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A burguesia e a Revolução Russa

O Estado de São Paulo, no dia 26 de outubro, dedicou o seu editorial à crítica da revolução de outubro de 1917. O jornal faz um balanço da revolução:

O único legado realmente importante desse movimento, além dos milhões de mortos que causou e da destruição econômica que proporcionou, é a preciosa lição segundo a qual é possível aniquilar a democracia apenas com boas intenções.

Esse balanço é interessante. Enquanto a democracia burguesa tem em sua conta duas guerras mundiais, mais de 100 guerras localizadas nos dias de hoje, centenas de milhões de mortos por guerras, miséria e exploração, a destruição de países e culturas inteiras, bombas atômicas, destruição do meio ambiente que ameaça a vida humana no mundo inteiro, o legado importante que o Estadão vê é que temos que ter cuidado com nossas boas intenções, pois elas podem destruir a democracia. A confirmação do velho ditado de que o inferno está cheio de boas intenções é o único legado que é visto pelo jornal.

O jornal repete a velha lenda que a Revolução de Fevereiro deu origem a uma república democrática, quando os que passaram a governar (uma comissão eleita pela Duma, o parlamento czarista, de onde os deputados socialistas tinham sido expulsos e presos, quatro anos antes, por votarem contra os créditos de guerra e que não teve novas eleições depois durante toda a guerra e depois da revolução) nem sequer tiveram a coragem de declarar a república, esperando que uma futura constituinte pudesse livrá-los dessa dura tarefa – reconhecer que o czar tinha sido derrubado pelo povo e que sua “abdicação” era apenas um ato formal para livrar a cara do governo que se constituía do “crime” de haver derrubado um monarca.

Depois de tal análise, não surpreende que o jornal não tenha entendido que o “motor” da história é a luta de classes (ao invés da violência das massas). Aliás, violentas eram as condições que sofriam os camponeses russos que se revoltaram e queimaram as antigas sedes das propriedades dos nobres russos, antes de dividirem as terras; violentas eram as condições dos operários russos, que não tinham pão para se alimentar e viviam sob o chicote e a miséria; violentas eram as condições dos soldados russos, jogados como carne de canhão numa guerra enfrentando um inimigo tecnicamente superior apenas para garantir novas terras e propriedades para o czar e para os capitalistas. Essa violência o jornal esquece, só lembra da violência dos que se revoltaram. Mas estranho seria se um dos principais jornais da burguesia não tivesse lado bem definido.

Se o jornal agradece aos mencheviques (e todos os reformistas) por terem entendido que o caminho não é comunismo, critica violentamente os que seguiram o método de Lenin, citando-o inclusive:

Lenin entendeu que ali estava a chave para o sucesso do novo regime, ao escrever que “a essência do trabalho bolchevique” era “visar à transformação da guerra imperialista em uma guerra de classes, em uma guerra civil.”

Sim, Lenin entendeu isso muito bem, e esse é o medo do jornal. Por isso a sua crítica à revolução e o seu lamento:

A sobrevida que a ideologia bolchevique parece manter mesmo depois de inapelavelmente derrotada em 1989, com a queda do Muro de Berlim e a posterior dissolução da União Soviética, pode ser explicada justamente pelo fato de que toca o coração da juventude a pretensão de acabar com as injustiças do mundo como um ato de vontade. A crescente desigualdade social e econômica e o atraso crônico de muitos países em que vigoram formas degeneradas de capitalismo só ajudam a alimentar esse devaneio, dando ares de alternativa viável ao que não passa de uma utopia violenta.

Formas degeneradas de capitalismo? Mas existe alguma forma boa de capitalismo? Ou o que vemos na Europa com os refugiados, nos EUA com o racismo, com Trump & Cia, é a degeneração do capitalismo? Onde estaria este capitalismo não degenerado? Estaríamos condenados a andar qual o sábio grego Diógenes, com um lanterna à noite, procurando um homem que tivesse íntegra a sua essência?

O título do editorial do Estadão é “A brutal impostura”. Ironicamente, a única impostura que segue viva é essa feita pelo Estadão, de que teríamos um capitalismo não degenerado, que seria preciso buscar, ao invés de seguir no caminho da revolução. A juventude está certa ao lutar para acabar com as injustiças do mundo. E a nós, seguindo o caminho dos bolcheviques, cabe a tarefa de ajudá-la a achar o caminho da revolução.

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