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A Revolução Árabe: Revolução até a vitória! – Thawra hatta’l nasr!

1ª parte do Manifesto Internacional da CMI (Corrente Marxista Internacional) sobre a revolução nos países árabes.

A Revolução Árabe é uma fonte de inspiração para os trabalhadores e para a juventude de todo o mundo. Ela abalou cada país no Oriente Médio em seus alicerces e suas repercussões se fazem sentir em todos os lugares. Os dramáticos acontecimentos no Norte da África e no Egito assinalam um ponto de virada decisivo na história humana. Esses acontecimentos não são acidentes isolados fora do processo geral da revolução mundial.

O que vemos se abrir diante de nós é a etapa inicial da revolução socialista mundial. O mesmo processo geral se desdobrará, embora em ritmos diferentes, por todo o globo. Inevitavelmente, haverá fluxos e refluxos; derrotas, e também vitórias; reveses, e também êxitos. Devemos estar preparados para isto. Não obstante, a tendência geral será na direção de uma maior aceleração da luta de classes em escala mundial.

O maravilhoso movimento das massas na Tunísia e no Egito é somente o começo. Os desenvolvimentos revolucionários estão na agenda e nenhum país pode se considerar imune a este processo geral. As revoluções no mundo árabe são uma manifestação da crise do capitalismo em escala mundial. Os acontecimentos na Tunísia e no Egito refletem como um espelho o futuro dos países capitalistas avançados.

Tunísia

Aparentemente, a Tunísia era o mais estável país árabe. Sua economia estava crescendo rapidamente e gordos lucros estavam sendo realizados pelos investidores externos. O presidente Zine al-Abidine Ben Ali governava com mão de ferro. Tudo parecia ir às mil maravilhas no mais maravilhoso dos mundos capitalista.

Os analistas burgueses somente vêem o que se encontra à superfície e não conseguem enxergar os processos que se desenvolvem nas profundezas da sociedade. Em conseqüência, estavam cegos diante dos processos em movimento no Norte da África. Negaram qualquer possibilidade de uma revolução na Tunísia. Agora, todos os estrategistas, economistas, acadêmicos e “especialistas” burgueses fazem exposição pública de sua perplexidade.

O país explodiu após a auto-imolação de um jovem desempregado, Mohamed Bouazizi. Hegel já chamara a atenção para o fato de que a necessidade se expressa através de um acidente. Não foi este o único caso de suicídio de jovens desempregados e desesperados na Tunísia. Mas, desta vez, suas repercussões foram inesperadas. As massas transbordaram nas ruas e iniciaram uma Revolução.

A reação inicial do regime foi de esmagar a rebelião pela força. Como isso não funcionou, apelaram para as concessões, que apenas serviram para lançar lenha na fogueira. A forte repressão policial não conseguiu deter as massas. O regime não utilizou o exército porque não podia fazê-lo. Um confronto sangrento o teria desmembrado.

A classe trabalhadora tunisiana lançou uma onda de retumbantes greves regionais que culminou em uma greve nacional. Foi neste ponto que Ben Ali fugiu para a Arábia Saudita. Foi esta a primeira vitória da Revolução Árabe. Esta vitória mudou tudo.

Com a fuga de Ben Ali, surgiu um vácuo de poder que tinha de ser preenchido pelos comitês revolucionários. Estes tomaram o poder em nível local e em alguns casos em nível regional. Em Redeyef, onde se localizam as minas da bacia de fosfato de Gafsa, não havia nenhum outro poder além do poder dos sindicatos. A delegacia de polícia foi incendiada e destruída, o juiz fugiu e a prefeitura foi tomada pelo sindicato local que estabeleceu ali o seu centro de operações. Na praça principal da cidade são realizadas assembléias de massas, que são dirigidas regularmente pela liderança do sindicato. Eles criaram comissões para lidar com o transporte e a ordem pública, a prestação de serviços locais etc.

As massas não ficaram satisfeitas ou pacificadas com a vitória inicial. Foram às ruas em grande número contra qualquer tentativa de se repor a velha ordem sob nome diferente. Todos os velhos partidos ficaram completamente desacreditados. Quando Gannouchi tentou instalar os novos governadores regionais, o povo os repudiou. Centenas de milhares de pessoas protestaram e estes novos governadores tiveram de ser removidos.

Na Tunísia, a lava da revolução ainda não esfriou. Os trabalhadores estão exigindo o confisco da riqueza da família de Ben Ali. Como esta controlava vastos setores da economia, esta exigência constitui uma ameaça direta ao domínio da classe capitalista na Tunísia. O confisco da propriedade da camarilha de Ben Ali é uma demanda socialista.

Os trabalhadores tunisianos deram um pontapé em seus patrões impopulares. O esquerdista Movimento 14 de Janeiro apelou à convocação de uma assembléia nacional de comitês revolucionários. Esta é uma demanda correta, mas não foram dados passos concretos para pô-la em prática. A despeito da ausência de liderança a Revolução continua a avançar a passo de gigante, derrubando Gannouchi e elevando o movimento a novas alturas. Nossa palavra de ordem deve ser: thawra hatta’l nasr! – Revolução até a vitória!

