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American Protectionism. Foto: Susan Walsh

A guerra de Trump à globalização

Em 31 de março acabou o prazo para um acordo de comércio entre Trump e o Canadá, Japão, México e União Europeia. O fracasso em se alcançar um acordo significa que as tarifas do aço e do alumínio anunciadas por Trump entraram em vigor. Com isso, Trump começou o processo de desmembramento da globalização. No sábado seguinte, os ministros das finanças do G-7 se reuniram e os 6 ministros não-estadunidenses se uniram contra os EUA, expressando sua “preocupação e decepção unânimes” sobre a decisão estadunidense.

O ministro francês das finanças (e a França está particularmente molestada com os EUA sobre o Irã) brincou ao dizer que era a reunião do G6+1 (uma referência a como a participação da Rússia é frequentemente referida como G7+1). Esta é uma acusação condenatória das relações entre os EUA e seus mais próximos aliados.

Trump conseguiu enfurecer não só à China e à Rússia, mas também aos seus mais importantes aliados. O fato de que ele tenha citado a “segurança nacional” como uma razão adiciona insultos à injúria. Como afirmou o ministro das finanças canadense “é um absurdo pensar que o Canadá pode de alguma forma ser um risco à segurança dos Estados Unidos”.

Em meio ao establishment estadunidense isso é particularmente preocupante porque estão intranquilos com a China e com a política industrial e comercial chinesa. Eles gostariam de usar a União Europeia e o Japão como alavancas contra a China, algo que ficaria totalmente de lado. De fato, nas negociações comerciais na China, os EUA levantaram ao mesmo tempo duas preocupações. Trump tem pressionado para forçar a China a comprar mais produtos dos EUA, enquanto a classe dominante dos EUA, em geral, está preocupada com a propriedade intelectual e com a (forçada) transferência de tecnologia à China. Isso reflete a profunda divisão que existe entre a administração Trump e um setor significativo da classe dominante estadunidense.

A disputa entre Trump e os demais não é apenas uma questão de tarifas, mas sim uma questão do princípio do comércio livre em geral. A União Europeia tem tarifas contra o aço chinês, implementadas no auge da crise do aço há alguns anos. Trump quer que a União Europeia concorde, não com esta ou aquela medida que possa beneficiar uma empresa dos EUA e, assim, impulsionar as exportações, mas para uma faixa inteira de bens. Tal como acontece com a China, ele quer que a União Europeia, o Canadá etc., concordem em reduzir seus superávits comerciais com os EUA.

Do ponto de vista de qualquer teoria econômica, isso é loucura. O objetivo do comércio internacional é melhorar a eficiência através da concorrência global, que funciona melhor sem restrições. Esta é a famosa mão invisível de Adam Smith, segundo a qual os recursos serão alocados da forma mais eficiente se o mercado é deixado sem restrições. Na realidade, é claro, existem muitas barreiras tanto para o comércio quanto para o livre funcionamento do mercado. Ainda assim, este continua sendo o princípio geral que foi estabelecido nas relações internacionais durante todo um período histórico. O argumento é que, se todos reduzirem suas barreiras ao comércio, todos se beneficiarão. Essa contribuição de Adam Smith foi estabelecida contra a teoria dominante do mercantilismo, que se esforçava para maximizar o comércio lucrativo.

O comércio livre promove a concorrência e, através da concorrência, o desenvolvimento das forças produtivas, expulsando trabalhadores, empresas e nações que não são suficientemente competitivos. Assim, prevalecerão as formas mais eficientes de produção. Embora isso possa ser verdade como um princípio abstrato, somente funciona quando todos estão se beneficiando em um grau ou outro. No momento em que o sistema capitalista como um todo entra em crise séria, é improvável que as pessoas diretamente afetadas, principalmente os capitalistas individuais que são incapazes de acompanhar as empresas mais competitivas, estejam dispostas a sacrificar seu sustento pelo princípio da mão invisível. O absurdo da concorrência é, naturalmente, que, embora promova a eficiência no longo prazo, só o faz destruindo as forças produtivas no curto prazo, algo que em qualquer sociedade racionalmente planificada seria completamente desnecessário. Naturalmente, o capitalismo não é nem racional nem planificado e, do ponto de vista capitalista, a “destruição criativa” do comércio mundial é essencial.

