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A crise do capitalismo europeu – Resolução política da CMI

A crise do euro se assemelha a uma demorada agonia. Reuniões de cúpula “decisivas” se sucedem umas às outras, cada uma delas proclamando o fim definitivo da crise do euro. Os mercados se animam durante algumas horas ou dias e em seguida caem mais uma vez. Os indicadores dos mercados bolsistas europeus se assemelham a um termômetro registrando a temperatura de um paciente em processo terminal.

A turbulência nos mercados é um reflexo preciso do estado mental da burguesia, que se caracteriza por extremo nervosismo. Isto, por sua vez, é um reflexo do fato de que a atual crise é sem paralelo em seu alcance. A burguesia se encontra à deriva em águas desconhecidas, sem nenhum mapa ou bússola.

O futuro do euro

Nunca devemos perder de vista o fato de que as barreiras reais ao crescimento sob o capitalismo são:

·         A propriedade privada dos meios de produção; e  Estado – Nação.

A criação da União Europeia foi uma tentativa por parte da de sua burguesia (principalmente a francesa e a alemã) para superar os limites do estado-nação através da criação de um mercado comum, o que deveria levar a uma maior integração. A introdução de uma moeda comum deveria constituir o principal passo nesta direção.

Contudo, como já tínhamos explicado anteriormente, em bases capitalistas, a tentativa de se criar um rígido regime de moeda, planejado para se aplicar igualmente em economias tão diferentes como as da Alemanha e da Grécia, estava fadada a fracassar. Somente funcionaria enquanto o boom perdurasse, mas a chegada de uma recessão fez emergir todas as contradições e antagonismos nacionais. A unidade da União Europeia atingiu seus limites e está regredindo. O euro (e até mesmo a própria União Europeia) está diante do colapso.

O euro não é a causa da crise do capitalismo europeu, mas exacerbou enormemente os problemas, em particular os problemas das economias mais débeis como a da Grécia e a da Itália. No passado, as burguesias grega e italiana poderiam resolver parcialmente o problema através da desvalorização da moeda. Agora, esse caminho está literalmente fechado para elas. A única alternativa é a que eles agora designam como “desvalorização interna”. Como os produtos não podem ganhar competitividade através da desvalorização da moeda, em vez disto os salários devem ser rebaixados, tanto no setor público quanto no setor privado. Isto significa regime de austeridade permanente e ataques aos padrões de vida.

Não importa o que façam agora os governos europeus, vão estar errados. Se continuarem a tentar sustentar o euro, estarão colocando um fardo insuportável sobre os recursos financeiros da União Europeia. Isto significará anos e décadas de cortes, austeridade e queda dos padrões de vida. E isto é uma receita pronta e acabada para a luta de classes. Mas se o euro entrar em colapso, isto será uma catástrofe econômica que mergulhará toda a Europa (e não somente a Zona do Euro) em uma crise ainda mais profunda.

Esse dilema se expressa em divisões e tensões entre as diferentes burguesias nacionais, notadamente entre a França e a Alemanha. François Hollande obteve uma abrangente vitória eleitoral tanto nas eleições presidenciais quanto nas parlamentares. Ele estará sob pressão para realizar pelo menos algumas das reformas que prometeu na campanha eleitoral. Mas ele também prometeu reduzir o déficit público a 3% no próximo ano. Estes dois objetivos são mutuamente excludentes.

Por outro lado, Ângela Merkel está exigindo a plena realização dos programas de austeridade e de cortes. A burguesia alemã está exigindo disciplina e orçamentos equilibrados. Hollande exige crescimento; Merkel exige cortes. Mais precisamente, a classe dominante francesa quer que a classe dominante alemã pague para estimular a economia de outros países europeus, enquanto a classe dominante alemã quer que os outros capitalistas façam seus trabalhadores pagarem pela crise. Como pode haver acordo entre os dois lados? Assim, há uma aberta divisão no coração da Europa.

O pessimismo da classe dominante se expressou nas palavras do editor de economia de The Guardian, Larry Elliot, sobre a reunião de cúpula do G20:

Seria uma ingenuidade imaginar que o G20 está preparando um plano para a recuperação global ou que a crise da Zona do Euro será resolvida em breve. Os bancos centrais estão em alerta máximo para lidar com as consequências das eleições gregas. Por quê? Porque no momento a economia global pode ser dividida em nações que estão em recessão, em nações que estão prestes a entrar em recessão e nações que estão perdendo rapidamente força. No momento, não há bons resultados; há apenas maus e muito ruins” (The Guardian, 17 de junho de 2012).

A questão da dívida

A expressão mais fotográfica da crise é a dívida pública. No entanto, esta não é a causa da crise, mas somente um sintoma da enfermidade do capitalismo. A dívida pública e acima de tudo os déficits orçamentários têm crescido de forma significativa em consequência do resgate dos bancos e da própria recessão econômica (o que diminui as receitas fiscais, ao mesmo tempo em que aumenta o gasto social em subsídios de desemprego, por exemplo).

Em cada boom capitalista sempre há um elemento de especulação, que somente se revela no início da crise. A única diferença com relação a esta crise é a escala realmente vasta da especulação. Nas últimas três décadas, a burguesia tentou evitar uma recessão através de uma expansão do crédito sem precedentes. Em particular, a burguesia dos EUA se entregou a uma autêntica orgia de especulação baseada na gigantesca expansão do crédito e nas baixas taxas de juro. Tudo isso foi ativamente encorajado por Alan Greenspan e pela Reserva Federal (Banco Central dos EUA).