A Revolução Egípcia

A Tunísia abriu caminho à revolução árabe, mas é um pequeno país na fronteira do Maghreb. O Egito, por seu lado, é um gigantesco país com 82 milhões de habitantes e se encontra no coração do mundo árabe. Seu proletariado numeroso e militante já tinha mostrado seu espírito revolucionário em muitas outras oportunidades. A Revolução Egípcia sem dúvida foi influenciada pela Tunísia, mas também se baseou em outros fatores: alto desemprego, padrões de vida em queda e imenso ódio contra o corrupto e repressivo governo.

A Tunísia agiu como catalisador. Mas um catalisador somente pode agir quando as condições necessárias estão presentes. A Revolução Tunisiana mostrou que era possível. Mas seria totalmente equivocado assumir que foi esta a única, ou até mesmo a principal, causa. As condições para uma explosão revolucionária já tinham amadurecido em todos esses países. Tudo o que se requeria era uma única fagulha para explodir o barril de pólvora. A Tunísia a proporcionou.

O movimento no Egito revelou o maravilhoso heroísmo das massas. As forças de segurança não puderam usar suas balas contra a mais importante demonstração na Praça Tahir por temer que um cenário como o tunisiano pudesse se desdobrar. O regime imaginava que seria suficiente, como já tinha ocorrido no passado, rachar algumas cabeças. Mas isto não foi suficiente. A disposição de ânimo tinha mudado. A quantidade se transformou em qualidade. O velho medo fora embora. Agora era a polícia que tinha de fugir, não o povo.

Esta situação provocou a imediata ocupação da Praça Tahir. O regime enviou o exército, mas os soldados confraternizaram com as massas. O exército egípcio é constituído de recrutas. Os mais altos graduados do exército, seus generais, são corruptos. Eles fazem parte do regime, mas os soldados rasos são recrutados entre os trabalhadores e camponeses pobres. Já o oficialato de baixa e média patentes vem da classe média e está aberto à pressão das massas.

Os partidos de oposição exigiram reformas, incluindo a dissolução do parlamento instalado em dezembro do ano passado após eleições fraudulentas, a convocação de novas eleições e uma declaração de Mubarak de que nem ele nem seu filho concorreriam à presidência nas eleições previstas para setembro próximo. Mas, na realidade, a liderança já estava à zaga das massas. O movimento já estava acima destas demandas e queria mais. O povo revolucionário não aceitaria nada menos do que a imediata remoção de Mubarak e a completa dissolução de seu regime.

Começando com demandas básicas como o fim das leis de emergência, a demissão de seu ministro do interior e um salário mínimo mais elevado, os manifestantes, encorajados por seu número, elevaram suas palavras de ordem a um mais alto e mais revolucionário nível: “Abaixo Mubarak!” “O povo exige a queda do regime!” ou simplesmente: “Vá embora!” Desta forma, a consciência revolucionária das massas se elevou vertiginosamente.

O Estado e a Revolução

É inútil tentar explicar os acontecimentos no Egito e na Tunísia desprezando o papel central das massas, que foi a força motriz dos acontecimentos do início ao fim. Os “experts” burgueses e pequeno-burgueses agora tentam depreciar a importância da ação das massas. Eles somente vêem o que está acontecendo no topo. Para eles, o que aconteceu foi somente uma questão de “golpismo”, com “o exército tomando o poder para si próprio”. A mesma espécie de historiadores burgueses assegura-nos que a Revolução Bolchevique de 1917 foi “somente um golpe”. Eles não são capazes de encarar a face da história; em vez disto, ficam fascinados por seu traseiro.

Suas “profundas” análises são superficiais no sentido mais literal da palavra. Para os filósofos burgueses em geral só existe o lado aparente das coisas. Como se fosse possível tentar entender o movimento das ondas sem se preocupar em estudar as correntes oceânicas submarinas. Inclusive depois que as massas tomaram as ruas do Cairo, Hilary Clinton insistiu em que o Egito era estável. Ela fundamentou sua conclusão no fato de que o estado e seu aparato repressivo permaneciam intactos. Mas, exatamente em duas semanas, tudo estava em ruínas.

A existência de um poderoso aparato estatal de repressão não é nenhuma garantia contra a revolução e até pode ter efeito oposto. Na democracia burguesa a classe dominante conta com determinadas válvulas de escape que podem alertá-la quando a situação está ficando fora de controle. Mas em regimes ditatoriais e totalitários não há nenhuma chance para o povo exteriorizar seus sentimentos em relação ao sistema político. Por isso, as sublevações podem ocorrer subitamente, sem aviso prévio, e assumir imediatamente formas extremas.

As forças armadas constituíam a principal base do velho regime. Mas, como qualquer outro exército, ele é um reflexo da sociedade e encontra-se sob a influência das massas. No papel, é uma força formidável. Mas os exércitos se compõem de seres humanos e estão sujeitos às mesmas pressões como qualquer estrato ou instituição social. No momento da verdade, nem Mubarak nem Ben Ali puderam usar o exército contra o povo.

Os exércitos de muitos países árabes não são iguais aos exércitos do mundo capitalista desenvolvido. Eles são, em última instância, também exércitos capitalistas, ou seja, corpos armados de homens em defesa da propriedade privada, mas, ao mesmo tempo, eles são também produto da revolução colonial. Naturalmente, os generais são corruptos e reacionários. Mas as fileiras de recrutas foram recrutadas do seio das classes trabalhadoras e camponesas. A casta de oficiais de baixa e média patentes reflete a pressão das massas, como se viu com o golpe de Nasser em 1952.

