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A Questão Nacional [na Europa]

“A IV Internacional caracterizou nossa época como uma época de guerras e revoluções. A ascensão e as vitórias do fascismo não foram uma expressão de um novo período de florescimento para o moribundo sistema capitalista, mas um reflexo do impasse em que a sociedade europeia se viu mergulhada pelas contradições insolúveis geradas pelo próprio sistema”.

Problemas colocados pelas vitórias de Hitler

As napoleônicas vitórias de Hitler na Europa colocaram de forma nítida a necessidade de um reexame das perspectivas e tarefas da revolução europeia. Este exame somente pode ser realizado com base no método científico e analítico do Bolchevismo. A IV Internacional caracterizou nossa época como uma época de guerras e revoluções. A ascensão e as vitórias do fascismo não foram uma expressão de um novo período de florescimento para o moribundo sistema capitalista, mas um reflexo do impasse em que a sociedade europeia se viu mergulhada pelas contradições insolúveis geradas pelo próprio sistema.

O impasse em que o proletariado se encontra foi causado, não pelas condições objetivas, mas pelo fracasso das velhas organizações dos trabalhadores em derrubar o capitalismo e resolver os problemas da sociedade através da tomada do poder. Isto levou a terríveis derrotas e ao esmagamento do movimento dos trabalhadores em toda a Europa. A completa prostração e capitulação do estalinismo e do reformismo aos imperialistas democráticos também exerceu sua pressão sobre a vanguarda. Desorientados por estes acontecimentos alguns camaradas emigrados sucumbiram à pressão das forças da burguesia democrática e exigiram que a luta de classes na Europa se subordinasse à unidade da “libertação nacional”:

“Tudo será nivelado ao desejo de derrubar este inimigo e, de fato, deve-se reconhecer que, sem isto, não pode haver questão de mudança nas condições existentes”.

Isto é diametralmente oposto às concepções básicas desenvolvidas pelo Trotskismo [2]. O colapso de todos os estados nacionais no front das forças invasoras do imperialismo alemão foi um reflexo do fato de que o estado nacional se esgotou. É verdade que Hitler reduziu toda a Europa à escravidão nacional e social, mas precisamente por esta razão a luta de classes foi colocada de forma aguda.

Para os marxistas, a revolução democrático-burguesa e a questão nacional já foram resolvidas há muito na Europa. Foi durante a ascensão da burguesia, quando esta ainda desempenhava uma missão histórica progressista, que a questão da revolução democrático-burguesa e da libertação nacional foi historicamente colocada na Europa. Mesmo assim, na Alemanha de 1848, quando confrontada ao desafio ameaçador do jovem, mas vigoroso, proletariado, longe de realizar uma revolução, a burguesia se entregou nos braços dos Junkers reacionários e da Monarquia, para se proteger do proletariado. O ato da burguesia francesa de se render a Hitler em 1940 foi ditado por considerações similares. Isto coloca o problema sob o ângulo da luta de classes de forma clara.

A teoria da Revolução Permanente está baseada na ideia de que na época moderna a burguesia dos países atrasados – para não citar os países industrializados ou semi-industrializados – é incapaz de levar a bom termo a luta pela libertação nacional contra o imperialismo. Na Índia e na China, e em outros países do Oriente, devido à ligação entre a burguesia nacional, o imperialismo e os interesses feudais e eclesiásticos, a burguesia colonial é incapaz de travar a luta contra o imperialismo e de realizar a revolução democrático-burguesa. A pequena burguesia, incapaz de desempenhar um papel independente, ou se alista no campo do proletariado ou segue a trilha da burguesia. Assim, o papel de liderança na revolução democrático-burguesa deve ser desempenhado pelo proletariado. Mas o proletariado, enquanto se coloca à cabeça de toda a nação, deve inevitavelmente lutar para obter o poder do estado. Subordinar-se à burguesia ou à pequena burguesia – neste último caso, o levaria inevitavelmente a se subordinar à burguesia – significaria um desastre para o proletariado, a derrota da luta pela emancipação nacional e ao colapso de qualquer possibilidade da democracia burguesa se estabelecer. A experiência do Kuomintang e do Congresso na Índia demonstraram isto de forma irrefutável.

Na Europa tivemos também esta experiência durante as revoluções espanhola e russa, onde a atrasada burguesia mostrou sua incapacidade de resolver os problemas da revolução democrático-burguesa. Estas lições mostraram mais de uma vez que a burguesia é incapaz seja onde for de realizar sua tarefa.

