A Revolta da Chibata

A Revolta da Chibata foi mais um dos muitos episódios que as classes dominantes fizeram questão de tentar apagar da história das revoltas e revoluções populares. 

 

A Revolta da Chibata, que teve como principal líder João Cândido, foi mais um dos muitos episódios que as classes dominantes fizeram questão de tentar apagar da história das revoltas e revoluções populares. Este artigo busca resgatar um pouco desse magnifico exemplo de luta contra o racismo, contra o legado da escravidão e contra as opressões de classe, pois, para nós, militantes marxistas, o passado tem muito a nos ensinar. A revolta da Chibata é um dos mais importantes exemplos de luta do movimento negro, que deve sempre ser lembrado e servir como inspiração para todos que acreditam na luta revolucionária contra o racismo, pela liberdade e pela igualdade de direitos.

Os motivos da Revolta

A Revolta da Chibata foi uma insurreição popular que ocorreu entre 22 e 27 de Novembro de 1910. Suas principais reinvindicações eram: o fim das punições corporais (chibatadas e torturas), contra os baixos salários, e contra as péssimas condições de trabalho e alimentação que recebiam os marinheiros, em sua imensa maioria negros e de origem muito pobre. Cansados de tamanhos maus tratos, os marinheiros se insurgiram contra os oficiais da Marinha Brasileira e apresentaram o conjunto de suas reinvindicações ao presidente, recém-empossado, Marechal Hermes da Fonseca.

O estopim da revolta foi a punição de 250 chibatadas (uma pena absurda) contra o marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes. O motivo da pena tão severa foi o fato do marinheiro ter agredido um dos cabos que o havia delatado por ter levado bebida alcoólica para dentro do navio (duas garrafas de cachaça). A pena foi executada na frente de toda a tropa, como era de costume, como forma de “ensinar” os outros marinheiros a não desrespeitar as regras que os oficiais impunham. A verdade é que as chicotadas nem eram a pior das punições. Havia torturas muito mais severas, algumas delas disfarçadas de exercícios militares e tarefas cotidianas exaustivas.

O fato era que a maioria dos marinheiros (cerca de 80%) eram negros e de origem muito pobre, e o alistamento (muitas vezes forçado) era uma das poucas alternativas para os filhos de negros escravizados sobreviverem na recém-criada república. Isso porque a abolição da escravatura havia sido proclamada (1888), porém, as condições para que os negros pudessem ter um emprego e se sustentassem havia sido negadas, propositalmente, para que eles ainda estivessem obrigados a se sujeitarem a seus antigos senhores.

Nesse sentido, mesmo com a conquista da abolição, fruto da luta de muitos negros (e também não negros) contra a escravidão e contra o racismo, ainda havia muita luta para que os negros alcançassem a igualdade de direitos e colocassem fim ao legado perverso dos mais de três séculos de escravidão racista.

Obviamente que esse cenário de racismo era reproduzido dentro da Marinha. Enquanto que a maioria dos marinheiros eram negros e pobres, os oficiais eram brancos e pertencentes das famílias mais abastadas da sociedade. Esse antagonismo de classe se materializava nas tarefas realizadas por cada um desses grupos, na qualidade da comida que cada um recebia, nos salários e em todas as esferas da vida militar.

Dessa forma, as chibatas não eram apenas uma dor física, mas, tinham a intenção de marcar a alma dos marinheiros negros e buscavam manter uma distinção de classe. A simbologia de negros sendo chicoteados ainda era muito forte na memoria desses homens, e causavam uma indignação muito grande, haja visto que a abolição já havia sido conquistada, uma república instaurada, mas a vida dos negros ainda era repleta de opressão, exploração e sofrimento.

A organização da revolta

João Cândido Felisberto foi um dos principais dirigentes dessa revolta. O marinheiro negro nasceu no Rio Grande do Sul e sua família trabalhava para um importante militar da marinha. Essa relação garantiu que João fosse, muito jovem, atuar como aprendiz de marinheiro. Com seu empenho e grande capacidade, o marujo ganhou reconhecimento dentro de seus postos, tendo a oportunidade de viajar muitos países da Europa embarcado. Essas viagens fizeram João conhecer muitas culturas e povos, o que foi fundamental para ele perceber que a condição dos marinheiros do Brasil era uma das piores do mundo.