A revolução provocou uma crise estatal. As tensões aumentaram entre o exército e a polícia e entre a polícia e os manifestantes. Foi por isto que o Conselho do Exército, no final, decidiu descartar Mubarak. O exército estava claramente abalado pelos acontecimentos e mostrava sinais de ruptura sob a pressão das massas. Houve casos de oficiais abandonando suas armas e juntando-se aos manifestantes na Praça Tahir. Sob tais circunstâncias, não havia nenhuma possibilidade de se utilizar o exército contra o povo revolucionário.

O papel do proletariado

Nas duas primeiras semanas o poder estava nas ruas. Mas, tendo ganhado o poder nas ruas, os líderes do movimento não sabiam o que fazer com ele. A idéia de que tudo o que era necessário era reunir um grande número de pessoas na Praça Tahir foi fatalmente equivocada. Primeiramente, a questão do poder estatal não foi levada em consideração. Entretanto, esta questão é central e decide todas as outras questões. Em segundo lugar, a estratégia era passiva, enquanto que o que se requeria era uma estratégia ativa e ofensiva.

Na Tunísia, as demonstrações massivas forçaram Ben Ali a se exilar e derrubaram o partido dominante. Isto convenceu muitos egípcios de que seu regime também se revelaria igualmente frágil. O problema foi que Mubarak se recusou a ir embora. A despeito dos esforços sobre-humanos e da coragem dos manifestantes, as demonstrações fracassaram na tarefa de derrubar Mubarak. As demonstrações de massas são importantes porque constituem uma forma de levantar as massas anteriormente inertes, dando-lhes o sentimento de seu próprio poder. Entretanto, o movimento poderia ter fracassado se não tivesse se elevado a um novo e mais alto nível. E esta tarefa somente poderia ser realizada pela classe trabalhadora.

O despertar do proletariado se expressou na onda de greves e protestos dos últimos anos. Foi este despertar do proletariado um dos principais fatores que prepararam a Revolução. É também a chave de seu futuro êxito. A irrupção dramática do proletariado egípcio no palco da história assinalou o ponto de viragem nos destinos da Revolução. Foi ela que salvou a Revolução e que levou à derrubada de Mubarak. Em uma cidade após outra, os trabalhadores egípcios organizaram greves e ocupações de fábricas. Eles expulsaram os odiados gerentes e os corruptos líderes sindicais.

A revolução ascendeu a um nível mais elevado. Transformou-se de demonstração em uma insurreição nacional. Que conclusão pode se tirar disto? Somente esta: que a luta pela democracia somente pode ser vitoriosa na medida em que é conduzida pelo proletariado: os milhões de trabalhadores que produzem a riqueza da sociedade e que, sem cuja permissão, nenhuma lâmpada é acesa, nenhum telefone toca e nenhuma roda gira.

O despertar da nação egípcia

O marxismo nada tem em comum com o determinismo econômico. O desemprego em massa e a pobreza constituem assunto explosivo. Mas havia outra coisa presente na equação revolucionária: algo mais evasivo, que não pode ser quantificado, mas que é um fator não menos poderoso de descontentamento que as privações materiais. É o incendiário sentimento de humilhação nos corações e nas mentes de um povo antigo e nobre dominado pelo imperialismo durante gerações.

Há o mesmo sentimento geral de humilhação em todos os povos árabes, escravizados e oprimidos pelo imperialismo por mais de cem anos, subordinados a ditadores, inicialmente das potências européias, em seguida do gigante transatlântico. Este sentimento pode encontrar expressão destorcida na forma do fundamentalismo islâmico que rejeita tudo que é ocidental como demoníaco. Mas a ascensão do fundamentalismo islâmico nos últimos anos foi somente a expressão da falência da esquerda em oferecer uma alternativa genuinamente socialista aos prementes problemas das massas árabes.

Nos anos 1950 e 1960, o sonho do socialismo árabe e do pan-arabismo de Gamal Abdel Nasser estimulou as esperanças das massas árabes em todos os lugares. O Egito se tornou o farol da esperança das massas árabes oprimidas e humilhadas. Mas Nasser não levou este programa a sua conclusão lógica e, sob Anwar Sadat, este se transformou em seu contrário. O Egito se transformou em um fantoche da política de força dos EUA. Durante as três décadas do domínio de Mubarak estas tendências se reforçaram gigantescamente. Mubarak era um palhaço dos EUA e de Israel e, de forma vergonhosa, traiu a causa Palestina.

Nas últimas três ou quatro décadas a psique árabe foi afetada por frustrações, derrotas e humilhações. Mas, agora, a roda da história deu um giro de 180 graus e tudo está mudando. A idéia de revolução tem atualmente um sentido muito concreto para o mundo árabe. Está capturando as mentes de milhões e se tornando uma força material. As idéias que antes se conectavam somente com poucas pessoas estão agora convencendo e mobilizando milhões delas.

As revoluções são grandes purificadores. Elas submetem à prova todas as tendências. Da noite para o dia, as idéias de terrorismo individual ou do fundamentalismo islâmico foram abandonadas pela torrente revolucionária. A Revolução fez renascer idéias um tanto quanto esquecidas. Ela pressagia um retorno às velhas tradições do socialismo e do nacionalismo pan-árabe, que nunca desapareceram completamente da consciência popular. Não é acidental que as canções de resistência do passado estejam sendo revividas atualmente. Retratos de Nasser reapareceram nas manifestações.