Assumindo a possibilidade teórica de uma conquista completa da China pelo Japão, Trotsky demonstrou teoricamente que o resultado seria a burguesia chinesa assumindo um papel ainda mais covarde que no passado – tal fato levaria a uma colaboração completa entre a burguesia da China e os conquistadores japoneses. A burguesia ficaria ainda mais divorciada e oposta à luta pela libertação nacional. Assim, isto acentuaria o papel de liderança que o proletariado teria de desempenhar na luta de libertação nacional. O primeiro movimento do proletariado seria dirigido não somente contra o conquistador externo, mas contra sua própria burguesia, que resistiria e lutaria contra qualquer movimento das massas que ela reconhecesse como um perigo mortal para si mesma. O proletariado reuniria por trás dele todas as forças da nação em sua luta pela emancipação. A hegemonia do proletariado na revolução se tornaria imediatamente evidente.

Esta excursão ao Oriente leva diretamente ao coração do problema que enfrentamos no Ocidente. Que revolução se aproxima? A revolução democrático-burguesa pela “libertação nacional” ou uma revolução proletária? Nossa resposta ou seu equivalente a esta questão deve ser definitiva e clara: a revolução democrático-burguesa é uma etapa já ultrapassada na Europa; a revolução europeia que se aproxima é uma revolução proletária.

A burguesia, particularmente seus setores dominantes da Europa, colaborou com a vitória fascista. Os sentimentos do proletariado e da pequena burguesia estão imbuídos inevitavelmente de ódio aos trustes, às combinações e a todos os que colaboraram com os nazistas. A luta das massas em toda a Europa para se libertar da opressão nacional teve que assumir um aspecto de classe; seu ódio estava dirigido não somente contra os opressores externos, mas também contra a classe dominante de seus próprios países que realizou a boa obra de agir como agente do conquistador externo.

É verdade que os estalinistas e os socialdemocratas tentaram emascular o movimento empurrando-o para atalhos nacionalistas e chauvinistas. Mas, como aconteceu com a Frente Popular na Espanha, a “unidade” da nação era uma unidade não com a burguesia nacional, mas com sua sombra. A burguesia propriamente dita se encontrava no campo do inimigo. A tarefa do bolchevismo-leninismo, mais do que nunca, seria a de levantar a bandeira da luta de classes, enquanto luta pela libertação nacional e pelos direitos democráticos. A tarefa do proletariado é ganhar a pequena burguesia na luta contra a grande burguesia e o invasor. A luta de classes permanece como o eixo em torno do qual todas as políticas se cristalizariam. Enquanto preservando implacável hostilidade contra a potência opressora ocupante, os bolcheviques-leninistas levantariam a palavra de ordem de ganhar as fileiras dos soldados do exército alemão para o lado da classe trabalhadora do país ocupado. Ao entrar no movimento de resistência e em cada etapa contrapondo os interesses e a política da burguesia em relação às massas; ao mostrar a nudez dos cálculos políticos do capital financeiro, tanto de dominar quanto de subjugar as nacionalidades; ao levantar a questão da luta nas fábricas contra os proprietários e empresários burgueses, como colaboracionistas e quislings, a questão de classe seria enfatizada; ao mostrar que os setores da burguesia, que entraram no movimento de resistência nos últimos dias, o fizeram somente porque perceberam que o imperialismo anglo-americano seria o vencedor; ao demonstrar que a partir da posição de opressão nacional a burguesia utilizaria a derrota da coalizão ítalo-alemã para tomar parte na opressão, desmembramento e subjugação das nações derrotadas; ao mostrar que são as contradições do capitalismo que estão causando o declínio da Europa e que são elas as responsáveis pelo canibalismo nacional do imperialismo; ao levantar o problema da unificação de toda a Europa como os estados unidos soviéticos com plena liberdade nacional e direitos para todos os estados e minorias dentro da Europa.

Como as lutas se desenvolveram na Europa

Os acontecimentos na Europa confirmam plenamente esta análise. Nos Bálcãs, onde a revolução democrático-burguesa não se realizou, devido à incapacidade da burguesia para resolver a tarefa, temos testemunhado dentro do movimento de resistência uma furiosa luta de classes. Na Iugoslávia, na Grécia, na Polônia, mesmo com a maior parte do país exposta à bota de ferro do imperialismo alemão, os dois campos, o do proletariado e o da burguesia, estão engajados em amarga guerra civil – tão amarga quanto a luta contra os próprios nazistas. A luta de libertação nacional tem se entrelaçado com a luta pelo pão e pela terra; a luta por direitos democráticos com o direito de viver. Esta tem sido a situação na Europa Oriental. Quanto mais no Ocidente?