Marx explicou que o papel do crédito sob o capitalismo é o de permitir que ele vá além de seus limites normais. Uma crise de superprodução pode ser adiada temporariamente expandindo artificialmente a demanda através do crédito ao consumidor. Os bancos participaram ativamente nesta orgia estendendo o crédito a pessoas que nunca seriam consideradas adequadas no passado. Foi esta a base da bolha imobiliária nos EUA e em outros países.

O mesmo fenômeno ocorreu na Europa, particularmente na Islândia, Espanha e Irlanda. Mas em todos os países os bancos participaram ativa e entusiasticamente no que equivalia a uma gigantesca vigarice. Enquanto a espiral ascendente continuou, todos estavam felizes. O crédito era fácil e grandes lucros estavam sendo realizados. Mas no final, os limites foram atingidos e toda a doentia estrutura começou a entrar em colapso.

Como resultado, tivemos a crise bancária de 2008. A tentativa de salvar o sistema bancário injetando enormes somas de dinheiro do Estado é um dos principais fatores por trás do recente e massivo aumento da dívida estatal, que agora a classe trabalhadora está sendo convidada a pagar. Todos os fatores que se combinaram para empurrar a economia mundial para cima, agora se combinam para empurrá-la em uma espiral incontrolável para baixo. A burguesia agora enfrenta as consequências de seus anteriores excessos. A consequência é uma montanha de dívidas acumuladas: privada, corporativa e pública. A questão é: quem paga? É a mesma questão que foi colocada na França em 1789 e, tal como então, a resposta terá implicações revolucionárias.

Marx explica que quando a crise irrompe, o crédito se esgota, o investimento produtivo sofre uma parada, as fábricas são fechadas e os trabalhadores são demitidos. O burguês agora exige que todas as dívidas sejam pagas. Os agiotas são implacáveis. Notas promissórias não são mais aceitas: dê-nos dinheiro vivo! Esta é a sua implacável exigência, e se aplica aos países e governos, da mesma forma que às empresas e indivíduos.

A Alemanha e o Euro 

A reunificação da Alemanha deu nova vida para velhas ambições. Embora na teoria a França e a Alemanha sejam parceiros iguais, todos sabem que a Alemanha é quem manda. A burguesia alemã tem em suas mãos uma economia poderosa baseada em uma forte indústria. O Bundesbank tem os cordões (alusão aos cordões de controle de marionetes, ndt) da bolsa da Europa.  

Durante o boom os padrões de vida em geral se elevaram na Europa, mas foi um processo muito desigual. Mesmo durante o boom a burguesia fez pressão implacável sobre os trabalhadores para aumentar a produtividade, para trabalharem mais duramente e por mais horas. Houve um processo inexorável de precarização, com empregos a tempo integral sendo substituídos por contratos a tempo parcial com salários mais baixos e piores condições. Os trabalhadores sentiam-se recompensados por causa das horas extras de trabalho, pelo emprego de toda a família, pela redução dos preços dos bens de consumo, em parte como resultado das importações baratas chinesas, e, acima de tudo, pela desenfreada expansão do crédito.

Na Alemanha, que é fortemente dependente da exportação de seus produtos industriais, os capitalistas espremeram os trabalhadores sem misericórdia para extrair a última gota de mais-valia. Na década anterior a 2008 os custos unitários do trabalho aumentaram 30% na Itália, 35% na Espanha, 42% na Grécia, mas somente 7% na Alemanha. Os salários reais alemães foram puxados para baixo, a produtividade aumentou e as exportações cresceram rapidamente. Mas alguém tinha de importar o que a Alemanha exportou.

A criação do euro, portanto, beneficiou os capitalistas alemães. Forneceu-lhe um grande mercado para suas exportações (60% das quais iam para os países europeus), que eram altamente competitivas através da combinação de salários reduzidos e da mais moderna maquinaria. Para expandir o mercado para suas exportações, a Alemanha pressionou outros países a aceitar empréstimos para aumentar a demanda. O dinheiro que foi enviado à Grécia e a outros países foi usado para comprar produtos alemães, o que foi feito em grande escala.

Agora, a burguesia alemã se queixa de que foi enganada. Reclamam que os gregos falsificaram os registros contábeis para ganhar a entrada na Zona do Euro. Provavelmente, é verdade. Mas será a burguesia alemã incapaz de lidar com a simples aritmética? Não sabem somar? Ou, se a resposta for negativa, não têm contabilistas competentes? É claro que têm. Mas, em 2001, não estavam interessados em examinar os números de muito perto, ou pelo menos mais do que os banqueiros nos EUA, Espanha e Irlanda, que foram impondo empréstimos para moradias para famílias com pouca ou nenhuma renda disponível.

Se a Alemanha é exportadora e credora, outras nações europeias devem ser importadoras e devedoras. Esta relação devedor-credor esteve no melhor dos mundos enquanto a economia estava crescendo. Mas a crise de 2008 revelou cruelmente a situação real. O momento do acerto de contas chegou. Mas quando a fatura foi apresentada, não havia dinheiro para pagá-la.

O elo mais fraco

Toda corrente sempre se quebra em seu elo mais fraco. A Grécia é o elo mais fraco na cadeia do capitalismo europeu. É o enfermo da Europa. Mas existem muitos enfermos neste hospital especial. Alguns deles já se encontram no Centro de Tratamento Intensivo (Grécia, Irlanda e Portugal). Outros estão quase na mesma condição (Espanha e Itália). A França e a Bélgica não estão muito atrás. Os outros estão na sala de espera. Mas todos ficarão doentes no final.

