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A marcha de Barcelona contra o terrorismo: um tapa na cara dos imperialistas e dos belicistas

Há uma semana, a sociedade catalã e espanhola foi sacudida por dois atentados terroristas mortais em Barcelona e na cidade de Cambrils. As forças da reação imediatamente aproveitaram a oportunidade para espalhar seu veneno racista, semear medo e divisão, promover medidas repressivas em casa e intensificar suas intervenções imperialistas no exterior.

O mais notável, talvez, é que os comentaristas de direita tentaram virar esses ataques contra a autodeterminação catalã e contra o referendo da independência de 1 de outubro. Eles atacaram violentamente o governo nacionalista da Catalunha e a política autônoma catalã. Também viraram o incidente contra o partido de esquerda Podemos e seus aliados no conselho da cidade de Barcelona, liderado pelo prefeito de esquerda Ada Colau, que foram acusados de não fazer o suficiente para combater o terrorismo.

Toda essa histeria fracassou espetacularmente no sábado, dia 26, quando uma manifestação de massa, patrocinada pelo estado, foi convocada em Barcelona, contando com a participação de meio milhão de pessoas. Era para ser uma demonstração de força do estado espanhol e uma ocasião para reafirmar suas embaçadas proezas na Catalunha. Não só Rajoy e todo o seu gabinete participaram da marcha, também participou o rei Felipe VI – a primeira vez que um monarca espanhol assistiu a uma manifestação pública. A mídia burguesa espanhola deu um grande impulso e criou grandes expectativas em torno da manifestação. Mas as coisas saíram terrivelmente mal. Os representantes do estado espanhol primeiro tiveram que tolerar a decisão embaraçosa, tomada por Ada Colau sob a pressão da Listas de Unidade Popular (CUP)  de esquerda, de colocar os representantes políticos fora do centro das atenções. Eles foram colocados em um segundo bloco, atrás das bandeiras desfraldadas, sob a palavra de ordem No tinc por (Não tenho medo), que eram carregadas por trabalhadores envolvidos nas operações de emergência no dia dos atentados: médicos, enfermeiros, bombeiros, operadores do transporte público e também alguns policiais, e representantes de várias associações de bairro e da comunidade islâmica.

A pé e na retaguarda, o rei e os políticos do PP tiveram que passar por uma vaia estrondosa, assovios e zombarias de milhares de manifestantes. Durante toda a marcha, Rajoy e Felipe VI, foram obrigados a tolerar este constante e irresistível alvoroço. Isto representa uma vergonha sem precedentes para a monarquia e o estado espanhol, e, por extensão, para o establishment e o regime pós-Franco. A mídia de direita não conseguiu esconder a vaia, e não poderia apresentá-la como ato de pequenos grupos de perturbadores da ordem, e teve que admitir, a contragosto, que a maioria dos manifestantes era hostil à presença do presidente e do monarca.

Em contraste, Ada Colau, o líder de Podemos, Pablo Iglesias, e os políticos do partido de centro-esquerda Esquerda Republicana Catalã (ERC)  foram ovacionados. O presidente catalão, Carles Puigdemont, também foi aclamado, apesar de ser um cínico, um demagogo de direita, o que revela os sentimentos contraditórios da multidão. No entanto, para muitos catalães comuns de esquerda, o caráter reacionário de Puigdemont é fácil de esquecer ante o dilúvio de acusações absurdas lançadas contra ele pelo establishment espanhol, e pelo fato de que ele cultivou de forma astuta o apoio dos nacionalistas de esquerda do ERC.

