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A Revolução Árabe não conhece fronteiras

Depois do povo tunisiano derrubar Ben Ali, os analistas “experts” nos diziam que a revolução não se espalharia até o Egito. Depois que isso aconteceu, estes “experts” não estavam mais certos sobre o que poderia acontecer na seqüência.

Já tivemos poderosos movimentos na Jordânia e no Iêmen, assim como grandes protestos na Argélia e em outros países. Agora é a vez da Líbia e do Bahrein, assim como o Iraque, enquanto o Iêmen está pegando fogo novamente.

Líbia em chamas

Relatos oficiais vindos da Líbia indicam que mais de 20 manifestantes anti-governo foram mortos na quinta-feira, 17 de fevereiro no “Dia da Fúria” anti-Khadafi. Protestos eclodiram em quatro cidades do país, à medida que a Líbia sente as repercussões das derrubadas dos ditadores nos vizinhos Egito e Tunísia. Milhares de pessoas estavam nas ruas de Benghazi. Isso indica que a Líbia, que até recentemente parecia haver escapado da onda revolucionária oriunda da Tunísia e Egito, agora está também sendo afetada.

Em uma tentativa de evitar os protestos, o governo líbio anunciou que iria dobrar os salários dos funcionários públicos. Também libertou um número considerável de militantes islâmicos da prisão. Táticas similares têm sido adotadas por diversos dos outros regimes despóticos da região. Para conter os protestos anti-Khadafi, o regime também mobilizou forças similares para o mesmo que vimos no Egito quando criminosos pró-Mubarak foram enviados à Praça Tahrir.

Pelo menos 4 manifestantes foram mortos pelas Forças de Segurança Internas em al-Beyda, mas outras fontes dizem que poderiam ser 11. Houve também protestos de massa em Benghazi, a segunda maior cidade da Líbia. Dois outros foram mortos em Zentana, e outro em Rijban. Em Zentana os manifestantes gritavam palavras-de-ordem anti-Khadafi e carregavam uma faixa onde se lia “Abaixo Khadafi! – Abaixo o regime!”. Vídeos disponíveis na internet mostram um prédio pegando fogo em al-Beyda e jovens líbios gritando: “O povo quer derrubar o regime”, a mesma palavra-de-ordem revolucionária das massas na Tunísia e no Egito.

Relatos de pessoas das ruas indicam que a situação foi mais longe que isso. Em al-Beyda por exemplo, parece que os manifestantes comprometeram a pista do aeroporto para impedir o regime de enviar mais forças mercenárias e ao mesmo tempo capturar prisioneiros que já foram libertados. Em Ajdabia a polícia parece ter ficado do lado dos manifestantes para lutar contra os mercenários do governo. O governo reagiu cortando a eletricidade e o acesso à internet foi bloqueado. A cidade está agora cercada pelos militares. Benghazi está também cercada por militares. Em algumas áreas também parece que a polícia e as forças de segurança estão mostrando simpatia pelos manifestantes. O número de manifestantes em Benghazi hoje é estimado como sendo em torno de 100 mil.

Khadafi está sob extrema pressão agora e está lutando como um animal selvagem enraivecido. Ele foi citado na BBC dizendo: “os fantoches dos EUA, os fantoches do sionismo estão caindo”. Ele ainda está afirmando ser um “revolucionário”, tentando reavivar a aura do anti-imprialismo que tinha no passado. No entanto, isso ignora o fato de que a Líbia fez um acordo com o imperialismo abandonando seu programa de arma nuclear, em troca de investimentos ocidentais.

No passado, a Líbia sofreu sanções das Nações Unidas, mas as sanções foram suspensas em Setembro de 2003. Em seguida os Estados Unidos começaram a retirar todas as suas sanções unilaterais no ano seguinte. E finalmente todas as sanções foram removidas em junho de 2006. Isso abriu a Líbia para grandes investimentos estrangeiros, especialmente no setor energético.

Parte da negociação envolveu um comprometimento da parte do governo líbio de começar a desmantelar a maior parte da velha economia controlada pelo Estado. O país também solicitou sua adesão à OMC, que envolveu a redução dos subsídios de alguns alimentos básicos e planos de privatização. Isto levou à abertura da economia para os caprichos do mercado mundial, aumentando assim a polarização social.