O avanço dos exércitos anglo-americanos na Europa ocidental respondeu a esta questão de uma vez por todas. A questão “nacional” foi imediatamente desvendada como questão social. O desafogo da pressão do exército de ocupação dos conquistadores levou imediatamente ao início, não de levantamentos burgueses, mas de levantamentos proletários. Os trabalhadores e a pequena burguesia armaram-se na França e na Bélgica, e particularmente na França, começaram a cercar as fábricas e minas, anunciando dessa forma que a revolução proletária francesa tinha alcançado uma nova etapa. Tão grande tinha sido a virada para a Esquerda – isto é, para a revolução dos trabalhadores – que não somente os estalinistas e socialdemocratas, como mesmo o bonapartista De Gaulle, tiveram que brincar com demagogia social. O humor da pequena burguesia na França é tal que De Gaulle finge defender a nacionalização das minas, dos bancos e dos grandes consórcios, e a punição de todos os capitalistas e colaboracionistas do Comité des Forges etc.

Pode-se argumentar que se Hitler tivesse vencido a situação seria inteiramente diferente. Não dessa forma! É verdade, os acontecimentos teriam tomado cariz diferente, mas a burguesia também teria se revelado ainda mais como totalmente alheia aos interesses das amplas massas, por sua colaboração com os senhores supremos nazistas. Se na China, Trotsky tinha levantado a questão de que a burguesia poderia colaborar com os invasores na sequência de uma vitória completa do Japão, quanto mais seria no caso da França, Bélgica, Noruega ou Grécia e Iugoslávia?

No Oriente, o tempo de construção de Impérios já passou há muito; os imperialistas japoneses não tinham a menor possibilidade de construir um império com qualquer estabilidade como a obtida pelo Império Britânico. Na Europa, as vitórias de Hitler só poderiam ser transitórias, mesmo que tivessem resultado em sucesso completo. Manter sob controle Londres, Moscou, Paris, Bruxelas, seria construir na areia, e não duraria mesmo uma década. As inevitáveis revoltas e levantamentos despertariam a solidariedade de classe dos trabalhadores alemães e soldados. Longe de manter seu controle sobre o território ocupado, Hitler teria dificuldades de manter o seu controle mesmo em Berlim.

Problemas colocados pelas vitórias dos aliados

Os ultra-esquerdistas argumentam que não há nenhuma opressão “nacional” na Europa, revelando, dessa forma, uma confusa compreensão da atitude do marxismo sobre esta questão. Os franceses, checos e poloneses foram oprimidos não somente como membros das classes exploradas, como também como membros de uma raça subalterna. Dessa forma, foram oprimidos não apenas socialmente, como também nacionalmente. O fato de existirem diferentes graus de subjugação e opressão não altera a posição de forma alguma. O partido revolucionário luta contra todas as formas de opressão e dominação nacional e se esforça pelo livre e desembaraçado direito de todas as nações de determinar seu próprio destino. Apoia o direito de cada nação ao direito de autodeterminação. Apoia a luta das pequenas e grandes nações da Europa de se libertar do jugo da opressão imperialista alemã. Mas a burguesia das nações hoje subjugadas se tornará nos opressores e subjugadores dos direitos dos alemães e de outras nações derrotadas amanhã. Tudo permanecerá sob o domínio do imperialismo anglo-americano. Enquanto o sistema imperialista continuar a existir, as pequenas e até mesmo as grandes potências somente podem permanecer como satélites e apêndices das grandes potências aspirantes à dominação mundial. Dessa forma, enquanto apoia a luta pela emancipação nacional, a IV Internacional não faz e não pode conceber isto de forma separada e aparte da luta pela emancipação social. Não pode haver nenhuma solução para o problema de autodeterminação exceto sobre a base da destruição do imperialismo na Europa e da construção da federação de repúblicas socialistas soviéticas. Consequentemente, a luta por autodeterminação e liberdade nacional é a luta pelos estados unidos soviéticos da Europa [3].

