Início / Artigos / Internacional / A crise grega: Como surgiu a dívida grega? (Parte 5)

A crise grega: Como surgiu a dívida grega? (Parte 5)

Continuação da análise sobre a situação da Grécia.

Confira a parte 1

Confira a parte 2

Confira a parte 3

Confira a parte 4

A economia grega sempre esteve na lanterna das economias muito mais desenvolvidas de países como a Grã-Bretanha, a Alemanha, a França e outros países capitalistas avançados, principalmente do norte da Europa. A burguesia grega chegou atrasada no cenário histórico, constituindo seu próprio estado independente somente nos anos 1830. Desde então, a Grécia tem lutado para estabelecer-se economicamente diante de economias muito mais desenvolvidas no continente europeu.

Esta debilidade se expressa no quase permanente problema da dívida, com o país em default [Inadimplência ou “calote” de sua dívida – NDT] por quase metade de sua história como país independente. A Grécia teve defaults significativos em sua dívida soberana pelo menos cinco vezes: 1826, 1843, 1860, 1894 e 1932. O último destes foi durante a Grande Depressão dos anos 1930, que abriu um longo período de default que, na verdade, só terminou em 1964.

Esta severa e prolongada crise financeira explica por que a Grécia se orientou para a revolução naquele período, culminando na Guerra Civil, com os trabalhadores e camponeses tentando derrubar os latifundiários e os capitalistas. Também explica o grande papel desempenhado pelo exército na administração do país, já que havia pouco espaço para formas democrático-burguesas estáveis de governo.

O boom do pós-guerra…

Foi o boom da economia mundial no pós-guerra que permitiu à Grécia alcançar importante crescimento econômico que, por sua vez, lhe permitiu dar um fim à situação de prolongadas décadas de default. Os anos 1950 foram uma década de excepcional crescimento econômico, com uma média anual de mais de 6% e, em alguns anos, indo acima dos 10%. A indústria cresceu em nível ainda mais alto. Isto iniciou um processo de transformação da Grécia de uma sociedade fortemente baseada na agricultura a uma sociedade urbano-industrial. A economia continuou a crescer durante os anos 1960 e até 1973 a uma média de 8%. Houve um crescimento real, tanto em termos absolutos quanto em termos de produtividade. Graças a esta situação, entre 1960 e 1973, a Grécia teve excedentes orçamentários, algo que nunca mais recuperou desde então.

Os elementos que contribuíram para este crescimento de longo prazo foram a ajuda proporcionada pelo Plano Marshall depois da II Guerra Mundial, uma severa desvalorização do dracma, o investimento externo direto de outras economias mais desenvolvidas em indústrias como a indústria química, bem como o desenvolvimento do turismo. Houve também um auge massivo na construção civil, parcialmente para reconstrução depois dos danos provocados pela II Guerra Mundial e pela Guerra Civil, mas principalmente para acolher o fluxo maciço de migrantes do campo para as cidades. Houve outro elemento: os trabalhadores gregos que tinham emigrado para os EUA, Austrália, Europa e outras partes do mundo e enviaram grandes remessas de dinheiro que proporcionaram impulso à economia local.

… e a desaceleração repentina depois de 1973

Tudo isto terminou abruptamente em 1973-74, quando a economia mundial entrou em sua primeira crise global simultânea desde a II Guerra Mundial. Todas as grandes crises econômicas expõem os verdadeiros pontos fortes e fracos de cada economia nacional. Embora a Grécia tenha experimentado um crescimento significativo no período 1950-73, ainda permaneceu muito atrás das economias mais poderosas da Europa. O atraso na capacidade produtividade em relação a estes países, que vinha diminuindo, neste ponto começou a aumentar novamente e, desde 1973, a situação piorou ainda mais.

Se olharmos para o período 1950-2007, ele pode ser dividido em mais ou menos três fases: 1950-73, de crescimento muito rápido; 1974-93, de estagnação; e 1994-2007, de crescimento renovado. Isto se encontra mais ou menos em linha com o desenvolvimento em escala mundial. Houve o período particularmente crítico de 1980-1993, quando a economia grega permaneceu crescendo a uma média anual de apenas 0,7%.

A questão, no entanto, é como o crescimento do período 1994-2007 foi alcançado. E é aqui, com a entrada da Grécia primeiro na União Europeia e depois no Euro, em 2002, que se manifestam ainda mais as debilidades da economia grega. Também é o período em que vemos uma expansão massiva da dívida em todos os níveis.

As debilidades da economia grega podem ser vistas quando se compara o crescimento do PIB per capita na Grécia ao do restante da Europa. Em 1960, ele correspondia a cerca de 60% do PIB per capita europeu médio. No início dos anos 1970, acompanhando o significativo crescimento real na economia, ele se recuperou e subiu para cerca de 80%, mas no final dos anos 1980 deslizou de volta ao que era nos anos 1950, a menos de 60%.