Esse processo, na verdade começou em 1993 e 1994 quando o governo Líbio anunciou medidas que permitiriam a liberalização do comércio por atacado e garantias legais para investimentos estrangeiros, assim como a convertibilidade do Dinar Líbio. O processo legal para a privatização foi bem abrangente, mas na prática durante os anos 90 o processo foi muito lento. Já em 2003, como parte do acordo fechado com as potências imperialistas, o processo se acelerou com a legislação sendo introduzida pelo governo Líbio que preparou a privatização de 360 empresas estatais.
De acordo com um relatório de Abril de 2009 publicado no The Telegraph, o Centro de Informações Nacionais da Líbia indicou que “os preços do terceiro trimestre de 2008 subiram 9,8% comparados com o terceiro trimestre de 2007” e que alimentos, bebidas e tabaco sofreram os maiores aumentos. O custo da habitação cresceu 6,1%, vestuário e calçados 4,9% no mesmo período, enquanto os dados oficiais do governo indicam que a inflação de 2007 foi de 6,3% e em 2008 12%. Mas mesmo estes dados escondem a realidade, pois produtos não subsidiados subiram em torno de 25% em 2008: “o preço dos produtos anteriormente subsidiados como açúcar, arroz e farinha subiram 85% nos dois anos desde que os subsídios foram retirados.”

Esta é a direção que a Líbia tomou nos últimos anos, e o resultado da privatização e cortes nos subsídios é que o país tem passado por um processo de crescimento da polarização social e desigualdade. Os números mais recentes disponíveis indicam que o desemprego está em 30%. As altas receitas da exportação de gás e petróleo, somada com o fato de que a Líbia tem uma população pequena significa que o país tem um dos maiores PIBs per capita da África. O problema é – tal como todos os outros países árabes – que essas receitas não são igualmente repartidas, e muito pouco chega às camadas mais baixas da sociedade.

As políticas que Khadafi adotou nos últimos 10 anos ou mais são políticas impostas pelo Banco Mundial, FMI, União Européia e Estados Unidos. Elas são as mesmas políticas que foram adotadas por Ben Ali na Tunísia e Mubarak no Egito. E agora elas estão produzindo a mesma conseqüência social e com isso vêm as conseqüências políticas com as massas começando a entrar em cena.

O Bahrein não pode escapar da onda de revoluções
Milhares de manifestantes, encorajados pelos sucessos das mobilizações de massa no Egito e Tunísia, estavam nas ruas de Bahrein nessa semana exigindo democracia e o fim da monarquia.

Inicialmente os protestos exigiam que a monarquia Sunita adotasse políticas mais liberais e também garantisse mais direitos para a maioria xiita da população. Mas como o movimento cresceu em força depois de ter começado na segunda-feira desta semana, as demandas dos manifestantes tornaram-se mais ousadas, exigindo empregos, melhores condições de habitação e liberdade para todos os presos políticos.

Na segunda-feira os confrontos com as forças de segurança provocaram duas mortes. Depois disso parecia que o governo havia aprendido pelo menos uma lição da experiência do Egito, ou seja, que medidas repressivas não funcionam contra as massas uma vez que elas se levantam decisivamente. Temendo uma escalada do movimento, o governo deteve a polícia na quarta-feira, quando dezenas de milhares de manifestantes marcharam na Praça Pérola.

Os manifestantes, no entanto, esperavam transformar a Praça Pérola em um equivalente no Bahrein da Praça Tahrir no Cairo e levantar um acampamento como uma área de concentração dos protestos. No entanto, neste ponto, temendo a repetição dos eventos no Egito, o governo novamente mudou sua tática e enviou mais de 50 carros blindados para limpar a praça e isso deixou pelo menos 3 pessoas mortas e 231 feridos enquanto mais 60 estão desaparecidos. O exército tomou os pontos-chave da capital Manam na quinta-feira depois de três dias de protestos.

Se o governo pensou em intensificar a repressão, deveria apenas prestar mais atenção nas cenas em que milhares dos que estavam nos funerais dos dois que foram mortos gritavam palavras-de-ordem como “abaixo o governo” exigindo juntamente que sejam responsabilizado pela matança e sejam punidos com a palavra-de-ordem “punição, punição para a gang criminosa”. Alguns foram além das demandas iniciais e estão até pedindo a remoção da família real.

O que agrava ainda mais a situação é o fato que enquanto a Família Real é formada por Muçulmanos Sunitas, a maioria da população é composta por xiitas, cujo estilo de vida é bem menos rico que o das elites Sunitas. No passado isso levou a confrontos entre as duas comunidades.