Estamos testemunhando um novo renascimento árabe. Uma nova consciência está sendo forjada ao calor da luta. As demandas democráticas são fundamentais para o povo em tais circunstâncias. O povo que foi escravo durante tanto tempo finalmente repudiou a velha e fatalista mentalidade e se elevou a si próprio a sua plena estatura.

Pode-se ver o mesmo processo em cada greve. Uma greve assemelha-se a uma revolução em miniatura e uma Revolução se assemelha a uma greve de toda a sociedade contra seus opressores. Quando participam ativamente, homens e mulheres redescobrem sua dignidade humana. Começam a tomar seu destino em suas próprias mãos e a exigir seus direitos: “nós exigimos ser tratados com respeito”. Esta é a essência de toda Revolução genuína.

A Revolução está elevando a consciência a um nível superior. Está puxando o tapete sob os pés dos reacionários que desorganizaram as massas e as aturdiram com os vapores venenosos do fundamentalismo religioso. A despeito da propaganda mentirosa dos imperialistas, os fundamentalistas islâmicos desempenharam pequeno ou nenhum papel na Revolução, tanto na Tunísia quanto no Egito. A Revolução despreza o sectarismo. Ela ultrapassa todas as divisões e une homens e mulheres, jovens e velhos, muçulmanos e cristãos.

O movimento revolucionário ultrapassa a religião. Ela ultrapassa a questão de gênero. Ela traz as mulheres árabes às ruas para lutar ao lado de seus homens. Ela ultrapassa todas as divisões nacionais, étnicas e lingüísticas. Ela defende as minorias oprimidas. Ela junta todas as forças vivas da nação árabe e as une na luta comum. Ela permite ao povo revolucionário elevar-se a sua plena altura, a recuperar sua dignidade e a se regozijar de sua liberdade. Homens e mulheres podem levantar suas cabeças e dizer orgulhosamente: “Nunca mais seremos escravos”.

Os limites da espontaneidade

A Revolução na Tunísia e no Egito veio de baixo. Ela não foi organizada por nenhum dos partidos ou líderes existentes. Todos eles foram deixados para trás por um movimento que não previram e para o qual estavam completamente despreparados. Se há uma lição a ser tirada da experiência da Revolução Egípcia, é esta: o povo revolucionário não pode confiar em ninguém além dele mesmo – deve confiar em sua própria força, em sua própria solidariedade, em sua própria coragem, em sua própria organização.

Quando olhamos para o Egito a única comparação histórica que imediatamente nos vem à mente é a Barcelona de 1936. Sem nenhum partido, sem nenhuma liderança, nenhum programa, nenhum plano os trabalhadores marcharam sobre os quartéis com coragem extraordinária e esmagaram os fascistas. Eles salvaram a situação e poderiam ter tomado o poder. Mas a questão é precisamente esta: por que não tomaram o poder? A resposta está na ausência de uma liderança. Mais exatamente: eles foram defraudados pela liderança anarquista da CNT, em cujas mãos depositaram sua confiança. Quem quer que tenha ilusões no anarquismo seria muito prudente estudar a história da Revolução Espanhola!

À primeira vista, o movimento na Tunísia e no Egito aparenta ser uma revolução espontânea, sem nenhuma organização ou liderança. Mas este argumento não é necessariamente preciso. O movimento foi somente parcialmente espontâneo. Ele foi convocado por determinados grupos e indivíduos. Ele tem líderes que tomam iniciativas, promovem palavras de ordem, convocam manifestações e greves.

Grande ênfase foi dada ao papel das redes sociais de comunicação como Facebook e Twitter, na Tunísia, no Egito (e anteriormente no Irã). Não há dúvida de que a nova tecnologia desempenhou um papel que foi extremamente útil para os revolucionários e que tornou impossível aos Estados, como o do Egito, reter o monopólio da informação do qual antes dela desfrutavam. Mas os que exageram o lado puramente tecnológico das coisas estão deturpando a verdadeira essência da Revolução, isto é, o papel das massas e da classe trabalhadora em particular. Isto porque desejam retratar a Revolução como um assunto principalmente da classe média, conduzido exclusivamente por intelectuais e entusiastas da internet. Isto é totalmente falso.

Em primeiro lugar, somente uma pequena proporção da população tem acesso à internet. Em segundo, o regime praticamente desconectou a internet e interrompeu os serviços de telefones móveis. Isto não deteve o movimento por um só minuto. Sem internet e telefones móveis, o povo organizou demonstrações utilizando-se de uma velha tecnologia, mais conhecida como fala. Esta mesma tecnologia foi utilizada durante a Revolução Francesa e a Revolução Russa, que infelizmente não tinham qualquer acesso aos Facebook ou Twitter, mas que fizeram um trabalho que se pode considerar como toleravelmente bom de qualquer forma. Um papel mais destacável que Facebook, contudo, foi desempenhado por Al Jazeera. Milhões de pessoas puderam acompanhar os acontecimentos enquanto ocorriam, dia a dia, hora a hora.

