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A ditadura dos banqueiros

A cada dia que passa, a crise econômica da Europa está se transformando em uma profunda crise política.

A Itália e a Grécia têm ambos novos governos – governos de “unidade nacional”, que prometeram resolver a crise econômica e financeira que abalou a Europa em seus alicerces. Que são estes supostos governos tecnocráticos e que representam?

“Democracia pura” é a frase mentirosa de liberal que quer enganar os trabalhadores. A história sabe da democracia burguesa que toma o lugar do feudalismo, e da democracia proletária que toma o lugar da democracia burguesa…

“Tomai o parlamento burguês. Será possível admitir que o douto Kautsky nunca tenha ouvido falar que os parlamentos burgueses estão tanto mais submetidos à Bolsa e aos banqueiros, quanto mais desenvolvida está a democracia? Daqui não decorre que não se deva utilizar o parlamentarismo burguês, pois em 1912-1914 conquistamos toda a cúria operária da IV Duma. Mas disto decorre que só um liberal pode esquecer, como Kautsky esquece, o caráter historicamente limitado e relativo do parlamentarismo burguês. No mais democrático Estado burguês, as massas oprimidas deparam a cada passo com a contradição flagrante entre a igualdade formal, que a “democracia” dos capitalistas proclama, e os milhares de limitações e subterfúgios reais que fazem dos proletários escravos assalariados. É precisamente esta contradição que abre os olhos às massas para a podridão, a falsidade e a hipocrisia do capitalismo. É precisamente esta contradição que os agitadores e propagandistas do socialismo denunciam constantemente perante as massas a fim de as preparar para a revolução! E quando começou a era das revoluções, Kautsky voltou-lhe as costas e pôs-se a celebrar os encantos da democracia burguesa moribunda (V. I. Lênin, A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky, 1918).

O domínio dos banqueiros

The Independent (de domingo, 20 de novembro) escreve:

“O poder político na Europa passou às mãos de uma pequena elite de tecnocratas. Dois dias depois de o economista Lucas Papademos ser empossado como primeiro-ministro da Grécia, outro tecnocrata, Mario Monti, foi convidado para liderar um novo governo de unidade na Itália”.

Não é isto perfeitamente claro? Na Itália e na Grécia, o poder político não reside nos governos e ainda menos no eleitorado. Ele se encontra nas mãos de uma pequena elite de tecnocratas não eleitos. Não serão os governos democraticamente eleitos, mas os tecnocratas anônimos do ministério das finanças alemão, do Banco Central Europeu, do FMI e da Comissão Europeia, que decidirão sobre as condições de vida no futuro do povo da Grécia, da Itália e de toda a Europa. O mesmo artigo de The Independent acrescenta:

“Tecnocrata aqui é um eufemismo para alguém que trabalhou no ou com o banco de investimento Goldman Sachs, apelidado nos círculos financeiros de ‘a lula vampiro’. O Sr. Monti foi membro do conselho de assessores internacionais de Goldman. Mario Draghi, o novo presidente do Banco Central Europeu, que controla a política monetária da zona do euro, é um homem Goldman. Também o é Antonio Borges que, até quarta-feira, dirigia a divisão europeia do FMI. O Sr. Papademos é um ex-vice-presidente do mesmo Banco Central Europeu; ele é também o homem que dirigiu o Banco Central da Grécia no tempo em que este país, como a Itália, usava derivativos complexos para reduzir o tamanho aparente de suas dívidas governamentais a fim de se qualificar para aderir ao euro. As regras do euro determinavam que tais dívidas não deveriam ser superiores a 60% do tamanho da economia. Quem estava por trás desta inteligente ideia? Os magos financeiros de Goldman Sachs”.

Na Europa dos bancos e grandes monopólios, a democracia é uma ficção conveniente. Na União Europeia (UE) nem o Conselho de Ministros nem a Comissão são eleitos diretamente, enquanto o Parlamento Europeu é uma mera conversa no varejo sem nenhuma expressão real nas grandes decisões. As regras do mercado, quer dizer, os conselhos de administração de um punhado de grandes bancos e monopólios, decidem tudo. Eles decidem o que acontece com a poupança, os investimentos, os seguros e pensões de milhões de pessoas. Eles metem os dedos em cada torta. Eles compram os funcionários públicos tão facilmente como se poderia comprar um quilo de batatas no mercado – só que um pouco mais caro.

