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A crise da cosmologia (Parte 2)

Os outros três principais pilares da cosmologia – a mecânica quântica, o MPFP [Modelo Padrão da Física de Partículas] e a relatividade geral – não estão isentos de problemas flagrantes. Na maioria dos casos, estes são, atrevemo-nos a dizer, de uma natureza teórica mais filosófica.

Leia aqui a parte I: http://www.marxismo.org.br/content/crise-da-cosmologia-parte-i

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Os outros três principais pilares da cosmologia – a mecânica quântica, o MPFP [Modelo Padrão da Física de Partículas] e a relatividade geral – não estão isentos de problemas flagrantes. Na maioria dos casos, estes são, atrevemo-nos a dizer, de uma natureza teórica mais filosófica.

O idealismo da mecânica quântica

A mecânica quântica, apesar de estar validada por experimentos, ainda levanta questionamentos em termos da interpretação de seus resultados. O paradigma dominante no campo da mecânica quântica é o da Escola de Copenhague, em homenagem ao físico dinamarquês, Niels Bohr, que erigiu esta interpretação. De acordo com este paradigma, o estado de uma partícula não é uma realidade objetiva, mas simplesmente uma probabilidade, expressa em termos de uma função de onda. A “função de onda”, no entanto, não é mais do que uma construção matemática – uma equação; um modelo abstrato criado por matemáticos humanos, mas promovida para se converter na base de toda a realidade pela Escola de Copenhague de filosofia.

Esta interpretação probabilística do comportamento das partículas atômicas e subatômicas significa que a incerteza é inerente a qualquer sistema quântico; a velha previsibilidade proporcionada pela mecânica newtoniana está perdida, e, como ela, todo o sentido de causalidade e de lei na natureza. Dada a pequena escala e as altas velocidades envolvidas no nível quântico, algum grau de probabilidade e incerteza é, de fato, inevitável. No entanto, a Escola de Copenhague leva as coisas ao extremo e nega completamente a existência da realidade objetiva, da lei, e da causalidade.

Com esta interpretação da mecânica quântica, portanto, estamos de volta ao idealismo da filosofia de Kant, da coisa em si “incognoscível”; à ideia de uma realidade cuja verdadeira objetividade sempre será um mistério para nós. Isto contraria os próprios fundamentos da ciência que se baseia no método materialista e que afirma que há leis na natureza. Através do processo de experimentação e investigação científica, o funcionamento interno do Universo pode ser conhecido por nós. Esta filosofia materialista, que se encontra na raiz tanto do método científico quanto do Marxismo, explica que não existe esta tal coisa de “incognoscível”, mas simplesmente o que é atualmente desconhecido.

Ainda mais do que isto, Bohr e seus seguidores alegaram que as propriedades de uma partícula são simultaneamente todos os valores – em um estado de “superposição” – até o ponto da medição, momento em que se diz que a função de onda de uma partícula “colapsa” a um só estado. Esta interpretação, em última instância, conduz a uma forma de idealismo subjetivo, na qual não há nenhuma realidade objetiva a não ser a que se observa – uma forma moderna da questão filosófica: se uma árvore cai no bosque e não há ninguém por perto para ouvi-la cair, houve o som da queda?

O enigma é óbvio: de acordo com a interpretação de Copenhague, em que ponto do “ato de observação” as probabilidades quânticas da função de onda se tornam uma realidade? Em que ponto o ato subjetivo da medição se torna um fato objetivo? Na época, o físico austríaco Erwin Schrödinger zombou da interpretação de Copenhague, elaborando o famoso experimento mental do “gato de Schrödinger”, para mostrar o absurdo da visão de Bohr, que poderia levar ao resultado de que um gato, colocado em uma caixa junto a uma certa configuração de equipamentos radioativos, poderia ser considerado como estando tanto morto quanto vivo, ao mesmo tempo, até o ponto de observação!

As implicações da Escola de Copenhague são de que certas experiências envolvendo sistemas quânticos produzem resultados que são aparentemente sobrenaturais. Especificamente, há o fenômeno do “entrelaçamento”, no qual duas partículas podem ser “entrelaçadas”, de tal forma que uma propriedade de uma partícula é sempre o oposto da propriedade equivalente de sua parceira. As duas partículas estão inicialmente em um estado de superposição, em que as propriedades de nenhuma das partículas são conhecidas, mas quando a propriedade de uma partícula é observada e a função de onda colapsa, a propriedade da segunda partícula pode ser inferida pelo conhecimento da primeira. O resultado é que duas partículas quânticas, separadas por longas distâncias, parecem ser capazes de comunicar informação instantaneamente de uma para a outra, quebrando assim o limite final da velocidade da luz. Este fenômeno ainda está para ser explicado pelas atuais teorias quânticas.

