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A queda do Muro de Berlim – História e consequências

Em 9 de novembro de 1989 o que parecia impossível de acontecer estava acontecendo. O famigerado muro de Berlim estava sendo derrubado, tijolo por tijolo, bloco por bloco, por uma multidão de trabalhadores e jovens alemães dos dois lados do muro que não quis esperar a liberação oficial das autoridades stalinistas de Berlim Oriental que autorizava a passagem entre os dois lados em que se dividia a cidade.

Em 9 de novembro de 1989 o que parecia impossível de acontecer estava acontecendo. O famigerado muro de Berlim estava sendo derrubado, tijolo por tijolo, bloco por bloco, por uma multidão de trabalhadores e jovens alemães dos dois lados do muro que não quis esperar a liberação oficial das autoridades stalinistas de Berlim Oriental que autorizava a passagem entre os dois lados em que se dividia a cidade.

Junto com o muro de Berlim começava a desmoronar também a ordem mundial estabelecida após a Segunda Guerra Mundial nos acordos de Yalta e Potsdam, que dividia o mundo entre dois blocos, o da União Soviética e o liderado pelos Estados Unidos e que se expressava na divisão da Alemanha e principalmente na divisão do proletariado mais importante da Europa.

A queda do muro foi o início de um desenrolar de acontecimentos, que como em uma corrente elétrica fez desabar, um a um, todos os regimes das burocracias no Leste Europeu, desmoronando as “Repúblicas Democrático-Populares” na Polônia, Hungria, Tchecoslováquia, Romênia, dentre outras, todas elas controladas por uma burocracia stalinista privilegiada e corrupta. Todos esses regimes foram varridos pela intervenção direta das massas que gerou um furacão tão grande que fez desmoronar a própria União Soviética.

 “Another Brick in the Wall” (Mais um tijolo no Muro)

 O Muro de Berlim foi construído na madrugada de 13 de agosto de 1961, uma barreira física que circundava a parte ocidental de Berlim, administrada por controle dos Estados Unidos, Inglaterra e França, encravada no território da República Democrática Alemã (RDA) pertencente ao bloco da União Soviética e que dividia o território alemão com a República Federal Alemã (RFA). O muro além de dividir a cidade de Berlim ao meio simbolizava a divisão do mundo em dois blocos. Este muro era vigiado e patrulhado por tropas com ordem para atirar para matar. O Muro tinha 66,6 km de parede com gradeamento metálico e cercas eletrificadas, 302 torres de observação e mais 250 pistas de corrida para ferozes cães de guarda. O número de mortos, feridos e presos é controverso, pois o número ultrapassa as centenas e os dados sempre foram omitidos pelas autoridades stalinistas da RDA. A construção do muro foi a maneira do regime stalinista, implantado na Alemanha Oriental (RDA)e sustentado por tropas soviéticas, de conter o êxodo de mais de 3,5 milhões de alemães orientais que já tinham passado para o lado ocidental. Milhares de famílias berlinenses ficaram divididas e sem contato algum. A classe operária alemã, mesmo depois da guerra, a mais forte da Europa, estava dividida ao meio por um muro eletrificado.

O Muro de Berlim foi o símbolo da ditadura stalinista e dos regimes burocráticos da Europa Oriental, as chamadas “democracias populares”, todas edificadas nos países e nas zonas controladas pelo Exército soviético no final da Segunda Guerra Mundial. Com a proteção de Moscou criaram-se na Polônia, Hungria, Tchecoslováquia, Bulgaria, Romenia e até mesmo na “rebelde” Yugoslávia do marechal Tito (que foi estigmatizado por Stalin), regimes totalitários controlados pelos partidos stalinistas e por um aparato burocrático que vivia às custas de uma brutal exploração do proletariado. Muitas revoltas operárias eclodiram em Berlim Oriental, na Hungria, na “primavera” de 1968 na Tchecoslováquia, todas elas reprimidas pelas tropas do Pacto de Varsóvia. Até que na década de 80 os operários poloneses criaram o sindicato “Solidariedade”, que se colocou a frente de greves operárias onde o regime stalinista tentou reprimir mas não conseguiu êxito. A situação estava mudando.

