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A panela de pressão

Os burgueses têm a ilusão de que as mesmas medidas de ontem servem para o dia de hoje e para o dia de amanhã. Não medem o seu custo social exponencial. Nada aprenderam da história, e como o poderiam?

“Pela insignificância daquilo com que o espírito se satisfaz, pode-se medir a grandeza do que perdeu”. (Hegel, Fenomenologia do Espírito).

“As massas só aprendem na ação. Não têm tempo para construir conhecimentos teóricos”.
(Trotsky, Aonde vai a França?).

A crise global atual é o sintoma inequívoco de que o sistema capitalista, após ter completado a inexorável e historicamente necessária tarefa de constituição do mercado mundial, tornou-se um obstáculo relativo e absoluto e nada mais tem a fazer para desenvolver as forças produtivas da sociedade.

Tarefa de integração econômica esta que apenas a burguesia poderia realizar, com seus métodos altamente lesivos em termos sociais e econômicos, na esteira da destruição total da economia nacionalizada e planificada dos Estados proletários deformados da URSS, dos países do Leste Europeu e da China. Agora, a burguesia simplesmente esgotou o seu potencial criativo, embora tenha desenvolvido as forças produtivas da sociedade, no passado, a patamares bem expressivos.

Os que não se satisfazem com apologias, podem, no entanto, constatar que o último boom econômico conduzido pela burguesia, mais exatamente a partir de sua última crise conjuntural do início dos anos 1970, foi alicerçado na aceleração da desmontagem progressiva do estado do bem-estar social, a partir do início da década de 1970, e, em meados dos anos 1980, com a integração ao mercado capitalista da Rússia e dos países do Leste europeu, além da China, e, de forma não menos importante, através da extensão exponencial e esmagadora do crédito.

No presente período, os países do Leste europeu e, especialmente, a China integraram-se definitivamente às peripécias do mercado mundial capitalista, conduzidos por suas respectivas burocracias, tornadas fiéis defensores das maravilhas do mercado. Além desses, os chamados “países emergentes”, na esteira do contra-reformismo neoliberal, ajustaram suas economias a uma cada vez mais profunda integração, até alcançar o ponto da irreversibilidade nos marcos da lei do valor. Qualquer recuo, mantidas as condições capitalistas, será o desastre.

E como ir para frente? Além disso, não se deve supor, em nenhum momento, que o grau de integração obtido signifique que se tenha constituído, então, um mar de paz e tranqüilidade entre seus componentes. A integração capitalista não elimina as contradições que lhe são inerentes; pelo contrário, exacerba-as. E foi assim, em termos gerais, que foi tecida a integração econômica, dentro da camisa-de-força da lei do valor. Qual a sua elasticidade à hora de cobrir as poderosas contradições evidenciadas agora com a crise? Camisa-de-força e saco de gatos – as duas coisas ao mesmo tempo! Isto vai se rasgar feio!

Quando se falar de estratégia burguesa, deve-se sempre relativizar a envergadura e o alcance de suas perspectivas. Estas não podem se estruturar mais que espontaneamente, na crista de uma abordagem empírica e unilateral. Seu único argumento de perspectivas são as aparências superficiais que o mercado faz emergir, e não a sua essência tumultuosa, e dele só consegue enxergar as setas para cima e para baixo, no momento crítico em que se tem que avançar ou recuar. Enquanto a seta aponta para cima, vão ansiosamente às compras, como se fosse à única coisa a fazer. E, na verdade, de seu ponto de vista, eles não têm mais a fazer do que seguir a seta. Não enxergam nada sob a superfície.

Para se manter no poder, a burguesia vai produzir muitas calamidades ainda. E, a partir de agora, estará mais motivada do que nunca. Que calamidades podem-se esperar do gênio político da burguesia, visto que seu gênio econômico escapuliu definitivamente do fundo da garrafa? Quanto a isto, poderemos ver que o seu arsenal de medidas é sempre o mesmo. Os burgueses têm a ilusão de que as mesmas medidas de ontem servem para o dia de hoje e para o dia de amanhã. Não medem o seu custo social exponencial. Nada aprenderam da história, e como o poderiam? Não podem continuar o jogo senão dentro das mesmas regras: a extração da mais-valia dos trabalhadores; e isto está se tornando muitíssimo complicado. O que resta da “democracia” burguesa terá de ser definitivamente descartado, em seu interesse.