Como vimos, não é correto dizer que a Revolução Egípcia não teve nenhuma liderança. Houve uma espécie de liderança direta desde o início. Ela consistiu de uma coligação um pouco frouxa de mais de uma dúzia de pequenos partidos e grupos de ativistas. Foram eles que lançaram um Facebook que apelou por um “dia da ira” para coincidir com o Dia da Polícia, em 24 de janeiro. Cerca de 100 mil web-surfers [“surfistas da internet”] registraram o fato, prometendo ir às ruas para expressar suas exigências de reforma.

Tanto na Tunísia quanto no Egito, inicialmente, as demonstrações foram convocadas por grupos formados principalmente de jovens, que proporcionaram a liderança que os partidos da oposição “oficial” fracassaram em proporcionar. The Economist refere-se à “emergência de grupos conectados frouxamente entre si, pressionando por reformas, dirigidos através da internet por jovens com perspectivas seculares, mas sem nenhuma ideologia particular. Alguns deles se aglutinaram em torno dos direitos trabalhistas. Outros defendiam os direitos humanos ou a liberdade acadêmica”.

Estas ações foram realizadas, então, por uma minoria decidida e, por conseguinte, não podem ser consideradas como puramente espontâneas. Mas esta era apenas a ponta de um enorme iceberg. A simpatia do povo estava do lado dos manifestantes. O protesto em âmbito nacional transformou-se em uma insurreição geral contra o regime de Mubarak, com protestos simultâneos de massas por todo o Egito. Então, de fato, houve algum tipo de liderança, embora suas idéias não fossem muito claras. Contudo, tanto na Tunísia quanto no Egito, a resposta das massas tomou os organizadores de surpresa que sequer imaginavam a extensão do apoio obtido. Nenhum dos organizadores esperava o gigantesco número de pessoas que respondeu ao seu apelo, e ainda menos o esperava a política antidistúrbios, para permitir-lhes que fossem tão longe.

É verdade que o caráter “espontâneo” da Revolução proporcionou certa proteção contra o estado, e, neste sentido, ele foi positivo. Mas a ausência de uma liderança adequada constitui uma séria debilidade que terá efeitos negativos mais tarde.

O fato de que, nos dois casos, as massas tiveram êxito em derrubar Ben Ali e Mubarak sem a ajuda de uma liderança consciente constitui um eloqüente testemunho do colossal potencial revolucionário da classe trabalhadora em todos os países. Mas esta afirmação não esgota a questão em foco de forma alguma. A debilidade de um movimento puramente espontâneo foi vista no Irã, onde, apesar do imenso heroísmo das massas, a Revolução terminou em derrota – pelo menos por enquanto.

O argumento de que “não necessitamos de líderes” não resiste a mais leve prova. Até mesmo em uma greve de meia hora em uma fábrica sempre há uma liderança. Os trabalhadores elegerão gente de suas fileiras para representá-los e para organizar a greve. Para isto, não se elegem elementos arbitrários ou acidentais, mas os trabalhadores mais corajosos, com mais experiência e mais inteligentes. Estes são selecionados nesta base.

A liderança é importante; o partido é importante. Uma criança de seis anos de idade poderia entender esta proposição, que é o ABC do marxismo. Mas, depois do ABC, há outras letras no alfabeto. Algumas pessoas que se reivindicam marxistas imaginam que, sem a presença de um partido marxista, ou até que ele chegue a liderar o proletariado, não se coloca a questão de uma revolução. Esta atitude pedante e ridícula nada tem em comum com o marxismo. A revolução não se desdobrará de forma ordenada, com um partido revolucionário regendo as massas com uma batuta.

Em 1917, Lênin disse que a classe trabalhadora é sempre mais revolucionária do que até mesmo o mais revolucionário partido. A experiência prática da Revolução Russa mostrou que ele estava correto. Deixem-nos recordar que, em abril de 1917, Lênin teve que apelar aos trabalhadores à revelia do Comitê Central Bolchevique, que adotara uma atitude conservadora sobre a questão da revolução proletária na Rússia.

A mesma mentalidade conservadora, o mesmo desprezo aristocrático em relação às massas, pode ser visto em muitos daqueles que se consideram como a “vanguarda” da classe, mas que, na prática, agem como um freio sobre o movimento em uma situação decisiva. Basta nos referirmos ao lamentável papel da velha e suposta “vanguarda” no Irã, que sobrevivera à revolução de 1979, mas que se afastou das massas revolucionárias que vieram para as ruas aos milhões para desafiar o regime em 2009.

Dizem os marxistas que até que um partido revolucionário seja construído e que se coloque à cabeça da classe trabalhadora a revolução é impossível? Não, nunca dissemos tal coisa. A revolução progride de acordo com suas próprias leis, que se desenvolvem independentemente dos desejos dos revolucionários. Uma revolução ocorrerá quando todas as condições objetivas estiverem presentes. As massas não podem esperar até que um partido revolucionário seja construído. Contudo, uma vez que as condições objetivas estejam presentes, o fator da liderança é certamente decisivo. Freqüentemente isto representa a diferença entre a vitória e a derrota.

A revolução é uma luta de forças vivas. A vitória não está pré-determinada. De fato, em determinado momento, a Revolução Egípcia chegou perto da derrota. Em termos táticos, permanecer na Praça Tahir não foi a melhor opção. Isto revelou a visão limitada dos organizadores. Mubarak chegou perto de ganhar a partida contra o movimento, ao cooptar algumas camadas e ao mobilizar elementos criminosos lumpens para ataques violentos aos manifestantes. Isto poderia ter acontecido. Apenas a intervenção decidida das massas e, em particular, a intervenção da classe trabalhadora, evitaram a derrota.