Na própria União Soviética, a era pós Stalin, estava também chegando ao fim. O governo de Leonid Brejnev, que esteve a frente do Estado soviético entre 1964 e 1982 – e que sucedeu ao governo de Kruschev interrompendo a “desestalinização” de fachada feita por este após as denúncias dos crimes de Stalin no XX Congresso do PCUS –acabou com a sua morte súbita provavelmente de overdose estimulada por sua enfermeira associada à polícia secreta chefiada por Iuri Andropov. Os chamados “anos dourados” da era Brejnev em que a burocracia soviética funcionou como “correia de transmissão” com o imperialismo liderado pelos Estados Unidos mantendo a ordem mundial de Yalta e jogando um papel contrarrevolucionário, estava se esgotando. Os fracassos econômicos da “planificação” burocrática da nomenklatura, que garantia privilégios cada vez mais elevados ao aparato do regime, entravam em contradição com a pauperização das massas soviéticas e por todo o Leste europeu. Os custos militares e o desastre na intervenção militar do Afeganistão, a revolta crescente nas “democracias populares”,  levou a explodir forças centrífugas dentro da burocracia stalinista.

Todos esses acontecimentos levou ao chamado “campo socialista” a desabar como um castelo de cartas, começando com a queda do muro de Berlim em 1989.

 A concepção do “campo socialista”

 Logo após a Segunda Guerra Mundial, partidos comunistas e organizações de esquerda, que tinham como norte da bússola a União Soviética, chamada de “pátria-mãe” do socialismo, passaram a chamar o bloco de países onde o capital foi expropriado,o que inclui o Leste europeu assim como a China, o Vietnã do Norte e a Coréia do Norte, de “campo socialista”, que crescia cada vez mais a um futuro radiante da humanidade. A construção do Muro de Berlim passou a ser justificado como necessário para a defesa do “campo socialista”.

No Brasil quase todas as organizações e partidos de esquerda desde o início dos anos 60, quando se construiu o Muro de Berlim, aceitavam como dogma existência de um “campo socialista” que progredia em direção ao “socialismo”.

Com a vitória de uma revolta popular a partir de uma greve geral insurrecional em Cuba, que culminou com a destituição do ditador Fulgêncio Batista em 1 de janeiro de 1959 e que vai levar ao poder os guerrilheiros do Exército Rebelde, liderados por Fidel Castro e pelo argentino Ernesto Che Guevara, o “campo socialista” estava finalmente chegando na América Latina. Depois de muitas piruetas políticas em favor de estender a guerra de guerrilhas nas Américas, o governo de Fidel Castro foi se alinhando incondicionalmente com a União Soviética, auxiliado sem dúvida pelo bloqueio econômico decretado pelos Estados Unidos.

Que o Partido Comunista Brasileiro (PCB), dirigido por Luis Carlos Prestes, conhecido na época como “partidão”, fizesse apologia da União Soviética stalinista e que traçava sua política de acordo com os interesses diplomáticos da burocracia em Moscou isso não era novidade. Mas vejamos o que diziam os “críticos” de esquerda do velho partidão. No Manifesto-Programa do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), uma dissidência do PCB que é hoje um ardoroso defensor no governo do PT da política de “mais capitalismo” e do agronegócio, dizia em fevereiro de 1962:

“A revolução brasileira se processa numa época de grandes transformações. Países com mais de um bilhão de habitantes construíram ou constroem o socialismo. A União Soviética marcha para o comunismo e a China popular, até há pouco escravizada, forja uma nova sociedade e constitui, hoje, um poderoso baluarte de luta contra o imperialismo (…) Na América Latina já tremula vitoriosamente a bandeira do socialismo e seus povos se levantam para derrubar o jugo dos monopólios imperialistas”.

O que não vai impedir que logo em seguida, em 1963, o PCdoB considerasse a URSS “que marchava para o comunismo” como “social-imperialista” por causa das denúncias que Kruschev fez no XX Congresso do PCUS sobre os crimes de Stalin. E olha que Kruschev não revelou a maior parte da verdade, pois fez um “acordão” com a burocracia e o grande terror promovido por Stalin ficou apenas registrado como “culto à personalidade”.

Outra organização de esquerda, crítica do reformismo, a Ação Popular, que tinha força no movimento estudantil e na UNE, vai repetir a mesma coisa do PCdoB. Depois de conhecer várias cisões a AP vai finalmente se fundir como PCdoB.