O golpe dos banqueiros

Já nas páginas de O Manifesto Comunista, Karl Marx explicava que o executivo de um Estado moderno “não é mais do que um comitê para gerir os negócios comuns de toda a classe burguesa”.

Em uma sociedade capitalista o domínio da lei, os direitos humanos, a liberdade de imprensa e tudo o mais são subjugados pelos imperativos econômicos do mercado. Em uma democracia burguesa todos podem dizer (mais ou menos) o que querem, contanto que os banqueiros decidam o que realmente acontece.

Na época do imperialismo e do capitalismo monopolista, isto é ainda mais verdadeiro que no passado. A burguesia finalmente pôs de lado a folha de parreira da democracia, que até então servia para esconder a realidade da ditadura camuflada dos bancos e monopólios. Os bancos e grandes monopólios encontram-se completamente envolvidos com o Estado. Os políticos são comprados e vendidos como qualquer outra mercadoria. Os governos são servos obedientes do grande negócio.

Na sexta-feira, 11 de novembro, Time Magazine publicou um artigo de Stephan Faris com o título: Mudança de regime na Europa: Equivalem a Grécia e a Itália a um golpe dos banqueiros? Ele diz o seguinte:

“A voz do povo não é algo que os mercados parecem querer ouvir nestes dias. Primeiro foi a Grécia, o berço da própria democracia, onde no início deste mês a mera menção de um referendo oferecendo aos seus cidadãos expressarem-se sobre uma série de graves medidas de austeridade foi o suficiente para enviar os mercados a uma queda em parafuso. Resultado final: o colapso da coalizão de governo do primeiro-ministro George Papandreou, a negativa de qualquer possibilidade de se consultar o povo e a instalação de um governo temporário sob a liderança de Lucas Papademos, um ex-vice-presidente do Banco Central Europeu e, até o início desta semana, professor-visitante em Harvard.

“Então veio a Itália. Como Atenas ameaçava vir abaixo, Roma viu-se sob pressão, não tanto por seu nível de endividamento – que apesar de alto égeralmente considerado dentro dos limites de sustentabilidade – quanto pelo comportamento errático de seu extravagante primeiro-ministro, Silvio Berlusconi. Na segunda-feira, sete de novembro, os investidores pareciam ter tomadoa decisão coletiva de que ele não seria mais confiável à frente da terceira maior economia da zona do euro, visto que enviou os custos dos empréstimos da Itália a níveis de crise. Até o final da semana, não somente estava Berlusconi no fim, como também a própria ideia de convocar eleições para substituí-lo. Os mercados tinham falado e eles não gostaram da ideia de ir ao eleitorado. “O país necessita de reformas, não de eleições”, disse Herman Van Rompuy, presidente do Conselho Europeu em uma visita a Roma na sexta-feira”.

Pelos cantos do parlamento de Roma há o rumor de que a remoção de Berlusconi se deu através de um golpe dos banqueiros. “Ontem, na câmara de deputados, estávamos amargamente brincando de que estávamos indo para um governo Goldman Sachs”, escreveu Time citando um parlamentar do governo Berlusconi, que pediu para permanecer anônimo alegando sensibilidade política. O governo de Silvio Berlusconi finalmente afundou sob o peso de sua própria podridão, atolado em escândalos e fedendo à corrupção por todos os poros. Berlusconi se envolveu na mais escandalosa manipulação do processo legislativo para promover os interesses de seu império pessoal. Embora Berlusconi tenha sido formalmente eleito por milhões de votos, não representava o povo que o elegeu. Na realidade, ele não representava a burguesia italiana, ou melhor, não a representava adequadamente. Ele representava principalmente a si mesmo e ao seu sincero desejo de permanecer fora das grades da prisão.

Durante duas décadas, a classe política corrupta e degenerada da Itália permitiu que esta farsa continuasse, enquanto, simultaneamente, permitia que a Itália afundasse cada vez mais em dívidas. Agora a história lhes deu o troco. Mas o que o povo da Itália obteve com o seu afastamento? A imposição de Mario Monti como primeiro-ministro italiano, o equivalente a um “golpe do mercado”, que suspendeu o funcionamento normal da democracia parlamentar na Grécia e na Itália. Burocratas não eleitos em Bruxelas decidem quem está no comando de uma importante nação ocidental. A Itália é agora governada por um homem que nunca foi eleito para qualquer cargo público, assessor sênior de Goldman Sachs e antigo Comissário Europeu.