A pendente vitória do imperialismo anglo-americano coloca o problema sob um aspecto inteiramente diferente. A América pretende acorrentar toda a Europa. Mas, como no caso geral da América do Sul e, como espera também da China e da Índia, serão com as correntes da invisível dominação econômica e financeira. Na Alemanha e possivelmente em certos estados dos Bálcãs e naqueles em “emergência”, isto é, com confrontos diretos e guerra civil entre o proletariado e a burguesia, em outros países da Europa, os imperialistas anglo-americanos serão compelidos a recorrer à ocupação e ditadura militar nos primeiros estágios pelo menos, para manter o seu domínio. Mas geralmente e tanto quanto possível, a burguesia da América preferirá especialmente a dominação indireta através da qual esperam manter sua força econômica e militar. Devido ao risco de provocar os trabalhadores em sua própria casa, na Grã-Bretanha e na América, ao risco representado por suas próprias tropas, os aliados imperialistas estão obrigados a proceder cuidadosamente em suas relações com a Europa. As burguesias na França, Bélgica, Itália e Europa Oriental trocam de amos com grande rapidez. Elas se colocaram do lado dos vitoriosos na luta. Deram as boas-vindas aos imperialistas anglo-americanos e contaram com suas baionetas para manter a distância uma revolta dos trabalhadores. Mas na consciência dos trabalhadores, os quislings e os grandes capitalistas eram uma só e mesma coisa. Eles acreditavam que tinha sido a heroica luta das massas contra a ocupação nazista e os colaboracionistas, que tinha minado a posição do imperialismo alemão. Estavam ressentidos da colaboração da burguesia e imediatamente começaram a luta por direitos econômicos e políticos.

As vitórias do Exército Vermelho colocaram de forma direta na consciência das massas europeias o problema da conquista do poder e da expropriação da burguesia. A Reação tem uma base muito estreita entre as massas, mesmo da pequena burguesia. A experiência da guerra e da ruína econômica através da inflação e do sufoco do Big Business, a liquidação da burguesia nacional, a crise e a incerteza geral do capitalismo, ao lado do movimento de massas dos trabalhadores, a vanguarda da luta contra a opressão, tudo isto levou a uma enorme radicalização no seio da pequena burguesia. Na onda revolucionária que está apenas começando, ainda na primeira subida antes mesmo de começar a varrer, já está claro que a pequena burguesia e os trabalhadores se movimentarão rapidamente à esquerda a despeito de todas as medidas de mantê-los sob controle. Qualquer tentativa de ditadura militar na Europa ocupada levaria ao desastre os imperialistas. Os soldados dos Aliados não tolerariam por muito tempo fazer parte de exércitos da contrarrevolução.

Mas o núcleo do problema reside na posição chave que agora é ocupada pela Alemanha na revolução europeia. Que os aliados burgueses e a burocracia estalinista percebem isto se vê claramente nos planos para ocupação militar e desmembramento da Alemanha. A desintegração do regime nazista levaria quase imediatamente a revoltas proletárias que poderiam colocar na ordem do dia a revolução socialista na Alemanha. Haveria um vácuo criado pela dissolução da estrutura totalitária do regime nazista. Com exceção de poucos remanescentes, os nazistas desaparecem do cenário. Contudo, tanto na Europa quanto na Alemanha, a burguesia não teria nenhuma alternativa senão apoiar-se em seus conquistadores. Tornam-se os colaboracionistas e quislings do imperialismo anglo-americano. Dessa forma, o problema da libertação da Alemanha da dominação e da opressão dos Aliados assumiria forma anticapitalista e anti-Aliada. A luta de classes se manifestaria em oposição não somente aos opressores externos como também aos seus agentes na própria Alemanha. Dessa forma, o problema dos trabalhadores alemães seria o de estabelecer relações fraternais com seus irmãos de classe dos exércitos Aliados.

Os trabalhadores estrangeiros na Alemanha desempenharão um grande papel na ligação da classe trabalhadora europeia à classe trabalhadora alemã, mas somente podem se aproximar sob o ângulo da resistência unida de classe a todos os opressores.

A fim de se sobrepor à tempestade dos próximos anos é mais provável que, antes de utilizar os métodos de repressão aberta, a burguesia tentará fazer uso dos serviços dos socialdemocratas e dos estalinistas para paralisar a revolta das massas.

O fato de que a revolução que está se aproximando na Europa somente pode ser uma revolução proletária não exclui a possibilidade de que os Aliados e a burguesia europeia em sua luta contra a revolução não adote os métodos da democracia burguesa. A experiência da Alemanha na revolução de 1918 indicou que em suas primeiras etapas a contrarrevolução tomará uma forma “democrático-burguesa” ou pseudodemocrática. Com a enorme irrupção das massas na Europa; com as complicações da burguesia na Ásia e nas colônias; com os problemas internos da burguesia em sua própria casa; seria extremamente difícil, senão impossível, para a burguesia Aliada estabelecer ditaduras militares por toda a Europa. Com a irrupção revolucionária, com nenhuma base de massas para a Reação na Europa, quaisquer tentativas de ditadura teria vida extremamente curta. Dessa forma, a burguesia que, por um lado, está se preparando para as represálias e para a repressão, não pode, por outro lado, abandonar o caminho das concessões ilusórias. O desenvolvimento da revolução espanhola nos anos 1931 a 1936 pode ser o modelo para toda a Europa no próximo período.

