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A crise está chegando

Capitalistas em desespero aguardam ansiosamente decisão do Congresso dos EUA para tirar centenas de bilhões de dólares do povo e entregar a eles.

As manchetes de jornais e os âncoras das TVs destacam: bolsas perdem bilhões de dólares; um dos maiores bancos dos EUA faliu; governo dos EUA estatiza bancos; pacote de 700 bilhões para ajudar bancos; Bancos Centrais despejam 500 bilhões no mercado para acalmá-lo.
Afinal, o que está acontecendo?

O Capital Fictício

A dívida privada nos EUA (o que as empresas privadas norte-americanas e as pessoas físicas devem) equivale a 200% do PIB dos EUA (ou seja, algo em torno de 24 trilhões de dólares). Destes, aproximadamente 12 trilhões em hipotecas (empréstimos tomados tendo um imóvel – geralmente a própria casa – como garantia).

As estimativas situam o PIB mundial (tudo o que é produzido no mundo) num valor próximo de 54 trilhões de dólares. Os EUA produzem, sozinhos, entre um terço a um quarto deste valor (algo em torno de 17 trilhões de dólares). Por outro lado, os “ativos financeiros” registrados nos organismos oficiais, o conjunto dos papeis emitidos por bancos, financeiras e seguradoras valem algo em torno de 167 trilhões de dólares, dos quais 100 trilhões estão nos EUA. Estima-se que existam 500 trilhões de dólares em ativos financeiros não registrados! Traduzindo – existem valores (fictícios), em papel (ou registros de computador) que são 13 vezes maiores que a produção mundial. Aproximadamente 4 trilhões de dólares são movimentados diariamente nestes “papéis”, ou seja, por dia movimentam-se valores equivalentes a 8% do que o mundo produz num ano! No ano, se movimenta em papéis 40 vezes mais que o mundo produz!

Isto é feito no mercado de “derivativos”, venda de seguros ou “apostas” de lucros a serem obtidos com os empréstimos. De cada dólar real, são gerados “ativos” 20, 40 ou 100 vezes maiores, num processo conhecido como “alavancagem”.

O Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial explica como surgiu esta situação:

“A alavancagem ficou tão grande que o Goldman Sachs usou cerca de US$40 bilhões em capital para suportar US$1,1 trilhão em ativos, enquanto o Merrill Llynch usou US$30 bilhões como base para US$1 trilhão em ativos. Desde 2000, a especulação no mercado desregulado de trocas de garantias contra calotes (CDSs, da sigla em inglês) cresceu exponencialmente de US$900 bilhões para US$62 trilhões no início de 2008, duas vezes a capitalização do mercado acionário dos EUA e quase o equivalente a totalidade da riqueza das famílias dos Estados Unidos e dez vezes o valor de todos os títulos de dívida que podiam ser protegidos por seguro.”

A Economia real

Vamos parar um pouco com estes números “fantásticos” e voltar à vida real: tudo o que se produz com o trabalho humano tem um valor. Este valor é dado pela quantidade de trabalho investido na mercadoria. Assim os trabalhadores (operários e camponeses) do mundo todo produzem anualmente o equivalente a 54 trilhões de dólares. A maior parte destes valores fica com os patrões (lucros, juros, impostos) e uma parcela ínfima (de 5% a 30%, conforme o país) fica com os bilhões de trabalhadores do mundo. Apenas 250 famílias burguesas absorvem 50% desta riqueza mundial!

O crédito: casas e guerra

Por outro lado, o sistema só funciona se o que é produzido é vendido com lucro. Daí a necessidade do crédito (empréstimos). O problema é que nem sempre os compradores podem honrar os empréstimos que tomaram. No mundo inteiro houve uma especulação de preços dos imóveis, com aumentos de 50% a 100% e concederam-se créditos às pessoas para pagarem estas casas. Quando o crédito aumentou muito, quando o preço das casas aumentou, faltaram compradores e o preço despencou. Então, quem comprou a um preço alto com um alto financiamento, não pode pagar.

Desde que teve início a guerra do Iraque, os EUA tiveram que emitir novos 3 trilhões de dólares para pagar a guerra (ou seja, 30% da dívida pública dos EUA). A burguesia americana contava em tirar lucros da extração do petróleo do Iraque como resultado da guerra e recuperar este dinheiro. Mas a resistência do povo iraquiano impediu essa parte do plano. E alguém (o povo trabalhador americano) vai ter que pagar esta conta.

Para manter estes números fantásticos de crédito, o “lucro” produzido nos países atrasados (Brasil, China, etc.) é utilizado como “reservas” e investido em títulos do tesouro dos EUA. A China possui 1,5 trilhão em “reservas”, o Brasil 200 bilhões.

Castelo de cartas

O problema é que com os preços das casas caindo, milhares de pessoas deixaram de pagar as hipotecas. Sem este pagamento, cai todo o castelo montado acima (os derivativos) e vários bancos entraram em condição de falência. O crédito interbancário estancou, com medo de um banco estar emprestando dinheiro a um banco falido. O sistema ameaça paralisar-se. Os governos reagem injetando dinheiro (crédito) a todos os bancos. Apesar disso, falem alguns grandes bancos e o governo dos EUA é obrigado a estatizar as maiores agências hipotecárias – investindo nisso 200 bilhões de dólares! Mesmo assim, deixa falir um grande banco de investimento (Lehman Brothers) e estatiza a maior seguradora do mundo, AIG (US$ 67 bilhões). O “credo neoliberal”, o “consenso de Washintgton”, tudo vai pelos ares e aparece a verdadeira face do estado capitalista: o Estado Maior da burguesia, o comitê central que age para impedir a quebra geral do sistema. Por isso todos os analistas, economistas, jornalistas, concordam que foi necessário “estatizar” para salvar o sistema como concordaram em criticar Chávez por “estatizar” (sem nenhum pudor ou necessidade de ser coerentes).

Os analistas estimam que o governo EUA já gastou 1,5 trilhões de dólares nisto e ele propõe um novo pacote de US$ 700 bilhões. Ah sim, além de “ajudar” o mercado, foram gastos 4 bilhões (0,3%!) para ajudar “pobres que perderam casas”. Vai resolver? Quem vai pagar esta conta?

Nós começamos com números fantásticos, de centenas de trilhões de dólares. Os valores despendidos pelo governo dos EUA vão se mostrar pouco em poucas semanas e será exigido mais. E quem vai pagar a conta serão os trabalhadores em forma de recessão – aumento no preço de produtos básicos, aumento do desemprego. Estima-se que companhias industriais, como a gigante General Motors, estão à beira da falência. Obama propõe abandonar o Iraque e concentrar as tropas na guerra do Afeganistão. Ou seja, a saída capitalista é mais miséria para o povo, mais guerras.

Mas o vento da revolução varre a América Latina e o mundo. O exemplo da Venezuela e da Bolívia estão aí. Os capitalistas sentem e temem:

“Um aumento de 83% nos preços mundiais dos alimentos nos últimos três anos vem provocando tumultos e outras perturbações no Haiti, Egito, Costa do Marfim, Camarões, Senegal, Etiópia, Paquistão e Tailândia.” (Instituto Braudel)

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