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A revolução de fevereiro de 1917

O ensaio geral de fevereiro culminou na derrubada do governo provisório e na tomada do poder pelos sovietes, inaugurando o primeiro governo socialista do mundo, buscando a revolução internacional.

O ensaio geral de fevereiro culminou na derrubada do governo provisório e na tomada do poder pelos sovietes, inaugurando o primeiro governo socialista do mundo, buscando a revolução internacional.

No mês fevereiro (março) comemorou-se mais um aniversário da Revolução de Fevereiro de 1917 na Rússia. Na verdade, pelo calendário ocidental, foi em março de 1917. A Revolução de Fevereiro derrubou a monarquia russa e a autocracia do czar Nicolau II, desencadeando um processo revolucionário que teve o seu desfecho na Revolução de Outubro com a constituição de uma República de Conselhos onde o proletariado russo apoiado e pelos camponeses “assaltou o céu”. A classe operária russa vai repetir em 1917 a efêmera experiência da Comuna de Paris de 1871. São constituídos espontaneamente conselhos de operários, soldados e camponeses que, no tumultuado período que sucede a abdicação do czar, vão acabar derrubando os dois governos provisórios, formados pela aliança dos socialistas moderados com a burguesia liberal, instaurando assim uma república operária sob a liderança do partido bolchevique.

A Revolução de Fevereiro foi eclipsada pela Revolução de Outubro. Não podia ser diferente. A combalida “república democrático-burguesa” dos mencheviques, dos socialistas revolucionários e dos burgueses liberais nasceu morta. Não resolveu os problemas da Rússia, não acabou com a guerra, não deu pão aos operários e nem a terra aos camponeses. Foi engolida por um duplo poder emergente resultante de “uma intervenção direta das massas no processo histórico”, segundo as palavras de um dos principais dirigentes do processo revolucionário e presidente do Soviete de Petrogrado, Leon Trotsky. A Revolução de Fevereiro preparou a revolução socialista de Outubro.

Muitos historiadores e alguns “teóricos” ditos marxistas gostam de lembrar a Revolução de Fevereiro com uma verdadeira revolução, democrática e plural enquanto que o regime saído do levante de Outubro foi um “golpe de estado” promovido por um partido de índole totalitária, o partido bolchevique. Por outro lado, a historiografia stalinista, durante décadas, fez disseminar a ideia de que a Revolução de Fevereiro foi uma etapa “democrático-burguesa” da revolução e que Outubro foi então a etapa “socialista”. Com estes argumentos, os dirigentes da ex-União Soviética e os Partidos Comunistas do mundo inteiro tentavam legitimar a política reformista de colaboração de classes, as coalizões governamentais com os partidos burgueses, como nas Frentes Populares nos anos 30 do século passado, e também como no caso brasileiro, do apoio, por parte do PCB, a Getúlio Vargas e depois ao governo João Goulart, deposto pelo golpe militar em 1964.

A Revolução de Fevereiro não foi uma coisa nem outra.

A Rússia pré-revolucionária

Lenin costumava dizer que a Rússia era o “elo mais fraco” do capitalismo europeu. Chegara a esta conclusão estudando a formação social russa e o desenvolvimento do capitalismo no império dos Czares. Previra que a expansão do moderno capitalismo na oligárquica e atrasada Rússia era uma bomba relógio de efeito retardado. O desenvolvimento das forças produtivas provocado pela crescente economia burguesa estava contido dentro da concha absolutista da monarquia secular. Por mais que o czar Nicolau II tentasse modernizar a sociedade russa, abrindo as portas do império ao capital estrangeiro, a fragilidade e o subdesenvolvimento da burguesia, o denso resíduo do feudalismo, a rigidez autocrática, o sistema arcaico de governo e a forte dependência da Rússia às potências ocidentais, fariam explodir, mais cedo ou mais tarde, a incipiente sociedade burguesa russa.

O moderno capitalismo europeu, penetrando no império russo com suas gigantescas indústrias siderúrgicas, químicas e petrolíferas, com suas estradas de ferro e portos, trazia em suas entranhas os elementos de sua destruição: a moderna luta de classe do proletariado. Nas grandes cidades do império russo, Petrogrado (São Petersburgo), Moscou, Kiev, Odessa, se aglomeravam cerca de 3 milhões de operários, vivendo em condições insalubres e trabalhando 12 a 14 horas por dia nas fábricas de propriedade de capitalistas europeus, franceses, ingleses e alemães. 

Leon Trotsky chegara também às mesmas conclusões de Lenin acerca do futuro que estava reservado ao capitalismo na Rússia. O grande império era no reinado de Nicolau II, o ultimo da dinastia dos Romanovs, meio império e meio colônia. Acionistas ocidentais detinham 90% das minas russas, 50% de sua indústria química, mais de 40% das indústrias metalúrgicas e 42% das ações dos bancos. O capital doméstico era escasso, A renda nacional era ínfima e o mercado interno era inexistente em função das necessidades modernas. Mais da metade provinha da agricultura que era essencialmente retrógrada com milhões de camponeses vivendo no limite da servidão. A Rússia rural pouco contribuía para a acumulação de capital. Dentro dos limites, o Estado forneceu, com o dinheiro dos impostos, os nervos da industrialização. O capital estrangeiro relutava em investir, por causa do atraso e por receio da agitação social que vinha desde a segunda metade do século XIX, com o movimento dos narodniks e dos populistas russos.

Nestas condições, Trotsky formulou o conceito de “lei do desenvolvimento desigual e combinado” do capitalismo na Rússia. A moderna indústria ocidental estava lado a lado com o atraso da secular aldeia dos mujiques na vastidão da estepe russa. A Rússia só poderia iniciar sua arrancada industrial amparada nos recursos de sua agricultura e graças aos esforços extraordinários de seus próprios trabalhadores. Nenhum desses requisitos poderia ser preenchido sob o regime monárquico ou pela débil burguesia russa através de uma república parlamentar de tipo ocidental. O desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo na Rússia dava a situação política, no início do século XX, um caráter de revolução e a revolução um caráter de permanência.

Em sua obra sobre a revolução de 1905, Trotsky afirmava:

“Num país economicamente atrasado, o proletariado pode chegar ao poder antes que num país capitalista adiantado… A revolução russa cria (…) condições as quais o poder pode passar (com a vitória da revolução deve passar) ao proletariado antes que a política do liberalismo burguês tenha possibilidade de soltar seu gênio estadista… O destino dos interesses revolucionários mais elementares dos camponeses (…) está fortemente ligado ao destino de toda a revolução, ao destino do proletariado. Uma vez chegado ao poder, o proletariado aparecerá aos camponeses como libertador de sua classe. O proletariado entra no governo como representante revolucionário da nação, como condutor reconhecido do povo na luta contra o absolutismo e a barbárie da servidão… O regime proletário deverá desde o princípio pronunciar-se sobre a questão agrária, que está ligada à sorte do avanço popular na Rússia” (1905, Balanço e Perspectivas).