Mas vejamos também o que dizia uma organização que era na época considerada “crítica” do stalinismo, a Organização Revolucionária Marxista Política Operária, a POLOP. No seu Programa Socialista para o Brasil, elaborado em 1966-67, com um discurso aparentemente “internacionalista” dizia o seguinte:

“Vivemos na época do confronto final entre o velho regime capitalista e as forças que lutam pelo socialismo, expressão política da contradição social entre o capital e o trabalho. Iniciada em 1917 com a vitória dos sovietes na Rússia, a chama revolucionária propagou-se, em menos de meio século, sobre a Europa Oriental e a Ásia, atingindo as Américas com a instauração de Cuba socialista. Hoje, um terço da humanidade está libertado da exploração capitalista ou pré-capitalista. Um entre três seres humanos, vive e trabalha sob sociedades onde se edifica o socialismo (…)

Responsável, em grande parte, por essas mudanças qualitativas do imperialismo, é o surgimento do campo socialista. Nascido com a Revolução de Outubro de 1917 na Rússia, abrange hoje regiões tão distantes como as Democracias Populares europeias, a China e Cuba. Apesar das diferenças de condições existentes nos diversos países socialistas, todos eles têm em comum a abolição da velha sociedade exploradora e o seu desenvolvimento em direção a uma sociedade socialista (…)

Também o mundo socialista passa por contradições internas. As duras condições em que se levou a cabo a revolução soviética, submetida ao isolamento e ao assédio imperialista, produziram um controle burocrático sobre o primeiro Estado Operário, que afetou, em seguida, as relações entre os partidos comunistas e entre os países socialistas. O internacionalismo proletário, visando a unidade da revolução mundial, foi substituído pela submissão dos partidos dos países capitalistas aos partidos já no poder”.

O programa da POLOP era um pouco mais elaborado na crítica do que o da maioria dos partidos de esquerda durante as décadas de 60-70, especialmente durante o auge da “era Brejnev” na União Soviética. Mas mesmo assim era prisioneiro de conceitos igual aos partidos influenciados pelo stalinismo, como a concepção do “campo onde se edifica o socialismo”. E a questão da ascensão da burocracia stalinista na União Soviética, a teoria reacionária de Stalin-Bukarin de “construir um socialismo num só país”, os expurgos dos Processos de Moscou e aniquilação do partido bolchevique e do papel contrarrevolucionário do stalinismo em impedir a qualquer custo os movimentos revolucionários em escala internacional, tudo isto fica apenas resumido na fórmula “controle burocrático sobre o primeiro Estado Operário”. Ou seja, uma bela maneira de evitar a abordar de frente a questão do stalinismo.

Esse programa foi adotado pelo Partido Operário Comunista (POC) quando ele foi constituído em 1968. Mas em uma plenária nacional do Partido, realizada em São Paulo em meados de 1970, ele foi questionado e duramente criticado pela maioria que começou a adotar o programa da IV Internacional. Uma minoria, saudosista da Oposição de Direita da Internacional Comunista (Bukarin, Blander & Cia.), completamente hostil a Trotsky rompeu com o partido.

A questão do “campo onde se edifica o socialismo” permaneceu como um credo até o momento em que era impossível esconder o sol com a peneira. É curioso lembrar que, fora as organizações que se reivindicavam do legado da IV Internacional, todos as organizações e partidos de esquerda dentro  do movimento operário aqui no Brasil ignoravam deliberadamente o que estava acontecendo dentro da URSS e nas democracias populares do Leste europeu: o aumento da dissidência política como resultado da contradição entre o domínio da burocracia stalinista cada vez mais privilegiada e o descontentamento do proletariado cada vez mais pauperizado. O Muro de Berlim, que simbolizava uma ordem mundial onde a burocracia stalinista e o imperialismo estavam ligados, entre si, por uma correia de transmissão, nunca foi analisado ou criticado com seriedade pelas organizações de esquerda durante 30 anos. Até o dia em que as pedras do Muro caíram sobre as suas cabeças.

  A Glasnost e a Perestroika de Mikhail Gorbachev e as previsões de Trotsky

 As greves de massas na Polônia no início dos anos 80, lideradas pelo sindicato paralelo Solidariedade coincidiram com a resistência e as greves operárias no Brasil que levaram ao fim da ditadura militar. Quando o Partido dos Trabalhadores foi fundado, em 1980, como consequência deste espetacular ascenso das greves de massas da classe trabalhadora, o stalinismo estava em crise no mundo inteiro. A dissidência crescia na URSS e em todo o Leste europeu, a República Popular da China avançava nas reformas econômicas em direção ao capitalismo e os partidos comunistas europeus se distanciavam de Moscou indo em direção à social-democracia, deslocamento que ficou conhecido como “eurocomunismo”.

