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A repressão policial não irá deter a autodeterminação e a valentia do povo catalão

Nota da redação: O artigo que aqui publicamos foi escrito no calor dos enfrentamentos que ocorreram ontem na Catalunha, pelos camaradas da seção espanhola da Corrente Marxista Internacional, Lucha de Clases. Em breve, publicaremos mais artigos sobre o resultado do referendo ocorrido neste domingo.

Mobilização em todo o Estado contra a repressão e a direita franquista!

Fortalecer e aumentar os comitês populares em toda a Catalunha!

Todos para a greve geral do dia 3 de outubro na Catalunha!

Por um governo dos trabalhadores e popular que proclame uma república socialista na Catalunha, como uma antessala da revolução ibérica!

O povo Catalão está escrevendo hoje uma página heroica, determinado a decidir seu destino apesar da brutal repressão organizada pelo Estado por ordem do governo franquista de Rajoy, que tem lançado seus cachorros loucos contra pessoas comuns desprotegidas, que apenas portam em suas mãos um papel impresso em suas casas para ir votar. Anciões indefesos foram golpeados até que sangrassem. Os feridos se contam em centenas, alguns deles em estado grave, mas a população segue resistindo valentemente em centenas de colégios eleitorais em toda a Catalunha, onde há filas quilométricas e centenas de milhares puderam votar.

Dezenas de milhares pessoas estavam já a postos desde as 6 horas da manhã nas portas dos centros de votação de toda a comunidade – junto a milhares que haviam feito guarda em seu interior durante a noite toda – para defender as instalações do assalto policial e exercer seu direito de votar.

A resistência popular teve êxito em impedir, salvo algumas exceções, o fechamento dos centros de votação por parte da polícia autônoma, los mosso d’esquadra (polícia da autônoma da Catalunha), que já havia anunciado que não recorreria para a repressão para desalojar os centros de votação; pelo que o Estado decidiu a partir das 9 horas da manhã enviar as forças policiais dependentes do Estado, polícia e guarda civil, a maior parte trazidas de fora da Catalunha nas semanas anteriores.

Impossibilitadas de cobrir toda a geografia catalã, as forças policiais concentraram a maior parte da repressão em todos os pontos mais visíveis, em particular nas 4 capitais catalãs, e em outras localizações mais importantes, como Sabadell. E também nos colégios onde iriam votar os principais representantes da Generalitat, como o presidente Puigdemont e o vice-presidente Junqueras, que finalmente o puderam fazer em outros colégios eleitorais. A polícia não somente recorreu à covarde repressão com cassetetes, mas também utilizou bolas e balas de borracha, que são proibidas na Catalunha.

Em alguns casos, a população conseguiu repelir a ação repressiva e conseguiu manter os centros de votação abertos, tanto em colégios em Sabadell como em Barcelona. Em pontos de Barcelona e Tarragona, foram formadas barricadas para impedir a penetração policial. Em inúmeros vilarejos e cidades do interior, os tratores dos camponeses bloquearam a entrada dos colégios eleitorais para dificultar a entrada da polícia. Em vários centros de votação de Barcelona, os bombeiros formaram um cordão de isolamento entre as pessoas e a polícia, a fim de proteger o primeiro.

A raiva e a indignação pela repressão se instalaram em todas as partes. As pessoas responderam à repressão em alguns lugares lançando pedras e objetos que encontravam pela rua. Os gritos de “Não passarão” e “As ruas serão sempre nossas”, assim como o canto de Els Segadors (hino oficial da Catalunha), foram ouvidos em todas as concentrações.

A jornada não terminou. As pessoas continuam indo em massa votar nos colégios eleitorais que continuam abertos, enquanto a repressão policial continua. A consigna lançada é que as pessoas não abandonem os colégios depois de votarem, mas sim que permaneçam para impedir o assalto policial e assegurar a contagem dos votos.

Para resolver a retirada das urnas e os fechamentos dos colégios eleitorais, por parte da polícia, a Generalitat habilitou um censo eletrônico para que qualquer pessoa possa votar em qualquer um dos centros de votação que permaneçam abertos, apesar do boicote nas telecomunicações dos técnicos da Guarda Civil que tratam de impedir a transmissão telemática dos dados.

Em alguns casos, os dados de votação são tomados a mão e inclusive houveram votos na rua por conta do fechamento de alguns centros de votação por parte da polícia. A determinação do povo é votar e fazer com que seja ouvido a qualquer preço.

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Não cabe nenhuma dúvida que sem a violência policial explícita milhões de catalães haveriam podido hoje votar e expressar sua opinião sobre a independência, que agora é maioritária, mas a covarde repressão do Estado não impedirá o povo catalão de decidir seu destino.

Enquanto milhares de policiais fortemente equipados pegavam e maltratavam vizinhos pacíficos, dezenas de fascistas acampavam livremente por algumas zonas do centro de Barcelona com proteção policial, ostentando sua impunidade. Houveram algumas agressões fascistas em Cornellà, Gavà e Girona a pessoas isoladas que se dispunham a votar.

Como era de se esperar, o PP e seu cachorrinho de colo o Ciudadanos apoiaram sem reservas a repressão, e o PSOE manteve uma posição vergonhosa culpando por igual ambas as partes, a Generalitat e o Governo de Rajoy. Inúmeros prefeitos socialistas, contrários à votação, foram repreendidos por vizinhos irritados.