Formalmente falando, o Bahrein é uma “democracia”, com uma monarquia constitucional que foi estabelecida em 2001. Em 2002 um parlamento de 40 membros foi eleito na primeira eleição por 30 anos. No entanto, a monarquia mantém a suprema autoridade e os membros de sua família ocupam postos-chave no aparato político e militar. A família do califa tem, de fato, governado o país desde 1783, embora por anos tenha sido sob o status de protetorado britânico.

Segundo o Banco Mundial, o PIB per capita foi estimado em US$ 40.400 em 2010, muito maior que a maioria dos países da região. O país é um centro para bancos e centros de serviços financeiros e tem o que é considerado ser uma “economia relativamente próspera”. Tem as estruturas para uma economia avançada e apenas 0,5% do seu PIB vem da agricultura, enquanto a indústria provê 56,6% e serviços 42,9%. E de acordo com a BBC, “o país tem desfrutado de crescente liberdade de expressão e observadores dizem que a situação dos direitos humanos melhorou.”

Pode-se imaginar que o Bahrein seria um dos últimos países árabes a ser afetado pela propagação da onde de revolução. Mas aqui está o outro lado da moeda. Por exemplo, a taxa de desemprego oficial para a juventude é de 19,6%. Se consideramos que a idade média da população é de 30,4 anos, e 56% estão abaixo da idade de 25 anos, podemos ver como o problema de desemprego na juventude é um problema chave. A taxa de desemprego entre os jovens do Bahrein entre 15 e 24 anos é: homens: 55,9%, mulheres: 51,2% e o total geral é de 54,1%.

Embora este seja o caso para a maioria dos jovens, o país é tratado como um parque de diversões para os governantes dos países vizinhos como a Arábia Saudita, que enquanto impõe severas leis islâmicas a seu próprio povo, não têm escrúpulos para desfrutar do entretenimento ao estilo mais ocidental disponível no Bahrein.

As contradições sociais, no que é formalmente um país rico, estão nas raízes dos presentes protestos. Mas não é meramente uma questão de problemas econômicos e sociais. É também um dos povos que têm sofrido sobre um governo autoritário, embora com uma monarquia “constitucional”, que anseia por liberdade. Os eventos no Egito têm mostrado ao povo do Bahrein que mesmo a ditadura mais opressiva pode ser derrubada.

E agora, como no Egito, os governos ocidentais de repente descobriram a necessidade de “moderação” e pedem ao governo do Bahrein que “escute” as reclamações dos manifestantes. Obama está cantando esta música assim como Cameron na Inglaterra. Eles devem estar muito preocupados. Bahrein abriga a Quinta Frota Naval dos EUA e está bem ao lado da Arábia Saudita, outro aliado chave dos Estados Unidos na região.

A cheiro de hipocrisia dos governos ocidentais pode ser sentido de longe. Por anos eles tem negociado com os governantes do Bahrein. O Reino Unido fornece-lhes armas, incluindo o gás lacrimogêneo que está sendo usado nos manifestantes hoje. Agora eles terão que enfrentar as conseqüências na forma de revolta dos trabalhadores do Bahrein.

O Iêmen incendeia novamente

O Iêmen ficou de molho por algumas semanas. Em 3 de fevereiro, mais de 20.000 pessoas protestaram nas ruas de Sanaa, pedindo a saída do Presidente Ali Abdullah Salen. O presidente tinha acabado de anunciar que ele não concorreria à reeleição em 2013. Ao fazer este pronunciamento ele esperava apaziguar as massas. E similarmente aos outros déspotas árabes que foram derrubados, ele anunciou aumento de salários e cortes de impostos e outras concessões econômicas.

Nós explicamos então que, “Claramente são todas manobras para tentar evitar crescimento do movimento de protestos a exemplo da Tunísia e do Egito. Mas os manifestantes mostraram que isso não era suficiente.” As últimas notícias do Iêmen confirman o que escrevemos. Ontem mais de mil manifestantes entraram em confronto com os elementos pró-governo no que foi o sétimo dia seguido de protestos.

Em cenas que relembram o que vimos na Praça Tahrir em 2 de fevereiro, criminosos pró-governo armados com facas e bastões lutaram com os manifestantes anti-governo. A polícia disparou tiros de advertência para o ar, mas depois se retirou das ruas permitindo que os criminosos atacassem os manifestantes anti-governo. Como resultado dezenas foram feridos e um manifestante foi morto em Aden na quarta-feira.