Naturalmente, ao medir qualquer aspecto da natureza, somos forçados a interagir com o sistema sob observação, e ao fazer isto produzimos um efeito sobre as propriedades do próprio sistema. Não podemos nos situar fora da natureza para observá-la. A experimentação científica é interativa, em essência um processo de aplicação de trabalho à natureza para entender suas relações internas, sua íntima causalidade e interconexões. Mas negar a objetividade da realidade e afirmar que não existe nenhuma realidade até que se produza a observação, é refugiar-se no idealismo subjetivo, no solipsismo. É refugiar-se, em última análise, no misticismo, de volta ao reino divino da realidade “incognoscível” mais além do alcance da ciência e, portanto, mais além das possibilidades da compreensão humana também. “Deus”, como nos dizem repetidamente, “se move de formas misteriosas”.

O método materialista da ciência e também do Marxismo se baseia no princípio fundamental de que há uma realidade objetiva, que existe independentemente da observação humana mas que pode ser conhecida por nós. Como explicou Lênin, quando, ridicularizando os subjetivistas, argumentou que o mundo deixou de existir fora da mente da humanidade.

“As coisas existem independentemente de nossa consciência, independentemente de nossas percepções, fora de nós…” [1].

“… A existência da coisa refletida independente do refletor (a independência do mundo exterior em relação à mente) é um princípio básico do materialismo. A afirmação feita pela ciência de que a terra existiu antes do homem é uma verdade objetiva” [2].

O que é massa?

O MPFP também deixa os cientistas coçando a cabeça, confusos. A causa principal da confusão é a completa ausência de ritmo e razão por trás das várias partículas que foram postuladas. Não se pode discernir qualquer padrão que explique a complexa variedade de matéria que existe.

Também há a questão particular da massa. Por que as partículas têm a massa que têm? O que causa massa em primeiro lugar? E o que exatamente é “massa” em primeiro lugar?

Em termos físicos gerais, a massa é uma propriedade de toda a matéria. A física newtoniana explica massa em termos de inércia – a resistência da matéria à aceleração, isto é, uma resistência às mudanças de movimento. No paradigma newtoniano, as mudanças de movimento são explicadas pelo conceito de “força” – algo concebido como sendo puramente externo ao objeto em questão.

Esta visão unilateral reflete a visão mecânica de todo o paradigma newtoniano. Uma visão dialética, pelo contrário, vê a interconectividade e a bilateralidade de qualquer processo, incluindo a mudança de movimento da matéria. Como explica Engels em seu grande trabalho inacabado, a Dialética da Natureza:

“Todos os processos naturais são bilaterais, baseados na relação de pelo menos duas partes operativas, ação e reação. A noção de força, no entanto, devido a sua origem a partir da ação do organismo humano sobre o mundo exterior, e ademais da mecânica terrestre, implica em que apenas uma parte é ativa, operativa, e a outra parte sendo passiva, receptiva… A reação da segunda parte, na qual a força atua, aparece no máximo como uma reação passiva, como uma resistência. Agora esta forma de concepção é permissível em vários campos mesmo fora da mecânica pura, ou seja, quando se trata da simples transmissão de movimento e seu cálculo quantitativo. Mas já nos mais complicados processos físicos não é mais adequado…” [3].

A massa, enquanto uma resistência às mudanças de movimento, somente pode, portanto, ser definida como algo relacional entre objetos, em outras palavras, em termos de uma interação entre a matéria.

Além disso, na interação mecânica de dois objetos, o momentum, definido como o produto da massa de um corpo pela velocidade de seu deslocamento (mv), sempre é conservado. A energia cinética da matéria em movimento é dada pela fórmula ½mv², enquanto Einstein, com sua famosa equação E = mc², mostrou a equivalência de massa e energia. É um fato bem conhecido da natureza que massa e energia devem também sempre se conservar em qualquer processo. Tudo isto mostra, ademais, como a massa só pode ser adequadamente concebida como uma propriedade da matéria; uma propriedade que surge das relações – isto é, das interações – da matéria em movimento.