A ideia de que é possível para países como a Alemanha, a Finlândia e a Áustria isolarem-se da enfermidade geral europeia, é uma ilusão. Já não há mercados nacionais na Europa. A Europa foi modelada como um mercado único com um alto grau de integração econômica. O destino de um deles terá um sério impacto no destino de todos. Isto é verdadeiro, mesmo para os menores, como a Grécia.

Pode parecer um paradoxo que a recente reunião de cúpula do G20 estivesse obcecada pelo problema grego e particularmente pelo resultado das eleições gregas. Mas ainda mais paradoxal foi o que aconteceu depois. A burguesia (em particular nos EUA) estava preocupada com o fato de que uma vitória de SYRIZA significaria a saída imediata da Grécia da Zona do Euro, o que estimularia uma concatenação de circunstâncias que poderia colocar em risco o futuro do próprio euro, e provocando uma depressão em escala mundial.

Quando este resultado foi evitado pela vitória apertada de Samaras e da Nova Democracia, os burgueses deram um ruidoso suspiro de alívio. Poder-se-ia esperar que a União Europeia (isto é, Ângela Merkel) lançaria uma tábua de salvação para Samaras, ou que, pelo menos, lhe desse algum sinal que ele pudesse interpretar como uma promessa de alívio futuro para o sofrido povo grego. Em vez disso, a chanceler alemã virou um rosto de pedra para Atenas e advertiu que não se tratava de renegociar nada.

Merkel antes concordara em “ajudar” a Grécia a pagar suas dívidas, não por generosidade, e sim porque a maioria destas dívidas foi contraída com os bancos alemães e franceses. A “ajuda” foi acompanhada de um feroz pacote de cortes que empurrou a Grécia a uma recessão profunda e a reduziu à mendicância. Longe de resolvidas, as coisas pioraram ainda mais. Contudo, Merkel continua exigindo austeridade e “disciplina”.

Na realidade, a classe dirigente alemã se encontra em um dilema. Por um lado, não quer assumir as dívidas da Europa e ficaria encantada em dar as costas à Grécia. Por outro lado, teme as consequências de uma crise bancária europeia, resultante inevitável da saída da Grécia da Zona do Euro. Esse dilema conduz a uma espécie de paralisia da vontade e a constantes altos e baixos, quando se requer uma ação decisiva. Vimos isto novamente na última cúpula da União Europeia. Os líderes da União Europeia parecem com Nero, que tocava a harpa enquanto as chamas cresciam por todos os lados. 

Espanha

As chamas chegaram à Espanha, que agora se encontra no olho da tormenta da crise econômica europeia. Grécia, Irlanda e Portugal são, no sentido literal, países periféricos da União Europeia. Mas a Espanha é maior que os três juntos. E a Itália é um dos países centrais da própria União Europeia. Portanto, um colapso econômico nestes países teria as mais graves consequências para toda a Europa.

Durante 14 anos (1994-2008), a Espanha evitou uma recessão. Teve uma das maiores taxas de crescimento na Europa e criou mais emprego que qualquer outro país da União Europeia. Parecia que o boom duraria para sempre. Mas o auge foi impulsionado em grande medida por uma bolha especulativa, alimentada por crédito fácil e barato dos bancos e, sobretudo, das caixas de poupança.

O final do boom pôs todas as contradições sobre a mesa. O mercado imobiliário espanhol veio abaixo. O preço da moradia caiu e muitas famílias perderam seus lares, enquanto que milhares de moradias permanecem vazias. Como resultado, a indústria da construção está em crise e muitos trabalhadores da construção perderam seus empregos, engrossando as fileiras do desemprego.

As cifras oficiais indicam atualmente uma taxa de 25% de desemprego, a mais alta da União Europeia. Mais da metade da juventude da Espanha está desempregada. O crescimento do desemprego significa uma queda pronunciada da demanda e também das receitas fiscais. Os novos cortes somente agravam o problema, como já vimos na Grécia.

Antes de 2007, a Espanha tinha um excedente orçamentário primário e estava pagando realmente suas dívidas. Agora o déficit equivale a 9% do PIB e pretende-se que deve se reduzir a 3% no próximo ano.

A Espanha está em recessão já há quatro anos. Logo se esgotarão os subsídios ao desemprego e muitas famílias não poderão continuar mantendo seus pagamentos de hipoteca. Isto conduzirá a uma nova onda de arrestos, aumentando o problema da falta de moradia. Uma nova queda dos preços da moradia levará os bancos e caixas a ficarem com um número maior de casas vazias, as quais ninguém pode comprar.

Em consequência disso, o sistema bancário espanhol se encontra em profunda crise. Com o objetivo de evitar um colapso total, a União Europeia se viu obrigada a entregar até 100 bilhões de euros, embora esta enorme soma não seja suficiente para tapar o buraco negro nos balanços dos bancos espanhóis. Ninguém conhece o verdadeiro alcance das dívidas dos bancos: 150 bilhões? 250 bilhões? É impossível dizer. Mas está claro que o arresto de 100 bilhões é somente o começo.

Isso está claro para os mercados, que reagiram em consequência. Ninguém quer comprar dívida espanhola, a menos que recebam uma taxa de juro elevada. A taxa de juro já alcançou 7%. Taxas de juros tão nocivas são impossíveis de se sustentarem por muito tempo.