O problema da direção

As massas nunca têm um plano pronto e acabado ao iniciarem uma revolução. Elas aprendem através da luta. Elas não sabem exatamente o que querem, mas sabem muito bem o que não querem. E isto é o suficiente para impulsionar o movimento adiante.

A liderança é um elemento muito importante na guerra. Isto não significa que seja o único elemento. Até mesmo a liderança mais brilhante não pode garantir o êxito se as condições objetivas forem desfavoráveis. E, em algumas ocasiões, é possível ganhar uma batalha com maus generais. Em uma revolução, que é a mais alta expressão da guerra entre as classes, a classe trabalhadora tem a vantagem dos números e de seu controle sobre setores fundamentais do aparelho produtivo da sociedade. Mas a classe dominante possui muitas outras vantagens.

O Estado é um aparato que serve à manutenção da ditadura de uma minoria de exploradores sobre a maioria explorada. A classe dominante retém muitas outras ferramentas em suas mãos: a imprensa, o rádio e a televisão; as escolas e as universidades, a burocracia estatal e, também o policiamento espiritual através de seus burocratas nas mesquitas e igrejas. Além disso, possui um exército de assessores profissionais, de políticos, de economistas e de outros especialistas na arte da manipulação e da fraude.

Para combater este aparato de repressão, que foi construído e aperfeiçoado durante décadas, a classe trabalhadora deve desenvolver suas organizações próprias, através de uma liderança experiente e determinada que tenha aprendido as lições da história e que esteja preparada para todas as eventualidades. Argumentar que é possível derrotar a classe dominante e seu Estado sem organização e liderança é o mesmo que incitar um exército à batalha sem que o mesmo esteja treinado e preparado para enfrentar uma força profissional conduzida por oficiais experimentados.

Na maioria dos casos, um conflito desta natureza terminará em derrota. Mas mesmo que a Revolução consiga submeter o inimigo no primeiro ataque, isto não será suficiente para garantir a vitória final. O inimigo se reagrupará, se reorganizará, modificará suas táticas e se preparará para uma contra-ofensiva, que será ainda mais perigosa porque as massas estarão sossegadas acreditando que a guerra já foi ganha. O que, inicialmente, parecia ser um momento de triunfo e alegria se transforma em um momento de perigo extremo para o destino da Revolução, e a ausência de uma liderança adequada em tais casos será seu calcanhar de Aquiles, sua debilidade fatal.

A liderança do movimento de protesto contém elementos de tendências ideológicas diferentes. Em última instância, isto reflete diferentes interesses de classe. No início, este fato se camufla através de um apelo geral à “unidade”. Mas o desenvolvimento da Revolução inevitavelmente originará um processo interno de diferenciação. Os elementos “democráticos” burgueses e de classe média vão aceitar as migalhas oferecidas pelo regime. Eles estabelecerão compromissos e entrarão em acordos nas costas das massas. Em determinado momento, desertarão da Revolução e se passarão com armas e bagagens para o campo da reação. Isto já está acontecendo.

No final das contas, são os elementos revolucionários mais determinados que podem garantir a vitória final da Revolução: os que não estão dispostos a estabelecer compromissos e que estão decididos a ir até o final. Novas explosões estão implícitas na situação. No final, um dos lados deve triunfar. A situação objetiva está madura para a ascensão da classe trabalhadora ao poder. Mas a ausência do fator subjetivo – o partido revolucionário e sua liderança – impede que isto aconteça. A solução do problema da liderança é, por esta razão, a questão central da Revolução.

A sabotagem no topo

Foi a insurreição nacional que convenceu os generais de que somente a partida de Mubarak poderia acalmar as ruas do Egito e restaurar a “ordem”. Esta foi, e ainda continua sendo, sua obsessão prioritária. Toda esta conversa sobre democracia é meramente uma folha de parreira para encobrir este fato. Os generais fizeram parte do velho regime e participaram de todos os trabalhos sujos relativos à corrupção e à repressão. Odeiam a Revolução como à peste e querem unicamente o retorno à “normalidade” – isto é, o retorno ao velho regime sob um rótulo diferente.

A classe dominante dispõe de muitas estratégias para derrotar a Revolução. Se não puder ser através da força, se recorrerá à astúcia. Quando a classe dominante enfrenta a perspectiva de perder tudo, sempre oferece concessões. A derrubada de Ben Ali e de Mubarak foi uma grande vitória, mas foi apenas o primeiro ato do drama revolucionário.

Os representantes do velho regime permanecem em suas posições de poder; o velho aparato estatal – o exército, a polícia e a burocracia – ainda está no mesmo lugar. Os imperialistas estão intrigando com a cúpula do exército e a velha liderança para recuperar das massas tudo que ganharam. Oferecem concessões, desde que sejam concessões que mantenham seu poder e privilégios.

Derrotado nas ruas, o velho regime se esforça por fazer uma barganha, isto é, tenta enganar a liderança da oposição, de forma que esta, por seu turno, possa enganar as massas. O ponto nevrálgico é: uma vez que a iniciativa tenha passado às mãos dos “negociadores”, as massas se tornem meramente observadoras passivas. As decisões reais poderiam ser tomadas em outro lugar, por trás das paredes, nas costas do povo.

