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Assembleia de aprovação de greve na Mercedes. Foto: Adonis Guerra/SMABC

A crise e o dólar

Editorial do jornal Foice&Martelo 116, edição que pode ser lida online clicando aqui.

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Os últimos acontecimentos mundiais levaram a um fortalecimento geral do dólar frente a todas as outras moedas, inclusive ao Euro. Os maiores jornais do Brasil (Estadão, Folha e O Globo), na quarta-feira, (16/5) tocaram o sinal de alarme sobre o assunto: o Real foi a terceira moeda que mais perdeu, depois do Peso Argentino e da Lira da Turquia. Quais as causas deste movimento?

Trump declarou que é muito fácil vencer uma guerra comercial. Até agora, com a alta dos juros nos EUA, os únicos vencedores são os bancos e os especuladores financeiros.

Apesar de todas as sobretaxas de Trump, a valorização do dólar – efeito colateral da alta dos juros nos EUA – encarece o preço das mercadorias dos EUA e barateia as dos outros países. A única exceção, até o momento, é a China, que decidiu continuar a política de valorização de sua moeda para garantir um “pouso suave” para o seu crescimento. Mas a realidade concreta vai passar por cima de todos esses cálculos políticos e econômicos, enquanto a crise aberta em 2008 continua a grassar.

A crise atual é uma crise sistêmica do capital, que tem origem na superprodução, no excesso de mercadorias que o mercado não tem capacidade de consumir. As guerras localizadas, que consomem uma boa parte da produção armamentista, são o exemplo mais doloroso desta crise. Há uma ofensiva generalizada da burguesia para retirar os direitos dos trabalhadores e garantir o seu lucro, num período de quebra de empresas, de fusões e de demissões. O salário cai, no mundo inteiro, assim como os direitos sociais. A falsa recuperação nos EUA recupera o lucro dos ricos e mantém o proletariado em empregos com salários rebaixados e forte aumento do tempo de trabalho.

As medidas de Trump, que procuram aumentar o protecionismo do seu mercado (“America first”, América primeiro) conduzem, na realidade, ao seu contrário. O resultado é um grau de incerteza na economia que gera nervosismo nos “investidores” e faz a alegria de todos os especuladores, apostando na gangorra nervosa das moedas.

A crise no Brasil

Temer comemorou seus dois anos de governo com o slogan “O Brasil voltou, 20 anos em dois”, que é uma piada de si mesmo. A única coisa que parece ter voltado foram as denúncias sobre as mortes feitas pela Ditadura e o dólar que sobe sem controle.

Quando começou a alta geral do dólar, os analistas burgueses trataram de ressaltar a diferença entre o “colchão” de dólares aplicados que o Brasil possui, a pouca exposição à dívida externa do governo federal e a força da bolsa que se encontra em ascensão. Isso para explicar que a moeda brasileira não desceria tanto quanto a Argentina.

Verdade. O problema do Real é que o Brasil tem um governo que não governa, um Legislativo que só legisla em prol de banqueiros e dos fazendeiros e um Supremo que controla o Legislativo e o Executivo – mas se perde em firulas e brigas intestinas entre seus membros sobre o que decidir. O STF pode tudo e um ministro com peito pode mais ainda. Os aliados tucanos de Gilmar Mendes são soltos por liminares de sua lavra: todos os processos e liminares pedidos por políticos do PSDB caem invariavelmente em seu colo (e são todos sorteados! Ah esses sorteios).

E cada nova decisão do STF, o único poder de fato do país, leva a mais crises. O STF decide restringir o foro privilegiado, permitindo que qualquer juiz de uma comarca do interior possa condenar um político em processos dúbios.  É só ver os processos contra os políticos do PT feitos por Moro – lembrando que Moro hoje se arrepende da foto sorridente ao lado de Aécio Neves, no mesmo dia que é fotografado sorridente ao lado de João Doria (candidato do PSDB ao governo de SP).

Os jornais burgueses estampam a pergunta: e os juízes, e os membros do Ministério Público, por que mantém foro privilegiado? Claro está, que num país onde a autoridade e as leis estão valendo pouco, não se lembraram de perguntar por que recentemente o Congresso decidiu que os militares que cometerem crimes (militares incluem a PM) serão julgados pela Justiça Militar e não pela Justiça Civil, como qualquer outro criminoso. No momento em que se lembra ao país que os ditadores militares ordenaram mortes e execuções, os jornais têm medo de fazer essa singela pergunta.

Márcio França (PSB, atual governador de SP), que é cortejado por Lula e Alckmim para apoiar suas candidaturas, não tem medo. Declara expressamente que qualquer um que ofender a farda da PM deve temer por sua vida. Em outras palavras, ele quer conceder à PM a licença para matar, ao arrepio da lei. E, nesta crise em que ninguém sabe quem manda e quem obedece, os analistas surpreendem-se com a queda do Real?

A burguesia não consegue se entender em como governar. E a classe operária necessita de um partido para se colocar como aspirante para a tomada do poder. Esta é a necessidade do momento, que os primeiros movimentos da classe, nas suas greves, mostram que existe um novo caminho que é preciso trilhar.

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