As guerras do início do século XX vão pôr em evidencia todas as contradições da formação social russa e fazer aflorar o germe da revolução.

A força motriz da revolução russa: o proletariado

O fracasso da campanha militar do czar no extremo oriente, na guerra com o Japão pela disputa de territórios da Manchúria e da Coréia, em 1905, vai desencadear uma tempestade revolucionária, um verdadeiro tremor de terra na Rússia. Eclodem revoltas militares contra a autocracia, como no famoso caso do Encouraçado Potenkin no Mar Negro. A revolta se espalha pelos camponeses. Nas cidades, as greves de massas se generalizam. Em São Petersburgo (Petrogrado), uma manifestação pacífica liderada por um padre monarquista, reunindo milhares de pessoas com o objetivo de entregar no Palácio do Inverno uma lista de reivindicações é recebida a tiros pelas tropas do governo. Foi o famoso Domingo Sangrento. Os operários e trabalhadores em greve organizam os conselhos operários (soviete) que passa a dirigir o movimento de massas. O revolucionário marxista Leon Trotsky é eleito presidente do soviete de São Petersburgo. Mas a repressão do governo fez refluir o movimento prendendo os líderes do Soviete.

A revolução de 1905 foi o ensaio geral da revolução de 1917. Colocou em evidencia a força de um proletariado jovem que passara a confiar em suas próprias forças.

A lei do desenvolvimento desigual combinado fez com que, na vastidão de um gigantesco país atrasado, a classe operária, agrupada nas modernas concentrações industriais em São Petersburgo e em Moscou, encontrasse nas formas mais avançadas de luta do proletariado europeu a consciência e os métodos necessários para a defesa de seus direitos. Desde os primórdios da industrialização na Rússia e inspirada no modelo dos partidos socialistas da Europa Ocidental, onde os marxistas russos viviam exilados, a classe operária vai se organizar como classe “para si”. Na virada do século XX a organização dos círculos de operários sociais-democratas se espalha pelas regiões industriais. Este movimento, claramente inspirado no marxismo e nas concepções socialistas inaugura uma nova fase do processo revolucionário ultrapassando o predomínio do antigo populismo russo dos narodniks e dos camponeses, dos quais o Partido Socialista Revolucionário foi o continuador e também a força limitadora destes movimentos. O papel do marxismo e da classe operária na Rússia também desloca para um segundo plano a influência exercida pelos anarquistas na classe operária, pelos adeptos das teorias de Bakunin e Kropotkin, que tiravam a sua força no meio rural que predominava. O marxismo atuou na Rússia como “expressão consciente de um processo social inconsciente”, conforme palavras de Trotsky. No seu texto “Nossas Tarefas Políticas”, escrito em 1904 destaca que:

“O marxismo ensina que os interesses do proletariado são definidos pelas condições objetivas de sua existência. Se esses interesses são poderosos e inevitáveis eles vão conduzir finalmente o proletariado a transferi-los para o domínio de sua própria consciência, quer dizer, a transformar o sucesso de seus interesses objetivos em seus interesses subjetivos”

Em 1898 é fundado em Minsk o Partido Operário Social Democrata Russo (POSDR) baseado nas teorias de Marx e Engels. No final do primeiro congresso em Março de 1898 todos os nove delegados foram presos pela polícia czarista. O POSDR foi criado para fazer oposição aos narodniks e o seu populismo revolucionário, que privilegiava o campesinato. Já o programa do POSDR era baseado no marxismo que, apesar da natureza agraria da sociedade russa, a verdadeira força motriz e o potencial da revolução passava pela luta de classe do proletariado.

Em 1902 os líderes do partido, Lenin, Martov, Plekhanov, Potressov, Axelrod, se dividiram. O jovem intelectual marxista Vladmir Ilitch Ulianov, conhecido pelo pseudônimo de Lênin, vai defender no seu texto “Que Fazer?” a luta contra o economicismo e os métodos diletantes do trabalho do partido na Rússia. Lenin propõe um periódico, um organizador coletivo, para o partido. Lenin também propõe um partido centralizado democraticamente, um partido orgânico, onde seus membros não só concordassem com o programa mas que contribuíssem ativamente no partido. A opinião tradicional, expressa por Martov defendia que os membros do partido eram todos que concordassem com o seu programa e rejeitava as ideias de Lenin. A acirrada polêmica envolveu todos os socialistas russos e muitos membros dos partidos socialistas europeus, e no segundo congresso, em 1903, realizado na Bélgica, os adeptos de Lenin ficam em maioria no congresso e no corpo editorial do jornal Iskra. Essa divisão será irreconciliável daí para a frente e ficará caracterizada pela duas frações que se formam no partido, a da maioria (bolchevique) e da minoria (menchevique). Na verdade, os mencheviques tinham maioria no partido e serão durante muito tempo a fração mais numerosa, embora sem muita consistência organizativa. Já a fração bolchevique vai se organizar com um partido de combate da classe operária, se construindo no coração das regiões industriais da Rússia. Esse tipo de organização vai fazer a diferença anos mais tarde, quando os bolcheviques passam a ser, eles próprios, um dos fatores da situação objetiva que vai transformar a Rússia em 1917.

Leon Trotsky na realidade tentou aproximar as duas frações buscando uma unidade do partido. Formalmente ficou com os mencheviques, mas de fato se distanciava das duas alas em que se dividira o partido. A sua teoria da “revolução permanente”, baseada nos escritos de Marx sobre a revolução na Europa, assim como o seu internacionalismo decorrente dessa teoria, não eram bem vistos pelos líderes mencheviques. Os bolcheviques também não viam com bons olhos uma teoria que colocava no ordem do dia a ditadura do proletariado na Rússia. Embora concordassem que a burguesia russa não tinha nenhum papel revolucionário, e que portanto, estava descartada qualquer aliança com ela, ainda acreditavam que os camponeses iriam compor um futuro governo revolucionário em igualdade de condições com a classe operária. Mais tarde, Lenin vai ver que o campesinato não tinha qualquer independência política e que, pelo papel reacionário desempenhado pelo Partido Socialista Revolucionário, que dizia representar os camponeses, conclui, da mesma forma que Trotsky, que, ou os camponeses seguem a direção do proletariado ou são domesticados pelo poderio da burguesia. 

Assim, o movimento operário organizado na Rússia se dividiu em duas frações, que embora nominalmente fizessem parte do POSDR, na prática eram dois partidos distintos.