Haverá similares avanços e recuos nas próximas revoluções europeias. Elas passarão através de várias etapas culminando inevitavelmente em guerras civis. Mas as próprias massas europeias estão muito mais conscientes de sua própria força e a crise do capitalismo é muito pior. Todo o continente europeu será afetado por estas perturbações, uma vez que as guerras e os acontecimentos da última década sacudiram a sociedade europeia. O fato de que as massas, em todos os recantos, estão se empenhando instintivamente em direção a uma solução socialista está fora de questão. Enquanto tais regimes não são excluídos, serão por enquanto provisórios e de crise. Os governos se sucederão em rápida sucessão, com correspondente aumento do ritmo das lutas de massas. A burguesia manobrará entre medidas repressivas e concessões.

Em alguns dos países europeus as tentativas de perpetuar ditaduras militares são possíveis. Mas todas estas tentativas somente terminarão em guerra civil e na luta pelo poder pelos trabalhadores e camponeses. A relativa fraqueza da burguesia a conduz a confiar tanto nos engodos quanto na força. A debilidade do proletariado consiste na falta de clareza quanto às tarefas que defronta. Dessa forma, nas primeiras etapas do movimento, os reformistas e estalinistas colocando-se à frente do movimento e encaminhando-o pela via reformista, impedirão o proletariado de se mover na direção da tomada do poder. Mas, embora o proletariado ainda não esteja suficientemente consciente ou organizado (através do partido revolucionário) para estabelecer o poder operário, ainda está suficientemente consciente para resistir ferozmente a qualquer tentativa de ditadura militar. Somente depois de um período de terríveis batalhas e tempestades de classes, na base de derrotas decisivas do proletariado, a burguesia poderia ter êxito em estabilizar a situação apoiada em ditaduras militares.

Na França e na Itália, nos Bálcãs e por toda a Europa, o movimento tem fracassado sob o controle dos estalinistas e dos socialdemocratas, que estão tentando direcioná-lo para os danosos canais do frentismo popular, do parlamentarismo, da democracia burguesa e da colaboração de classe. Para afastar as massas de sua influência é necessário expô-los na ação. Isto somente pode ser feito através do uso das palavras de ordem e demandas de transição que podem assumir grande importância. Junto a estas, a demanda por eleições e pela convocação de uma assembleia nacional pode fazer parte da agitação dos Bolcheviques-Leninistas. Simultaneamente a isto, a demanda por um governo livre de todos os representantes do capitalismo poderia ser desenvolvida.

Estas demandas não se separam da e não excluem a agitação simultânea dos comitês dos trabalhadores, dos comitês de donas de casa, dos funcionários, do armamento dos trabalhadores e de suas milícias, ou mesmo do apelo por sovíetes, e da instalação de um governo dos trabalhadores.

Assembleia Constituinte

A Assembleia Constituinte pode ser convocada ou não, dependendo da relação de forças. Mas pode servir como meio de mobilizar as massas à ação contra a burguesia e seus agentes. Ao exigir que os autoproclamados e autonomeados representantes do povo nos governos provisórios e emigrados devam colocar suas reivindicações à escolha permitindo às massas decidir, estas últimas podem ter suas ilusões dissipadas. As lideranças dos Trabalhistas e dos estalinistas se protegerão por trás do fato de que não controlam o governo, mas permanecem como minoria dentro dele. Rompam com a burguesia e tomem o controle em suas próprias mãos! Esta palavra de ordem pode se tornar uma poderosa alavanca contra a liderança das velhas organizações dos trabalhadores. O Programa de Transição como um todo se torna um guia indispensável no trabalho cotidiano da IV Internacional na Europa.

Estas questões não podem ser determinadas antecipadamente, enquanto a orientação tática e estratégica da revolução [não] estiver corretamente prevista. As palavras de ordem concretas terão de ser determinadas pela situação que se colocar ante o partido revolucionário com o desenvolvimento dos eventos.