Ainda antes que fossem anunciados os planos de austeridade e de cortes massivos do novo governo do Partido Popular (PP), já tínhamos visto uma onda depois da outra de greves e mobilizações regionais e setoriais: o setor da educação em Madri, os funcionários na Catalunha e em Valencia, o movimento dos estudantes em Valencia, o movimento do setor público da educação etc. O movimento dos indignados, com manifestações massivas em maio, junho e outubro de 2011, foi também um reflexo da acumulação de ira e ajudou a mudar o estado de ânimo geral entre a classe trabalhadora.

A Espanha está seguindo a mesma rota da Grécia, e os resultados serão similares, mas em escala muito maior. O governo de Rajoy é um governo de crise. Sua base eleitoral está se reduzindo rapidamente. Com os dirigentes do PSOE empurrados à união nacional, o beneficiário principal foi a Izquierda Unida (IU) – à esquerda do PSOE – em torno do Partido Comunista que aumentou significativamente seus votos. Nas pesquisas nacionais de opinião IU subiu de 6,9% nas eleições de novembro de 2011 a 11,6% agora.

Isto confirma a mesma tendência à esquerda que vimos na Grécia e na França. Os estrategistas sérios do Capital já advertem sobre as consequências revolucionárias dos cortes massivos no gasto público. Um artigo do Financial Times, assinado por Wolfgang Münchau e intitulado “Espanha aceitou uma missão impossível”, explica isto em termos realistas:

O esforço da Espanha na redução do déficit não é somente má economia, é fisicamente impossível, de forma que algo mais terá que dar. Ou a Espanha fracassa em seu objetivo, ou o governo espanhol terá que despedir tantas enfermeiras e professores que o resultado será uma insurreição política” (FT, 15 de abril, ênfase nossa).

Itália

A situação do capitalismo italiano é, em todo caso, ainda pior que a do capitalismo espanhol, que pelo menos recapitalizou em parte suas dívidas com a ajuda da União Europeia. Mas o nível de endividamento da Itália é ainda maior. Foi este o caso durante muitos anos, mas agora a situação se tornou crítica.

A dívida italiana alcançou 120% do PIB no passado, mas não provocava graves problemas uma vez que sempre puderam desvalorizar a Lira para obter uma vantagem competitiva para as exportações italianas. Parcialmente, a burguesia italiana comprou a estabilidade social mantendo um alto nível de dívida. Sempre puderam encontrar compradores da dívida italiana nos mercados internacionais. Mas tudo isto mudou.

O advento do euro bloqueou essa saída. A Itália perdeu competitividade frente à Alemanha, e o problema se viu agravado pela concorrência da China. A economia italiana esteve estancada por muito tempo. A falta de crescimento levou a um colapso da confiança nos mercados, conduzindo a um incremento dos juros que faz com que a Itália deva pagar mais para pagar os portadores dos títulos.

Se fossem excluídos os pagamentos de juros, a Itália teria um superávit primário. Sob o governo de “esquerda” de Prodi, a Itália começou realmente a pagar suas dívidas. Mas com taxas de juro de 6% ou, inclusive, de 7%, o peso da dívida se torna insustentável. Depois de uma década de estancamento econômico, a Itália não se pode permitir financiar sua dívida, que ascende a 1,9 trilhões de euros. Agora têm dificuldades para vender bônus que ninguém quer comprar.

Já que está bloqueado o caminho da desvalorização, a única alternativa é lançar um ataque contra os níveis de vida. Alguns anos atrás, mesmo antes que começasse a crise, The Economist assinalava que, para que a Itália recuperasse sua competitividade internacional, teria que despedir meio milhão de trabalhadores, e os que permanecessem teriam que aceitar um corte salarial de 30%. Este é o real significado do que se denomina “desvalorização interna”. É o programa real da burguesia italiana.

O caso da Itália mostra o problema central da burguesia europeia: a força da classe operária. Durante décadas os trabalhadores da Europa se acostumaram a certo nível de vida. Conquistaram umas condições de existência pelo menos semicivilizadas. Agora é muito difícil para a classe dirigente retomar as reformas e concessões do passado.

O problema é que a burguesia italiana carece de um partido forte e de um governo estável para executar este programa. Berlusconi não pôde levar a cabo o que se necessitava. O governo de “esquerda” de Prodi foi mais além, mas foi destruído na tentativa. O governo de “unidade nacional” de Monti viu seu apoio entrar em colapso em poucos meses. Todos fracassaram diante da resistência da classe operária italiana.

O caminho está aberto para uma explosão da luta de classes na Itália e oferecerá grandes oportunidades aos marxistas italianos.

Grécia

A perspectiva de um governo de SYRIZA causou uma onda de pânico entre a burguesia da Grécia e internacionalmente. Organizaram uma campanha massiva para afastar as pessoas de SYRIZA, prognosticando uma catástrofe econômica se chegassem ao poder. Isso foi suficiente para causar o pânico entre amplos setores da classe média e das camadas atrasadas, desviando o voto para a Nova Democracia.

No entanto, o resultado eleitoral não resolveu nada. Os problemas econômicos permanecem como antes. Há uma calma muito frágil e temporária na situação que não durará muito tempo. O estado de ânimo entre as massas é tão cético e pessimista como era antes das eleições. Mesmo entre os que votaram a favor da Nova Democracia poucos acreditam que Samaras vá conseguir alguma coisa. Isto não dá uma base muito sólida para se lançar uma nova série de ataques contra o nível de vida do povo grego!