A partir dos anos 1980, a economia grega começou a cair cada vez mais para atrás de seus concorrentes. O crescimento da produtividade diminuiu significativamente depois da crise de 1973-74. Desde então a Grécia sofreu o que alguns denominaram como desaceleração secular da produtividade, e isto se deveu a uma queda significativa nos níveis de investimento pós-1973.

A dívida pública como estímulo ao crescimento

No período de estagnação, o governo grego tentou estimular o crescimento através da expansão massiva do gasto público. A dívida pública grega em relação ao PIB disparou de 25%, em 1981, para quase 100% em 1992. Isto, afinal, produziu crescimento econômico, mas impulsionado principalmente pelo aumento do consumo, muito do qual se baseava na expansão do crédito e do gasto público.

Há também um elemento histórico na dívida pública grega, que tem similaridades com países como a Itália. Devido à fragilidade da burguesia grega, o estado sempre desempenhou um papel importante em termos de investimento, bem como em termos de amortizador social, isto é, literalmente comprando paz social. O clientelismo e os altos níveis de corrupção também contribuíram para a acumulação da dívida. Os partidos políticos, em particular a Nova Democracia, desenvolveram um sistema baseado na manutenção de uma base eleitoral através da criação de empregos estatais, subsídios estatais e assim por diante. Muito frequentemente, obter um emprego estatal não dependia tanto do “que você sabia, mas de quem você conhecia”.         

Havia um limite no tempo e no grau de como este sistema poderia continuar a servir aos interesses da burguesia grega. Enquanto a economia grega estava crescendo, as debilidades subjacentes poderiam ser encobertas, mas quando a crise irrompeu, isto não era mais possível. O problema era que a realização dos cortes necessários nos gastos também significava o enfraquecimento da base eleitoral do principal partido burguês grego, no caso a Nova Democracia. As elites locais iriam resistir a qualquer tentativa de redução do clientelismo, e isto significava que a burguesia não tinha o pleno controle sobre a expansão da dívida. A propósito, isto explica por que em certo momento da atual crise grega – no final de 2011 – o chamado “governo tecnocrático” foi imposto ao povo grego, conduzido pelo economista Papademos que tinha anteriormente servido como vice-presidente do Banco Central Europeu.

Entrada na União Europeia

Nos anos 1980, a entrada na União Europeia também abriu caminhos para a canalização de fundos da UE na economia grega e, particularmente depois da entrada da Grécia no Euro, os custos dos empréstimos foram massivamente reduzidos, enquanto a Grécia, agora, tinha acesso a taxas de juros que eram muito mais baixas do que eram com o Dracma.

Antes de se juntar ao Euro, a Grécia não era considerada solvente como a Alemanha ou a França. Em 1993, os rendimentos dos títulos do governo ao longo de dez anos eram de cerca de 25% na Grécia, enquanto na Alemanha chegavam a cerca de 7%. Uma vez que a Grécia se tornou parte da zona do Euro, estes rendimentos se equiparam aos da Alemanha e se mantiveram assim até 2007. Neste período, a média anual do crescimento econômico na Grécia, de 3,9%, estava na verdade acima da média da zona do Euro de 2,2%. Tornar-se parte do Euro deu confiança aos investidores de que a dívida grega poderia ser administrada e, no caso de problemas, coberta pela União Europeia.

Este foi o período de crescimento dos padrões de vida, com o PIB per capita crescendo 47% entre 1996 e 2006. Enquanto a economia estava crescendo, e crescendo aparentemente bem, o crescimento exponencial da dívida era considerado manejável. O que não se evidenciava era o declínio real da capacidade da Grécia de produzir e de concorrer nos mercados europeus.

Depois de 2008, a Grécia de repente não se tornou tão solvente como se acreditava. Os rendimentos da dívida estatal começaram a se elevar e logo se distanciaram dos rendimentos sobre a dívida alemã entre 2010 e 2012. Nestes anos, os rendimentos sobre a dívida alemã estavam na verdade caindo para cerca de 1-2%, enquanto os rendimentos gregos subiram para um pouco menos de 35%! Foi aí que o problema da dívida pública se converteu em uma questão urgente a ser resolvida. Abriu-se um período completamente diferente de depressão profunda, muito diferente daquele que o precedeu.

O papel da Alemanha

Contudo, a pergunta que se tem de fazer é: por que as grandes potências que dominam a União Europeia, sobretudo a Alemanha, permitem que uma dívida tão grande se desenvolva? Hoje estão todas se queixando dos “gregos perdulários”, que “viviam acima de suas possibilidades”. Mas não era essa a canção que todos cantavam antes da crise irromper! De fato, todos estavam se dando muito bem com a situação grega.

