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A decisiva greve do Canal de Suez

No dia 07 de abril, completam dois meses do acontecimento mais importante da revolução egípcia: A greve dos operários do Canal de Suez.

Este artigo pretende fazer a ligação entre a greve geral dos trabalhadores do Canal, iniciada em 7 de fevereiro como o fator econômico decisivo para a queda do ditador Mubarak, dia 11 do mesmo mês.

Cifras milionárias!

O Canal de Suez lucrou 2,66 bilhões de dólares durante os primeiros sete meses de 2010, assinalando um aumento de 11,5 por cento em relação ao mesmo período de 2009. Cerca de 7% do transporte marítimo comercial mundial passa pelo Canal de Suez, tornando-o um indicador do comércio global. O Canal de Suez é uma das principais fontes de renda para o Egito.

O turismo é a principal fonte de receita do Egito: 14,7 milhões de visitantes em 2010. A receita durante o período foi estimada em cerca de 13 bilhões de dólares.

Com um PIB estimado em 200 bilhões de dólares, cuja receita, em ordem, provém do turismo, da produção do petróleo e gás natural e em terceiro pelas tarifas alfandegárias do Canal de Suez. O Canal arrecada cerca de 5 bilhões de dólares por ano.

A importância do canal se deve ao fato de que a maior parte da exportação petroleira do mundo passa por ali. Mais de 2 milhão de barris passam pelo canal todos os dias vindos do Oriente Médio que abastecem principalmente a Europa e América, 14 % da produção mundial de petróleo e gás passam por lá. Esses fatos colocam o canal entre as regiões estratégicas mais importantes do capitalismo, cuja matriz energética ainda é o petróleo.

Assim, é um local cuja importância se dá para todo o aparato logístico do capitalismo mundial, conferindo assim uma importância para muito além das fronteiras egípcias.

Mas o que é o Canal de Suez?

O tráfego no Canal de Suez modificou a navegação do mundo após 1869 e ainda hoje os 21.000 navios que por lá transitam anualmente mostram sua importância após 140 anos de existência. O canal se estende desde a cidade de SUEZ (mar vermelho) até Porto Said (mar mediterrâneo). Conta com 161km de extensão e sua travessia dura em média 16 horas.

A idéia da construção do canal possivelmente remonta ao começo da 12ª Dinastia o faraó Senuseret III (1878 a.C. – 1839 a.C.) que construiu um canal oeste-leste unindo o Rio Nilo ao Mar Vermelho.

Operários entram em cena e dão o cheque mate a Mubarak

Desde o inicio da revolução egípcia, dia 25 de janeiro (O dia da Revolta), as operações no canal de Suez seguiam normalmente. Mas os capitalistas, sobretudo os barões do petróleo, sabiam que os únicos lugares de calmaria no Egito seriam as tumbas onde repousam as milenares múmias egipcias.

A preocupação com a manutenção do funcionamento do canal era tamanha que em 02 de fevereiro o chefe do Estado-Maior conjunto dos Estados Unidos, o almirante Mike Mullen, pediu calma no Egito e expressou preocupação pela segurança no Canal de Suez, durante uma conversa com o general egípcio Sami Enan, em Washington.

Mas a revolta não ficou confinada apenas na Praça Tahir, no Cairo. Ela também chegaria aos operários de Suez. Desde as reformas neoliberais de Mubarak nos anos 80, as condições de vida e trabalho dos operários só fez piorar.

A inexistência de legislação trabalhista no Egito possibilitava a super exploração dos trabalhadores do local. A grande movimentação de marinheiros no local também fez aparecer ao longo do canal inúmeras casas de prostituição, onde centenas de jovens se prostituiam por falta de empregos e perspectivas ou para complementar a renda da família.

A grande greve do canal iniciou-se em 7 de fevereiro e arrastou consigo a greve dos operários das cidades de Ismalaia e Porto Said, além de, dois dias depois, os condutores de ônibus aderiram a greve.

A principal reivindicação era o aumento salarial e melhorias nas condições de trabalho. Operadores de guindastes, operadores de iluminação, trabalhadores da área de manutenção de navios, metalúrgicos, controladores de trafego entre outras dezenas de funções ligadas a operação do canal cruzaram os braços. Mais de 6 mil trabalhadores que labutam ao longo do canal amanheceram em protestos na frente do prédio da Autoridade Portuária do Canal de Suez.

Aly Hussein, trabalhador de um dos estaleiros, confirmou a onda de protesto contra as empresas que se recusam a garantir assistência a trabalhadores que sofrem de doenças crônicas e que, apesar da doença, são obrigados a continuar trabalhando.

A riqueza advinda das tarifas aduaneiras sobre os produtos que passam pelo canal jamais foi distribuída entre os trabalhadores. Ao contrário, suas humilhantes condições de trabalho, baixos salários e o apelo do povo egípcio que se levantava já a mais de duas semanas contra Mubarak fez com que estes operários entrassem definitivamente na Revolução, dando a ela um ganho qualitativo.

Naquele momento, para evitar a disparada do preço do barril do petróleo, para evitar o colapso mercantil entre o ocidente e a Ásia, para evitar prejuízos nas bolsas do mundo todo, quebra de contratos e atrasos em entregas, para evitar ainda o colapso de abastecimento de petróleo na Europa e América, a única alternativa era retirar Mubarak de cena o mais rápido possível. E assim foi. Naquela mesma semana, dia 11, o odiado ditador renunciou.

Os trabalhadores de Suez e sua força colossal na economia egípcia provaram a todos que quem move o mundo é o operário. Provaram que os fuzis, tanques e soldados não poderiam operar os guindastes ou abrir as comportas dos canais. Provaram a si mesmos a força que tinham.

Finalizando

Não se encontra uma linha na mídia ocidental o termo “Revolução” quando se refere aos acontecimentos egípcios, tunisianos, líbios e demais que sacodem o mundo árabe. Removeram a palavra dos jornais, radio e televisão, pois sabem muito bem o peso simbólico que esta palavra tem na classe operaria do mundo inteiro.

Também insistiram na ideia de que a greve de Suez não afetou o funcionamento do canal. Isso devemos a dois fatos importantes: o primeiro deles é que parte do canal, sobretudo onde havia empresas multinacionais, operaram com trabalhadores estrangeiros e com a capacidade reduzida, ou seja, um numero mínimo de operários suficiente para não interromper as operações marítimas; o segundo é que ao esconder de todo mundo o papel importante, a nível mundial, dos trabalhadores de Suez, retira-se o protagonismo do setor mais importante de um processo revolucionário, ou seja, o operariado.

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