Monti é um dos economistas mais eminentes da Itália, mas nunca foi eleito por ninguém. O presidente italiano Napolitano chamou-o ao seu gabinete e o fez senador vitalício. Então, lhe pediu para formar um novo governo para governar a Itália. Ninguém sequer pensou se valia a pena pedir a opinião do povo da Itália sobre tudo isto. O que é interessante foi a facilidade com que os mercados foram capazes de chutar Berlusconi de seu gabinete. Ainda mais significativo foi a forma como eles o substituíram.

“A democracia tem sérias limitações”, disse Roberto D’Alimonte, professor de ciências políticas na Universidade LUISS de Roma. “Ela tem a capacidade de se matar, de se autodestruir. [Instalar um governo tecnocrático] não é bom ou mau. É necessário”.

Nestas palavras dúbias está contida a essência destilada de toda traição, hipocrisia e covardia da intelligentsia “liberal” burguesa. É a mentalidade servil e aduladora de professores universitários que se curvaram diante de Hitler e Mussolini, de Napoleão e Cavaignac.
A coisa mais notável de todas é que tal aberração monstruosa é tida como algo perfeitamente normal e aceitável. Na verdade, é perfeitamente normal, mas as pessoas não opercebem.

A crise do referendo grego

A zona do euro colocou tremenda pressão sobre Papandreou para forçá-lo a realizar um selvagem programa de cortes a despeito de massiva oposição. Mas quando George Papandreou anunciou que realizaria um referendo para permitir ao povo confirmar ou recusar o último resgate da zona do euro, houve uma reação de horror nas capitais europeias. “O que é isto? Vão pedir a opinião dos gregos? Que sugestão mais monstruosa! Mendigos não têm escolha? Deixá-los pagar e boca calada!”. E se os gregos votassem pela recusa?

A proposta de referendo de Papandreou não foi feita a partir de algum fervoroso compromisso com os princípios da democracia, mas como um cínico gambito político. Contudo, não é necessário apoiar as políticas ou táticas de Papandreou para entender que o povo da Grécia tinha todo o direito de expressar uma opinião sobre o plano que significava um corte drástico em seus padrões de vida. Mas os banqueiros e os capitalistas acreditam em democracia somente enquanto ela não entrar em conflito com seus interesses ou não prejudicar seus saldos bancários.

O presidente francês Sarkozy expressou a atitude do burguês em relação à democracia muito bem quando disse: “Dar as pessoas uma voz é sempre legítimo, mas a solidariedade de todos os países da zona do euro não é possível a menos que cada um se comprometa com as medidas consideradas necessárias”. Em outras palavras: os interesses da zona do euro (quer dizer, da zona do euro dos banqueiros e dos capitalistas) deve ter precedência sobre a democracia.
A partir daí os acontecimentos se sucederam com rapidez. Berlin e Paris se movimentaram para derrubar o primeiro-ministro grego. Merkel e Sarkozy exigiram de Atenas que demonstre seu compromisso com a união monetária. Esta foi uma rude chantagem e uma interferência grosseira nos assuntos internos de um suposto estado soberano. Aos olhos de Angela Merkel e Nicolas Sarkozy o crime, tanto de Papandreou quanto de Berlusconi, foi que eles não fizeram o suficiente para defender os interesses dos banqueiros europeus – em particular os banqueiros franceses e alemães. O descontentamento dos líderes da França e da Alemanha foi o suficiente para provocar a queda dos dois homens – com um pouco de estímulo dos mercados de ações.

Papademos, economista como Monti, é um ex-vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE). Portanto, goza da confiança dos mercados como um homem do qual se espera que avance até a conclusão o plano de austeridade. Por enquanto, os dois principais partidos políticos concordaram em apoiá-lo. Mas, quando as coisas começarem a ir para o brejo, eles podem renunciar a este compromisso.

A burguesia calcula que um suposto governo tecnocrático será capaz de manobrar entre os partidos para avançar legislação impopular. Afirmam-se estar acima da política, acima das classes e acima dos interesses dos partidos e facções. Nem Monti nem Papademos são responsáveis perante o povo em suas respectivas nações. Isto não é um problema. Na verdade, é a própria razão deles terem sido chamados.Seus patrões na União Europeia estão exigindo profundos cortes no gasto público, aumentos de impostos e outras medidas dolorosas. Nenhum político em seu são juízo desejaria enfrentar o eleitorado depois de fazer tudo isto. Assim, o cálice envenenado foi passado para um governo de tecnocratas não eleitos.

