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A Greve Geral no Paraguai

Excelente artigo sobre a situação política neste extraordinário e tão sofrido país. No último dia 26 de março, a classe trabalhadora paraguaia realizou uma greve geral de 24 horas, depois de duas décadas, unificando diferentes setores dos trabalhadores, camponeses e a juventude.

No último dia 26 de março, a classe trabalhadora paraguaia realizou uma greve geral de 24 horas, depois de duas décadas, unificando diferentes setores dos trabalhadores, camponeses e a juventude.

 

Os ventos anticapitalistas que rodeiam o mundo e resultam em ações políticas dos trabalhadores chegaram ao Paraguai. No último dia 26 de março, uma greve geral parou o país inteiro. Trabalhadores da indústria, do campo, as universidades e o setor público amanheceram nas ruas, mostrando um novo patamar de lutas no país, pressionando o governo de Horacio Cartes, do Partido Colorado, que tem implementado uma política de submissão ao imperialismo, promovendo ataques aos trabalhadores e precarizando, ainda mais, os serviços públicos.

Os enfrentamentos têm crescido desde outubro de 2013, quando foi aprovada no Senado a lei Aliança Público-Privada (APP). Essa lei, que conhecemos muito bem aqui no Brasil, aprofunda a entrega da administração das empresas públicas para organizações econômicas transnacionais, deixando claras as intenções do presidente, que é empresário do ramo do tabaco.

Tal política não é novidade no país, já que o controle dos negócios tem sido recorrente pelo Partido Colorado desde os tempos da recém abolida ditadura sofrida no Paraguai. Ocorre que as contradições ficaram ainda mais evidentes.

Não satisfeito com a lei das APPs, o mesmo Senado, controlado majoritariamente pelo Partido Colorado e o Partido Liberal (de “oposição”, mas defensor da burguesia assim como o primeiro), pretende privatizar 90% dos serviços públicos. Considerando a estrutura paraguaia, com baixa atividade industrial, significa atacar milhares de trabalhadores do serviço público, além das consequências para o conjunto da população que depende da saúde, educação, transporte públicos.

As consequências destas medidas ficaram ainda mais claras com o recente aumento da passagem do transporte público, a decadência dos hospitais e serviços de saúde ao povo e a falta de atenção às escolas e demais instituições públicas nos últimos meses. Portanto, o descontentamento é generalizado em diferentes segmentos da classe trabalhadora e visível no cotidiano das ruas paraguaias.

A unidade da classe

Todos os anos, em março, a Federação Nacional Campesina (FNC) realiza a sua própria marcha contra o agronegócio e reivindica terras expropriadas. No entanto, neste ano, os ventos que sacodem as estruturas da ordem capitalista em todo o mundo, chegam ao Paraguai, resultando em uma ação unitária fantástica.

“Pelo menos em 60 anos, não tinha acontecido manifestação tão grande no Paraguai”, declara Ricardo Canese, Secretário de Relações Internacionais da Frente Guasu. A Federação Nacional de Camponeses FNC, a Central Única de Trabalhadores Autentica CUT-A, a Frente Guasu, o Sindicato de Estudantes, aposentados, e até setores do Partido Liberal(!) participaram da massiva concentração na “Plazas de las Armas”, no centro político de Assunção. Contou-se com uma participação do 80% dos setores convocados no país inteiro.

Junto com a tradicional marcha camponesa, a classe trabalhadora convocou uma greve geral, por 24 horas, unindo suas forças aos camponeses que vem de diversos estados do país.

Reforçando a necessidade da reforma agrária e de que o governo pare de se comportar como “capataz” dos plantadores de soja (muitos são os chamados “brasiguaios”, brasileiros que dominam as terras do oriente do país) e eternos latifundiários que mancham de sangue a terra, cerca de 20 mil camponeses ocuparam a frente do Congresso Nacional “contra os traidores da nação”.

Em especial, reivindicaram a soltura dos presos políticos do massacre de Curuguaty, no qual foram criminalizados camponeses em uma ação planejada pela milícia a serviços dos latifundiários, resultando na morte de camponeses, forte repressão e foi o estopim para realizar o golpe que depôs o ex-presidente Fernando Lugo. Os presos políticos estão em greve de fome há 40 dias no presídio de Tacumbu, gerando forte comoção entre todos os camponeses, a classe trabalhadora e a juventude.

Ao mesmo tempo, estudantes secundaristas e universitários se uniram a professores e funcionários contra o projeto de privatização da educação e em defesa do “ensino público, gratuito e de qualidade”. No momento, denunciam em manifesto, “não há as mínimas condições de infraestrutura”, “com aulas sendo dadas embaixo de árvores e falta de educadores no interior”.