Sanaa, a capital, também tem sua Praça Tahrir e o governo organizou seus elementos criminosos para ocupar a praça e impedir que ela seja usada como um ponto de encontro para os manifestantes anti-governo. Mas em Taiz, sul de Sanaa, os manifestantes anti-governo ocuparam a praça principal alguns dias atrás. Os participantes têm aumentado com vários milhares aderindo à ação.

Aparentemente, Segundo a rede de TV Al Arabiya, “Recentes protestos tem sido menores do que nas semanas anteriores, quando dezenas de milhares de manifestantes tomaram as ruas. Mas elas estão eclodindo mais espontaneamente e violentamente, e tem se tornado mais estridentes pedindo pela resignação de Saleh.”

Encorajados pelos eventos no Egito as massas do Iêmen estão mantendo a pressão e nenhuma das manobras do regime irá acalmar a situação. Na verdade as ações do Presidente estão servindo meramente para enfurecer ainda mais a juventude. No entanto, pode levar tempo, mas é claro que o Presidente terá que sair em certo ponto.

Enquanto isso no Egito e no Iraque

Enquanto isso no Egito nós temos hoje a “marcha da grande vitória” pela Praça Tahrir no Cairo para comemorar uma semana da derrubada de Mubarak. Alguns relatos dizem que o número de manifestantes é o maior de todos. Isto é apenas uma celebração, há um forte sentimento que a revolução atingiu apenas um de seus alvos, mas há ainda muito o que fazer. A coalizão dos grupos de jovens que desempenhou um papel chave no movimento revolucionário anunciou uma lista de exigências incluindo a demissão do Conselho de Ministros, a convocação de uma Assembléia Constituinte, entre outros.

Assim como já dizíamos no artigo “O exército egípcio manobra para tentar deter os protestos dos trabalhadores”, a elite egípcia está lutando para tomar de volta o controle da situação com todos os tipos de manobras. Mas as massas estão alertas e sua revolução apenas começou. A queda de Mubarak foi apenas o primeiro ato desta grande revolução. Em alguns bairros no Cairo e em outras cidades e centros industriais, temos visto a criação de Comitês para a Defesa da Revolução. Agora um novo período abre-se com a tentativa dos trabalhadores e jovens do Egito de impor suas reivindicações ao novo regime.

Enquanto as massas do Egito seguem em frente, elas serão incentivadas pelo o que está acontecendo em torno delas nos outros países árabes. Até o Iraque está agora sendo afetado com protestos de massa que eclodiram pelo país, particularmente nas áreas curdas do país onde violentos protestos irromperam com a raiva dos jovens alcançando o ponto de ebulição. Há relatos de que 10 pessoas foram mortas pela KDP e forças policiais durante os protestos em Sulaymaniya. Violentos protestos aconteceram em vários locais no Iraque, com os manifestantes anti-governo realizando marchas contra a corrupção, má qualidade dos serviços básicos e alta taxa de desemprego. Em Basra, a segunda maior cidade no sul, em torno de mil pessoas marcharam hoje, exigindo empregos e melhores pensões (publicaremos um artigo específico sobre os eventos no Iraque).

Se algum dos analistas burgueses pensou que o pior tinha passado com o fim de Mubarak eles entrarão em choque no próximo período. Suas idéias eram de que removendo Mubarak, eles começariam um processo de tomada do controle das coisas. Ao invés disso o que nós temos é a revolução se espalhando de país para país. Como explicamos em artigos anteriores, condições similares levam a resultados similares.

Em todo o mundo árabe nos últimos trinta anos ou mais os imperialistas impuseram suas políticas visando o desmantelamento da maior parte do velho setor nacionalizado da economia, junto com cortes nos subsídios de produtos básicos. Por décadas tudo parecia estar indo de acordo com os planos, com crescimento dos investimentos estrangeiros e grandes lucros sendo feitos. Mas tudo isso estava corroendo as fundações em que a velha estabilidade se mantinha. Ao destruir grande parte das velhas medidas do bem-estar social, as condições das massas gradualmente pioraram nos últimos anos, a quantidade chegou a um ponto onde a mudança qualitativa foi alcançada na forma de revolução. E nós estamos apenas no primeiríssimo estágio. Grandes eventos estão a caminho.

Londres, 18 de Fevereiro de 2011.

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