Uma das viagens mais importantes para sua construção enquanto militante dos direitos dos marinheiros foi sua viagem para a Inglaterra. O objetivo era aprender a manusear os navios de guerra que a Marinha Brasileira havia comprado da indústria inglesa. Durante essa viagem João Cândido teve contato com os militantes sindicalistas ingleses, que já estavam em um nível de organização muito maior que os brasileiros.

Uma das historias mais latentes nessa época foi a revolta do ouraçado Potemkin, que ocorreu durante a revolução Russa de 1905 contra o Czar. Nessa revolta os marinheiros russos se organizavam contra os maus tratos e as péssimas condições dentro do navio e apontaram os canhões contra a cidade, para que suas reivindicações fossem atendidas.

Durante esses anos, João Candido não apenas aprendeu com maestria as técnicas de manuseio do Navio Minas Gerais, como também as táticas de organização sindical e se tornou, cada vez mais, um dirigente respeitado entre seus companheiros de navegação. Entretanto, João Candido nunca se tornou um revolucionário socialista e isso vai ter implicações no que se seguiu.

O nível dessa organização era muito grande e começou anos antes da revolta. Os marinheiros se organizavam em grupos que recebiam o nome de Comitês Revolucionários e que tinham dirigentes em cada navio e repartição.

Em entrevista ao Museu da Imagem e do Som -1968,  João Candido explica ao repórter  porque organizou essa luta.

– Mas  essa ideia de congregar marinheiros nestes comitês nasceu de onde e por quê ?

– Dos próprios marinheiros. Para combater os maus tratos e a má alimentação da Marinha. E acabar definitivamente com a chibata da Marinha. O causo era isto.

Nós que vínhamos da Europa, em contato com outras marinhas, não podíamos mais admitir que na Marinha do Brasil, ainda um homem tirasse a camisa para ser chibatado por outro homem.

Percebemos que essa revolta não foi apenas fruto da insatisfação dos negros com o racismo e a opressão, mas, fruto de muita organização e aprendizados com outras experiências de luta. E tinha como importante elemento a pauta revolucionária, ainda que os marinheiros não fossem, necessariamente, socialistas. Mas, era evidente a necessidade de se organizar e enfrentar a opressão e exploração às quais estavam submetidos. Apesar de todas as suas ilusões nas forças armadas.

A revolta contra a chibata

João Candido, junto com outros marinheiros, após a organização dos comitês revolucionários já havia decidido a insurreição para novembro de 1910. Porém, com a punição de Marcelino, a revolta foi antecipada para o dia 22 de Novembro.

Neste dia, vários oficiais foram presos no navio, e durante o confronto alguns marinheiros e oficiais acabaram morrendo. Após esse conflito uma carta foi dirigida ao presidente da republica, com as exigências da revolta. A carta começa pedindo o fim da escravidão dentro da Marinha e termina com uma ameaça, caso as reinvindicações não fossem cumpridas. Segue a carta na íntegra:

Foto: Carta dos Marinheiros. Acervo da Marinha. Disponível em: http://www.tve.com.br/wp-content/uploads/2015/12/carta.jpg

As lideranças da revolta já tinham mais de 40 canhões, dos navios mais modernos da época, apontados para a cidade do Rio de Janeiro, que era capital da república, na ocasião. O número de marinheiros envolvidos no “motim” era cerca de 2400, o que tornava a revolta uma das maiores da época e um dos episódios da luta do movimento negro mais representativos do mundo inteiro. Todos os jornais noticiavam o fato, obviamente contra os revoltosos.

Os navios chegaram a disparar contra a capital, o que causou um terror imenso entre a população e políticos. Algumas pessoas fugiram para bairros mais do interior com medo de que os revoltosos realmente destruíssem a cidade. Em um acordo com os marinheiros o presidente prometeu cumprir as exigências e anistiar os marinheiros envolvidos, porém, essa promessa não foi cumprida.

Na realidade, grande parte dos marinheiros foi expulsa da Marinha, alguns mortos e torturados. O próprio João Cândido foi preso algum tempo depois na Prisão da Ilha das Cobras, juntos com outros marinheiros.