Um dos grandes avanços do MPFP é que a massa já não é mais concebida como sendo algo inerente a um objeto. A visão mecânica e idealista da natureza vê as propriedades das coisas como algo inerente e intrínseco. Assim, se pode ver como na antiguidade a temperatura (isto é, o calor) de um objeto era considerado como resultado do mesmo possuir certa quantidade do elemento fogo. Igualmente, no século XVII, uma substância chamada flogisto foi considerada para dar a matéria a propriedade de combustibilidade. A cor de um objeto já foi considerada como propriedade inerente daquele objeto, de forma que as coisas vermelhas são vermelhas porque têm a propriedade da vermelhidão. Ou, do ponto de vista subjetivista, a cor é simplesmente devida a nossa percepção sensorial individual. Na esfera das ciências sociais, os capitalistas falam da “natureza humana”, como um egoísmo inato a todas as pessoas, para justificar o seu sistema de exploração do lucro. Enquanto isso, o valor de cada mercadoria, de acordo com a teoria econômica burguesa da “utilidade marginal”, é simplesmente o resultado das preferências subjetivas de indivíduos abstratos.

A filosofia dialética, apoiada por todas as descobertas da ciência moderna, demonstra, pelo contrário, como as propriedades das coisas são sempre verdadeiramente uma expressão de relações entre as coisas. As propriedades surgem a partir da interação entre as coisas. Por exemplo, graças às modernas teorias da termodinâmica, sabemos que a temperatura de um objeto é uma expressão do movimento dos átomos e das moléculas, enquanto a combustão hoje é conhecida como uma interação química entre um combustível e um oxidante. A propriedade da cor é agora conhecida por surgir da interação entre a luz (fótons) e os elétrons dos átomos de um objeto. Estes absorvem fótons de certas frequências (valores de energia em termos de quantum) e emitem fótons em algumas outras frequências específicas que, por sua vez, são detectadas pelas células receptoras dos olhos e transformadas em sinais nervosos a serem interpretados pelo cérebro.

Os Marxistas, isto é, a visão materialista e dialética da história e da economia, explicam como o comportamento humano é um produto da sociedade e do modo de produção, enquanto o valor de uma mercadoria é uma expressão de uma relação social, que somente pode ser determinada através do ato de troca.

No MPFP, a massa de qualquer partícula não é mais inerente ou intrínseca, mas é descrita em termos da interação entre a partícula e o “Campo de Higgs”, por meio de uma partícula de carga conhecida como o “bóson de Higgs”. Enquanto esta concepção de massa como propriedade interativa da matéria é um passo à frente, o uso do campo de Higgs e do bóson de Higgs para explicar isto, na realidade, não explica nada. O que cria o campo de Higgs? Como as três vias de interação entre o campo de Higgs, o bóson de Higgs e outras partículas dão origem à propriedade de massa? E por que esta interação fornece partículas com os valores das massas que observamos? Além disso, há o problema menos bem relatado de que a teoria de Higgs representa apenas uma fração da massa da matéria.

Tal como acontece com os exemplos da partícula “inflaton” em relação à inflação, a partícula “gráviton” e a força da gravidade, ou os “WIMPs” e a questão da matéria escura, ao recorrer a termos como “campo” e “bóson”, os cientistas simplesmente aplicaram etiquetas e inventaram novas partículas hipotéticas para explicar fenômenos inexplicáveis. A compreensão real da massa como uma propriedade emergente deve surgir, contudo, não de campos misteriosos e da “partícula de Deus”, mas do estudo da forma como a matéria interage com outras matérias. Esta é a única forma verdadeiramente materialista – isto é, científica – de explicar qualquer fenômeno na natureza.

Partículas “fundamentais”

A pergunta de por que diferentes partículas têm a massa que têm surge da mesma confusão. Mas também existem outros ângulos deste assunto e outras questões que não foram formuladas. Por que as massas das várias partículas “fundamentais” teriam um belo padrão para elas? Por que a natureza sempre mostraria “beleza” em seus arranjos? E por que consideramos serem estas partículas “fundamentais” absolutamente “fundamentais”?