Ada Colau, que aguardou duas horas de fila para votar em seu colégio, chamou o Rajoy de “covarde”.

O ataque contra o povo catalão é um ataque contra a classe trabalhadora e as forças do progresso de todo o Estado. Se deixamos esta repressão impune, a arrogância do aparato do Estado franquista se multiplicará em todas as partes em defesa de seus privilégios, de suas corrupções e dos negócios da oligarquia espanhola do IBEX35 e das 100 grandes empresas do país, que são as inspiradoras da política repressiva contra o povo catalão.

A repressão contra o povo catalão mostra a verdadeira cara do regime de 1978 caduco e podre, desenhado e sustentado nos interesses das 200 famílias oligárquicas que dominam o Estado espanhol e que têm como estandarte a corrupta monarquia borbônica. Essa gente tampouco duvidará em lançar seus cachorros contra a classe trabalhadora espanhola para defender seus privilégios. Agora mais do que nunca se demonstra o caráter reacionário do nacionalismo espanholista que apenas é uma cobertura conveniente para a defesa e a sustentação dos mesmos que organizaram o golpe fascista de 1936, dos que mantiveram a ditadura franquista e a repressão dos anos da “transição”, e dos grandes empresários e banqueiros que lucraram todos esses anos com a crise capitalista, condenando as camadas cada vez mais amplas das famílias trabalhadoras a um futuro de precarização e incerteza.

Já foram convocadas dezenas de concentrações e protestos em todo o Estado para a última hora desta tarde. Em Euskadi, algumas destas concentrações já tiveram lugar ao meio dia. Os dirigentes de Unidos Podemos que condenaram a repressão na Catalunha devem chamar a participação nessas concentrações, fazendo uma chamada geral a uma participação massiva, e preparar novas respostas e mobilizações nos dias seguintes.

No dia 3 de outubro tem uma greve geral convocada contra a repressão do Estado espanhol na Catalunha, convocada pela Confederação Geral do Trabalho (CGT) e sindicatos minoritários. Sem dúvida, os acontecimentos de hoje haverão inflamado ainda mais a indignação e a raiva que estamos vendo nas ruas, União Geral dos Trabalhadores (UGT) e Conferação Sindical de Comissões de Trabalhadores (CCOO), as centrais sindicais majoritárias na Catalunha, não podem continuar “bancando o avestruz”. Devem somar as greves e assegurar a máxima participação.

Nas últimas semanas, a Catalunha se cobriu de uma rede de Comitês de Defesa do Referendo, que foi vital para assegurar a exemplar organização e participação na jornada de hoje em muitas partes da comunidade e em Barcelona em particular.

Os trabalhos desses comitês ainda não terminaram. Podemos dizer, inclusive, que agora começa sua verdadeira tarefa. Esses comitês devem ser fortalecidos e estendidos em cada canto da Catalunha, em cada bairro e vilarejo e coordenar-se entre si. Sua função deve ser, em primeiro lugar e de maneira imediata, assegurar a votação nas horas finais de hoje, assim como a contagem dos votos; em segundo lugar, preparar a greve geral do dia 3 de outubro para que alcance todos os lugares. Deve visitar cada fábrica e empresa, realizar assembleias em todos os centros de trabalho, debater a situação e votar a greve, formar também comitês em cada empresa, escritório e escola para organizá-la em cada centro de trabalho. Como última tarefa, os comitês deveriam convocar uma assembleia nacional de representantes dos comitês de toda a Catalunha para o dia 4 de outubro para que seja feito um balanço da mobilização popular, do resultado do referendo e decidir os próximos passos a seguir. A tarefa deve ser garantir que os comitês se convertam na mais exata e completa representação popular da Catalunha, começando pela classe trabalhadora, que é a maioria esmagadora da do povo.

Os comitês devem vincular a realização da república catalã com um programa de transformação social que assegure empregos e salários decentes para todos; pensões, educação e saúde dignas, habitação e direitos sociais que atualmente são incompatíveis com o domínio da sociedade pelos grandes empresários e banqueiros, espanhóis e catalães, que juntos compõem a oligarquia do Estado espanhol opressor.

A Generalitat foi amputada em suas funções e atribuições pela liquidação de fato das mesmas pelo governo central.

Os comitês populares, que escapam do domínio da Constituição e do regime de 1978, devem aspirar a agrupar e conseguir o apoio da população catalã, começando pela classe trabalhadora. Isso permitirá formar um verdadeiro governo do povo que está capacitado para proclamar a república catalã, e dotá-la de um caráter socialista, que assuma o controle das grandes empresas e bancos, instaure o controle operário das mesmas, e planifique os recursos para dar satisfação às necessidades sociais. Ao mesmo tempo, esse governo popular da Catalunha deveria lançar um chamado de solidariedade para a classe trabalhadora do resto do Estado para que se mobilize ativamente para impedir qualquer ameaça e repressão que a direita franquista espanhola prepare contra o povo catalão e que se una contra o regime de 1978 e inicie assim o processo da revolução socialista ibérica.

Artigo publicado em 1 de outubro de 2017, no site da seção espanhola da Corrente Marxista Internacional (CMI), sob o título “La represión policial no detendrá la autodeterminación y valentía del pueblo catalán”.

Tradução: Gustavo Benassi.

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