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A crise e o crédito

Quem disse que a crise já passou?

No mundo inteiro, as bolsas voltam a subir. O cassino volta a rodar sua roleta, com os trabalhadores sendo pagos com fome, desespero, crises familiares, rebaixamento da qualidade de vida. Com as perdas que aconteceram milhões de operários e trabalhadores foram jogados no desemprego e na rua da amargura no mundo inteiro. Na Europa e EUA os índices de desemprego batem recordes sobre recordes.

Enquanto isso, a revista Forbes calcula que os bilionários estão “19% mais pobres”, ou seja, enquanto o trabalhador perde a sua casa e até o direito a uma comida decente, os bilionários continuam bilionários. A China cresce e os economistas e capitalistas comemoram. No Japão centenas de milhares não têm emprego, muitas pessoas estão sendo obrigadas a dormir nas lan-houses deitadas em cima de teclados. Mas o PIB japonês e o PIB alemão voltaram a crescer.

Alguns, mais realistas, têm que explicar a verdade que existe por trás destes números eufóricos. Na China, o governo alerta que o crescimento se deu na esfera da produção, aumentando a capacidade de produzir aço, máquinas e moradias. O problema é que isso foi feito a partir do aumento violento do crédito, sem que se garanta o mercado para o que foi produzido, aprofundando as privatizações e arrancando direitos da classe operária. (Ler artigo sobre a China na edição nº 25 do Jornal Luta de Classes).

Em outras palavras, se a crise nos EUA teve como ponto de partida o crédito e a alta vertiginosa de produção sem mercado para consumo (superprodução), como não ver que essa crise vai por sua vez bater às portas da China?

O problema é de tempo e o governo Chinês desespera-se, e nada pode fazer, afinal são os rumos ditados pelo “mercado”. E, o FMI diz que o crescimento está sendo retomado justamente pela China. Ou seja, a crise atingiu um determinado patamar, e se não podemos prever quanto tempo aí permanecerá, certamente podemos constatar que ela segue ocorrendo.

O presidente do Banco Central norte-americano, em depoimento ao Congresso, admitiu que o dólar não corre risco atualmente, mas frente ao endividamento do governo, ele pode começar a ser deslocado como moeda mundial de troca.

A deflação do dólar (perda de seu valor frente às mercadorias e outras moedas) aumenta a instabilidade no comercio mundial e a declaração do Presidente do BC americano apenas mostra que isto pode conduzir, em determinado momento no futuro, a uma crise maior ainda no comércio mundial (que já caiu por volta de 25% de 2008 para 2009).

No Brasil, a situação é diferente, mas não tanto assim. O crédito aumentou substancialmente, particularmente pelos incentivos para compra de automóveis, eletrodomésticos e casas. Vitaminadas pelos incentivos concedidos em forma de desoneração do IPI as multinacionais do setor voltaram a remeter lucros para suas matrizes. E o crédito que mais cresceu foi o crédito ao consumidor, enquanto o crédito para as empresas encolheu (apesar do esforço do governo, concentrado no BNDES, que aumentou seus empréstimos como nunca antes).

No acumulado nos últimos doze meses, a atividade industrial diminuiu 8,9%:

Programas como o “Minha Casa, Minha Vida” facilitam enormemente o crédito para moradia, diminui-se o valor dos juros e também o superávit primário. A grande questão, tal qual existia nos EUA e existe hoje na China é: por quanto tempo? Quanto tempo até se chegar à saturação e o mercado desabar? Ressaltem-se duas questões que surgem das estatísticas recentes no Brasil:

1) A exportação industrial caiu, mantendo-se a exportação agrária e de matérias primas, levando no final a uma queda de mais de 20% no comércio externo, com o país consolidando-se mais e mais como vendedor de matérias primas e produtos agrícolas.

2) O aumento da concentração fundiária nos últimos 10 anos, mostrado pela estatística que o Ministro Stephanes ataca, ressalta uma situação mais preocupante. Pois tendo em vista que a maioria dos produtos agrícolas de consumo popular é cultivada pela agricultura familiar (pequena agricultura) que produz, por exemplo, 70% do feijão consumido no Brasil (a grande exceção é o arroz, onde a maioria é produzida na grande propriedade).

Em outras palavras: cresce a concentração de terras destinadas à produção para exportação, decresce a produção industrial.

O crédito que o governo jogou no mercado tem permitido que o rítmo de aprofundamento da crise seja por ora mais lento. Situação esta aproveitada pelos trabalhadores que vão às greves exigindo reposição salarial, mas essa pequena desaceleração no ritmo da queda tem limites, indicando que aqui também a crise virá bater mais uma vez em ritmo forte e firme.

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