Depois de três anos de contínuas lutas e levantamentos, também deve haver um componente de cansaço entre as massas gregas. Pode haver uma trégua temporária. Mas novos cataclismos são inevitáveis no próximo período. Na realidade, Tsipras teve a sorte de não ganhar as eleições. Um governo de SYRIZA teria sofrido imediatamente uma enorme pressão da burguesia e das massas. Agora Samaras terá que resolver uma crise que, sobre uma base capitalista, não tem solução.

O apoio eleitoral de Nova Democracia logo começará a entrar em erosão. Na oposição, SYRIZA crescerá. Isto já está começando a ocorrer. Há muitos informes de pessoas que estão tratando de encontrar o SYRIZA em suas áreas e que começam a se organizar. São particularmente os militantes avançados, mas também há milhares de jovens, em especial os desempregados e os estudantes.

No entanto, em si mesma SYRIZA é ainda uma casca vazia. Muitos de seus quadros são burocratas reformistas ou que foram estalinistas, que trouxeram consigo as piores tradições do partido de onde vieram, e um grande número de antigos e céticos reformistas eurocomunistas. O problema se vê agravado pela afluência de sectários, cuja única experiência é a de criar alvoroço sem fazer qualquer esforço sério para organizar seus membros. Estes são obstáculos sérios para se construir um verdadeiro partido comunista. Mas o partido se construirá de qualquer forma e as massas saberão como tratar com estas pessoas.

No interior de SYRIZA existem diferentes tendências, tanto de direita quanto de esquerda. O próprio Tsipras se encontra à esquerda, mas seu programa é confuso. E em uma situação como esta, a confusão é muito perigosa.

O elemento decisivo é o trabalho dos marxistas gregos dentro de SYRIZA. Partindo de uma base relativamente débil, estão começando a crescer e a semear fortes raízes dentro do movimento. Como sempre, é necessário combinar trabalho dentro do partido com atividade revolucionária independente. O fato de que SYRIZA não tenha ganhado as eleições é favorável porque nos dá o tempo que necessitamos para construir nossas forças. Devemos participar ativamente na construção de SYRIZA, enquanto simultaneamente realizamos a agitação e a propaganda nos bairros, escolas, universidades e sindicatos.

Nas últimas eleições, SYRIZA obteve 52% dos votos dos jovens de 18 a 24 anos. Isso é um fato muito importante. Agora devemos nos concentrar nesta camada. Em 1917, os mencheviques acusavam os bolcheviques de ser um “partido de crianças” e, em grande parte, estavam certos. Os membros do partido bolchevique eram muito jovens. Os mencheviques eram principalmente antigos sindicalistas inclinados ao reformismo.

Nossos principais lemas são: Organizar-se na SYRIZA! Por uma SYRIZA revolucionária! Construir a tendência marxista revolucionária da SYRIZA! Sobre esta base vamos recrutar os melhores elementos e levar a cabo uma luta por uma política marxista coerente. O primeiro passo é lutar por nosso programa no Congresso de fundação que ocorrerá em novembro, e intervir energicamente nas Assembleias organizadas para configurar o novo partido em setembro e outubro.

Nunca devemos perder de vista o fato de que o objetivo principal é fortalecer a tendência marxista. Vamos ser naturalmente membros leais do partido, os membros mais ativos e melhores, trabalhando nas eleições, recrutando novos membros e construindo seções. Tudo o que pedimos é o direito de apresentar nossas ideias. Estamos convencidos da superioridade do programa e das ideias marxistas e estamos seguros de que no decorrer de certo período de tempo, baseando-nos na prática, poderemos finalmente ganhar a maioria.

Uma crise do sistema

Trotsky explicou que são as mudanças repentinas e bruscas na situação que criam a consciência revolucionária das massas. A crise, por todos os lados, está tirando as massas de sua apatia. Há uma fermentação crescente na sociedade. Está se desenvolvendo um estado de ânimo crítico e um questionamento do sistema, o que não era o caso antes.

A crise atual está expondo rapidamente ante os olhos das massas toda a podridão da sociedade existente e de suas instituições. Uma camada depois da outra do ‘Status Quo’ está sendo julgada ante a opinião pública e declarada culpada: banqueiros, políticos, ministros e presidentes, magnatas da imprensa e bispos. Os que foram respeitados e reverenciados são desprezados ou odiados.

As massas estão buscando uma forma de sair da crise. A instabilidade política pode se expressar com violentos giros da “opinião pública” à direita e à esquerda, isto é, principalmente por parte da pequena burguesia. O fracasso do reformismo provoca decepção na classe operária, a qual se expressa no abstencionismo eleitoral. Mas nas condições atuais, tal estado de ânimo não pode durar muito. Um depois do outro, os governos sobem e descem. Cada combinação possível é tentada e fracassa, já que sobre uma base capitalista não há forma de sair do impasse. Assim, durante um período, os políticos, partidos, programas e ideias serão postos à prova. As massas aprendem pouco a pouco a enxergar o que há por trás das promessas vazias.

Um ambiente de ceticismo está começando a se desenvolver, abre-se um sinal de interrogação sobre o parlamentarismo e a política em geral. Contudo, na Europa as ilusões no parlamentarismo estão profundamente arraigadas. As massas não abandonarão facilmente as organizações com as quais se identificam. Mas cada uma destas organizações será posta à prova. Haverá toda uma série de crises, fermentações e divisões, com o surgimento de novas formações políticas, como SYRIZA, Die Linke e a Frente de Esquerda, a partir das velhas organizações. Devemos acompanhar atentamente estes desenvolvimentos e estar preparados para intervir energicamente para chegarmos às camadas mais militantes da classe e da juventude.