Antes de entrar no Euro, o governo grego poderia se utilizar do mecanismo da desvalorização para ganhar uma vantagem competitiva temporária, bem como reduzir o valor da dívida grega indexada em dracma em relação às moedas estrangeiras. Uma vez que se juntou ao Euro, o país se viu preso a uma situação em que não mais poderia se utilizar da desvalorização como um meio de aliviar os momentos de crise.

Também há um outro elemento muito importante aqui, que é o fato de que a expansão da UE a cada vez mais países e a introdução do Euro como a moeda de muitos membros da União Europeia criaram uma situação que era imensamente vantajosa particularmente aos banqueiros e capitalistas alemães. De fato, o Euro foi o mecanismo pelo qual o capital alemão fortaleceu sua posição já dominante no mercado europeu. O capital industrial e financeiro alemão tinha interesse em estimular o gasto na Grécia!

Incapaz de usar o mecanismo da desvalorização, as economias mais débeis da UE foram incapazes de competir com as mercadorias mais baratas alemãs e, dessa forma, começaram a acumular déficits na balança comercial, isto é, importando mais que exportavam. A Grécia foi particularmente afetada por este fenômeno. Desde que aderiu à UE, a balança de pagamentos e a balança comercial da Grécia pioraram constantemente. No período de 2000-2007, o déficit comercial anual da Grécia com a Alemanha, por exemplo, quase duplicou.

Os capitalistas alemães mantiveram baixos os salários na Alemanha e aumentaram significativamente a produtividade via investimentos. Isto tornou sua indústria muito competitiva, mas também limitou a expansão do mercado interno. Isto significa que devem exportar. A Alemanha, dessa forma, abriu os mercados de todos os estados membros da UE, e particularmente daqueles que aderiram ao Euro. Na Grécia, durante um longo período, houve crescimento do consumo, como já vimos, e isto foi parcialmente impulsionado pelo crédito barato.

Quem proporcionou este crédito? Principalmente os bancos alemães! Como assinala um artigo da Reuters de 2012: “Os credores alemães estavam entre os mais pródigos da Europa antes de 2008, canalizando a poupança do país à periferia da Europa em busca de lucros mais altos” e “entre os credores europeus, os da Alemanha são de longe os mais vulneráveis na Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália”.

Capacidade de pagamento da Grécia severamente debilitada

Portanto, podemos ver que a acumulação da dívida grega não se deve à “má gestão” das finanças gregas. Deve-se aos bancos alemães e de outros países europeus emprestando dinheiro à Grécia e gerando um bom lucro com isto, enquanto as empresas alemãs também vendiam produtos à Grécia com lucros que eram pagos com os empréstimos alemães. Obviamente, isto não poderia durar para sempre. Em algum momento a dívida se tornaria incontrolável. Enquanto a força econômica da Grécia continuava a declinar, sua capacidade de pagar sua dívida enfraquecia.

Como assinalou o Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas: “A posição alemã em relação aos países pesadamente endividados do Sul é um absurdo. Ela quer manter seu enorme superávit comercial com estes países, sem deixar de insistir em que honrem suas dívidas. Isto é como o proprietário de uma loja insistindo em que seus clientes continuem comprando mais dele, sem deixar de pagar suas dívidas. Não é apenas uma questão de ressentimento ou inveja dos europeus do Sul, a Alemanha está pedindo algo que é impossível”.

A única forma da Grécia começar seriamente a pagar sua dívida seria aumentando maciçamente suas exportações aos países mais avançados, para a Alemanha particularmente, ou seja, o cliente teria que vender bens ao lojista! O problema é que o lojista não estará interessado enquanto tiver seus próprios produtos para vender!

A dívida grega alcançou níveis tão altos – próximo aos 180% do PIB, de acordo com as estatísticas mais recentes – que se tornou impagável. Todos os analistas sérios entendem isto, mas nenhum deles está preparado para contemplar as consequências de simplesmente deixar a Grécia ir ao calote, visto que isto produziria um efeito dominó, golpeando todos os que detêm a dívida grega.

A única solução que eles têm é fazer com que os trabalhadores gregos paguem, os que não tiveram nenhuma responsabilidade na acumulação da enorme dívida. Há, no entanto, um limite no quanto se pode espremer os trabalhadores gregos. Entre 2010 e 2014, os salários gregos foram reduzidos em cerca de 20% e continuaram a cair desde então. Como vimos em artigos anteriores, isto teve efeitos dramáticos nos padrões de vida.

Isto explica a intensa luta de classes do período recente e a extrema volatilidade do front político. Esta volatilidade continua até hoje, como veremos nos próximos artigos.

Artigo publicado originalmente em 19 de agosto de 2016, no site da Corrente Marxista Internacional (CMI), sob o título “Greece in crisis – Part Five: Where did the Greek debt come from?.

Tradução de Fabiano Leite.

Deixe seu comentário

Leia também...

Seminário Sobre Liberdade e Independência Sindical

Joinville-SC, de 24 a 26 de novembro de 2017 Inscrições até 10/11/2017 A Esquerda Marxista …