As duas primeiras questões sublinham um dos principais problemas na moderna cosmologia – o tremendo idealismo filosófico que se colou nela, de acordo com o qual as teorias são consideradas certas ou erradas na base da estética matemática. Nossos modelos e teorias são sempre e em toda a parte apenas uma aproximação de um Universo que é infinitamente complexo em todos os sentidos. Em muitos casos, em certas escalas, a simplicidade surge da complexidade – e vice-versa. Assim, a complexidade da natureza pode algumas vezes ser expressa por equações relativamente simples. Mas assumir e buscar a simplicidade na natureza é transformar todo o problema em sua cabeça. Nossas ideias matemáticas, científicas ou não, são um reflexo do mundo ao nosso redor, e não o contrário. Esta é a base fundamental do materialismo na ciência e do Marxismo. Se as ideias, teorias ou equações são “belas” ou não, sua utilidade depende da precisão com que elas refletem a realidade material e nos permitem ganhar uma compreensão mais profunda do funcionamento da natureza. Afirmar que a natureza deve se ajustar a nossa ideia subjetiva de beleza é puro idealismo.

A terceira questão relativa ao “fundamentalismo” das partículas no MPFP está relacionada às duas primeiras. Onde esperamos ver padrões na natureza como resultado de nossas teorias – que são as generalizações de nossas observações passadas – mas, em vez disso, vemos aleatoriedade inexplicável, isto sugere que é necessária uma compreensão mais profunda das relações causais e das interconexões dos fenômenos.

O chamado “princípio da incerteza” na mecânica quântica é um caso em questão. Observamos os fenômenos em níveis atômico e subatômico que são aparentemente aleatórios e que as teorias atuais não podem explicar. Mas em vez de mergulhar mais fundo para revelar a verdadeira conexão íntima desses fenômenos, os defensores da Escola de Copenhague simplesmente erigem uma barreira de misticismo e declaram o funcionamento interno em escala quântica “incognoscível”. Isto é contra toda a história e o método da ciência, cuja tarefa sempre foi encontrar explicações para o que anteriormente se pensava inexplicável, para proporcionar previsibilidade onde havia somente incerteza e para descobrir as leis onde antes víamos somente aleatoriedade.

Padrões e mesmo leis generalizadas podem surgir de processos aparentemente aleatórios, caóticos, não-lineares e imprevisíveis. Por exemplo, o modelo e previsão do movimento de cada partícula em um cilindro de gás seria impossível. Mas devido à interação de muitos bilhões de partículas de gás, surgem definidas as leis da termodinâmica que relacionam a pressão, a temperatura e o volume do gás. Os padrões emergem da aleatoriedade; a ordem surge do caos; a previsibilidade é vista dentro da imprevisibilidade. Inclusive os processos da mecânica quântica, que é um dos poucos exemplos de processo que ainda é considerado verdadeiramente aleatório, produz resultados e padrões previsíveis, como o famoso padrão de interferência visto no experimento da dupla fenda.

Ao longo do tempo, através do desenvolvimento e aprofundamento da compreensão científica, as relações estatísticas que simplesmente descrevem padrões e fenômenos podem ser substituídas por modelos físicos ou leis científicas que explicam a interconexão e as relações causais dentro desses fenômenos. Contudo, mesmo as chamadas “leis” científicas são precisas somente em certas escalas e dentro de certos limites. Tais leis são sempre apenas uma aproximação da realidade objetiva e sempre conterão erros, imprecisões e incerteza em certo grau.

No caso do MPFP, o problema está em assumir que não podemos falar de partículas “fundamentais” de forma alguma. Toda a história da ciência da física tem sido a de reduzir e diminuir continuamente o que consideramos ser os blocos de construção “fundamentais” da natureza. Primeiro, havia o conceito do átomo – originalmente sugerido pelo filósofo grego antigo Demócrito (a palavra “átomo” deriva da palavra grega para “indivisível”). Mais tarde, vieram as descobertas de Rutherford, que surgiu com um modelo atômico consistindo de elétrons, prótons e nêutrons. Outras pesquisas levaram à descoberta dos quarks, que compõem os prótons e os nêutrons. Quem pode sugerir que os quarks agora representam o limite da descoberta científica em termos da física de partículas?

Para muitos cientistas, a dificuldade está na resposta a esta questão. Se assumirmos que os quarks são compostos de partículas ainda menores, então o que são estas partículas menores que os compõem? E assim por diante, até o infinito. Mas este é precisamente o ponto – sempre se pode dividir ainda mais. Da mesma forma que não existe tal coisa como um menor número indivisível, então não há nenhuma partícula “fundamental” na natureza.