A palavra de ordem dos Estados Unidos Socialistas da Europa preserva seu caráter como palavra de ordem básica para o próximo período à frente, à qual todas as outras palavras de ordem estão ligadas. As condições sob as quais a Europa tem existido nos últimos anos tornam as massas receptivas, não [somente] para os assuntos cotidianos, mas às tarefas nacionais e internacionais indissoluvelmente ligadas a eles. Dessa forma, a palavra de ordem dos Estados Unidos Socialistas da Europa preserva sua vitalidade como o principal eixo em torno do qual a atividade do partido proletário na Europa deve continuar.

Sovíetes e libertação nacional

O avanço do Exército Vermelho e a importância que a política externa soviética tem assumido na vida da Europa exigem uma clara contabilidade do papel que o estado soviético agora desempenha. Por um lado, a conquista básica de Outubro, a propriedade estatal dos meios de produção, tem sido mantida, e os “Aliados” burgueses da União Soviética guardaram distância, apesar de todas as pressões, e isto se revela através do domínio do monopólio do comércio exterior; por outro lado, a crescente degeneração interna da burocracia soviética, que permaneceu no curso da guerra, passou por mudanças que a separaram ainda mais das massas soviéticas, aumentando sua drenagem parasítica sobre a economia soviética. Na política externa, tem-se esforçado por promover ainda mais os interesses da burocracia soviética que implica em confrontos com os Aliados; além disto, estão juntos aos imperialistas como opositores implacáveis à revolução socialista na Europa.

O avanço do Exército Vermelho nos Bálcãs, Polônia e Europa Central revela este papel. A burocracia soviética está unida à contrarrevolução europeia no disfarce democrático. Em todos os países que entraram nenhum dos problemas sociais ou nacionais foram resolvidos de alguma forma. A opressão nacional dos povos da Europa continua na mesma linha – de certa forma agravada pela criação de novas minorias nacionais na Europa como na antiga configuração pré-guerra. Com relação ao problema dentro da própria União Soviética, a opressão das minorias nacionais pela burocracia grã-russa assumiu um papel secundário durante o curso da guerra em si. As massas das nacionalidades oprimidas, em sua esmagadora maioria como trabalhadores e camponeses da própria Rússia, preferiram o menor dos males da burocracia soviética a enfrentar a alternativa da opressão imperialista. Mas o problema da independência da Ucrânia, dos Estados Bálticos e de outras nacionalidades coloca-se como um problema urgente no próximo período. Os Bolcheviques-Leninistas defendem o direito à autodeterminação e independência na base de uma Ucrânia Socialista Soviética independente etc., se as massas assim o desejarem. Mas esta luta, por sua vez, somente pode ser parte da luta pela derrubada da burocracia estalinista e pela restauração da democracia dos trabalhadores na Rússia. Isto somente se pode conceber como uma luta por uma federação dos povos da URSS, por uma federação dos povos na Europa.

O Exército Vermelho desempenha ao mesmo tempo um papel reacionário e progressista na Europa: progressista, enquanto reflete a tentativa da burocracia de defender os fundamentos sociais do estado soviético; reacionário, enquanto a burocracia mostra hostilidade implacável à revolução socialista na Europa.

A burocracia estalinista parece estar treinando o Exército Vermelho para a finalidade de suprimir acima de tudo a tentativa das massas alemãs de tomar o controle em suas próprias mãos. Daí a campanha racialista contra as massas alemãs. Mas os surtos revolucionários são inevitáveis no próximo período. Na Alemanha e na Europa [isto] inevitavelmente provocará repercussões dentro das fileiras do Exército Vermelho.

O avanço do Exército Vermelho nos Bálcãs levou a uma vaga de radicalização e organização do proletariado em todos os países onde penetrou. Por toda parte, os partidos estalinistas se tornaram imediatamente organizações de massas. Desta forma, as massas demonstraram sua gravitação em torno a uma solução socialista de seus problemas. O prestígio do Exército Vermelho, que as massas reconhecem como a força que teve o primeiro e decisivo papel na derrota dos nazistas, e a tradição usurpada da revolução de Outubro desempenharam seu papel para ajudar na mobilização das massas europeias. Está claro agora que no primeiro período os estalinistas desempenharão um importante papel dentro das fileiras do proletariado e mesmo de setores da pequena burguesia em quase todos os países da Europa. A única exceção parece ser a Alemanha. A política dos estalinistas como quislings dos imperialistas rapidamente repelirá seu já combalido apoio entre as massas alemãs. Dentro da Alemanha a IV Internacional teria rapidamente a oportunidade de assegurar uma voz dominante dentro das fileiras da classe trabalhadora alemã.