A polêmica evoluiu para a natureza do processo revolucionário que estava começando a eclodir na Rússia e que a revolta de 1905 foi o primeiro ato. Os mencheviques, Martov, Axelrod, Martynov, Vera Zassúlitch, entre outros, estavam aferrados à concepção clássica da social democracia, que o velho Plekhanov (o introdutor do marxismo na Rússia) sempre defendera, a de que a Rússia não estava madura para a revolução socialista. Eles não só defendiam a concepção de um partido operário amplo, sem a organicidade de Lenin, mas também achavam que a Rússia necessitava de uma república democrático burguesa, nos moldes ocidentais, onde as forças produtivas pudessem se desenvolver plenamente até atingir os moldes das modernas sociedades industriais. Conferiam à classe operária o papel de ala esquerda de um amplo processo democrático que retiraria a Rússia do atraso secular. Por isso, davam importância a uma aliança com a burguesia liberal. Os bolcheviques, com Lenin à frente, rejeitavam estas concepções. Insistiam no papel organizador do partido operário na medida em que cabia a classe operária a liderança do processo revolucionário e que para isso precisariam combater a burguesia liberal e retirar a sua influência sobre as grandes massas, especialmente os camponeses. Não admitiam nenhum governo com a burguesia e proclamavam a necessidade de um governo baseado na “ditadura democrática dos operários e camponeses”, uma formula de transição concebida por Lenin, levando em conta que o componente “democrático” seria dado pelo peso dos camponeses nesse governo em igual condições que o proletariado industrial. Assim essa forma de aliança operário-camponesa teria o objetivo de preparar o terreno para a ditadura do proletariado quando chegasse a hora do regime czarista. Mas a posição de Trotsky embaralhava as cartas novamente. Mesmo sendo uma posição minoritária, a defesa que o ex-presidente do soviete de São Petersburgo fazia da “revolução permanente” causava impacto pela sua ousadia. E que mais tarde iria se revelar correta. Em uma forma resumida, Trotsky dizia o seguinte:

“Em relação com as tarefas imediatas, a revolução russa é uma revolução burguesa. Sem embargo, a burguesia russa é antirrevolucionária. Por conseguinte a vitória da revolução só é possível como vitória do proletariado. O proletariado vitorioso não se deterá no programa da democracia burguesa e passará e passará imediatamente ao programa do socialismo. A revolução russa será a primeira etapa da revolução socialista mundial” (1905, Balanço e Perspectivas).

Assim a formula de Trotsky preconizava uma “ditadura do proletariado” apoiado pelos camponeses. A experiência da revolução de 1905, na qual ele fora um dos líderes mais importantes, tinha provado a correção de suas teses. Mas este debate programático vai marcar as lutas fracionais do POSDR dentro do proletariado russo, que, acossado pela repressão da política do czar, nos próximos anos vai cavar a sua obra subterrânea, como uma toupeira até chegar o momento que vai chegar na superfície como uma erupção. A Primeira Guerra Mundial em 1914 vai mudar a situação política do mundo e da própria Rússia.

Começa a Revolução de Fevereiro de 1917

A eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1º de agosto de 1914 e as suas trágicas consequências para o proletariado europeu, com milhões de mortos nas frentes de batalha, vai eclodir uma situação revolucionária por toda a Europa. A social democracia europeia, há muito adaptada aos parlamentos burgueses, passa apoiar seus respectivos países beligerantes. Em setembro de 1915 e em maio de 1916 os socialistas contrários à guerra se reúnem nos congressos de Zimmerwald (Suíça) e em Kienthal. É a crise da II Internacional. Os partidos sociais-democratas enfrentam crises internas e rupturas eclodem por todos os lados. A “esquerda de Zimmerwald”, os bolcheviques Lenin e Zinoviev, o independente Trotsky, os poloneses Karl Radek e Rosa Luxemburgo, o sindicalista francês Pierre Monatte, entre outros, formam o bloco internacionalista no congresso e clamam por uma ação do proletariado contra a guerra. Apesar das divergências dentro desse bloco, onde por exemplo, Trotsky vai defender a palavra de ordem de “Estados Unidos Socialistas da Europa” com as reticencias de Lênin, todos tem em comum que a falência da II Internacional coloca na ordem do dia a formação de uma nova internacional.

O Congresso de Zimmerwald vai acabar dando um novo alento na agitação dentro do proletariado russo contra a guerra. A agitação social contra a guerra cresce em toda a Rússia. O Czar é advertido pela Duma, o parlamento russo tolerado pela monarquia, que um desastre se abateria sobre a Rússia caso não fosse instituído um governo constitucional. O Czar Nicolau II ignorou-a. Os deputados bolcheviques da Duma são presos em 1915 e deportados para a Sibéria. 

A situação da Rússia piora drasticamente em 1915, quando a Alemanha passou a ofensiva no front ou a iniciativa contra as forças russas. As forças alemãs, muito melhor armadas com metralhadoras e artilharia pesada, foram terrivelmente eficazes contra as forças mal equipadas da Rússia. Ao final de 1916 a Rússia havia perdido entre 1,6 e 1,8 milhões de soldados em batalha, com um adicional de dois milhões de soldados feitos prisioneiros e um milhão de desaparecidos, o que teve um efeito devastador sobre o moral do exército. Motins começaram a ocorrer, e em 1916 começaram a surgir informações sobre fraternização com o inimigo. Os soldados estavam famintos e careciam de sapatos, munições, e mesmo de armas.

Na primeira metade de fevereiro de 1917 a escassez de alimentos gerou distúrbios na capital, Petrogrado (São Petersburgo). A usina Putilov, a principal fábrica de Petrogrado anuncia uma greve em 18 de fevereiro. Operários são demitidos. A agitação cresce em todas as empresas de Petrogrado. No dia 23 de fevereiro (8 de março), no Dia Internacional das Mulheres, as trabalhadoras têxteis saem às ruas em passeata, conclamando aos operários de todas as fábricas a aderirem. “Abaixo a fome! Pão para os trabalhadores!” gritavam os grevistas. Os bondes são virados e há saques no comercio. A greve se estende por toda a Petrogrado. Um fato novo: a polícia não reprimiu e os cossacos, símbolos do terror czarista, se retiram das ruas.

Nos dias que se seguiram a agitação aumentou e a greve foi generalizada. E cada vez mais as tropas enviadas pelo governo czarista se recusam a atacar os manifestantes. Os operários lincham oficiais e policiais que ordenavam a seus soldados a atirar na multidão. E o Czar Nicolau II e a sua família continuam ignorando todos os telegramas informando que a situação política se deteriorava cada vez mais.