Junto com isso, vimos se expressar centenas de lutas trabalhistas em diferentes categorias, como nos setores de comunicação, transporte, administração pública, educação e aposentados da Itaipu Binacional, que, 20 anos depois de concluírem os seus trabalhos, não receberam nenhum tipo de aposentadoria. Também os estudantes exigiram educação de qualidade e maior inclusão nas universidades públicas.

Assim, as palavras de ordem foram “Não à lei sobre as APPs”, “não à militarização do campo”, “não ao sucateamento do serviço público”, “liberdade dos presos políticos de Curuguaty”.

A articulação de todas estas organizações, que chegaram a mobilizar milhares de paraguaios no país inteiro chegou a agrupar, só em Assunção, mais de 15 mil pessoas. A Frente Guasu, que aglutina dezenas de organizações, junto com a FNC e Centrais Sindicais, como a CUT-A, encarregaram-se de coordenar essa manifestação histórica e sem precedentes em termos de tamanho e força.

O presidente da Central Unitária de Trabalhadores Autêntica (CUT-A), Bernardo Rojas, destacou que está é uma quarta-feira “extraordinária e histórica”, pois o movimento social paraguaio conseguiu somar organizações camponesas, comunitárias e estudantis, furando o cerco do governo e da mídia “e fazendo chegar as suas propostas até a sociedade”. “Foi a intensidade desta pressão que obrigou o governo a sentar à mesa. Agora é o momento de aprofundar a unidade e a mobilização”, acrescentou.

Não houve repressão da polícia, apesar do grande contingente policial e militar que monitoraram as ações em todo o país. Horacio Cartes havia expressado “preocupação” com a ordem pública e criado um clima de grande tensão e medo, como forma de intimidar os manifestantes. Obviamente, os grandes meios de comunicação, atrelados à oligarquia, tanto do Partido Colorado como do Partido Liberal, optaram por minimizar a greve geral e a unidade realizada, refletindo a pouca repercussão nos demais países.

Próximos passos

Quase 100 mil pessoas foram mobilizadas na nação paraguaia, a mesma que é mostrada por vários setores da imprensa como “não participativa” da política social do país. O sucesso da greve geral foi claro. Os setores governistas, latifundiários e patronais alegaram um prejuízo de 50 milhões de dólares por causa das 24 horas que durou a greve. Ótimo! Imaginem se fosse uma greve de 48 horas? E se fosse por prazo indeterminado?

A greve geral de 24 horas precisa se tornar uma greve geral por prazo indeterminado. É a mesma necessidade que temos visto nos países europeus. A partir desses passos, fazendo a experiência, os trabalhadores e a juventude pressionam suas direções e devem continuar nas ruas e nas lutas, combatendo pelas suas reivindicações.

Bernardo Rojas, dirigente do CUT-A e Marcial Gomez da FNC declararam que não havia nada mais a ser discutido e que as demandas são concisas: o povo sabe o que quer.

O governo paraguaio está num impasse, mais uma vez. Não pode reconhecer o sucesso que foi a ação unitária dos trabalhadores paraguaios. Esses saem fortalecidos e com encaminhamentos tomados, como o Festival Popular pela Greve Geral, realizado em seguida, apresentando vários agrupamentos musicais e artísticos, e o ato de Liberação dos Presos Políticos, que ocorreu também no dia seguinte.

Alguns setores mais avançados, da vanguarda operária e da juventude, sabem que só o socialismo é a via para escapar do capitalismo. No Paraguai, as teses da revolução permanente e o programa de transição são os instrumentos teóricos fundamentais para compreender a ação política a ser realizada.

A Esquerda Marxista, seção brasileira da Corrente Marxista Internacional, se solidariza com a classe trabalhadora, a juventude e os camponeses do Paraguai,

As reivindicações unificadas apresentadas são:

–          Pela revogação da Lei de “Aliança Público-Privada”

–          Pelo reajuste de 25% no salário mínimo

–          Pela redução na passagem do transporte público

–          Pela reforma agrária e pelo respeito a vida no campo

–          Pela saúde e educação, gratuita e de qualidade

–          Pelo respeito aos direitos humanos e sindicais

Toda solidariedade aos trabalhadores, aos camponeses e à juventude do Paraguai.

Socialismo ou barbárie, venceremos!

Viva a solidariedade internacional da classe trabalhadora!

Veja as fotos da greve geral em http://ea.com.py/la-huelga-general-en-imagenes/

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