Por todo um período, o princípio do livre comércio foi consagrado em centenas de tratados, de bilaterais a multilaterais. No entanto, Trump não tem nem uma pisca de mercantilismo em suas ideias. Ele está pressionando por acordos comerciais que eliminem os déficits comerciais, não para elevar a competitividade das empresas estadunidenses (através de investimentos), mas utilizando a influência econômica e militar dos EUA para forçar outras nações a aumentar as importações dos EUA ou reduzir suas exportações para os EUA. Conseguiram isto com a Coreia do Sul, que assinou precisamente esse tratado. Como assinala o editorial de Financial Times: “Isso é puro bilateralismo e comércio administrado, e, como tal, claramente uma violação dos princípios da OMC”.

A União Europeia e o Canadá pretendem se opor a isto. Fazem isso, é claro, em parte por seus próprios interesses, visto que já têm um superávit comercial que gostariam de manter com os EUA, mas também como parte de uma tentativa geral da classe capitalista internacional de salvar a economia mundial do desastre. Eles gostariam de salvar as instituições e tratados de livre comércio que foram construídos nos últimos 70 anos. Neste contexto, a União Europeia e o Canadá são apoiados pela maioria da classe dominante estadunidense, que se opõe a Trump neste ponto. A propósito, a oposição de Obama ao Brexit foi pelo mesmo motivo.

A declaração dos 6 referia-se precisamente a este ponto, dizendo que a reunião do G7 “deveria restaurar as parcerias de colaboração para promover o comércio livre, justo, previsível e mutuamente benéfico” e que “a colaboração e a cooperação foram postas em risco pelas ações comerciais contra outros membros”.

Como sempre, Trump está cheio de arrogância: “Quando se ganha cerca de 800 bilhões de dólares ao ano em comércio, não se pode perder uma Guerra Comercial!” Ele trata a economia mundial como um jogo, onde a perda de um jogador é o ganho do outro. Na realidade, uma guerra comercial entre as economias mais importantes levaria a enormes perdas por todos os lados. O ministro canadense de Assuntos Externos disse o mesmo quando afirmou que “sabemos que as políticas de empobrecer o vizinho não funcionam. Esta foi a lição dos anos 1920 e 1930”. De fato, o protecionismo transformou a recessão dos anos 1930 em depressão.

Os 6 países estão agora apresentando uma queixa contra os EUA à Organização Mundial do Comércio (OMC), mas é duvidoso que os EUA acatem qualquer decisão. Trump já demonstrou desprezo pela OMC ao bloquear a nomeação de novos juízes para este mesmo tribunal, paralisando o processo de resolução de disputas da organização. Por enquanto, a principal disputa é com os EUA, mas não é apenas sobre os EUA. A pergunta surgirá inevitavelmente: por que os outros países devem acatar a OMC se os EUA não o fazem?

Os EUA vêm sendo há 70 anos os executores e garantidores do livre comércio na parte capitalista do mundo. Se não querem mais desempenhar este papel, e estão sabotando ativamente o processo, quem vai assumir o seu lugar? A União Europeia está muito fraca e dividida, e sofre pressões semelhantes na Itália e na Grã-Bretanha. A China tem alguns problemas de credibilidade, dadas as suas barreiras comerciais. Na realidade, não há nenhum outro país além dos EUA que possa desempenhar este papel. A principal esperança que a classe dominante tem é limitar Trump, usando o Congresso dos EUA e vários tipos de medidas retaliatórias, dirigidas contra os seguidores de Trump. Então, eventualmente, em algum momento, esperam substituí-lo, possivelmente como resultado de um processo de impeachment. O que ignoram é que as mesmas condições sociais que deram origem a Trump não garantirão a estabilidade do sistema político estadunidense. Mesmo que tenham êxito em remover Trump de alguma forma, não existe garantias de que podem obter o tipo de presidente que desejam.

A globalização, junto à expansão do crédito, permitiu que a classe capitalista estendesse o auge do pós-guerra muito além de seus limites. Tudo isso agora está virando o seu contrário. A crise atual das relações mundiais e as ameaças ao livre comércio fazem parte da crise econômica. Aconteça o que acontecer, o período de livre comércio está chegando ao fim, o que, por sua vez, dará início a um período de crise profunda de todo o sistema.

Isso significa que os sonhos de muitos de que é possível um retorno a um período de prosperidade, serão destruídos. A incapacidade do capitalismo de oferecer um padrão de vida decente para a classe trabalhadora levará a crises sociais e políticas sucessivas, até que o sistema finalmente seja derrubado. Trump é a clara expressão do beco sem saída em que o sistema entrou.

Artigo publicado originalmente em 4 de junho, no site da Corrente Marxista Internacional (CMI), sob o título “Trump’s war on globalisation“.

Tradução Fabiano Leite.

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