Em 31 de fevereiro, a uma hora da tarde, uma maré humana composta de operários, trabalhadores e soldados, portando bandeiras e faixas vermelhas, invadem o Palácio Táuride, um luxuoso palácio czarista, onde a Duma se reunia. O advogado socialista-revolucionário Kerensky, deputado da Duma, recebe os manifestantes. Em dois salões diferentes do palácio, durante a tarde, se formam dois comitês provisórios. Um era formado pelos deputados moderados da Duma e se tornaria o Governo Provisório. No outro salão, se constituía o Soviete de Petrogrado, o mesmo que se havia formado na Revolução de 1905. O soviete elege um comitê executivo permanente formado pelos representantes dos partidos socialistas, ou seja, os socialistas-revolucionários, os mencheviques e os bolcheviques, além de outras organizações menores. O POSDR já tinha se dividido em dois partidos irreconciliáveis, os mencheviques e os bolcheviques. Os socialistas-revolucionários eram a maioria e junto com os mencheviques formam um bloco dos socialistas moderados. Na esquerda estava o partido bolchevique que era minoria na executiva do Soviete. Eles tinham, nessa época, apenas dois membros em um total de quatorze. Mas mesmo os socialistas moderados estavam divididos em diversas frações, uma direita majoritária, um centro e uma esquerda. O que vai significar dentro do soviete um quadro de disputa política intensa. O soviete de Petrogrado decide publicar seu próprio jornal diário, Izvestia.

Neste mesmo dia, o czar Nicolau II recebe um telegrama informando que apenas uma pequena parte de suas tropas permaneciam leais à monarquia. Mesmo assim o estado de sítio é proclamado mas sem sentido algum, pois não havia tropas dispostas a colocá-lo na prática. Temendo uma reação do czar, operários e soldados acampam no Palácio Táuride. No Palácio de Inverno, o Grão Duque Mikhail ordena que as tropas leais ao czar sejam retiradas para evitar um choque delas com a população, como ocorreu em 1905, repetindo o massacre do Domingo Sangrento.

Mas desde o dia 28 de fevereiro, terça feira, a cidade de Petrogrado estava nas mãos dos operários e soldados. O Czar Nicolau II estava embarcado em um trem em direção do Palácio Alexandre, a 25 quilômetros das capital, quando recebeu a notícia que todas as estações em direção a Petrogrado estavam ocupadas pelos rebeldes. O trem parou na estação de Pskov, onde em 2 de março, o Czar Nicolau II assina a sua abdicação. Os ministros do Czar são presos e o próprio será preso dias depois em Moghiliev.

O saldo de mortes das poucas horas de combate, segundo a contagem oficial, foi de 1224. Os tiros ainda eram disparados nas cercanias das capital quando toda a Rússia vai ficar sabendo que agora ela tinha uma República e dois governos paralelos. De um lado o Governo Provisório, dominado pela burguesia liberal e pela classe média, com o apoio de alguns socialistas, favoráveis à continuidade da Rússia na guerra. De outro lado, o Soviete de deputados de operários e soldados que queria acabar com a guerra, instituir a jornada de 8 horas, dar terras aos camponeses, democratizar o exército e separar a Igreja do Estado.

Em menos de três meses este duplo poder vai chegar ao impasse. No contexto de uma revolução de baixo para cima é impossível um regime de moderação, como desejavam os socialistas-revolucionários e os mencheviques. Em pouco tempo o governo provisório vai ser vítima dos mesmos problemas sociais e militares que haviam derrubado a autocracia e o antigo regime. O confronto desigual entre a moderação oficial e o radicalismo popular vão transformar os socialistas moderados partidários do governo em defensores da lei e da ordem, isolando-os de sua turbulenta base de apoio.

Mas o elemento que estava faltando, para apontar uma saída política, na situação revolucionária aberta com o levante popular de fevereiro estava germinando nas entranhas da classe operária russa. Era a fração bolchevique do antigo POSDR, um partido operário, minoritário no soviete, mas implantado nos centros industriais e nas grandes fábricas, sendo ele mesmo, por sua própria existência e pela correlação de forças que modificou, um dos fatores decisivos da situação objetiva.

O duplo poder: o soviete de deputados operários e soldados 

Manifestação dos marinheiros da base naval de Kronstadt, em maio de 1917, repudiando o governo provisório e declarando o seu soviete como o único poder governante na base militar.

A classe operária russa foi uma das maravilhas da história. O historiador Isaac Deutscher descreve com exatidão o comportamento da classe operária russa em fevereiro de 1917:

“A revolução socialista foi apoiada sinceramente pela classe trabalhadora urbana. Mas esta constituía uma pequena minoria da nação. Totalizava um sexto da população que vivia nas cidades, vinte milhões em números redondos; e destas, só metade poderia ser descrita como proletária. O núcleo da classe trabalhadora consistia, no máximo, em carca de três milhões de homens e mulheres empregados nas indústrias modernas. Os marxistas calcularam que os trabalhadores industriais seriam a força mais dinâmica da sociedade capitalista, os principais agentes da revolução socialista. Os trabalhadores russos justificaram de sobra essa esperança. Nenhuma classe da sociedade russa e nenhuma classe trabalhadora, em qualquer parte do mundo, atuou com a energia, a inteligência política, a capacidade de organização e o heroísmo com que os operários russos agiram em 1917 e depois, durante a guerra civil. A circunstância da indústria russa moderna consistir num pequeno número de fábricas gigantescas, concentradas principalmente em Petrogrado e Moscou, deu aos trabalhadores concentrados nas duas capitais um extraordinário poder de ataque nos próprios centros nevrálgicos do antigo regime. Duas décadas de intensiva propaganda marxista, a recordação ainda fresca das lutas de 1905, 1912 e 1914, a tradição de um século de esforços revolucionários e a coerência singular de propósitos dos bolcheviques, prepararam os trabalhadores para o seu papel. Tomaram como ponto assente a finalidade socialista da Revolução. Não se contentavam com algo que não acarretasse, no mínimo, a abolição da exploração capitalista, a socialização da indústria e dos bancos, o controle operário da produção e o governo dos sovietes. Voltaram as costas aos mencheviques, a quem seguiam no princípio, porque os mencheviques lhes diziam que a Rússia ainda não estava madura para uma revolução socialista’. A ação operária, tal como a camponesa, tinha a sua própria força espontânea: o controle da produção foi estabelecido, no nível de fábrica, muito antes das insurreição de outubro” (Rússia 1917-1967, A Revolução Inacabada).