Atualmente, o estalinismo representa um até mesmo maior perigo para a revolução socialista na Europa do que o foi a socialdemocracia depois da última guerra. Armado com os recursos da burocracia soviética e da GPU, tirando partido do brilho das vitórias soviéticas, o estalinismo permanece sendo uma poderosa força de desorientação e sistematicamente perturba o movimento do proletariado em benefício da reação. Mas o desenvolvimento objetivo da situação, a maior crise e falência do capitalismo; a experiência das massas nos últimos 25 anos; a debilidade das forças da reação; o colapso do fascismo; a radicalização da pequena burguesia, tudo isto torna o programa reacionário do estalinismo extremamente difícil de realizar. A burguesia será compelida a confiar na demagogia mais do que na repressão direta, devido ao tempestuoso impulso das massas. Dessa forma, a política estalinista entrará em colisão com as aspirações das massas e provocam crises e divisões permanentes e intermitentes dentro de suas fileiras.

Contudo, não está excluído que os estalinistas sejam capazes de uma nova virada à “esquerda”. Enquanto a guerra se aproxima do final os antagonismos entre os imperialismos britânico e americano e a burocracia soviética estão começando a aflorar à superfície. Assim, dependendo das necessidades diplomáticas do momento ou da pressão direta das massas, os partidos estalinistas podem se envolver em novas convulsões. Isto criaria condições excepcionalmente difíceis de trabalho nos primeiros estágios para o partido revolucionário. Uma política falsamente de esquerda aumentaria enormemente o risco para a revolução oferecido pelas organizações estalinistas.

A iminente insurreição contra os nazistas ou o possível colapso do imperialismo alemão imediatamente colocará em primeiro plano a questão da confraternização entre os trabalhadores e soldados dos Aliados e o povo alemão. Contra o asqueroso chauvinismo e racialismo dos estalinistas e socialdemocratas, a IV Internacional na Europa contraporá a cooperação fraterna dos povos para alcançar a revolução socialista. Mas, inevitavelmente, o movimento das massas na Europa, suas lutas e revoltas, produzirá efeitos sobre os soldados britânicos e americanos. Apesar de todas as proibições (e a proibição revela que o Estado Maior Aliado e a burguesia entendem muitíssimo bem a situação que enfrentam), ela levará à confraternização e a uma rápida desmoralização das tropas se qualquer tentativa for feita para usá-las em expedições punitivas e repressões. Mesmo maior efeito será obtido entre as fileiras de soldados ao Exército Vermelho. Confrontada a um proletariado rebelde na Europa, a contenção psicológica da burocracia totalitária se perderá e tendências à confraternização com os trabalhadores alemães e à revolução europeia imediatamente se patentearão.

O desenvolvimento da revolução na Europa prenuncia um extenso período de Kerenskismo ou de regimes de frentes populares por todo o continente europeu. A guerra será apenas a origem de uma nova onda revolucionária que eclipsará a de 1917-1921. A tendência básica da burguesia será de tentar dirigir esta vaga de revolução, empurrando-a para os canais da democracia burguesa.

A tentativa de enfrenta-la com um ataque frontal poria em risco a possibilidade de maiores custos em vãos e fúteis tentativas de barrar a oposição das massas. Não se exclui, no entanto, que sobre o padrão geral de regimes de Frente Popular aqui e ali, a burguesia tentará manter o controle através de ferozes medidas de repressão e de ditadura aberta. Mas no contexto de agitação geral na Europa e no mundo, seria mais adequado para a burguesia combinar a política de enganos com a de represálias e repressões. Particularmente enquanto as próprias massas tendem a ficar completamente fora do controle da burguesia. Neste cenário, as lições da revolução espanhola assumem premência imediata. O estalinismo, a socialdemocracia e o centrismo, todos desempenharão sua parte no acordo com o padrão familiar dos acontecimentos espanhóis. Mas precisamente porque a situação pode e mudará abruptamente durante o curso dos acontecimentos, é necessário se resguardar contra todas as formas do nocivo sectarismo e ultra-esquerdismo (que meramente repetem as fórmulas marxistas e se recusam a usar as demandas democráticas nas etapas de transição), enquanto, ao mesmo tempo, se participa no movimento de massas e se resguarda contra o risco de se mergulhar no oportunismo e na temporária relação de forças.        

No curso dos próximos eventos na Europa haverá mudanças rápidas no cotidiano da agitação para a irrupção revolucionária; períodos tempestuosos, seguidos por períodos de calmaria, que novamente se transformarão em levantamentos revolucionários. A instabilidade da situação e as agudas e abruptas viragens poderiam e deveriam ser o ponto de partida para o treinamento dos quadros da IV Internacional por toda a Europa.