Há um século, se descobriu que as principais diferenças químicas e físicas entre todos os cem ou mais elementos estavam baseadas em um padrão subjacente relativamente simples que envolvia diferentes combinações de não mais de três partículas subatômicas “fundamentais”. Esta descoberta marcou um importante passo à frente na compreensão da estrutura da matéria. Agora, a variedade de partículas subatômicas postuladas amontoa-se em dezenas e a ciência não está avançando na compreensão de qualquer padrão subjacente.  

A solução para a questão das chamadas partículas “fundamentais” reside em uma série infinita de objetos finitos – uma regressão infinita de coisas compostas de outras coisas. É a interação entre coisas em cada etapa desta série que dá origem às propriedades que emergem em níveis mais elevados.

Esta é a resposta aos problemas do MPFP e também da mecânica quântica. Onde nossas teorias atuais não podem explicar o que vemos atualmente, devemos aprofundar na busca por uma descrição da natureza verdadeira, mais precisa e completa; é uma busca que não tem nenhum limite, devido à ilimitada complexidade do Universo em todas as direções.

Teorias irreconciliáveis

Ademais de todos estes problemas com os vários componentes teóricos cosmológicos descritos acima, há uma questão que, acima de tudo, perturba os cientistas nesta área: a incompatibilidade dos diferentes pilares da moderna cosmologia e, em particular, a incompatibilidade da mecânica quântica e do MPFP com a relatividade geral.

Na maioria das vezes, esta incompatibilidade não é relevante, uma vez que a mecânica quântica somente se aplica em escala pequena, subatômica, enquanto a relatividade geral é utilizada para descrever a gravidade e o efeito de grandes massas em escala cósmica. De acordo com a descrição MPCBB do Big Bang, no entanto, toda a matéria de todo o Universo estava, como se diz, inicialmente concentrada em um único ponto. Similarmente, há atualmente uma hipótese de que uma singularidade, com uma quantidade finita de matéria concentrada em um infinitamente pequeno ponto, existe no centro de cada buraco negro, formado a partir de estrelas (de certa massa) colapsando sobre si mesmas sob a força de sua própria gravidade. Tais hipóteses colocam grandes problemas, uma vez que envolvem o tratamento tanto de pequenas escalas quanto de grandes massas – vindo daí as tentativas de reconciliar estes pilares gêmeos da moderna cosmologia.

A incompatibilidade da mecânica quântica e da relatividade geral tem muitos disfarces. Em primeiro lugar, está a maneira como cada teoria trata do espaço e do tempo. Na mecânica quântica, espaço e tempo são discretos, com uma longitude mínima conhecida como “longitude de Planck”. Na relatividade geral, o espaço – ou, mais precisamente, espaço-tempo – é contínuo. O “tecido” do espaço-tempo é frequentemente referido, utilizando-se a analogia de objetos que rolam sobre uma lâmina elástica e que é muitas vezes usada para explicar como a força da gravidade surge de acordo com a teoria da relatividade geral.

A partir de uma perspectiva dialética e materialista, ambas as interpretações de espaço e tempo são deficientes, uma vez que espaço e tempo não são coisas em si, mas expressões relacionais ou propriedades da matéria em movimento. Como antes discutido em relação às teorias de “mudança de fase” do Big Bang, espaço e tempo não são objetos tangíveis, materiais e físicos, e não podem, portanto, ser considerados contínuos ou discretos. Falar de “tempo” e “espaço” sem referência à matéria e ao movimento é falar sobre abstrações vazias, destituídas de qualquer conteúdo real. Tempo, espaço, matéria e movimento são inseparáveis.

Em segundo lugar, há o problema das quatro forças “fundamentais” descritas por estas duas teorias. Em pequena escala, o MPFP descreve o eletromagnetismo, a força nuclear forte e a força nuclear fraca em termos de interações entre a matéria através de bósons – a força que transporta as partículas. Em grande escala, a quarta força, a gravidade, é explicada sem se recorrer a qualquer “bóson”, mas através da relatividade geral, com a matéria (massa-energia) afetando a curvatura do espaço-tempo e o espaço-tempo, por sua vez, afetando o movimento da matéria. Alguns postularam a existência de um “gráviton”, um bóson da gravidade, mas sua existência ainda não foi provada.