Rajoy e o rei não foram apenas vaiados: foram completamente rodeados por um enxame de bandeiras catalãs pró-independência, e também por algumas bandeiras republicanas espanholas, e por banners extremamente militantes que pediam paz, liberdade, contra o racismo e a islamofobia, e, mais significativamente, denunciando os acordos do capitalismo espanhol, e pessoalmente do rei, com a monarquia saudita. Lia-se no banner mais visível: “Felipe, as pessoas que querem paz não lidam com armas”. Somente poucos metros atrás do rei havia um enorme banner que atravessava toda a marcha com imagens de Felipe com xeques sauditas e de Bush, Blair e Aznar, os responsáveis pela guerra do Iraque de 2003, e com a palavra de ordem “suas políticas, nossos mortos”. Um banner semelhante foi desfraldado com o lado para cima para ser visto pelos helicópteros. Havia cartazes que ligavam diretamente os atentados terroristas em Barcelona às guerras no Iraque e no Afeganistão. Um pequeno grupo de manifestantes monarquistas carregando bandeiras espanholas teve que ser escoltado para fora da marcha pela polícia devido às constantes objeções dos manifestantes.

Estas são palavras de ordem extremamente avançadas, relacionando o terrorismo às políticas imperialistas das potências ocidentais no Oriente Médio e às ditaduras fundamentalistas, como a Arábia Saudita, apoiadas pelo Ocidente. O establishment espanhol está visivelmente desconcertado. A direita, que queria gerar medo e inação, não gosta nem mesmo do slogan oficial No tinc por. O jornal conservador El Español escreveu em seu editorial: “o principal slogan da manifestação é censurável, porque depois do que aconteceu em Barcelona e em outras cidades europeias, a coisa normal seria ‘ter medo’ ante o caráter aleatório e indiscriminado dos atentados Jihadistas” (El Español, 26/08/2017).

É muito significativo que a direita não tenha sido capaz de capitalizar esses atentados como havia planejado. Apesar de toda a propaganda oficial, centenas de milhares de pessoas se mobilizaram por trás de slogans anti-guerra, antirracistas e antimonárquico. O papel desempenhado nestes eventos pelos radicais pró-independência da esquerda catalã, particularmente da CUP,foi digno de elogio. Desde o primeiro dia, recusaram-se a entrar em qualquer bloco com o establishment espanhol e corajosamente puseram a culpa do fundamentalismo islâmico nas políticas imperialistas do governo e de seus aliados no exterior. No dia da manifestação, organizaram uma marcha separada, convocada em conjunto com um grande número de associações da sociedade civil, de esquerda e de bairro, em oposição à presença de Rajoy e do rei na marcha oficial. Isso contrastou com a posição de Podemos e de Ada Colau. Apesar de suas críticas corretas às políticas belicistas de Rajoy e das conexões pessoais do rei com a monarquia saudita, caíram em apelos à unidade nacional e se opuseram às tentativas de “politizar” a manifestação (como se a presença de Rajoy e do rei não fosse uma tentativa flagrante de politizá-la). Poderiam aprender uma ou duas coisas da CUP.

No entanto, embora aplaudamos a coragem dos camaradas da CUP, também devemos dizer que sua crítica correta do imperialismo espanhol contrasta com o seu apoio à coalizão nacionalista dirigida pela direita na Catalunha. O partido nacionalista conservador PDeCAT (Partido Democrático Europeu da Catalunha), que encabeça esta coalizão, serviu historicamente como um aliado útil do imperialismo espanhol no parlamento em Madri. Por exemplo, votaram a favor do bombardeio da Líbia em 2011, e apoiaram previamente as diferentes etapas da operação no Afeganistão. Mais recentemente, concordaram em princípio em assinar o pacto antiterrorista espanhol patrocinado pelo PP. Esse partido também representa os interesses da burguesia catalã, que não é menos voraz do que sua homóloga espanhola, e seus aliados externos não são menos desprezíveis, mantendo conexões próximas com o Qatar, em particular. Uma luta consistente contra as políticas belicistas e capitalistas que assolaram o Oriente Médio e plantaram as sementes do fundamentalismo islâmico, e que transformaram os bairros internos negligenciados de muitas cidades europeias em terreno fértil para os Jihadistas, requer uma luta contra a classe dominante tanto na Espanha quanto na Catalunha, uma luta que pode reunir e conquistar os trabalhadores e os oprimidos da Espanha e da Catalunha.

Artigo publicado em 29 de agosto, no site da Corrente Marxista Internacional, sob o título “The Barcelona march against terrorism: a slap in the face of the imperialists and the warmongers“.

Tradução Fabiano Leite.

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