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A Dama de Ferro, uma descarada tentativa de reabilitar Tatcher

Um filme que tenta mostrar Tatcher com heroína feminista e encobrir seus crimes cometidos contra as trabalhadoras e trabalhadores ingleses está sendo lançado na Inglaterra. Rob Seel resgata a real política de Tatcher desnudando seu caráter reacionário

Margareth Tatcher é odiada por milhões de pessoas na Grã-Bretanha: aquelas que sofreram nos treze anos do seu governo. Nós que fomos oposição ao tatcherismo até o fim, nunca esqueceremos o desemprego massivo, os cortes, a privatização no atacado, os ataques aos sindicatos, assim como aos nossos direitos democráticos.

Nós que a enfrentamos fomos considerados por ela como “inimigos internos”, o termo ela usou contra o Sindicato Nacional dos Mineiros, uma vez que estes lutaram por suas comunidades e postos de trabalho. Tatcher representou as presas e as garras sangrentas do capitalismo, algo que não esqueceremos.

Neste mês de janeiro encontra-se em exibição nas salas de cinema um novo filme sobre a vida de Margareth Tatcher. Protagonizado por Meryl Streep sob o título de “Dama de Ferro”, consiste em um descarado esforço para reabilitar Tatcher e seu papel na história britânica.

O filme foi realizado no mesmo modo açucarado de “A Rainha” (originalmente “The Queen”, de 2006, N.T.) e “O Discurso do Rei” (originalmente “The King’s Speech”, de 2010, N.T.).

Apesar das afirmações em sentido contrário, “A Dama de Ferro” é uma tentativa de encobrir seus feitos embelezando Tatcher e seu governo que travou uma guerra contra a classe operária. O produtor, Damian Jones, trata de se desculpar de seu papel com palavras suaves: “Qualquer que seja a posição política de cada um, não se pode negar que Margareth Tatcher teve um efeito profundo neste país.” Afirma que “Tatcher é um ícone”. Tal é a “objetividade” daqueles que produzem este insulto. De acordo com Charles Moore, crítico do Dayly Telegraph, “o filme é a peça mais poderosa de propaganda para o conservadorismo”.

Conservadorismo.

O diário “The Sun” o considera “uma verdadeira história do feminismo em ação”. Essa visão “feminista” sobre uma Tatcher que representa os interesses das mulheres, é totalmente ridícula ou verdadeiramente repugnante. As mulheres da classe operária odeiam Tatcher e o que ela representa. O fato dela ser uma mulher não muda nada disso. Mas, de forma crédula, Meryl Streep engoliu o anzol (e até a linha e o molinete) desse argumento feminista, quando disse: “Admiro suas realizações, inclusive quando não concordo com muitas dessas políticas. O fato de que ela fazia as coisas, mesmo que muita gente não gostasse, foi extraordinário. As pessoas ficaram contentes com o fato dela ter se transformado em Primeira Ministra do Reino Unido”.

Será que Meryl Streep não compreende que as realizações de Tatcher, em seu incansável papel, representavam os interesses das grandes empresas privadas? Obviamente não. Ela parece ignorar o fato de que muitas vidas foram arruinadas e destruídas por essa pessoa, especialmente nas zonas industriais da Grã Bretanha. Ela não está consciente da destruição das famílias durante a greve dos mineiros de 1984/85 e nem com o fato de que tudo quanto foi possível privatizou-se, causando o desemprego de quase 4 milhões de trabalhadores.

Ao invés disso, o filme glorifica Tatcher por suas ações, enquanto a greve dos mineiros e as altas taxas de impostos (pool tax) são consideradas meros detalhes.

São mostradas imagens de uma polícia montada amável ao reprimir os mineiros enquanto os líderes sindicais e manifestantes são apresentados como um bando de selvagens, que tentam bater na janela do seu carro. Tudo se transforma em adereço para ilustrar o quão difícil era ser a “Dama de Ferro”.

“Você tem essa década na qual fiz todo o possível. Ela ficou contra os mineiros e contra o IRA, o que nos levou à guerra”, escreve o roteirista Abi Morgan, no esforço de igualar a organização dos mineiros ao terrorismo individual.

Uma tentativa de livrar a cara da Dama

Liz Hoggard, do Evening Standad”, que se descreve como uma “feminista surda”, cai sobre si mesma ao dizer “as mulheres existem para transformar: como seduz Meryll como Maggie- e me levou às lágrimas”. O filme é uma tentativa de “humanizar” Tatcher, mas não se pode lavar o sangue. “O verdadeiro perigo para os ‘surdos’ é que a atuação de Meryl é muito comovente”, disse Hoggard. Phyllida Lloyd, a diretora, disse: “Ela (Tatcher) era uma superestrela. Queríamos tratá-la com dignidade.” Mas Tatcher não era uma superestrela, salvo para os fanáticos da tropa de tatcherista.

Esse filme não é mais que um trabalho de acobertamento, na intenção de glorificar uma mulher reacionária que personifica a pouca visão de futuro, para tornar-se rapidamente rico, a moral do capitalismo em sua decadência. Ao longo de sua vida ela foi uma campeã viril da desigualdade e do privilégio. Ela estava a favor de tudo quanto fosse reacionário, inclusive os valores vitorianos. Fiel a sua classe, roubou aos pobres para doar aos ricos. E quanto à “dignidade”, talvez devêssemos perguntar sobre a dignidade das comunidades que sofreram durante o seu governo, sem nenhum tipo de misericórdia. “Não há tal coisa como a sociedade”, disse Tatcher. Isso reflete o individualismo e o egoísmo do capitalismo, uma filosofia promovida por Tatcher e sua classe.

Para todos, dentre nós que vivemos os anos Tatcher, esta propaganda tosca simplesmente nos fará sentirmo-nos mais enojados. O primeiro ato de David Cameron como Primeiro Ministro foi tomar de Tatcher a Dowing Street (residência do governo). Esse governo de milionários representa os herdeiros de Margareth Tatcher. Lutaremos contra este governo como lutamos contra o de Tatcher. As heroínas reais são as damas de ferro reais, tais como “as mulheres contra o fechamento das minas”, que representam nossa classe, os milhões de mulheres comuns da classe trabalhadora que agora estão resistindo aos ataques desta Coalizão de ConDem (condenados no inglês, NT) conservadores e democratas.

Tradução: Mario Conte

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