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A economia brasileira chegou ao fundo do poço?

As medidas apresentadas por Michel Temer são a continuidade, a aceleração e o aprofundamento das políticas do governo anterior de aumentar a exploração sobre a classe trabalhadora brasileira.

Comentaristas econômicos e jornalistas da imprensa burguesa há meses vêm atribuindo ao ex-Governo Dilma a responsabilidade pelos péssimos números da economia brasileira. Dizem que o governo anterior foi muito “gastão” e vivem insinuando que a corrupção desenfreada levou à atual situação.

Longe de nós sair em defesa da política econômica ou fiscal aplicada por Dilma (e Lula). Mas as críticas devem ser justas. Dilma não pode ser acusada de ter gasto excessivamente e nem a atual recessão econômica pode ser atribuída à “corrupção”.

A corrupção sempre se desenvolveu livremente no Brasil sob o capitalismo, mesmo em períodos de recessão ou de forte crescimento da economia. Não é a corrupção que determina os ciclos econômicos.

Dilma fez um governo austero, de ajuste, de cortes, na verdade gastou pouco. Economizou muito dinheiro da educação, da saúde, da reforma agrária, da habitação, da cultura e o colocou para pagar juros e amortização da dívida pública ao sistema financeiro. Cortou pensões, restringiu o acesso ao seguro desemprego, congelou orçamentos de pastas inteiras, arrochou salários de servidores públicos e reprimiu grevistas. Privatizou o pré-sal, hidrelétricas, portos, aeroportos, rodovias, etc. Dilma deve ser acusada de ter seguido à risca a cartilha que agora segue o governo Temer: de tirar do povo trabalhador e dar aos capitalistas.

A austeridade de Dilma, que já era grande, não foi suficiente para saciar os tubarões do mercado especulativo. Querem muito mais. Na verdade, a crise mundial do capitalismo que se revelou com força em 2008 está longe de ter encontrado solução. Será preciso ainda muita destruição de forças produtivas em todo o planeta. E o Brasil, que teve sua entrada na crise retardada por uma chuva de crédito, agora está mergulhado neste pântano até o pescoço.

O PIB do Brasil retraiu 3,8% em 2015 e tende a retrair mais 3,5% em 2016, segundo o IBGE. São dois anos seguidos de importante recessão. A taxa de desemprego bate os 12%. Para 2017, as previsões mais otimistas são de estagnação.

A situação é grave para a burguesia nativa porque o Brasil é hoje, numa lista de 25 países, o campeão em custo unitário do trabalho (Índice utilizado pelos economistas que mede o custo da produção em relação a salários e encargos de manufaturas). O custo unitário do trabalho no Brasil é de US$ 1,98, na Argentina é de US$ 1,87. Já na China é de apenas US$ 0,17. Nos EUA é de US$ 0,41, no Japão de US$ 0,44, e na Indonésia e no México é de US$ 0,48. Quanto mais baixo o custo unitário do trabalho, mais competitiva é a indústria ou o país.

Se a burguesia brasileira não conseguir reverter isso imediatamente, ela está liquidada no mercado capitalista. Esta é a base para a guerra civil econômica que a burguesia brasileira decidiu travar contra a classe trabalhadora. Seus ataques se traduzem centralmente na PEC do teto de gastos, nas contrarreformas Trabalhista, Previdenciária, da Educação e nas Privatizações.

Com um governo sem apoio popular, isso tudo só pode ser feito sob intensa repressão e criminalização dos movimentos sociais, para impedir a resistência popular e fazer nascer um novo país, com um custo de produção muito mais baixo, maior exploração da força de trabalho. Portanto, um país ainda mais desigual, com aprofundamento da miséria, crescimento do exército de reserva (desempregados) e destruição dos serviços públicos. É por isso que o Poder Judiciário vem cada vez mais ocupando o papel central neste novo regime que busca nascer.

A imprensa burguesa cumpre o papel auxiliar de buscar convencer de que estes ataques são “remédios necessários” para “estancar a sangria” desatada pelo governo anterior, quando na verdade são a continuidade, a aceleração e o aprofundamento das políticas do governo anterior de aumentar a exploração sobre a classe trabalhadora brasileira.

Fica claro que a solução para os trabalhadores não pode ser eleger novamente Lula em 2018. É preciso virar a mesa, que neste jogo só a burguesia ganha.

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