Durante o período aberto, após 28 de fevereiro, a classe operária russa vai manter uma intensa capacidade de iniciativa política. O soviete de Petrogrado foi formado espontaneamente pelos operários, soldados e marinheiros. Em Moscou assim como em toda a Russa são formados sovietes. A classe operária vai se identificar, em um primeiro momento, com as organizações que ela considera como representativas de sua classe. Neste caso delegaram poderes aos partidos socialista-revolucionário e aos mencheviques. A maior delegação no soviete era dos socialistas-revolucionários, que contavam com mais de 400 delegados sobre disciplina partidária e cerca de 600 simpatizantes, controlando assim as deliberações do soviete. Em geral existia uma aliança entre os socialistas-revolucionários e os mencheviques, o que garantia uma larga margem de votos no soviete a favor do socialismo moderado. Apesar de alguns desacordos pontuais entre estes dois partidos, eles formam um bloco em favor de um apoio ao governo provisório em formação. A delegação socialista-revolucionária, defensora de um socialismo populista, era mais notável pelo seu tamanho e extensão que pela sua capacidade de direção, vias de regra medíocre. As principais figuras deste partido participaram no soviete de maneira secundária. O controle efetivo ficou nas mãos dos dirigentes mencheviques, tais como Fiodor Dan, Irakli Tsereteli e Nicolai Cheidze, o primeiro presidente do soviete. Mas os partidos moderados do socialismo sofreram rupturas pela esquerda: o grupo menchevique internacionalista liderado por Martov, antigo dirigente do POSDR, formavam um partido a parte; a ala esquerda dos socialistas revolucionários também se separou do partido. E os colaboradores do grupo independente de Trotsky (tal como Lenin, o líder dos bolcheviques, Trotsky ainda estava no exílio), que no exterior, muitos se agruparam nos periódicos Pravda em Viena e Nashe Slovo em Paris, formavam a organização “inter-burgos”, os Mezhrayontzi, que contava com cerca de 4000 militantes e se aproximava dos bolcheviques.

Em 1 de março o soviete publica a “Ordem Nº 1”, de importância crucial para o destino da revolução, pois estipula a autoridade do soviete e não do governo provisório sobre as tropas revolucionárias, suas liberdades políticas e a impossibilidade de serem transferidas para front na guerra contra a Alemanha. O soviete passa assim a ter o controle da força armada da República. Em 14 de março o soviete de Petrogrado faz uma declaração “ao povo do mundo inteiro” pela paz sem anexações ou indenizações. Em 20 de março realiza-se a conferência de todos os sovietes russos onde os partidos socialistas moderados confirmam o apoio ao Governo Provisório mas sem ainda participar diretamente dele, o que vai acontecer mais tarde.

O primeiro governo provisório forma-se após a derrubada do Czar, comandado pelo Príncipe Georgy Lyov, um latifundiário, e tendo Miliukov, como Ministro do Exterior e membro do partido democrata constitucionalista, partido da burguesia liberal (cadetes) e o socialista-revolucionário Alexander Kerensky como Ministro da Guerra. Era um governo de caráter liberal burguês, comprometido com a manutenção da propriedade privada e interessado em manter a Rússia na guerra imperialista. Paralelamente, o soviete de Petrogrado ordenava ao exército que lhe obedecesse, queria dar terra aos camponeses e a retirada da Rússia da guerra, objetivos muito mais populares entre os operários e soldados do que os pretendidos pelo Governo Provisório.

Com o fim do antigo regime, a desagregação do Estado russo acelerou, pois o duplo poder existente não resolvia a situação. A comida era escassa, a inflação bateu a casa dos 1000%, as tropas desertavam do front matando seus oficiais, propriedades na nobreza fundiária eram saqueadas e queimadas. Nas cidades, conselhos operários foram criados na maioria das empresas impondo o controle operário da produção. E a Rússia continuava na guerra.

O poder estava nas mãos do soviete. Os dirigentes socialistas-revolucionários e os mencheviques, que detinham a maioria não queriam esse poder e desejavam entrega-lo ao Governo Provisório que deveria convocar uma Assembleia Constituinte mas que não dispunha de qualquer poder. Estava criado um impasse. E no caldeirão que fervia por toda a Russa esse impasse não tinha como durar muito tempo.

O partido bolchevique

O Palácio Táuride em Petrogrado: sede da Duma, do Governo Provisório e nos primeiros meses da revolução, também sede do Soviete de Petrogrado.

A fração bolchevique do POSDR já havia deixado para trás, desde a ruptura de agosto de 1912, qualquer ilusão de unificar o partido com a fração menchevique. Em 1917 a organização mudara muito desde a Revolução de 1905 em que teve um comportamento sectário e ultimatista em relação a classe operária, o que alimentou, na época, as desconfianças de marxistas como Trotsky e Rosa Luxemburgo. Lenin sempre teve razão nas polemicas que dividiram os marxistas russos sobre a organização do POSDR em 1902/1903. Na Alemanha, tomando como o melhor exemplo, a esquerda marxista, Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht, Franz Mehring, tinham que se constituir como fração dentro de um gigantesco partido socialdemocrata com milhares de membros, extremamente centralizado, verticalizado e burocratizado. As questões da democracia interna tinha para a tendência que formaria a Liga Spartacus um peso relevante. Mas na Rússia, o marxismo não podia deitar raízes e realizar sua agitação e propaganda nos mesmos moldes de seus camaradas alemães. A autocracia czarista, as constantes purgas policiais, as prisões e exílio, impediam a formação de um partido operário socialista estável. O movimento operário vivia em estado de suspensão e agrupado em círculos dispersos por toda a Rússia. A proposta de Lenin no seu famoso texto “Que Fazer” considerava a necessidade de uma organização centralizada, organizada em torno de um centro dirigente e de seus jornais e periódicos, única condição possível para fazer frente à autocracia e dar uma perspectiva de unidade e de evolução para a classe operária. Conforme explica o historiador Jean Jacques Marie:

“A rigidez centralista do ‘Que Fazer?’ está ligada às características próprias do proletariado russo, isto é, de um proletariado nascente, retirado de um campo quase medieval, inculto, esmagado por condições de existência que o aparentam com o proletariado inglês ou francês no auge do século XIX. Em 1902 a distância aparece enorme entre os interesses objetivos do proletariado russo e a consciência subjetiva de suas tarefas históricas” (Introdução à edição francesa do “Que Fazer?”, 1966).

Lenin considerava a espontaneidade da luta da classe operária como embrionária do movimento organizado. Insistiu que a sua proposta de organização do partido visava estimular o movimento operário de massa e não o contrário. Mas o excesso de centralismo causou estragos durante a Revolução de 1905 alijando os bolcheviques do movimento de massa. No exílio, Lenin percebe claramente os sinais anunciadores da crise revolucionária de 1905. Pressentindo a iminência de erupção das massas russas na cena política, tenta adaptar o sistema de organização da fração bolchevique do POSDR às novas condições que se anunciam. Na realização deste projeto se choca com a resistência dos “comitards” (comitês) bolcheviques firmemente aferrados nas formulas de 1902. Lênin diz: “O partido não existe para o comitê mas sim o comitê do partido para o partido”. 

No decorrer desse período, Lenin se esforça em rearmar sua fração no sentido de uma maior confiança no movimento operário de massa, condição prévia para a abertura do partido em direção a conquista das massas.

