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A crise grega: Capitalismo mata, em especial o capitalismo grego (Parte 3)

Observações sobre a situação do país em que a crise do capitalismo europeu está em seu nível mais agudo.

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O sofrimento do povo grego é profundo. Muito profundo. A austeridade está empurrando setores cada vez maiores da população à pobreza. Com isto, também se faz presente uma séria piora na situação da assistência médica, que é uma consequência direta dos cortes impostos pela Troika. Os suicídios também aumentam acompanhando o crescimento do desemprego.

A crise do capitalismo europeu está em seu nível mais agudo na Grécia. Enquanto muitos países europeus estiveram em recessão e se recuperaram dela – embora, agora, estejam sendo arrastados de volta –, a Grécia permaneceu em uma situação de recessão quase permanente desde 2008. De fato, a economia grega tem se mantido em uma contração econômica comparável à da Grande Depressão nos EUA na década de 1930.

Cortes nos gastos produz saúde deteriorada

A economia grega entrou em crise em 2008 e desde então o PIB global caiu em 25%. Em consequência, o desemprego oficial no ano passado situou-se em aproximadamente 30%, com o desemprego juvenil acima da marca dos 50%. O desemprego de longa duração se tornou um problema sério e isto agrava ainda mais a crise social, uma vez que ao se estar dois anos sem emprego também se perde o seguro de saúde, com efeitos na capacidade das pessoas de ter exames regulares de saúde. Isto leva à piora da saúde das pessoas, produzindo enfermidades evitáveis e até mesmo a morte.

Temos agora o fenômeno onde famílias inteiras sobrevivem da magra aposentadoria de um pai ou de um avô. Vi isto ao conhecer, quando estive na Grécia, uma senhora idosa que mantinha não somente o seu filho, mas também a família do filho! A questão é que, de acordo com números do governo grego, 45% dos pensionistas estão com pensões mensais abaixo de 655 euros, que é considerado como a linha da pobreza. E, de acordo com os números de Eurostat, entre 2008 e 2013, em média, os gregos se tornaram 40% mais pobres.

A perda do seguro de saúde está afetando até 800 mil pessoas, de acordo com algumas estimativas. E o gasto per capita em saúde baixou consideravelmente na Grécia, de 3.000 euros a 2.500 euros, em 2013 [fonte, Banco Mundial].

Aumento da depressão e do suicídio

No mesmo período, os casos de depressão séria quase triplicaram, enquanto os casos de suicídio aumentaram em um terço, com os homens em idade de trabalhar sendo particularmente afetados. E precisamente quando temos um aumento tão dramático nos problemas de saúde mental, o gasto neste setor foi reduzido à metade.

Duas prestigiosas revistas médicas publicaram artigos sobre este problema. O The Lancet publicou: “crise da saúde grega: da austeridade à negação”, e BMJ Open (originalmente, o British Medical Journal) escreveu “O que aconteceu aos suicídios durante a crise econômica grega? Os resultados de um estudo ecológico dos suicídios e seus determinantes (2003-2012)”. Os dois artigos analisam o impacto da atual crise econômica sobre a saúde do povo grego e tiram conclusões muito claras e inequívocas. BMJ Open na verdade se refere ao fenômeno do “desmentido”, isto é, às tentativas de se recusar o que é por demais evidente. O fato de que se cortarmos o gasto público, se cortarmos os salários e se reduzirmos os empregos, e também se gastarmos menos em saúde, então mais pessoas vão adoecer e mais pessoas vão cometer suicídios, quanto mais são lançadas em condições desesperadoras.

The Lancet explica que agora, como uma consequência direta dos acordos de resgate, a Grécia gasta menos em saúde que “qualquer um dos outros membros da União Europeia pré-2004”. E dá um exemplo disto, o dramático aumento de infecções por HIV entre “usuários de drogas injetáveis”, de 15 casos em 2009 a 484 caos em 2012. Isto se deve a um corte nos “programas de trabalho de rua” que, entre outras coisas, proporcionavam seringas novas a fim de evitar o contágio entre os usuários de drogas.

Outro exemplo dado – que confirma o que escrevi em meu artigo anterior – é o do reaparecimento da malária: “as drásticas reduções dos orçamentos municipais levaram à redução progressiva de várias atividades (por exemplo, os programas de pulverização dos mosquitos), que, em combinação com outros fatores, permitiu o reaparecimento da malária transmitida localmente pela primeira vez em 40 anos”.

O artigo descreve a terrível situação nos hospitais, algo que também está começando a aparecer em toda a Europa em muitos outros países, como resultado do corte de 26% no orçamento dos hospitais públicos entre 2009 e 2011. Ele descreve o aumento na carga de trabalho do pessoal dos hospitais e o crescimento das listas de espera. Descreve a carência de medicamentos como resultado da redução em mais da metade do orçamento dos gastos farmacêuticos. Além disso, por causa da introdução do pagamento para muitos medicamentos, um estudo por ele citado, realizado na província de Achaia, mostra que 70% das pessoas não tinham dinheiro suficiente para comprar as drogas prescritas por seus médicos.

Casos de depressão severa aumentaram de 3,3%, em 2008, a 8,2% em 2011, com “as dificuldades econômicas sendo o maior fator de risco”. No mesmo período, houve um aumento de 36% no número de tentativas de suicídio, enquanto os suicídios aumentaram em 45% no período entre 2007 e 2011. O artigo cita um informe da Comissão Europeia de 2013 que mostra que o número de crianças em risco de cair na pobreza aumentou em um informe de 2013 da UNICEF que mostrou que “um número crescente” de crianças não estava obtendo nutrição suficiente. A mortalidade infantil também foi subindo no mesmo período.