As condições na prisão eram desumanas, e os relatos apontam que a Marinha tentou assassinar esses presos. A prisão foi lavada com produto químico toxico (ao que indica, cal) e 16 presos morreram por asfixia durante aquela noite. Apenas dois sobreviveram, um deles era João Candido.

Algum tempo depois ele foi solto. Porém, um homem negro, desempregado, sem qualquer dinheiro e apenas com as roupas do corpo não era visto com bons olhos na naquela época (e ainda não é). Em virtude disso, ele foi levado para uma clínica psiquiátrica e detido dois anos como doente mental. Alguns historiadores sugerem que esta foi mais uma ação planejada para deslegitimar sua luta com a alegação de que ele havia enlouquecido e para que abafasse a revolta, que havia tomado uma repercussão muito grande na impressa.

Na pratica, João Candido sofreu perseguição durante o resto de sua vida, sempre sendo demitido sem motivos aparente em vários empregos e, por fim, viveu uma vida humilde, como trabalhador de pesca na região do porto. Morreu sem qualquer reconhecimento da Marinha, sem anistia e sua família sem qualquer apoio ou pensão. Como nunca tinha sido um socialista ou um militante operário, João não procurou se ligar no movimento operário que renasceu no final da I Guerra Mundial (greves gerais de 1918 e 1919, no Rio e em São Paulo). Esta triste situação levou a que João Candido se ligasse aos movimentos fascistas na década de 30.

Mesmo décadas depois o militares ainda temiam o poder dessa história e uma música feita em homenagem ao “almirante negro” foi censurada pela ditadura. A autoria era de João Bosco e Aldir Blanc, O mestre sala dos mares.

Somente em 2008, no governo Lula, sua anistia foi concedida e uma estátua sua foi inaugurada na região do porto. Contudo, nada que expressasse o mínimo da grandeza de sua luta e de seus companheiros. A anistia foi concedida, mas a reparação financeira (pagamento dos soldos atrasados a sua família) foi vetada e os familiares receberam o reconhecimento, mas não o dinheiro.

A luta contra o racismo continua

A revolta da Chibata é apenas uma das muitas lutas que a classe trabalhadora travou e ainda trava, todos os dias, contra o racismo e a exploração capitalista.

Se esses episódios são esquecidos de nossa história não é sem querer. O objetivo é apagar qualquer luta que exponha a crueldade que é o racismo e o capitalismo na vida das parcelas mais oprimidas dessa sociedade.

As classes dominantes se esforçam para esconder nossa história de resistência e luta porque sabem que essa é a melhor forma de nos subjugar. É muito importante que nós, militantes do movimento negro, possamos manter sempre viva a memoria das lutas que confrontaram a escravidão e a servidão. E resgatar os lutadores e lutadoras que decidiram enfrentar aqueles que querem ser nossos senhores, nos oprimir e explorar.

Hoje não recebemos mais chibatadas, graças a valorosos guerreiros que deram seu sangue pela abolição da escravatura e pela igualdade de direitos. Mas, ainda sofremos com o racismo, ainda somos mortos, perseguidos e humilhados em virtude de nossa cor e nossa classe. Isso nos obriga a ainda lutar.

É preciso olhar para o passado e nos inspirar em guerreiros como João Cândido e os marinheiros da Revolta da Chibata e manter acesa a chama revolucionária. Com essa chama e com organização é possível vencermos aqueles que querem nos arrancar a liberdade, que querem nos humilhar, oprimir e explorar.

A luta contra o racismo é também a luta contra o sistema que o criou: o capitalismo. Portanto, devemos lutar contra o racismo e o capitalismo, pois são duas faces da mesma moeda. Além disso, precisamos manter a unidade de toda a classe trabalhadora contra os ataques que temos sofrido, pois, nossa força está em nossa organização e em nossa unidade.

Viva João Cândido e a revolta contra a Chibata!

Pelo fim do assassinato da juventude negra! Nenhum jovem merece morrer!

Liberdade, emprego e educação para a juventude!

Vagas para todos nas universidades! Nenhum negro fora da escola ou da universidade! Nenhum negro sem acesso à saúde, transporte, cultura e lazer!

Paz entre nós e guerra aos senhores!

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