Foi no III Congresso, realizado pela fração bolchevique do POSDR em Londres na data de 25 de abril de 1905, Lenin consagra a sua energia em extirpar – com alguma impaciencia – o espírito “comitard” da fração bolchevique. Neste congresso Lenin propõe a modificação os estatutos no sentido de uma abertura para o movimento espontâneo de massa e para a instauração da democracia interna: a autonomia relativa dos comitês locais é assegurada. O comitê central perde o direito de modificar sua composição. É amplamente instituído o princípio eletivo para os postos responsáveis. É garantido o direito de se opor ao comitê central e a combatê-lo. As tendências minoritárias são protegidas. Podem fazer publica suas posições. O aparato clandestino do partido é obrigado a difundir seus textos se forem solicitados pelos comitês do partido. Estas medidas vão criar um sistema de organização que passa a se denominar de “centralismo democrático”.

Assim, antes de 1917, o bolchevismo russo abrigava escolas intelectuais rivais e tendências políticas próprias. O centralismo democrático, que por si só, não deixava de ser um paradoxo, uma contradição em termos, mas que se mostrou eficiente mais tarde. Pois ao lado da ação unitária da fração bolchevique, de cerrar fileiras em torno de uma posição majoritária aprovada após uma discussão, havia uma correspondente liberdade de crítica, uma variedade de tendências e frações. O que contrariava o mito do “monolitismo” que anos mais tarde Stalin e o seu aparato burocrático vão impor a todo o partido bolchevique.

Foi no contexto de intensas disputas internas e externas com as outras forças do momentos operário que o bolchevismo vai se constituir na fração mais avançada da classe operária russa.

Em fevereiro de 1917 a revolução surgiu espontaneamente. O historiador Pierre Broué descreve a situação na qual os bolcheviques se viram confrontados:

“A revolução de fevereiro de 1917, a chamada “insurreição anônima”, foi um levantamento espontâneo das massas, surpreendendo a todos os socialistas, inclusive os bolcheviques, cujo papel, como organização, foi nulo durante os acontecimentos, apesar de que seus militantes desempenham um importante trabalho individualmente nas fábricas e nas ruas como agitadores e organizadores. Em 26 de fevereiro, o birô russo, encabeçado por Shliapnikov recomendava ainda aos operários atuar com prudência: sem dúvida, alguns dias depois se cria de fato uma situação de duplo poder. De um lado, encontra-se o governo provisório, integrado por parlamentares representantes da burguesia, cujo empenho é reparar os danos sofridos pelo aparato de estado czarista, enquanto se esforçam em construir um novo e enquadrar a revolução; frente a eles se acham os sovietes, autênticos parlamentos de deputados operários que foram eleitos nas fábricas e nos bairros das cidades, depositários da vontade dos trabalhadores que os nomeiam e renovam seus cargos. Entre estes dois órgãos de poder se enfrentam duas concepções de democracia, a representativa e a direta, e por trás delas duas classes, a burguesia e o proletariado, que a queda do czarismo deixavam frente a frente.

Sem dúvida, o choque ainda vai tardar em se produzir. Os mencheviques e os SR ostentam a maioria nos primeiros sovietes e no primeiro congresso pan russo. De acordo com sua análise, não tentam lutar pelo poder. Em sua opinião, só um poder burguês pode ocupar o lugar do czarismo, convocar eleições para uma Assembleia Constituinte e negociar uma paz democrática sem anexações. A seu ver, os sovietes foram o instrumento operário da revolução democrático burguesa e, na república burguesa devem seguir constituindo posições da classe operária. Sem dúvida, não pensam em absoluto na possibilidade de exigir um poder que a classe operária ainda não está capacitada para exercer e que, segundo eles, deverá exigir posteriormente para si, conforme a exigência de uma revolução espontânea que os socialistas devem se abster de ‘forçar’. Lênin resumirá agudamente tal atitude ao afirmar que equivale de fato a uma entrega voluntária do poder de estado à burguesia e a seu governo provisório” (O Partido Bolchevique).

Uma virada na situação política

As primeiras tomadas de posição dos bolcheviques são muito indecisas. O primeiro manifesto bolchevique, datado de 26 de fevereiro, redigido por Shliapnikov, Molotov e Zalustky, da mesma forma que as edições do Pravda, jornal oficial dos bolcheviques, segue a linha da conquista da “república democrática”. Denuncia o governo provisório constituído por capitalistas e latifundiários e exige uma Assembleia Constituinte, eleita por sufrágio universal, cuja missão seria assentar as bases de um governo revolucionário democrático, composto por todos os partidos socialistas.

No dia 13 de março chegam a Petrogrado diversos dirigentes bolcheviques que estavam detidos e que foram libertados pela anistia decretada pelo governo provisório, tais como Muranov, Stalin, Rikov e Kamanev. Stalin assume a redação do Pravda e muda radicalmente a linha do jornal. Os bolcheviques adotam a orientação menchevique de prosseguir na guerra para preservar as recentes conquistas democráticas. Kamanev, também adotando a política defensivista em relação à guerra, diz:” um povo livre responde às balas com balas”. No fim de março, uma conferência bolchevique adota a linha defendida por Stalin e apoiada por Kamanev e Rikov, que consiste em dizer que a função dos sovietes é apoiar o governo provisório enquanto ele satisfazer as reivindicações operárias. É a linha do “apoio crítico” ao governo provisório. Conforme o próprio Stalin diz “e o momento de consolidar as conquistas democrático-burguesas”. O que só pode ser feito por um governo democrático-burguês apoiado pelo proletariado e pelos camponeses.

Lenin chega em 3 de abril acompanhado de outros bolcheviques que estavam na Suíça. É a história do famoso “vagão blindado” resultante de um acordo com o Estado maior alemão no sentido de um salvo conduto para viajar pelo front através das linhas alemães. O objetivo de Lenin era chegar à Rússia, em troca da promessa de libertação de prisioneiros de guerra alemães. O governo provisório vai acusar Lenin de ser agente alemão. O discurso de chegada de Lenin na Estação da Finlândia, para uma imensa plateia bolchevique que foi recepcioná-lo é incisivo. Coloca na ordem do dia a tomada de poder pelos sovietes e exige o rompimento do governo provisório com os capitalistas e latifundiários.

O choque com a política até então adotada pela direção bolchevique é intensa. Acusam Lenin de fazer causa comum com as posições de Trotsky, que, todavia ainda não tinha chegado do exílio. Lenin elabora as famosas “Teses de Abril”, que adotando tacitamente a tese da revolução permanente afirma:

“O traço mais característico da situação atual na Rússia consiste na transição da primeira etapa da revolução, que entregou a poder à burguesia, dada a insuficiência tanto da organização como da consciência proletárias, até sua segunda etapa, que há de pôr o poder nas mãos do proletariado e dos setores mais pobres do campesinato”.