The Lancet também se refere a este fenômeno de desmentidos, em particular na sequência das tentativas do governo de negar que há alguma correlação entre a austeridade e a piora da saúde da população. Acrescenta que o governo espanhol tem feito os mesmos desmentidos. Sem dúvida que veremos uma epidemia destes “desmentidos” por toda a Europa no próximo período. Os governos não gostam de ser retratados como insensíveis, de fato, como assassinos, uma vez que isto logicamente enfurece ainda mais os trabalhadores que já sofrem as consequências da austeridade.

Correlação entre aumento da austeridade e crescimento dos suicídios

O artigo de BMJ Open informa que é possível constatar “um claro aumento nos suicídios entre pessoas com idade para trabalhar, coincidindo com as medidas de austeridade. Essas evidências corroboram as preocupações de que o crescimento do risco de suicídio na Grécia é um perigo para a saúde associado às medidas de austeridade”.

Temos aqui uma revista médica descrevendo a situação econômica como parte de seus estudos:

“As preocupações de que ela [a Grécia] tem que reembolsar sua dívida levou a uma série de pacotes de resgate da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu e do Fundo Monetário Internacional (a Troika). Contudo, isto teve o seu preço enquanto a Grécia era forçada a realizar uma austeridade severa começando em 2010. Ao governo foi exigido cortar gastos em 28 bilhões de euros, em 2010-2011, com mais 13 bilhões em 2012-2014. Em geral, foi equivalente a quase 32% do Produto Interno Bruto (PIB) da Grécia em 2012. Os três primeiros pacotes de austeridade, em 2010, incluíam cortes nos empregos e salários do setor público e nas pensões, o aumento dos impostos indiretos e a privatização das indústrias de propriedade estatal. Em consequência, a economia grega se contraiu em quase um quarto entre 2008 e 2012 e o desemprego quase duplicou, de 12,7%, em 2010, a 24,3%, em 2012. Em fevereiro de 2012, mais 20 mil gregos haviam perdido seus lares e 20% das lojas no centro histórico de Atenas ficaram vazias. Estimou-se que quase 1 em 10 pessoas da população da Grande Atenas frequentavam diariamente as filas de fornecimento gratuito de sopa”.

O artigo continua delineando o impacto dramático sobre a taxa de suicídio, salientando que “houve uma clara mudança na tendência ao suicídio depois de 2010, tanto para homens quanto para mulheres em idade de trabalhar e entre mulheres mais velhas”. E ressalta que “a faixa etária mais afetada era a de homens com a idade entre 20 e 59 anos”, acrescentando que “houve um claro aumento do número de suicídios entre aqueles em idade de trabalhar e mais velhos, o que coincide com a imposição da austeridade, chegando as taxas a níveis nunca vistos em uma década”.

Para uma revista médica, isto é algo que vai além de uma simples análise da correlação entre a deterioração da saúde e a implementação de medidas de austeridade, e mira para quem é responsável. Explica que “em alguns casos, incluindo a Grécia, não foi o governo eleito que decidiu dar esta resposta, e sim os atores externos que a impuseram”. Esta é uma clara referência a esses organismos internacionais como o FMI, o Banco Mundial, a União Europeia e o BCE.

Em uma “respeitável sociedade burguesa” a gente que fica lá no alto não gosta que este tipo de conclusões seja amplamente difundido, porque isto salienta como são criminosas as políticas de austeridade. Elas estão literalmente matando pessoas de todas as idades! Os homens em idade de trabalhar são os mais afetados, o que é uma clara indicação de que em algumas famílias de trabalhadores, em países como a Grécia, ao se perder o emprego, seu principal ganha-pão, entra-se em situação intolerável ou se cai em depressão profunda, com alguns cometendo o suicídio. As mulheres também estão sendo crescentemente afetadas por esta situação, como os indicadores confirmam. Mas a ascensão da taxa de mortalidade infantil também indica que eles estão matando as crianças também.

Um fenômeno internacional

No entanto, a situação descrita na Grécia não é única. O artigo de BMJ Open explica que “as constatações são consistentes com o que foi observado durante a presente crise em quase todos os países europeus, muitos dos quais, na verdade, viram uma reversão no declínio de longo prazo na taxa de suicídios, e nos EUA, onde uma tendência de subida de longo prazo acelerou”.     

O artigo também se refere à Rússia depois de ter reiterado o ponto de que “esta constatação [sobre homens em idade de trabalhar sendo afetados] recorda como um aumento de 39% foi observado entre 1989 e 1994 nos homens russos durante a implementação dos programas de ‘terapia de choque’, que resultaram similarmente em consideráveis aumentos no desemprego e no sofrimento econômico. Adicionalmente, recentes dados epidemiológicos de outro país do Sul da Europa, a Espanha, descrevem um aumento de 8% na taxa de suicídio associada à crise econômica, em um momento em que o desemprego subiu de 8% a 24%”.

A dramática situação social e econômica na Grécia explica a extrema volatilidade política que a Grécia experimentou em período recente e dá uma ideia do que podemos esperar para o restante da Europa no próximo período. Foi devido a estas condições atrozes que o PASOK, depois de ter sido um dos dois principais partidos que dominaram o sistema político na Grécia durante décadas, finalmente entrou em colapso. Nestas mesmas condições, SYRIZA subiu de um partido com 4% a um de 36%, e que logo formou o governo. As mesmas condições também explicam porque agora ele está em sério declínio. As pessoas necessitam de respostas para os seus problemas prementes e Tsipras lhes faltou.

[Continua].

Artigo publicado originalmente em 14 de julho de 2016, no site da Corrente Marxista Internacional (CMI), sob o título “Greece in crisis – Part three: Capitalism kills, especially Greek capitalism.

Tradução de Fabiano Leite.

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