Em primeiro lugar, a burguesia continuará mentindo, o que sempre fez, mas lançando a demagogia mais abjeta e virulenta, se isto é possível. Seus demagogos já estão de plantão (Sarkozy é o seu paladino atual). Já vimos sua mídia meretriz tentar defender ou fazer vistas grossas aos seus bufões políticos do tipo Berlusconi, estas sementes venenosas e maliciosas sobreviventes do período anterior. Como não haverá mais boom econômico sob seu comando, os contingentes tão necessários antes de mão-de-obra migrante se tornarão absolutamente dispensáveis. Teremos aí o caldo de cultura para uma nova e mais elevada etapa de racismo e discriminação – no eixo da sua surrada estratégia de dividir a classe trabalhadora.

A burguesia tentará enclausurar em guetos, em seus próprios países e nos países de origem dos migrantes (com o auxílio de seus ditadores nativos, neocoloniais), os excedentes populacionais lançados na mais extrema miséria. Tentará encobrir, com todo o cinismo de que é capaz, a luta de classes com um véu policial – veja-se o que está acontecendo na periferia das grandes cidades, por exemplo, do Brasil. Quando a farinha é pouca, meu pirão primeiro! O centro e a periferia se desgarrarão cada vez mais. Mas isto não conterá o desdobramento da luta de classes no próprio seio do centro capitalista. A burguesia então descobrirá que esta política terá vida muito curta. Entre os de baixo a união, embora mais difícil de construir, é mais firme, pois não é comprada.

No pós-guerra, a burguesia contou com aliados absolutamente estratégicos: a liderança “burguesa” do movimento da classe trabalhadora, sua ala reformista. À margem, mas não menos importante, contou ainda com a burocracia estalinista dos países do Leste Europeu, e, posteriormente, da China, que realizou a tarefa de destruição sistemática da economia socialista planificada. Este foi o choque mais brutal na consciência do proletariado e que deu foros de “legitimidade” à aliança estratégica da burguesia com a liderança reformista do movimento da classe trabalhadora.

Uma vez rompida esta aliança política, que alianças com perspectivas de longo prazo a burguesia poderá forjar para se manter no poder? Seja qual for não haverá terreno firme sob os seus pés. Que sobras de sua mesa poderá ainda dispensar às chamadas classes médias?

Para se permitir isto, contou com aliados importantes e absolutamente necessários: a liderança reformista do movimento da classe trabalhadora. Os partidos pequeno-burgueses há muito que não contam nessa equação em termos significativos e seu papel declina cada vez mais. Podemos nos despedir desse pessoal. Agora, está se iniciando o prolongado processo de afastamento da liderança reformista do movimento proletário. Limpo assim o cenário, chegará a hora da prestação de contas: agarraremos a burguesia não mais através do pescoço de seus aliados estratégicos, já que sua aliança estratégica está se desfazendo. Este é o fato novo desde a Revolução Russa.

Dito assim parece simples. Mas é assim que se devem discernir as perspectivas reais no plano da abstração. Na prática, ainda há muitos cadáveres atrapalhando os vivos. E necessitam ser enterrados e bem enterrados para que não exalem mais o seu fedor e pestilência.

E não conseguiremos apenas com belos e inflamados discursos despertar o proletariado de seu sono prolongado – deixemos isto para os sectários; é somente isto o que eles sabem fazer e o farão com certeza mais uma vez sem êxito. O proletariado de todo o mundo somente despertará para a vida política com acontecimentos realmente grandes, objetivos e reais que impactem todo o contexto social, econômico e político, e a sua psicologia.

Neste contexto, poderemos esperar e atuar, pacientemente, mas sem perder de vista todas as possibilidades, por mínimas que sejam de conectar com a classe. O novo episódio revolucionário que se avizinha não guardará as mesmas características da Revolução Russa. Apenas retomaremos o fio rompido com sua derrota pelo estalinismo. Para atrapalhar a luta final entre os dois protagonistas centrais, há uma quantidade ingente de lixo ideológico acumulado desde a Revolução Russa que necessita ser varrido para o lado. E outro monte de lixo real, não menos gigantesco, a ser varrido durante o período de transição. Alguns séculos de hegemonia burguesa não poderiam passar sem deixar registros de irracionalidade na consciência da humanidade como um todo.

Do lado dos ideólogos burgueses, eis algo surpreendente: parece que, salvo raras exceções, ninguém está realmente muito interessado ou preocupado com as nuvens que estão se acumulando no horizonte. Não estão percebendo que, apesar de poucas ainda, elas apresentam um perfil um tanto quanto diferente e ameaçador, quando se as olham com olhar mais aguçado.