As teses de abril provocam uma virada política:

“Qualifica de “inepta” e de “evidente irrisão” as exigências da Pravda que pede a um governo capitalista que renuncie às anexações, quando é “impossível terminar a guerra com uma paz democrática verdadeiramente se antes não se vence o capitalismo”. O objetivo do partido bolchevique, minoritário no seio da classe operária e dos sovietes, deve ser explicar às massas que “o soviete de deputados operários é a única forma possível de governo revolucionário” e que o objetivo de sua luta é construir “não uma república parlamentar, mas uma república de sovietes de operários e de camponeses pobres, de todo o país, da base até a cúpula”. Os bolcheviques não ganharão as massas, afirma, senão “pacientemente explicando, com perseverança, sistematicamente” sua política: ‘Não queremos que as massas não acreditem em nós sem outra garantia que nossa palavra. Não somos charlatões, queremos que seja a experiência que consiga que as massas saiam de seu erro’. A missão dos bolcheviques é ‘estimular de forma real tanto a consciência das massas como sua iniciativa local, audaz e decidida, – estimular a realização espontânea, o desenvolvimento e consolidação das liberdades democráticas, do princípio de posse de todas as terras por todo o povo’. Desta iniciativa revolucionária irá surgir a experiência que dará aos bolcheviques a maioria nos sovietes: então terá chegado o momento em que os sovietes poderão tomar o poder e aplicar as primeiras medidas recomendadas pelo programa bolchevique, nacionalização da terra e dos bancos, controle soviético da produção e da distribuição. A última das teses de Lênin se refere ao partido cujo nome e programa propõe mudar, “já é tempo de se livrar da camisa suja”, afirma ao sugerir mudar a etiqueta de “social democrata” pela de “comunista”, já que, segundo ele, no momento presente se trata de “criar um partido comunista proletário” “cujas bases já foram assentadas pelos melhores elementos do bolchevismo” (Pierre Broué, O Partido Bolchevique).

Em 24 de abril, apesar das resistências de muitos dirigentes bolcheviques, as teses de Lenin são aprovadas. Desenvolve então seus argumentos contra os “velhos bolcheviques”, afirmando que a “revolução burguesa se concluiu na Rússia e a burguesia conserva o poder em suas mãos”, mas a luta pela terra, o pão e a paz não poderá ser levada a cabo mais que com o acesso dos sovietes ao poder, estes saberão “muito melhor, de forma mais prática e mais segura como se encaminhar até o socialismo”. A ditadura democrática do proletariado e do campesinato é uma antiga fórmula que os “velhos bolcheviques” “aprenderam ineptamente no lugar de analisar a originalidade da nova e apaixonante realidade”.

Assim, Lenin consagra todas as suas forças em convencer seus partidários que a ditadura do proletariado, como transição ao socialismo, está na ordem do dia sob a formula de “Todo poder aos sovietes!”.

Em 4 de maio, Trotsky chega da América apoiando a política de Lenin. Logo se integra do soviete de Petrogrado sendo eleito presidente em pouco tempo. Começam as negociações entre o grupo de Trotsky e o partido bolchevique visando uma unificação. No VI Congresso do Partido Bolchevique, agora denominado Partido Comunista, ocorre a fusão com os Mezhrayontzi, o grupo de Trotsky, e com outros grupos de mencheviques internacionalistas. Trotsky é eleito para o Comitê Central e muitos dos seus camaradas assumem postos importantes na direção do partido.

Os bolcheviques foram os únicos a perceber os rumos da revolução aberta em fevereiro. O partido vai ter uma espantosa ascensão e por volta de setembro já dispunham de mais força que os socialistas revolucionários e os mencheviques nos principais sovietes de Petrogrado e Moscou. O partido, que em fevereiro contava com 24 mil membros e tinha pouca influência, tornara-se uma organização de massas com 200 mil filiados e em outubro governava a Rússia. Foram favorecidos pela indecisão e pelas limitações dos seus adversários, pela determinação de Lenin e pela liderança pública de Trotsky junto aos sovietes. Foram capazes de levar o partido a uma atitude militante e foram os únicos a cumprir a promessa de “Pão, Paz e Terra”.

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Os acontecimentos de fevereiro a outubro

Na “História de Revolução Russa”, de Leon Trotsky e publicada pela primeira vez em 1932, os editores prepararam uma sequência detalhada dos acontecimentos desde Fevereiro até o desfecho na Revolução de Outubro de 1917. As datas são do antigo calendário Juliano, com diferença de 13 dias para o calendário que agora é internacional. 

9 de Janeiro – Meetings de rua e uma greve de tipógrafos celebram o aniversário do “Domingo Sangrento” de 1905.

14 de Fevereiro – A última Duma (parlamento) do Estado monárquico se reúne.

23 de Fevereiro – A comemoração do Dia Internacional das Mulheres começa a Revolução.

24 de Fevereiro – Duzentos mil trabalhadores em greve na cidade de Petrogrado.

25 de Fevereiro – Greve Geral em Petrogrado. Tiroteios e prisões de revolucionários.

26 de Fevereiro – A Duma é dissolvida pelo czar. Os deputados se dispersam, mas decidem não deixar a cidade. Dezenas de milhares de trabalhadores nas ruas.

27 de Fevereiro – Motim dos regimentos da guarda. Invasão do Palácio Táuride por operários e soldados. Formação do Soviete de deputados de trabalhadores. Constituição do Comitê Provisório da Duma.

28 de Fevereiro – Prisão dos ministros do czar. Captura da prisão de Schusselberg. Primeira edição do Izvestia (“As Notícias” do soviete).

1 de Março – A “Ordem Nº 1” é editada para os soldados. As tropas ficam sob o comando do Soviete. Primeira sessão do Soviete de Moscou.

2 de Março – O czar abdica em favor do Grão-Duque Mikhail. O Governo Provisório é formado pelo Comitê Provisório da Duma, com o apoio do Soviete e com Kerensky como Ministro da Justiça.

3 de Março – O Grão-Duque Mikhail abdica. O Governo Provisório anuncia a Revolução ao mundo pela rádio.

5 de Março – A primeira edição do Pravda, órgão central do Partido Bolchevique.

6 de Março – O Governo Provisório declara anistia para os prisioneiros políticos.

8 de Março – O czar é preso em Moghiliev.

14 de Março – Mensagem do soviete “ao povo do mundo inteiro” declarando-se pela paz sem anexações ou indenizações.

23 de Março – Funeral dos mártires da Revolução.

29 de Março – Conferência de todos os Sovietes russos.

3 de Abril – Lenin, Zinoviev e outros bolcheviques chegam da Suíça.

4 de Abril – “Teses de Abril”, de Lênin, esboçando a sua política de revolução proletária.

18 de Abril – Comemoração do feriado socialista internacional de 1º de Maio. O Ministro do Exterior Miliukov envia uma nota aos aliados prometendo guerra para a vitória nos velhos termos.