No próximo período se verá uma forte polarização para a esquerda e para a direita, como já vemos na Grécia e na França. Por razões que já explicamos muitas vezes, não há possibilidades para uma reação fascista ou bonapartista na Europa no futuro imediato. No entanto, a ascensão de Amanhecer Dourado é uma advertência do que se pode esperar se a classe operária for incapaz de tomar o poder na Grécia. No futuro imediato, a burguesia está obrigada a governar através dos mecanismos da democracia burguesa. Na realidade, deve se apoiar na camada superior dos sindicatos e dos partidos de esquerda.

Contudo, quanto mais se aprofundar a crise, a burguesia decidirá que há demasiadas greves, demasiadas manifestações, demasiado caos. Em seguida apelará à ordem. Surgirão complôs e conspirações, como a conspiração de Gladio nos anos 1970. Mas muito antes que possa ser colocada a questão da reação bonapartista, a classe trabalhadora terá muitas oportunidades para tomar o poder. Uma tentativa prematura de um golpe de Estado, por exemplo, na Grécia, provocaria uma resistência feroz que poderia conduzir ao recrudescimento revolucionário.

É verdade que a crise se desenvolve de forma desigual. Sempre é o caso. Avança mais rapidamente e com maior intensidade nos países capitalistas mais débeis, como a Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália, enquanto que a Alemanha e a Áustria vão atrás e a Grã-Bretanha em algum lugar no meio. Mas todos os países serão arrastados pela crise geral em um momento ou outro.

Por todos os lados vemos a pesada carga do passado, que pesa como uma montanha na consciência das massas e é particularmente notável na direção das organizações de massas. Os dirigentes reformistas dos sindicatos e dos partidos de esquerda estão vivendo no passado. Inclusive as mentes dos delegados e ativistas sindicais estão nubladas pela recordação das derrotas passadas. Estão infectados pelo ânimo do ceticismo e cinismo.

Isso é ainda mais claro no caso das camadas de ativas dos partidos de esquerda, as quais que foram deformadas pelo estalinismo e pelo reformismo no passado, que não confiavam na classe trabalhadora. Serão necessários grandes acontecimentos para ressuscitar esta camada e muitos simplesmente permanecerão totalmente à margem da política e serão substituídos por uma nova geração que não está constrangida pelas recordações do passado.

Em geral, o peso da crise capitalista cai mais pesadamente sobre os ombros dos jovens. Na Espanha, a metade dos jovens está desempregada. Na Grã-Bretanha, Cameron quer suprimir a ajuda à moradia aos menores de 25 anos etc. Das fileiras da juventude virão os melhores combatentes. Sentir-se-ão atraídos pelos sindicatos e partidos de esquerda nos quais verão uma referência para mudar a sociedade. Devemos nos basear neles. Nas palavras de Lênin: o que tem a juventude tem o futuro.

Não há saída

Alguns pensam que o único objetivo da classe dirigente é salvar os bancos. Isto é demasiado simples. Há contradições entre as diferentes seções da classe capitalista, e os banqueiros representam somente uma seção. Na Grã-Bretanha o peso do capital financeiro é muito grande devido à destruição da indústria manufatureira britânica. Mas, mesmo na Grã-Bretanha, a coalizão Tory-LibDem se viu obrigada a exercer pressão sobre os bancos, a investigar os assuntos de Barclays e RBS depois do último escândalo na fixação da taxa de juro. Cameron exigiu a renúncia do chefe de Barclays, enquanto que o tímido líder trabalhista pedia que Miliband fosse preso. 

Na Espanha, as ações de Bankia perderam entre 80-90% de seu valor, mesmo quando se supunha que o valor destas ações estava “garantido” pelo Estado e o governo nas mãos do direitista Partido Popular.

Por todos os lados, vemos contradições insolúveis. Cresce a demanda de eurobônus. Mas alguém terá que subscrever estes bônus hipotéticos. Quem o fará? A Alemanha, naturalmente! Quando os Estados devedores propõem a criação de eurobônus, Merkel responde: “Nem pensar”.

O ministro das finanças alemão disse que a Grécia recebeu mais dinheiro que o dinheiro que a Alemanha obteve do Plano Marshall depois da segunda guerra mundial. Isto é mentira. Depois de 1948, a Alemanha recebeu muito mais dos EUA para saldar as enormes dívidas que havia acumulado antes e durante a guerra. Sim, mas isto foi em um momento em que os EUA possuíam dois terços do ouro mundial em Fort Knox e a economia capitalista mundial se encontrava em tremendo auge.

Qual é a posição agora? A economia mundial está na crise mais profunda da história. Os EUA têm um déficit enorme – tanto externa quanto internamente. A maior nação credora do mundo se converteu em uma das maiores devedoras. E quanto à Alemanha, não há suficiente dinheiro no Bundesbank para resgatar a Espanha e a Itália. Somente as dívidas da Itália ascendem a quase dois trilhões de euros.

A Alemanha não quer pagar, mas tampouco pode permitir o colapso do euro. Por um lado, os bancos alemães (e americanos) possuem grandes quantidades de dívida grega, espanhola e italiana. Por outro lado, a Alemanha exporta suas mercadorias à zona do euro.