Os mais inteligentes estrategistas do capital (e, também, os mais perigosamente maliciosos) são os únicos que se encontram confusos e invadidos de grande desconforto quando olham para suas bolas de cristal. Seus radares devem estar se enchendo de interferências estranhas a identificar. Tudo ia tão bem, em seus céus de brigadeiro! Seus barômetros pregaram-lhe uma feia peça: não puderam enxergar a aproximação de uma tremenda e destrutiva tempestade. Agora, estão revendo seus conceitos básicos, que, a propósito, estão se cobrindo inesperada e rapidamente de ferrugem, e descobrindo aterrorizados que, em seus acervos intelectuais, não há novos conceitos que admitam utilizar. Agora, balbuciam meio envergonhados que “Marx talvez tenha tido razão!”.

Os demais sequer desconfiam do que está por vir – seus radares são muito rudimentares para tal façanha intelectual. Estão todos aí saltitantes, felizes e pimpões por estarem recuperando as perdas sofridas há pouco, utilizando as mesmas ferramentas (econômicas, financeiras e políticas) que os levaram a estabelecer a mais recente e já superada etapa na trajetória do barco da economia mundial. Fizeram pequenos reparos e o mesmo barco valorosamente foi posto a navegar de novo na primeira calmaria. O mesmíssimo barco de antes, apenas um pouco mais trôpego e alquebrado. Que belo espetáculo vai ele oferecer quando os primeiros ventos da tempestade social que se acumula logo ali, à frente, começarem a soprar mais fortes e com cruel indiferença, e isto é inelutável.

Este fato é revelador de que, do lado da burguesia, não há mais estadistas com mínimos lampejos de inteligência política. Seu estadismo ou é truculento, do tipo Bush, ou catatônico, do tipo Obama. Obama, e tudo o que ele representa de dejà vu na política, vai ser ainda mais decepcionante que Bush. A classe trabalhadora e os pobres americanos nunca o perdoarão por fechar as cortinas do cenário do último ato do “sonho americano”, este pequeno e insignificante torrão de açúcar no saco de amarguras do capitalismo americano.

Pois bem, a panela de pressão dá sinais de ebulição e, desta vez, para valer. Dissipar o vapor acumulado vai exigir uma válvula que não se encontra em seus almoxarifados. Tudo que correspondia à luta política da burguesia do período histórico imediatamente anterior já se encontra gasto e sovado, em termos de alianças políticas, de controle social, de economia e de política – e não sobram muitas alternativas em sua bagagem.

De agora em diante, nada mais funcionará em suas pretensões de intervir “marginalmente”. Entenda-se o termo “marginalmente” como a estratégia de intervenção estatal do mal chamado neoliberalismo econômico. Os Estados imperialistas de todo o mundo esgotaram há pouco este modelo intervindo “marginalmente” de forma extraordinariamente maciça com dinheiro público, para salvar os bancos e os banqueiros, queimando suas últimas reservas. Agora, que as “forças cegas” do mercado nada mais têm a dizer, eles vão apelar para as reservas humanas da sociedade. O darwinismo social terá algo de imediato a dizer no período de guerra social que se anuncia. Logo esta estratégia também será superada pelos fatos. E a burguesia apelará para o bonapartismo, uma arma também já gasta, pois não contará mais com base social alguma. Suas agências de dominação ideológica terão muito trabalho a frente para empurrar pela goela adentro da sociedade seus argumentos endurecidos e carcomidos pelo tempo. Aliás, o tempo já é o maior inimigo da burguesia desde a I Guerra Mundial. E a perspectiva real é de que, ao tempo, agora se una o ingrediente catalisador, o proletariado organizado.

O período de relativa calma que antecedeu este perigoso hiato iniciado agora já foi esclarecedora e suficientemente investigado por nossa Internacional. O gigantesco trabalho teórico e político conduzido por Ted Grant e seu grupo tem o mérito de ter se tornado a única referência revolucionária marxista autêntica neste mundo velho sem porteira. Mérito, rigorosamente falando, bem merecido. Homens, como Ted Grant, Alan Woods e outros camaradas próximos mantiveram não somente a luz acesa, mas também brilhando intensamente. Formaram e estão formando os quadros da futura revolução, seguindo a mesma linha de seus predecessores imediatos, Lenine e Trotsky. Ted Grant representa a ligação entre a geração de revolucionários anterior e a atual.

A leitura e o estudo dos textos desses magníficos camaradas é a tarefa do momento imediato, enquanto procuram com afinco, persistência, perseverança e paciência ampliar sua base de inserção na classe trabalhadora, ainda muito incipiente e frágil. Os quadros devem se armar da necessária teoria e, com isto e junto a isto, aprenderem a aguçar a sensibilidade política do momento histórico; devem se preparar para não serem pegos com as calças nas mãos. Mas, cuidado, nada de pressas: o apressado come cru e pode ganhar somente uma brutal indigestão. As sementes plantadas frutificarão em seu devido tempo. Tenhamos confiança nas massas.

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