A pressão das massas sobre as organizações estalinistas e socialdemocratas tenderá, inevitavelmente, na ausência de fortes partidos revolucionários, a provocar divisões e o aparecimento de correntes e organizações centristas e de centro-esquerda. Na ausência de quaisquer organizações confiáveis como a Comintern ou mesmo de líderes como Lênin e Trotsky, um período de confusão ideológica e de reagrupamento no movimento revolucionário parece ser inevitável. Enquanto preservando sua intransigência e inflexibilidade ideológica sobre a questão do partido, do programa e dos princípios, uma atitude de educação política paciente e de sistemática explicação será necessária especialmente em relação àqueles grupos que estão se aproximando da IV Internacional.

A situação em diferentes países colocará naturalmente o problema em momentos diferentes e de formas diferentes. Em alguns deles, a guerra civil se precipitará quase imediatamente após a “libertação” ou um pouco depois; em outros, a guerra civil já brotou adiantadamente antes que os invasores fossem expulsos do país (Grécia, Iugoslávia). A situação na França é diferente da situação na Itália; a da Bélgica é diferente da situação da Holanda; a da Iugoslávia é diferente da situação da Hungria.

Enquanto conduz seu trabalho com o objetivo estratégico da conquista do poder através da revolução proletária, os Bolcheviques-Leninistas de forma alguma estão isentos da necessidade de desenvolver a agitação em torno dos problemas parciais com o objetivo de mobilizar as massas. A extrema debilidade das forças revolucionárias determina que isto tome grande parte do trabalho cotidiano. Mesmo que houvesse partidos de massas, eles não poderiam ignorar a necessidade de mobilizar as massas em torno das questões concretas a sua frente. Ainda mais, então, no caso de partidos fracos se esforçando por ganhar a confiança das massas.

Esta é a situação dentro da qual o partido revolucionário será construído. As derrotas das últimas décadas causadas pelas políticas criminosas dos reformistas, estalinistas e centristas, criaram condições excepcionalmente difíceis para a construção do partido revolucionário. Os tempestuosos acontecimentos que estão por vir não encontram uma só organização Bolchevique forte em todo o continente europeu. É isto que dará caráter tempestuoso ao próximo período na Europa. O impulso das massas no assalto às cidadelas do capitalismo ganhará uma força renovada. Os covardes e medrosos na periferia da IV Internacional têm levantado a questão de que não será possível construir o partido revolucionário a tempo. Toda a experiência histórica tem mostrado que sem o partido não será possível realizar a revolução socialista. Logo, argumentam que a revolução na Europa será derrotada. Tal ponto de vista é uma capitulação covarde perante a burguesia antes da batalha. O movimento espontâneo das massas, é verdade, não será capaz de realizar a derrubada do capitalismo, sem uma organização que guie o proletariado. Mas pode e deve criar o ambiente no qual o partido revolucionário pode ser construído. De forma separada e à parte da própria luta, é impossível construir a IV Internacional. Com táticas e estratégia corretas por parte da vanguarda, os partidos de massas da IV Internacional podem ser construídos em poucos anos. Uma vez fundidos, organizados, testados e enraizados nas massas, eles serão a força decisiva do planeta.

 

Notas:

[1] Este esboço de Ted Grant foi produzido para uma discussão no CC do Partido Comunista Revolucionário Britânico. Na base da discussão uma resolução mais curta foi aprovada ao longo das mesmas linhas em 11 de novembro de 1944.

[2] Esta frase estava no final do parágrafo no primeiro esboço.

[3] Este parágrafo lê-se no primeiro esboço: “Têm as pequenas ou as grandes nações da Europa oprimidas ontem pelos imperialistas alemães e amanhã pelos imperialistas anglo-americanos o direito à autodeterminação? Colocar a questão desta forma revela confusão de pensamento. Indubitavelmente, os revolucionários estão sempre a favor do direito à autodeterminação. Mas, hoje, as pequenas e mesmo as grandes nações, ainda mais do que mesmo há 25 anos, são simplesmente satélites e apêndices dos grandes gigantes empenhados na dominação mundial. Elas devem cair na órbita de uma ou de outra grande potência. Sob estas condições não pode haver nenhuma autodeterminação real, exceto na base de uma federação de estados socialistas que somente pode ser conquistada através da revolução proletária”.

Traduzido por Fabiano Adalberto

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