifestantes da Tunísia, em francês: “Dégage, Mubarak”.

A Tunísia mostrou que era possível. Mas seria completamente falso admitir que esse foi o único, ou mesmo, o principal motivo. As condições para uma explosão revolucionária em todos esses países já amadureceram há muito tempo. A única coisa que faltava era uma simples faísca que fizesse explodir o barril de pólvora. A Tunísia forneceu a faísca. A insurreição revolucionária chegou a outros países árabes como o Iêmen. Como na Tunísia, o povo do Egito, Argélia, Jordânia e Iêmen vivem miseravelmente, massacrados pelas elites dominantes ditatoriais que vivem uma vida luxuosa saqueando a nação.

Esses movimentos possuem impressionantes semelhanças com os movimentos de massa que levaram à derrubada dos regimes da Europa Oriental. Repetindo: no papel esses governos possuíam um aparato estatal forte, grandes exércitos, polícia e serviços secretos, mas isso não os salvou. A burguesia estava exultante com a queda do “comunismo”. Mas o seu júbilo foi prematuro. Em retrospectiva, a queda do stalinismo será vista apenas como o prelúdio para um desenvolvimento muito mais dramático: a derrubada revolucionária do capitalismo. Em toda parte, incluindo os Estados Unidos, o sistema está em crise. Em todos os países as classes dominantes estão tentando colocar o peso da crise de seu sistema sobre os ombros das camadas mais pobres da sociedade.

Na Tunísia e Egito, o sistema está quebrando em seu elo mais fraco. Dizem-nos que tais coisas não acontecerão aqui, que a situação aqui é diferente e assim por diante. Sim, a situação é diferente, mas apenas na gradação. Em toda parte a classe trabalhadora e a juventude enfrentarão a mesma decisão: ou aceitamos a destruição sistemática de nosso nível de vida e direitos, ou lutamos.

O argumento de que “isso não acontecerá aqui” não tem qualquer base científica ou racional. O mesmo foi dito na Tunísia, há apenas dois meses, quando esse país era considerado o mais estável do norte da África. O mesmo argumento foi repetido em relação ao Egito, mesmo depois de Ben Ali ter sido derrubado. Apenas algumas semanas foram suficientes para revelar o vazio dessas palavras. Essa é a velocidade dos acontecimentos em nossa época. Mais cedo ou mais tarde a mesma pergunta será posta em todos os países da Europa, no Japão, no Canadá, nos Estados Unidos.

Desdobramentos revolucionários estão na ordem do dia. O processo avançará a uma velocidade maior ou menor de acordo com as condições locais. Mas nenhum país pode se considerar isolado do processo geral. Os acontecimentos na Tunísia e no Egito mostram o nosso próprio futuro como em um espelho.

Londres, 28 de janeiro de 2011.

Deixe seu comentário

Leia também...

O discurso do Presidente dos Estados Unidos nas Nações Unidas: A mensagem de Donald Trump ao Mundo

No dia 19 de setembro, o presidente Donald Trump pronunciou o seu primeiro discurso na …

Deixe uma resposta