Às insistentes demandas de eurobônus, Merkel responde: de acordo, mas exigimos que todas as dívidas sejam ajustadas pela União Europeia (isto é, pela Alemanha) antes de ser apresentadas aos parlamentos nacionais. Ademais, exigimos que a União Europeia (isto é, a Alemanha) tenha o direito de interferir em seus orçamentos e de vetar o gasto inaceitável etc. É a mesma coisa que dizer: a Alemanha somente aceitará subscrever suas dívidas quando vocês se comprometerem a nos entregar sua soberania nacional.

Com assombrosa mistura de cinismo e insolência, Cameron disse: “estamos de acordo em que deve haver uma União mais estreita dos Estados da Zona do Euro para salvar o euro [e proteger os interesses britânicos], mas os britânicos não farão parte dela e não pagaremos um só centavo para ajudar”. No entanto, o que diz Cameron tem poucas consequências para a Europa hoje em dia.

É altamente improvável que França, Itália e Espanha renunciem imediatamente a sua independência para comprazer Merkel e o Bundesbank. Mesmo que estivessem de acordo Hollande, Rajoy e Monti, isto teria que ser ratificado pelos parlamentos nacionais e provavelmente teria que se submeter a referendo, o que poderia durar anos e conduzir a argumentações intermináveis. Contudo, a crise do euro está acontecendo agora mesmo e os mercados não esperarão até que o complexo funcionamento da democracia parlamentar decida a questão.

Os mercados e os investidores estão perdendo a paciência. Houve o que somente se pode descrever como uma “câmera lenta” aos bancos na Grécia e Espanha. É uma amostra do que o futuro enfrentará. Os bancos europeus estão à beira de um abismo. Cedo ou tarde um grande banco quebrará como ocorreu com o Kreditanstalt de Viena, que veio abaixo em maio de 1931. Tal acontecimento pode ser o desencadeador de uma crise bancária europeia geral e de uma depressão profunda, que terá as mais graves consequências para a economia do mundo inteiro.

Utopia dos reformistas

Os reformistas não têm nenhuma solução para a crise. Aceitaram o sistema capitalista. Em sua cegueira acreditam que os cortes são produtos da ignorância ou de uma “motivação ideológica”. Alguns deles tentaram culpar as agências de qualificação. Isto é a mesma coisa que culpar um termômetro por registrar uma febre. Quando o termômetro quebra, a febre não desaparece. Sem as agências de qualificação, os mercados continuarão a funcionar da mesma forma que antes. E sob o capitalismo, que legislação pode impedir ao burguês de tirar seu dinheiro de mercados perigosos ou pouco rentáveis para transferi-lo a outros mais seguros ou mais rentáveis?

Lemas como “impostos aos ricos” podem ter um efeito positivo como agitação, mas carecem de qualquer conteúdo científico. Hollande propõe aumentar em 75% o imposto às altas rendas. Isto sem dúvida lhe deu votos, mas se tentar colocar em prática conduzirá imediatamente a uma saída massiva de capitais da França para a Suíça ou mesmo para a Grã-Bretanha, onde Cameron disse que dará as boas-vindas com os braços abertos para receber os capitais. Isso não contribuiu em nada para melhorar as relações entre Paris e Londres.

O problema com o reformismo (especialmente a variante de esquerda) é que, ao interferir no mercado, sem eliminá-lo, torna impossível que o capitalismo funcione normalmente. No caso da França, se Hollande tentar por seu programa em prática, enfrentará uma greve massiva do Capital para obriga-lo a mudar de rumo. Foi isto o que aconteceu com Mitterrand no passado. Mas a situação é muito pior agora que em 1981 e a queda de Hollande será muito mais rápida e mais abrupta. Isto provocará uma nova explosão da luta de classes, com o crescimento da Frente de Esquerda e da fermentação nas fileiras do Partido Socialista.

Qual é o problema? A classe operária demonstrou que está disposta a responder a um apelo audaz à ação quando isto lhe é proposto. Mas os dirigentes não têm nenhuma confiança em e nem na classe trabalhadora. Inclusive os melhores setores da esquerda se mostram relutantes em irem até o fim. Sempre estão buscando alguma solução “inteligente” que permita evitar um conflito direto com a classe dirigente. Mas sem tal confronto nenhuma saída é possível, e estes esquemas “inteligentes” somente provocariam uma crise ainda pior.

Tsipras se tornou muito popular através da imagem que projetou como de esquerda e por sua oposição aos planos de austeridade. Mas seu programa é totalmente utópico. Quer que a Grécia permaneça na Zona do Euro, enquanto rechaça os termos ditados por Bruxelas e Berlim. Os líderes do KKE desejam que a Grécia volte ao dracma. A primeira opção é rechaçada pelos líderes burgueses da União Europeia, enquanto que a segunda é uma receita pronta e acabada para o colapso econômico. Na realidade, não há nenhuma solução para as massas gregas dentro ou fora do euro. Dizer o contrário é enganar a classe trabalhadora.

A ideia de que a solução é se negar a pagar a dívida, enquanto se mantêm o capitalismo é típica das noções utópicas da pequena burguesia radical. A menos que este lema esteja vinculado à expropriação dos banqueiros e dos capitalistas, conduziria ao colapso econômico. Isto mostra o caráter limitado do programa de Tsipras, que parece acreditar que a Grécia pode deixar de pagar suas dívidas aos banqueiros alemães e franceses e continuar na Zona do Euro. Isto é utópico ao extremo. A Grécia logo se encontraria não somente fora da Zona do Euro, como também fora da União Europeia.