20 de Abril – Demonstrações armadas de protesto contra a nota de Miliukov – as “Jornadas de Abril”.

24 de Abril – Início de uma conferência nacional do Partido Bolchevique.

1º de Maio – O Soviete de Petrogrado vota por um governo de coalizão.

3 de Maio – Miliukov renuncia.

4 de Maio – Trotsky chega da América, apoiando a política de Lênin. Abre-se em Petrogrado um Congresso Nacional de Deputados Camponeses.

5 de Maio – Governo de coalizão é organizado com Kerensky como Ministro da Guerra.

17 de Maio – O Soviete de Kronstadt declara-se o único poder governante na base naval.

25 de Maio – Congresso Nacional do Partido Social Revolucionário.

30 de Maio – Abre-se a primeira conferência em Petrogrado de comitês de fábricas e lojas.

3 de Junho – Primeiro Congresso Nacional dos Sovietes

16 de Junho – Kerensky ordena que os exércitos russos tomam a ofensiva no front contra a Alemanha.

18 de Junho – Uma demonstração convocada pelos mencheviques e social-revolucionários acaba numa demonstração bolchevique.

19 de Junho – Demonstração patriótica na Perspectiva Nevsky conduzindo retratos de Kerensky.

3-5 de Julho – “Jornadas de Julho” – semi-inssurreição, liderada por operários, soldados e marinheiros de Kronstadt, seguida por uma tentativa de estabelecimento dos bolcheviques em Petrogrado. Repressão contra os bolcheviques. Lenin é acusado de ser “agente alemão”.

6 de Julho – A ofensiva de Kerensky desanima quando os alemães rebentam as linhas russas em Tarnopol na frente sul.

7 de Julho – Governo Socialista de Salvação é formado com Kerensky como Presidente.

12 de Julho – Restauração da pena de morte no Exército.

16 de Julho – Kornilov substitui Brussilov como comandante-chefe do Exército.

23 de Julho – Trotsky e Lunacharsky aprisionados; Lenin na clandestinidade.

24 de julho – Novo governo de coalizão com os cadetes que substituem o governo de salvação da Revolução.

26 de Julho – Sexto Congresso do Partido Bolchevique: fusão com os Mezhrayontzi; eleito Comitê Central que vai liderar o partido através da Revolução de Outubro.

12 de Agosto – Conferência de Estado em Moscou provoca greve geral dos trabalhadores de Moscou. Conferência saúda Kornilov, que secretamente prepara a insurreição contra revolucionária de 27 de agosto.

18-21 de Agosto – Alemães rompem a frente do norte, tomam Riga, ameaçam Petrogrado.

26 de Agosto – Governo dobra preço do trigo. Ministros renunciam para dar mão livre a Kerensky.

27 de Agosto – Kerensky tenta remover Kornilov, que ignora suas ordens e começa a marchar sobre Petrogrado. Formação pelo Soviete de Comitê para a luta contra a contrarrevolução.

28-29-30 de Agosto – Golpe de Kornilov fracassa quando os trabalhadores sabotam os trens por onde avançam suas tropas. As tropas de Kornilov desertam.

1º de Setembro – Kornilov é preso no Quartel General em Moghilev. Resolução bolchevique conduz o Soviete de Petrogrado pela primeira vez.

4 de Setembro – Trotsky é liberado sob fiança pelo Governo Provisório.

5 de Setembro – Resolução bolchevique conduz o Soviete de Moscou.

9 de Setembro – Maioria bolchevique do Soviete de Petrogrado ratificada formalmente. Renúncia dos “comprometidos” do comitê.

14 de Setembro – Conferência democrática abre-se em Petrogrado.

21 de Setembro – Conferência democrática termina depois da eleição de um Conselho da República, ou Pré-Parlamento. Soviete de Petrogrado envia uma convocação para um Congresso Nacional dos Sovietes em 20 de Outubro.

24 de Setembro – Formado o último governo de coalizão com Kerensky como Presidente.

7 de Outubro – Retirada dos bolcheviques do Conselho da República.

9 de Outubro – Soviete de Petrogrado vota para formar o Comitê de Defesa Revolucionária.

10 de Outubro – Comitê Central bolchevique adota resolução de Lenin sobre insurreição armada como uma tarefa imediata.

13 de Outubro – Soviete dos Soldados de Petrogrado vota para transferir a autoridade militar do Quartel General para o Comitê Militar Revolucionário. Congresso dos Sovietes regionais do Norte endossa o próximo Congresso Nacional e se declara pelo poder do Soviete.

15 de Outubro – O Soviete de Kiev se declara pelo poder do Soviete.

16 de Outubro – Congresso dos Sovietes Regionais do Sudoeste se declara pelo poder do Soviete. Meeting do Comitê Central bolchevique reafirma a resolução de Lenin sobre a insurreição. Oposição pública de Zinoviev e Kamanev.

17 de Outubro – Divulgado, levante bolchevique deixa de se materializar. Zinoviev e Kamanev atacam a política insurrecional do Comitê Central na imprensa. Comitê Executivo Central de todos os Sovietes russos adia o seu congresso nacional de 20 de Outubro para 25 de Outubro.

19 de Outubro – Congresso dos Sovietes do Ural declara-se pelo poder do Soviete.

20 de Outubro – Comitê de Defesa Revolucionária, conhecido como Comitê Militar Revolucionário, presidido por Leon Trotsky, começa as preparações ativas para a insurreição. 

22 de Outubro – Enormes meetings através de Petrogrado quando as forças do Soviete são mobilizadas para revista.

23 de Outubro – Fortaleza de Pedro e Paulo, o último obstáculo militar de alguma importância em Petrogrado, passa para os sovietes.

24 de Outubro – Governo Provisório emite ordens para tomar medidas legais contra o Comitê Militar Revolucionário, para suprimir os jornais bolcheviques e para trazer as tropas leais para a capital; ordens que nunca foram executadas. Kerensky faz seu último discurso para o Conselho da República. Sociais-Revolucionários de esquerda indicam disposição de participar no Comitê Militar Revolucionário.

25 de Outubro – Insurreição começa às 2 horas da madrugada. Conselho da República fechado pelas tropas ao meio-dia. Lenin faz sua primeira aparição pública numa sessão do Soviete de Petrogrado às 3 horas da tarde. Operações contra o estabelecimento do Governo Provisório no Palácio de Inverno começam às 9 horas da noite. O Segundo Congresso Nacional dos Sovietes abre-se no Instituto Smolny às 11 horas da noite.

26 de Outubro – Palácio do Inverno cai nas mãos dos insurretos. O Governo Provisório é preso às 2 horas da madrugada.

26-27 de Outubro – Segundo Congresso Nacional dos Sovietes decreta sobre a paz e território. É eleito o novo governo do Conselho dos Comissários do Povo com a presidência de Lenin.

 

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