Os homens do velho regime estão lentamente começando a recuperar seus nervos. Eles começam a se sentir mais confiantes e redobram suas manobras e intrigas, apoiando-se nos setores mais moderados da oposição. As massas estão preocupadas. Não querem que o movimento seja seqüestrado pelos políticos profissionais e carreiristas que estão barganhando com os generais como mercadores pechinchando em um bazar. Mas permanece a questão: como levar a Revolução adiante? O que necessita ser feito?

Como o movimento se tornou mais radicalizado, alguns dos elementos que desempenharam um papel de liderança na etapa inicial ficarão para trás. Alguns o abandonarão; outros se passarão para o lado inimigo. Isto corresponde aos diferentes interesses de classe. O povo pobre, os desempregados, os trabalhadores, os “homens sem nenhuma propriedade” não estão interessados na manutenção da velha ordem. Eles querem a destruição não somente de Mubarak, mas de todo o regime de opressão, exploração e desigualdade. Mas os liberais burgueses vêem a luta pela democracia como um atalho para uma carreira confortável no parlamento. Não têm nenhum interesse de levar a Revolução até o seu final ou de perturbar as relações de propriedade existentes.

Para os liberais burgueses o movimento de massas é somente uma conveniente carta de baralho com a qual eles podem jogar para ameaçar o governo com o fim de obter mais algumas migalhas. Eles sempre estarão prontos a trair a Revolução. Nenhuma confiança deve ser depositada nesta gente. El Baradei agora diz que se opõe a emendas constitucionais, mas, em vez de exigir uma imediata assembléia constituinte, afirma que as eleições poderiam ser adiadas, que as condições para elas não estão presentes, que o momento não é propício, e assim por diante. Para estes cavalheiros, o momento para a democracia nunca é propício. Para as massas que derramaram seu sangue pela Revolução, o momento para a democracia é agora!

A Corrente Marxista Revolucionária proclama:

• Nenhuma confiança nos generais!
• Nenhuma confiança nos auto-designados “líderes” que apelam pela restauração da “normalidade”!
• Manter o movimento de massas!
• Organizar e fortalecer os comitês revolucionários!
• Pela remoção de todos os partidários do velho regime!
• Nenhum acordo com o velho regime!
• O presente “regime interino” não tem nenhuma legitimidade e deve ser removido imediatamente. Exijamos a convocação imediata de uma Assembléia Constituinte!

A Irmandade Muçulmana

Algumas pessoas, incluindo Khamenei no Irã, dizem que o movimento revolucionário que estamos testemunhando é religioso, que é um “despertar islâmico”. Isto claramente não é o caso. Até mesmo os clérigos mais importantes do Egito admitem isto. Temem serem postos de lado ao tentarem retratar a Revolução como um movimento religioso. É um movimento de todas as religiões e, por esta razão, de nenhuma religião. Não houve nenhuma animosidade contra os cristãos nas demonstrações. Não houve sequer alusões anti-semitas.

O sectarismo religioso é uma arma utilizada pelos reacionários para confundir o povo. Os ataques de dezembro contra os cristãos coptas foram claramente produzidos pela polícia secreta com o objetivo de criar uma divisão sectária e de desviar a atenção dos verdadeiros problemas das massas. Estão apelando para as estas táticas sujas com o objetivo de dividir as massas em linhas sectárias, fomentando conflitos entre muçulmanos e coptas, numa tentativa de dividir e desorientar o povo e sabotar a Revolução.

As revoltas na Tunísia e no Egito são profundamente seculares e democráticas, e com freqüência exclui deliberadamente os Islâmicos. A idéia de que a Irmandade Muçulmana era a “única oposição real” é falsa até a medula. As demandas básicas dos manifestantes egípcios são por empregos, comida e direitos democráticos. Isto nada tem a ver com os Islamitas e é uma ponte ao socialismo, que tem raízes profundas nas tradições do Egito e de outros países árabes.

Algumas pessoas desorientadas da esquerda descreveram o movimento na Tunísia e no Egito como revoluções da “classe média”. Estes mesmos supostos esquerdistas estiveram flertando com grupos reacionários como o Hezbollah, o Hamas e a Irmandade Muçulmana durante longo tempo. Tentaram justificar esta traição ao marxismo com base na suposta posição antiimperialista de seus líderes. Isto é falso do início ao fim. Os assim chamados Islamitas são antiimperialistas apenas nas palavras, mas, na prática, representam uma tendência reacionária. Eles são, de fato, a quinta roda na carroça do velho regime.

Os imperialistas tentaram utilizar os Islamitas como um bicho papão para confundir as massas e assim ocultar a natureza real da Revolução Árabe. Eles dizem: “Vejam! Se Mubarak se for, a al-Qaeda tomará o seu lugar”. O próprio Mubarak disse ao povo egípcio que se ele se fosse, o Egito seria “como o Iraque”. Tudo mentira! O papel dos fundamentalistas e de organizações como a Irmandade Muçulmana foi grotescamente exagerado. Tais organizações não representam forças progressistas. Elas posam de antiimperialistas, mas representam os interesses dos latifundiários e dos capitalistas. Em última instância, eles sempre trairão a causa dos trabalhadores e dos camponeses.

