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A França Insubmissa e o movimento sindical

No editorial do número 19 do “Révolution”, publicado no início de outubro, escrevemos:

[…] em vez de se preparar uma luta séria [contra o governo de Macron], as lideranças sindicais não param de defender a “independência dos sindicatos” em relação aos partidos políticos. Isso é um recado para a França Insubmissa, que organizou uma manifestação política de massa em 23 de setembro. Mas essa noção de “independência sindical” é uma ideia equivocada e, em última instância, reacionária. Cria uma barreira artificial entre a luta sindical e a luta política.

Explicamos quais devem ser os respectivos – e complementares – papéis dos sindicatos e dos partidos de esquerda. Somente os sindicatos têm a capacidade de mobilizar massivamente nas empresas; os partidos de esquerda podem alavancar politicamente um movimento de massa contra toda a política governamental, com a perspectiva de dissolver a Assembleia Nacional e a promoção da eleição de um governo da “esquerda radical”.

Senão os únicos, propomos sozinhos tal abordagem. Mas, no final de outubro, Jean-Luc Mélenchon publicou em seu blog uma série de considerações que seguem nossa orientação e que merecem atenção, pois são uma ruptura bem-vinda à hipócrita tradição de líderes políticos de esquerda não criticarem lideranças sindicais – e vice-versa. “Hipócrita” por esse tipo de diplomacia repousar, basicamente, sobre afirmações não ditas: “eu faço o que quiser, você faz o que quiser, e as ovelhas (os trabalhadores) ficarão bem guardadas”. Uma divisão do trabalho implícita entre as lideranças sindicais e políticas para o controle das massas, mesmo em sua pura e simples traição, neste caso.

Mélenchon bate na ferida

Mélenchon, finalmente, tocou a ferida. Em sua nota de 30 de outubro, intitulada “De passagem por Atenas”, observa que, momentaneamente, Macron ganhou a batalha da Lei do Trabalho: “Como sei que Macron marcou ponto hoje? Porque pode se permitir avançar em tantas frentes sociais sem diminuir a velocidade”. Mélenchon continua: “A forma e a tática de resistência à política do governo não podem mais estar estancadas no ‘cada um por si’. É hora de organizar a união de esforços entre o movimento social, associativo e as forças políticas da resistência ao golpe de Estado social”. E continua: “No dia 23 de setembro, no meu discurso na Praça da República, […] fiz um gesto de recuo em apelo aos sindicatos para liderar todo o movimento e propus uma marcha geral na Avenida Champs-Elysée. Então se passa isso à nossa frente. A estratégia fracassada contra El Khomri [1] foi ainda pior na marcha contra Macron. […] Novamente, o dogma do ‘movimento social independente da política’ mostrou seu limite”.

Em nossa opinião, o principal líder da oposição de esquerda dizer coisas desse tipo é um importante passo à frente, pois incentiva os militantes sindicais a questionarem a estratégia errônea de suas lideranças. Claro, os líderes sindicais – e os dirigentes do PCF [2], sempre prontos para defender o soldado Martinez (CGT) [3] – ofenderam-se com isso: evidências a mais de que Mélenchon bate na ferida.

Greve por tempo indeterminado

Entretanto, devemos ir além. Claramente a proposta de organizar uma manifestação comum de sindicatos e da esquerda política é uma boa direção. Sua má recepção por lideranças sindicais é um lamentável erro apoiado em argumentos hipócritas. Mas mesmo que tal manifestação ocorresse daqui para frente, seria apenas um passo na luta contra o governo de Macron. Efetivamente não seria mais que, novamente, um ato, mesmo que tivesse um caráter diferente (mais político) que as tradicionais manifestações sindicais. A vitória contra Macron passará, inevitavelmente, pela organização de greves por tempo indeterminado. Mélenchon nada fala sobre isso no momento. Contudo, se explicasse isso, cumpriria bem seu papel. Com certeza ele atrairia a ira das lideranças sindicais e… da burguesia. Mas nisso que se reconhece a justeza de uma proposta!

Aliás, isso também se aplica à “Frente Social”, que reúne militantes sindicais muito combativos, mas que não desenvolve suficientemente a ideia da necessidade de preparação sistemática de um movimento grevista. Tal movimento é possível? Só a prática dirá. Mas devemos começar dizendo aos trabalhadores a verdade sobre o tipo de movimento que nos permitirá combater Macron.

[1] Menção à Myriam El Khomri, Ministra do Trabalho do governo socialista de Hollande que em 2016 empreendeu a contrarreforma da Lei do Trabalho. Para saber mais leia o artigo “Balanço do movimento contra a Lei do Trabalho na França” < http://www.marxismo.org.br/content/balanco-do-movimento-contra-a-lei-do-trabalho-na-franca/>, publicado em 22 de julho de 2016 (Nota do Tradutor – N.T.).

[2] Parti Communiste Français – Partido Comunista Francês (N.T.).

[3] Confédération Générale du Travail – Confederação Geral do Trabalho (N.T.).

Artigo publicado em Révolution, sítio da seção francesa da Corrente Marxista Internacional, sob o título La France insoumise et le mouvement syndical, em 12 de novembro de 2017.

Tradução de Nathan Belcavello de Oliveira

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