Quem realmente detém o poder?

No mesmo dia em que Time Magazine escreveu sobre “mudança de regime na Europa”, The Independent tinha isto a dizer sobre o assunto italiano e a crise na Europa: “O Banco Central Europeu está sob gestão ex-Goldman, e os graduados do banco de investimento dominam nos corredores do poder em quase todas as nações europeias”.
Vale a pena refletir sobre estas linhas e sobre o que elas significam. O artigo continua:

“Mesmo antes da turbulência na Itália, não havia nenhum sinal de que Goldman Sachs vivia de acordo com sua alcunha de ‘lula vampiro’, e agora que seus tentáculos chegaram ao topo da zona do euro, vozes céticas estão levantando perguntas sobre sua influência. As decisões políticas a serem tomadas nas próximas semanas determinarão se a zona do euro pode ou poderá pagar suas dívidas – e os interesses de Goldman estão intrinsicamente ligados à reposta”.

Simon Johnson, ex-economista do FMI, em seu livro 13 Banqueiros, escrevendo sobre a influência política de Goldman Sachs, disse: “O que se tem na Europa é uma visão de mundo compartilhada entre a elite política e os banqueiros, um conjunto compartilhado de metas e de reforço mútuo das ilusões”.
Esta é uma maneira muito polida de colocar as coisas. Seria mais correto dizer: Goldman Sachs tem seus tentáculos em todos os lugares e tem os governos em seu bolso. Em teoria, Goldman está lá para “dar conselhos” e financiar os governos, mas, na prática, é ele quem dá as ordens.
Através de uma combinação de hábil intermediação, suborno, infiltrando sua gente no serviço público e incorporando ex-políticos em empregos lucrativos, que enreda os governos numa teia de aranha, onde a linha divisória entre o interesse público e o interesse privado é abolida.
A partir deste fato podemos ver quem realmente detém o poder político. Não são os governos que governam o mundo: Goldman Sachs governa o mundo. Um punhado de indivíduos extremamente ricos nos conselhos de administração de um banco de investimento, o que se podia pensar como politicamente pernicioso, detém em suas mãos mais poder que 60,6 milhões de cidadãos italianos.

Tomemos Monti, como exemplo. Ele foi indicado para a Comissão Europeia em 1995 por Berlusconi. Como comissionário para a concorrência, deveria exercer controle sobre negócios de aquisições e fusões – o tipo de negócios em que Goldman Sachs estava envolvido. Mais tarde, ele presidiu o comitê do Tesouro Italiano sobre o sistema bancário e financeiro.

Naturalmente Goldman o convidou para se juntar ao seu conselho de “consultores internacionais”, que agem como lobistas informais para os interesses de Goldman junto aos governos e políticos. Entre estes se inclui Otmar Issing, membro do conselho do Bundesbank e, em seguida, do BCE, foi ele também um dos arquitetos do euro.

A Goldman Sachs Project é especialista no recrutamento de antigos políticos bem relacionados. Entre os proeminentes antigos políticos dentro do banco está Peter Sutherland, procurador-geral da Irlanda nos anos 1980 e também antigo comissionário para a concorrência da União Europeia. Agora ele é presidente não executivo do braço britânico da Corretora Goldman, a Goldman Sachs International.

Esta é uma das metades da equação. A outra metade consiste na introdução de agentes de Goldman no próprio governo. Como Mario Monti, Mario Draghi, que assumiu como presidente do BCE em primeiro de novembro, tem alternado períodos no governo e em Goldman. Economista por formação, ele era membro do Banco Mundial e diretor-gerente do Tesouro Italiano antes de passar três anos trabalhando como diretor-gerente de Goldman Sachs International entre 2002-2005. Agora retorna ao governo como presidente do Banco Central Italiano.

Capitalismo monopolista e democracia

Quando os coronéis gregos tomaram o poder em 1967, Phillips Talbot, embaixador dos EUA em Atenas, lamentou o fato como “um estupro da democracia”. Seu cínico chefe de estação da CIA respondeu: “Como se pode estuprar uma prostituta?”. A junta militar grega violou todos os direitos democráticos e condenou milhares à prisão e à tortura. Isto mostra a verdadeira atitude da classe capitalista em relação à democracia.