É um escândalo que certos grupos de esquerda europeus, e até mesmo alguns que se reivindicam marxistas, apóiem os Islamitas. Isto é nada menos que uma traição à revolução proletária. É certo que a Irmandade Muçulmana está dividida ao longo de linhas de classe. A liderança está nas mãos dos elementos conservadores, dos capitalistas e dos empresários ricos, enquanto os membros de suas fileiras incluem setores mais militantes da juventude e aqueles que vieram dos setores mais carentes da classe trabalhadora. Contudo, a forma de se ganhar estes últimos para o lado da revolução não é através de alianças com sua liderança capitalista, e sim a submetendo à crítica implacável, com o objetivo de expor seu discurso vazio de serem antiimperialistas e a favor dos pobres.

Isto é precisamente o oposto do que esses grupos fizeram quando estabeleceram uma aliança com os líderes da Irmandade Muçulmana na organização da conferência anti-guerra no Cairo. Com efeito, essas organizações de esquerda proporcionaram à liderança da Irmandade Muçulmana uma cobertura de esquerda, aprovando suas falsas credenciais antiimperialistas e, dessa forma, fortalecendo seu controle sobre os seus próprios membros.

No passado, a Irmandade Muçulmana foi sustentada pela CIA para minar o movimento nacionalista de esquerda de Gamal Abdel Nasser. O fundamentalismo islâmico foi uma criação de John Foster Dulles e do Departamento de Estado dos EUA, para cortar o caminho da esquerda depois da Guerra do Suez de 1956. Mas, quando Sadat e Mubarak se tornaram fantoches dos EUA, seus serviços não foram mais requeridos. Hilary Clinton e outros disseram que a Irmandade Muçulmana não constituía uma ameaça, que eles eram pessoas com quem se podia trabalhar. Esta é uma indicação clara de que os imperialistas mais uma vez tentarão utilizar os Islamitas para degolar a Revolução.

Similarmente, o Hamas e o Hezbollah foram originalmente criados para cortar o caminho da Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP) e de outras tendências de esquerda na Palestina. Mais tarde, a CIA criou Osama Bin Laden como contrapeso às forças soviéticas no Afeganistão. E, agora, estão mais uma vez conspirando com a liderança da Irmandade Muçulmana para degolar a Revolução no Egito e iludir o povo. Mas a Irmandade Muçulmana não é um movimento homogêneo e agora se encontra dividido em facções diferentes ao longo de linhas de classe.

Os pobres que apóiam a Irmandade são uma coisa. Os líderes são outra, no geral. Nos anos 1980, os líderes da Irmandade foram os principais beneficiários da liberalização econômica – o programa infitah ou “abertura” – sob a qual Sadat e em seguida Mubarak desmantelaram o setor estatal, em favor do capital privado. Um diagnóstico dos empresários da Irmandade sugere que, neste momento, eles controlam 40% de todas as iniciativas econômicas privadas. Eles fazem parte do sistema capitalista e têm todo interesse em defendê-lo. Sua conduta não é determinada pelo Sagrado Alcorão, e sim por seus interesses de classe.

A “linha-dura” dos islamitas está tão amedrontada com as massas revolucionárias quanto o próprio regime. A Irmandade Muçulmana declarou que não negociaria com o governo antes que Mubarak fosse demitido. Mas no momento em que o regime acenou com o seu dedo mindinho, eles mudaram de opinião. Um de seus líderes foi à Praça Tahir, onde os manifestantes se mantinham firmes e impedindo com seus corpos que os tanques ocupassem a Praça, para apelar que eles não entrassem em conflito com o exército.

Nossa atitude em relação à gente desse tipo surgiu há longo tempo atrás através de Lênin no 2º Congresso da Internacional Comunista:

“11) Com referência aos estados e nações mais atrasados, em que predominam relações feudais ou patriarcais, é particularmente importante ter em mente:

a) Que todos os partidos comunistas devem auxiliar o movimento de libertação nacional democrático-burguês nestes países, e que o dever de prestar o auxílio mais ativo descansa primeiramente com os trabalhadores do país do qual as nações atrasadas são dependentes em termos coloniais e financeiros;

b) A necessidade da luta contra o clero e outras influências reacionárias, bem como os elementos medievais nos países atrasados;

c) A necessidade de combater o Pan-islamismo e tendências similares, que se esforçam por combinar o movimento de libertação contra o imperialismo europeu e americano com a tentativa de fortalecer a posição dos Khans, latifundiários, mulás etc.” (Lênin, Esboço de teses sobre as questões nacional e colonial, cinco de junho de 1920. Ênfase nossa).

Esta é a verdadeira posição do marxismo em relação às tendências religiosas reacionárias. Esta é a posição que a CMI defende com firmeza.

A CMI proclama:

• Defendemos a unidade revolucionária do povo!
• Abaixo os negociantes de pogrom e mercadores rancorosos!
• Oposição a qualquer discriminação baseada na religião!
• Nenhum compromisso com as tendências reacionárias e obscurantistas!
• Todo homem e toda mulher devem ter o direito de professar qualquer crença religiosa ou nenhuma!
• Pela separação total entre religião e Estado!

14 de março de 2011.

Leia aqui a segunda parte deste manifesto.

Leia aqui a terceira parte deste manifesto.

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