O problema com a questão de como surgem as quatro forças “fundamentais”, e as divergências na forma como o MPFP e a Relatividade Geral explicam estas forças, é resultado da visão mecânica e unilateral do que significa “força”, em primeiro lugar, como discutido anteriormente. Isto resulta do paradigma newtoniano das leis do movimento, em que cada objeto é analisado isoladamente, com a mudança no movimento de qualquer objeto devido a uma força externa. Isto se expressa em termos físicos como força sendo equivalente a impulso e que é muitas vezes simplificado a F = ma, onde F é força, m é massa e a é aceleração (uma mudança na velocidade).

Expressar mudanças no movimento dessa forma, contudo, é retratar cada termo da equação como algo tangível, com uma força externa que age sobre um objeto (com massa) e causa uma mudança no movimento (uma aceleração). Em outras palavras, recorremos a uma forma de idealismo, na qual os elementos da equação, que são eles próprios abstrações, são concebidos como reais, coisas materiais. A realidade, no entanto, é matéria em movimento, em toda sua complexidade, que nunca pode ser completamente capturada por qualquer fórmula. Todas as leis, equações e modelos matemáticos são simplesmente abstrações úteis deste dinâmico e interconectado movimento.

A ciência, lamentavelmente, desde então se apegou a esta visão mecânica newtoniana que abre caminho em todos os campos da investigação. Onde há movimento, se supõe que há uma força responsável por esse movimento. Do ponto de vista da dialética materialista, no entanto, o movimento da matéria é primário. Qualquer “força” é apenas uma expressão da relação entre as mudanças no movimento quando a matéria interage mutuamente. Atribuir uma força a qualquer forma de movimento que não entendemos é simplesmente cobrir nossa atual falta de compreensão dos fenômenos sob investigação. Ir mais longe para dizer que as forças são devidas às “partículas portadoras de força” não é melhor. Pode-se, da mesma forma, dizer que o esquentamento se deve ao calor. Como Engels explica:

“A fim de evitar ter que dar a causa real de uma mudança provocada por uma função do nosso organismo, a substituímos por uma causa fictícia, por uma suposta força correspondente à mudança. Em seguida, levamos este conveniente método também para o mundo externo, e assim inventamos tantas forças quanto são os diversos fenômenos” [4].

Não há nenhuma razão, portanto, para que as três “forças” descritas pelo MPFP sejam descritas nos mesmos termos que a “força” da gravidade. O MPFP e relatividade geral são, como todos os modelos, somente aproximações que descrevem o movimento da matéria em diferentes escalas. Mas as leis de como interage a matéria não são necessariamente as mesmas em diferentes escalas. Em certo ponto, a quantidade se transforma em qualidade e fenômenos distintos, com diferentes leis, surgem.

Temos, por exemplo, como descrito anteriormente, as leis da termodinâmica que surgem da multiplicidade de interações que ocorrem entre grande número de partículas e que descrevem propriedades tais como temperatura e pressão, duas propriedades que carecem de sentido quando se fala de uma partícula individual. Em outras palavras, temos fenômenos em que o todo é maior que a soma de suas partes.

Similarmente, as leis da química, descrevendo interações em nível atômico e molecular, não podem ser usadas para prever o comportamento de todo o organismo biológico. Da mesma forma, o conhecimento das leis biológicas não fornece muita luz sobre os padrões emergentes e as leis gerais que se podem observar na história, na sociedade e na economia; para isto, se requer o método materialista do Marxismo.

O que é uma lei?

O mesmo raciocínio explica por que razão a mecânica quântica e a relatividade geral são incompatíveis: porque ambas são, como todas as leis ou teorias, somente aproximações que podem descrever o movimento da matéria dentro de certos limites. Como explica Engels:

“Além de tudo, não precisamos nos assustar pelo fato de que o grau de conhecimento que alcançamos na atualidade tenha tão pouca coisa de definitivo quanto o das épocas que nos precederam… A verdade e o erro, como todos os conceitos que se movem dentro de antíteses polares, só têm aplicação absoluta dentro de uma zona muito limitada… Tão logo a antítese de verdade e erro se afasta daquela zona circunscrita em que se deve mover, se converte de absoluta em relativa e perde, assim, todo e qualquer valor, como meio estritamente científico de expressão; e se tentamos aplicá-la como valor absoluto, fora daquela órbita circunscrita, fracassamos definitivamente, pois os dois polos da antítese se tornam o inverso do que são, a verdade em erro e o erro em verdade” [5].