Os banqueiros e capitalistas europeus apoiam a democracia porque ela é a forma mais econômica de defesa de seus interesses. Mas quando ela deixa de fazê-lo, eles podem passar da democracia à ditadura com a mesma facilidade que uma pessoa passa de um vagão para outro.
Os mesmos políticos que estão sempre fazendo discursos grandiloquentes sobre democracia no Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria e Birmânia convenientemente esquecem a sistemática erosão dos direitos democráticos que foram conquistados através da luta pela classe trabalhadora da Europa e dos EUA.
Seus interesses são defendidos por políticos e burocratas que agem estritamente de acordo com as leis da “economia de livre mercado”, que hoje só é livre na medida em que é livre para saquear os cofres dos estados nacionais. Soberania nacional se torna dessa forma uma frase vazia, tão sem sentido quanto “iniciativa privada” e “democracia” na época do capitalismo monopolista e do imperialismo.

Os chamados fundos de resgate do FMI e do muito apoiado pelos alemães Fundo Europeu de Estabilidade Financeira estão projetados, não para resgatarem a Grécia ou a Irlanda, mas para resgatar os bancos. Quem são estes credores que estão exigindo serem pagos? São os grandes bancos europeus e é sua saúde a principal preocupação dos formuladores de política. As brutais medidas de austeridade que serão impostas por governos “tecnocráticos” não eleitos em Atenas e em Roma foram ditadas pelos bancos.

O argumento de que “estamos todos juntos”, que se supõe ser a justificativa teórica para governos de “unidade nacional”, é falso até mais não poder. Enquanto milhões de pessoas simples sofrem cortes brutais em seus padrões de vida, os mesmos banqueiros que causaram o colapso financeiro de 2008 se concedem a si mesmos bônus suculentos. Negociantes habilidosos com informações privilegiadas fazem fortunas gigantescas se os mercados sobem ou baixam. Milhões perdem seus empregos, suas casas, seu futuro, mas os banqueiros ganham sempre.

Diz-se com frequência que os lucros dos banqueiros são justificáveis por causa dos riscos que assumem quando emprestam dinheiro. Mas, de fato, não há nenhum risco. A elite financeira sabe que os bancos serão socorridos com dinheiro público, e alguns deles estão agora até mesmo apostando nisto. “Meus antigos colegas do FMI estão se esforçando para tentar justificar resgates de 1,5-4 trilhões de euros, mas o que isto significa?”, disse Simon Johnson. “Isto significa socorrer credores 100 por cento. É outra ajuda aos bancos, como em 2008”. Esta é a forma correta de se colocar a questão.

Os governos europeus devem encontrar bilhões de euros, não para resgatar a Grécia ou qualquer outro país, mas, na realidade, para organizar mais um salvamento dos bancos. E para pagar a conta disto, espera-se empurrar para os ombros das massas o pesado fardo da austeridade, cortes nos padrões de vida e desemprego. Tudo isto para defender os interesses de Goldman Sachs e outras entidades financeiras parasitas que se inocularam ao corpo vivo da sociedade e que estão drenando seu sangue vital.

Toda a sociedade está sendo mantida como refém por um punhado de banqueiros ricos. Eles dizem: “ou nos dão o dinheiro que exigimos, ou vamos mergulhar o mundo no abismo de uma nova crise financeira, de um terrível colapso econômico que será pior que o último”. Estes métodos são fundamentalmente os mesmos usados pela Máfia, que exige dinheiro com ameaças. A única diferença é que a Máfia ameaça indivíduos ou empresas individuais, enquanto os banqueiros ameaçam nações inteiras e seus governos.

Luta de classes

Os governos da Itália e da Grécia estão efetivamente nas mãos dos bancos. E isto não é somente o caso da Itália e da Grécia, mas de cada país capitalista “democrático”. Na Grã-Bretanha, na Alemanha, na França e nos EUA é a mesma coisa: democracia se transformou numa expressão sem sentido. Ela foi esvaziada de qualquer conteúdo real que pode ter tido, e tudo o que ficou é uma casca vazia. As formas da democracia parlamentar permanecem, mas o conteúdo é: governo dos banqueiros, pelos banqueiros e para os banqueiros.