A única consigna correta de transição somente pode ser a nacionalização dos bancos sem indenização. Estes parasitas já têm demasiado dinheiro público. Nem um só centavo para os banqueiros! Só mediante a nacionalização dos bancos e empresas de seguros será possível avançar para uma economia planificada racionalmente.

A expropriação do capital financeiro oferecerá muitas oportunidades para resolver os problemas que a sociedade enfrenta. Contudo, a nacionalização dos bancos é em si mesma insuficiente. Inclusive se todo o sistema bancário fosse nacionalizado não se colocaria um fim à anarquia do capitalismo. É necessário nacionalizar os grandes monopólios que dominam a economia, sob a administração e controle democráticos dos trabalhadores. As “grandes alavancas” da economia devem estar nas mãos do Estado e este nas mãos da classe trabalhadora. Somente então será possível planejar as forças produtivas de forma racional e harmoniosa.

Devemos dizer a verdade à classe operária da Grécia, só há uma opção: tomar o poder e imediatamente apelar aos trabalhadores da Europa a seguir o seu exemplo. Abaixo a Europa dos banqueiros e capitalistas! Pelos Estados Unidos Socialistas da Europa! Esse é o nosso lema. Se os trabalhadores gregos tomam o poder em suas mãos, isso produziria um choque elétrico sobre os trabalhadores de toda a Europa, começando pela Espanha, Itália, Portugal e França. Isto teria repercussões no mínimo tão grandes como a Revolução Russa de 1917. A situação se transformaria.

Ao mesmo tempo em que apresentamos nosso programa socialista para organziar a sociedade conforme os interesses das massas trabalhadoras, não podemos deixar de agitar como ponta de lança de nossas atividades todas as medidas imediatas que devam ser adotadas para defender os trabalhadores, como a rejeição do Memorándum e de todas as medidas de austeridade da UE, a reintegração de todos os demitidos, nacionalização de tudo o que foi privatizado, cancelamento dos rebaixamentos dos salários e das pensões, com a intenção de organizar e mobilizar. Neste processo, ao mesmo tempo em que explicamos nosso programa socialista, vamos ganhar os melhores militantes entre os jovens e os trabalhadores.

Em países como Grécia e Espanha, Portugal, Irlanda e Itália, o déficit orçamentário e a dívida nacional estão se convertendo em questões tão importantes ao ponto de que classe dirigente se ver obrigada a aplicar cortes massivos. Exigimos o imediato fim de qualquer pagamento de juros sobre a dívida nacional e o repúdio da dívida em sua totalidade (diferentemente da consigna reformista de uma auditoria). Isto colocaria imediatamente a questão de como estes governos financiariam seus gastos. Ao que respondemos: através da expropriação sem indenização de todo o setor bancário e de seguros, com sua centralização em um banco estatal que seria utilizado para a planificação da economia.

A nacionalização dos meios de produção, distribuição e intercâmbio permitiria a utilização destas forças que estão inativas por causa da anarquia do capitalismo. Na Espanha, os bancos e caixas possuem milhares de moradias vazias. Ao mesmo tempo, há um número grande e crescente de pessoas sem lugar para morar. Exigimos que as casas vazias sejam entregues às pessoas sem moradia.

Há milhões de desempregados (11% em toda a União Europeia) e muitas necessidades sociais a serem satisfeitas. A imediata introdução de uma semana de 35 horas sem perda de salário nos permitiria mobilizar milhões de trabalhadores desempregados para construir casas, escolas, rodovias e hospitais para satisfazer as necessidades da sociedade.

Contudo, não há nada de mágico nas demandas de transição, que, como disse Trotsky, não são suficientes:

“Naturalmente, que a escala móvel e a autodefesa dos trabalhadores não são suficientes. Estes são os primeiros passos necessários para proteger os trabalhadores da miséria e dos punhais dos fascistas. São meios urgentes e necessários de legítima defesa. Mas por si sós não resolverão o problema. A tarefa principal é abrir o caminho para um melhor sistema econômico com o fim de um uso mais justo, racional e decente das forças produtivas no interesse de todas as pessoas.

Isto não se pode ser conseguido com os métodos ordinários, ‘normais’, rotineiros dos sindicatos. Não podemos estar em desacordo com isto, porque nas condições de decadência capitalista os sindicatos isolados terminam por ser incapazes de deter a piora das condições dos trabalhadores. São necessários métodos mais decisivos e profundos. A burguesia, que possui os meios de produção e possui o poder do Estado, trouxe toda a economia a um estado de desordem total e sem esperança. É necessário proclamar que a burguesia está em bancarrota e transferir a economia para mãos frescas e honestas, isto é, às mãos dos próprios trabalhadores.” (Discussão com um organizador do CIO, 29 de setembro de 1938, ênfase nossa).

Estas palavras de Trotsky expressam a essência das consignas de transição, que assinalam o caminho para a revolução socialista como a única saída. A gravidade da crise é tal que já em países como a Grécia, muitas pessoas – não somente os trabalhadores avançados e jovens – estão tirando conclusões revolucionárias. Devemos repetir uma e outra vez aos trabalhadores mais avançados e aos jovens a necessidade de que a classe operária tome o poder. 

É necessário explicar às pessoas que perderam tudo que uma mudança fundamental é necessária: não necessitam de soluções parciais ou de lemas “inteligentes”, mas da derrubada completa do atual sistema. O que necessitamos fazer é construir as forças do marxismo o mais rápido possível, e ganhar os trabalhadores e os jovens para a tendência marxista através do trabalho sistemático e enérgico.

Traduzido por Fabiano Adalberto

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