Conforme Alan Woods demonstrou em seu artigo, datado de novembro de 2009, analisando a queda do Muro de Berlim vinte anos depois:

“O que falhou na Rússia e na Europa Oriental não foi o comunismo ou o socialismo, em qualquer sentido que isso foi entendido por Marx ou Lenin, mas uma caricatura burocrática e totalitária. Lenin explicou que o movimento em direção ao socialismo requer o controle democrático da indústria, da sociedade e do Estado pelo proletariado. Verdadeiro socialismo é incompatível com a regra de uma elite burocrática privilegiada, o que, inevitavelmente, será acompanhada por colossal corrupção, nepotismo, desperdício, má gestão e caos.

As economias planificadas nacionalizadas na URSS e na Europa Oriental alcançou resultados surpreendentes nas áreas de indústria, ciência, saúde e educação. Mas, como Trotsky previu já em 1936, o regime burocrático acabou por solapar a economia nacionalizada e planificada e preparou o caminho para o seu colapso e o retorno do capitalismo.

Na década de 1980, a URSS teve mais cientistas do que os EUA, Japão, Grã-Bretanha e Alemanha juntas, e ainda não foi capaz de alcançar os mesmos resultados que o Ocidente. Nos campos vitais de produtividade e padrões de vida da União Soviética ficou para trás o Ocidente. O principal motivo foi a carga colossal imposta à economia soviética pela burocracia – os milhões de funcionários gananciosos e corruptos que estavam em execução na União Soviética, sem qualquer controle por parte da classe trabalhadora.

A regra sufocante da burocracia acabou levando a uma queda acentuada da taxa de crescimento na URSS. Como resultado, a União Soviética estava caindo atrás do Ocidente. Os custos de manutenção de altos níveis de despesas militares e os custos de manter o controle sobre a Europa Oriental impôs novas tensões sobre a economia soviética. O surgimento de um novo líder soviético Mikhail Gorbachev em 1985 assinalou uma grande virada na situação.

Gorbachev representava a ala da burocracia soviética que ficou para a reforma do alto, a fim de preservar o regime como um todo. No entanto, a situação deteriorou-se ainda mais sob Gorbachev. Isso, inevitavelmente, levou a uma crise, o que teve um efeito imediato na Europa Oriental, onde a crise do stalinismo foi agravada pela questão nacional”.

Em 11 de março de 1985 Mikhail Gorbachov é eleito novo líder da União Soviética.  Apoiado em uma ala reformadora da burocracia, Gorbachev empreende um conjunto de transformações sociais que ficaram conhecidas como a “Glasnost” (abertura política) e a “Perestroika” (a reforma econômica). Essas reformas “pelo alto e pela cúpula” na realidade foram uma manobra da burocracia com  o objetivo de salvar o regime do colapso. Ou seja, ofereceu uma abertura política, esperada pelas massas soviéticas ao mesmo tempo em que  empreendeu reformas econômicas que apontavam para a restauração do capitalismo. Com a fachada da “abertura democrática” começaram as reformas de introdução da economia de mercado, a introdução de capitais estrangeiros, as privatizações, o que acabou gerando uma hiperinflação e um aumento da dívida externa da URSS de 31,5 bilhões de dólares em 1985 para 70,3 bilhões de dólares em 1991.

Assim se confirmavam as previsões feitas por Trotsky na “Revolução Traída” e no Programa de Transição da IV Internacional: “ou a burocracia, tornando-se cada vez mais o órgão da burguesia mundial no Estado Operário, derrubará as novas formas de propriedade e lançará o país de volta ao capitalismo, ou a classe operária destruirá a burocracia e abrirá uma saída em direção ao socialismo”.

Assim, Trotsky demonstrava que o equilíbrio social do Estado stalinista era instável. Em longo prazo, o elemento socialista ou o elemento burguês tinham que predominar. O crescimento contínuo da desigualdade era um perigo. Os grupos de administradores da economia e do Estado burocratizado não se contentariam indefinidamente com os privilégios de consumidores. Mais cedo ou mais tarde, buscariam transformar-se em uma nova classe possuidora, expropriando o Estado e transformando-se numa nova burguesia.