No curto prazo, foi fornecida uma desculpa através da ameaça de um colapso do mercado e de um subsequente colapso econômico. A nomeação de Mario Monti foi projetada para exercer um efeito calmante sobre os mercados. Parece ter funcionado – por enquanto. Doctor Johnson uma vez advertiu de forma excelente: “Confie nisto, senhor, quando um homem sabe que vai ser enforcado em uma quinzena, ele concentra sua mente maravilhosamente”. Na Itália, a classe política olhou para o abismo e concentrou sua mente imediatamente. Mario Monti foi recebido com aplausos no senado quando tomou sua cadeira senatorial em 11 de novembro. No mesmo dia, a bolsa de valores do país subiu 3,68% enquanto o novo Salvador do capitalismo parecia estar à mão.
Inicialmente, pelo menos na Itália, os protestos emudeceram. A razão disto não é difícil de entender. Depois do governo de Berlusconi, qualquer coisa parece melhor. Mas esta tolerância não vai durar muito. No fim das contas, nem Papademos nem Monti serão capazes de avançar qualquer coisa se não houver um consenso sólido sobre o que deve ser feito. E a falta de consenso em breve ficará exposta, levando a uma nova explosão de desacordo e raiva popular. Já houve manifestações de estudantes. E isto é apenas o início.

Temporariamente, é possível que o povo possa estar disposto a aceitar as novas imposições e os pacotes de austeridade. Mas este arranjo frágil não vai durar. Todas as manipulações de Angela Merkel e Nicolas Sarkozy e de todos os banqueiros do mundo não evitarão uma explosão da luta de classes. A turbulência social nas ruas de Atenas retornará e será replicada nas ruas da Itália.

Na Grécia, depois de dois anos de lutas constantes, pode haver um elemento de cansaço e confusão. Ninguém mais acredita na classe política. A grande maioria das pessoas é contra as medidas de austeridade, mas não vê alternativa. Ela teme a perspectiva de uma saída precipitada do euro com ainda mais caos e tumultos. Mas quando o povo entender que o governo de “unidade nacional” está realizando um programa de austeridade ainda pior que o de Papandreou, ele irá às ruas novamente.

A ideia de “unidade nacional” é o mais vazio de todos os slogans políticos vazios. A “unidade” que eles têm em mente é a unidade entre o cavalo e o cavaleiro que sobe às costas do cavalo e crava as esporas em seus flancos. Não pode haver questão de unidade entre ricos e pobres, exploradores e explorados, trabalhadores e capitalistas. A fim de resolver os problemas da sociedade é necessário dar um fim à ditadura dos banqueiros de uma vez por todas.

Em todos os lugares, a burguesia está tentando tirar todas as conquistas da luta da classe trabalhadora ao longo dos últimos 50 anos. Na Grã-Bretanha, os conservadores e liberais democratas ameaçam limitar o direito de greve, que já tinha sido severamente circunscrito. Mas tais medidas não deterão a luta de classes. O que está escrito na organização da classe trabalhadora não pode ser abolido pelo golpe de caneta de um advogado.
Naturalmente, a classe trabalhadora deve lutar em defesa de suas conquistas. Vamos lutar pelos direitos democráticos na medida em que esses direitos retiverem até mesmo o conteúdo progressista mais leve. Fazemos isto não porque somos adoradores servis da democracia formal, mas porque entendemos que a democracia burguesa fornece aos trabalhadores um terreno mais favorável sobre o qual desenvolver a luta de classes.

A imposição de um governo não eleito dos chamados tecnocratas não vai parar a luta de classes. A burguesia logo vai descobrir que está se apoiando numa muleta quebrada. Esses governos não serão mais fortes que os baseados em partidos políticos e em políticos eleitos, e sim infinitamente mais fracos. Em breve, serão postos de lado pelo movimento de massas.

Se a via da democracia parlamentar for bloqueada, a classe trabalhadora irá encontrar outros meios de se expressar. Ele se expressará através dos mecanismos de ação direta e da luta de classes: greves, greves gerais e manifestações de massa. Os trabalhadores e a juventude entenderão que representam um poder colossal que nenhum Estado, exército ou polícia pode deter. Eles perceberão a verdade das palavras do grande líder revolucionário francês Camille Desmoulins:

“Lesgrandsnesontgrands que parce que noussommes à genoux: Levons-nous”.

[Eles só parecem poderosos aos nossos olhos porque estamos de joelhos: levantemo-nos”.

Tradução de Fabiano Adalberto

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