O papel da ciência é o de melhorar continuamente nossos modelos para ampliar sua utilidade; aumentar nossa compreensão de todas as formas do movimento e ganhar uma maior precisão de previsão. Foi esta a base para o salto a partir da mecânica newtoniana às teorias da relatividade e à mecânica quântica. As leis de Newton são adequadas para a maioria das experiências cotidianas mas não podem explicar o movimento em pequenas escalas ou em altas velocidades.

Isto, então, é a infinita regressão do progresso científico – uma série representada por sucessivas gerações de pesquisa, que ao longo do tempo expande ainda mais nossa compreensão e nos aproxima de capturar a natureza infinitamente complexa do Universo. Como Lênin comenta:

“O pensamento humano, então, por sua natureza é capaz de dar, e o faz, a verdade absoluta, que é composta de uma soma total de verdades relativas. Este passo no desenvolvimento da ciência adiciona novos grãos à soma da verdade absoluta, mas os limites da verdade de cada proposição científica são relativos, ora se expandem, ora encolhem com a ampliação do conhecimento” [6].

A mecânica quântica e a relatividade geral são teorias excelentes que comprovadamente fornecem previsões precisas dentro de certos limites. Tentar unificar as duas, no entanto, é uma tarefa fútil, porque elas descrevem o movimento em escalas diferentes, cada uma com seu conjunto de leis que surgem da interação da matéria em movimento nessas escalas.

A principal razão para as tentativas de unificar estas teorias se deve à hipótese do Big Bang – uma hipótese que está longe de ser comprovada. E ainda mais, mesmo que tivesse existido tal ponto onde uma grande quantidade de massa estivesse concentrada em pequena escala, isto necessariamente envolveria novas formas de interação entre a matéria, significando novas leis emergentes, que seriam diferentes das descritas pela mecânica quântica, relatividade geral ou mesmo por uma combinação formalista das duas. O todo é sempre maior que a soma de suas partes.

Toda conversa, portanto, a respeito de uma “Teoria de Tudo” é utópica. Todas as teorias são verdades relativas, aproximações à dinâmica do movimento dentro de limites. As leis científicas na natureza, como acontece com quaisquer leis da história, da economia ou da sociedade, não são leis de bronze; são mais precisamente descritas como “tendências”: generalizações surgindo do processo de movimento da matéria, que em condições similares produzem resultados similares. Não há nenhuma lei absoluta, universalmente aplicável a todas as situações em todos os momentos e em todas as escalas.

Conjecturar a possibilidade de uma lei tão absoluta é ver o Universo de forma idealista, é ver as “leis” como primárias e o mundo material como um reflexo secundário destas leis. A visão dialética materialista assegura o contrário: a matéria em movimento é o primário e as leis da natureza surgem das interações desta matéria. Tais leis não estão escritas no tecido do Universo, mas são abstraídas e generalizadas pela ciência para uma melhor compreensão e manipulação do mundo ao nosso redor. Não há nenhum “programador de computadores no céu” que tenha especificado e descrito todas as leis da natureza com antecedência, pressionando a tecla “vá” e se sentando confortavelmente para assistir o movimento se desenrolar de acordo com estas leis.

Este é o conceito idealista das “leis” que foi herdado do paradigma newtoniano e de seu mecanicismo e “puro determinismo”, que considera o “Universo como um mecanismo de relógio”, em que todo movimento futuro pode ser especificado e previsto a partir do conhecimento das condições iniciais e das leis em jogo. O materialismo dialético do Marxismo, confirmado por todas as ciências modernas, incluindo as ideias da teoria do caos, demonstra como a matéria em movimento é fundamental, e nossas leis como sendo somente descrições aproximadas deste dinamismo complexo e da mútua interação.

A única “Teoria de Tudo” real, portanto, é uma teoria derivada das experiências generalizadas do processo concreto que vemos na natureza, na sociedade e no pensamento, que descreve as leis gerais de todo movimento; as leis de mudança em si. Tal teoria se explica pela filosofia Marxista do materialismo dialético.

 

(Continua)

 

Notas:

[1] Materialism and Empirio-Criticism, V.I. Lenin, p.110, Peking Publishers

[2] Ibid, p.137

[3] Dialectics of Nature, p.373-374

[4] Ibid, p.372

[5] Anti- Dühring, p.84

[6] Materialism and Empirio-Criticism, p.151

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