Mas as reformas de Gorbachev abriram fissuras em uma panela de pressão prestes a explodir. O governo stalinista da Alemanha Oriental, após várias semanas de agitação de massas acabou abrindo o direito de passagem entre os dois lados da cidade de Berlim. No mesmo artigo citado acima, Alan Woods escreve que:

“O Muro de Berlim era um símbolo e um ponto focal para tudo o que foi odiado sobre o regime da Alemanha Oriental. A demolição do Muro começou de forma espontânea. Ao longo das próximas semanas, partes do Muro foram lascadas. Mais tarde, equipamentos industriais foram usados para remover quase todo o resto. Havia uma atmosfera de celebração, um clima de euforia, mais como um carnaval do que uma revolução. Mas isso é verdade para as fases iniciais de toda grande revolução, começando com 1789.

Em novembro de 1989, a população da RDA foi esmagada pelos humores emocionais – uma sensação de libertação, realizada por uma sensação geral de euforia. Era como se toda uma nação estivesse passando por uma embriaguez geral, e, portanto, estava aberta a sugestões e impulsos repentinos. Derrubar o antigo regime provou ser muito mais fácil do que ninguém tinha ousado imaginar. Mas, uma vez derrubado, o que era para ser colocado em seu lugar?

As massas que derrubaram o antigo regime, sabiam muito bem o que eles não queriam, mas não tinham muito claro o que eles queriam. E ninguém, nenhum partido ou organização, estava oferecendo uma saída.

Todas as condições objetivas para uma revolução política estavam agora dadas. A grande maioria da população não queria a restauração do capitalismo. Eles queriam o socialismo, mas com os direitos democráticos, sem a Stasi, sem burocratas corruptos e sem ditatorial estado de partido único. Se uma verdadeira liderança marxista tivesse existido, isso poderia ter levado a uma revolução política e ao estabelecimento de uma democracia operária”.

 As consequências da queda do Muro de Berlim

 A queda do Muro de Berlim provocou a explosão de uma bomba dentro da esquerda brasileira, especialmente dentro do PT, cuja corrente majoritária, a Articulação dos 113, estava com seu norte magnético voltado para o stalinismo, por conta que muitos dirigentes do partido, tais como José Dirceu, Genoíno e muitos outros egressos das antigas organizações guerrilheiras tinham formação stalinista. Só para dar uma ideia do desastre ideológico que foi, quando as massas arrebentaram o Muro de Berlim, tinha militantes do PT fazendo Escola de Formação Política na Alemanha Oriental. Os dirigentes do partido ficaram perplexos e sem saber o que dizer quando viram que, pela ação direta das massas, um a um, todos os regimes das burocracias foram desabando até chegar em 1990-91 com o colapso total da União Soviética. Ficaram como bússolas desmagnetizadas girando para todo lado.

Assim, da mesma forma que os burocratas stalinistas fizeram em todo lugar, os dirigentes do partido se despiram do tênue verniz socialista e adotaram as vestes da social-democracia. Quando eleito em 2002, Lula vai declarar que “o mundo mudou e eu mudei junto com ele”.

O colapso do stalinismo levou à restauração do capitalismo na Rússia e no Leste europeu. Longe de proporcionar uma melhoria de vida das massas, a introdução da economia de mercado levou a formação de economias “mafiosas”, ao saque e pilhagem da propriedade social, a guerras civis fratricidas como na ex-Yugoslávia e como agora está acontecendo na Ucrânia, onde os ex-burocratas disputam o poder e a pilhagem da sociedade. Não trouxe vida nova ao capitalismo em escala mundial. A República da China seguiu o mesmo caminho da restauração capitalista, indo mais longe que a Rússia, absorvendo todo tipo de capital estrangeiro e se transformando em uma “fábrica global” à custa de um gigantesco proletariado superexplorado.

Mas o “fim da história” tão esperado pelos arautos do capitalismo com o fim do “campo socialista” não aconteceu como eles queriam. Em 2008 o capitalismo começaria a viver a sua maior e mais gigantesca crise orgânica desde a crise de 1929-30, atingindo em cheio os países capitalistas avançados, os Estados Unidos e a Europa. O colapso da União Soviética só mostrou a incapacidade do capitalismo de abrir uma saída para a humanidade.

E os dirigentes do Partido dos Trabalhadores nunca entenderam o que aconteceu com a queda do Muro de Berlim, pois as pedras do muro continuam caindo em cima da cabeça deles.

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