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A arrogância imperial e o assassinato de Bin Laden

Neste novo artigo, Alan Woods analisa as inconsistências e contradições presentes nas diferentes versões apresentadas pela Casa Branca sobre o assassinato de Bin Laden e põe a nu os argumentos de legítima defesa dos EUA.

Nas últimas 48 horas, as informações americanas sobre a morte de Bin Laden encontram-se sob grande suspeição a partir das revelações da Casa Branca de que os relatos iniciais, afirmando que Bin Laden estava armado e se escondeu por trás de sua esposa durante a operação, eram falsos. Durante os últimos dias têm-se revelado falhas atrás de falhas nos comunicados da Casa Branca sobre a morte de Bin Laden. A mensagem do governo dos EUA está repleta de contradições do início ao fim.

Novos detalhes do caso, revelados pela Casa Branca na terça-feira, 03 de maio, contradizem a versão anterior dos acontecimentos que levaram à morte do homem mais procurado do mundo. As autoridades americanas declararam inicialmente que tinha ocorrido uma luta e que Bin Laden fora baleado pelo comando Navy Seal durante o tiroteio. Também sugeriram que ele usava uma de suas esposas como escudo humano. Nenhuma dessas afirmações se revelou verdadeira.

A esposa de Bin Laden, cuja morte tinha sido relatada anteriormente, na verdade sobreviveu e encontra-se atualmente sob custódia paquistanesa. A emissora paquistanesa de televisão, Geo, publicou uma cópia de seu passaporte, em nome de uma cidadã iemenita chamada Amal Ahmed Abdel Fatteh. As autoridades paquistanesas ainda não emitiram qualquer declaração dela, mas quando o fizerem haverá muita coisa interessante para se ler.

Bin Laden era sem dúvida culpado de muitos crimes e atrocidades. Isto seria suficiente para o seu julgamento pela história. Mas não há registros que sugiram que ele era um covarde. No entanto, a Casa Branca pôs imediatamente em circulação a acusação de que ele não apenas se encontrava armado, mas também se escondera atrás de uma mulher utilizando-a com escudo humano. Com essa mentira grosseira, o porta-voz da Casa Branca, John Brennan, tentava zombar de Bin Laden e desacreditá-lo como sendo efeminado e covarde. De todas as mentiras da semana, esta foi de longe a mais grosseira e mais desprezível.

Em meu artigo – O assassinato de Bin Laden: Terrorismo e terrorismo de Estado – questionei a versão oficial sobre a suposta troca de tiros, que não me parecia verdadeira. Escrevi o seguinte: “O líder da Al-Qaeda era claramente feito de material mais resistente que o de Saddam Hussein e, muito provavelmente, iria se recusar a se entregar sem lutar até o fim. O que ganharia ao se entregar vivo: o mesmo destino de Saddam Hussein? Mas, se foi surpreendido em sua cama no meio da noite, como poderia oferecer resistência armada? Em qualquer caso, é evidente que os agressores não lhe deram a oportunidade de se render”.

No mesmo dia em que o artigo acima citado foi publicado, a Casa Branca emitiu uma declaração desmentindo a versão da troca de tiros. A sequência real dos acontecimentos parece ter sido a seguinte. O esquadrão de assassinos explodira o quarto onde dormia Bin Laden nas primeiras horas da madrugada. No que parece ter sido uma tentativa desesperada de defender seu marido, sua esposa lançou-se sobre as forças especiais que atiraram em sua perna. Em seguida, atiraram em Bin Laden na cabeça e no peito. Admite-se que nem Bin Laden nem sua esposa estavam armados, e não se pode argumentar que algum deles, nessas condições, representasse algum risco para os homens fortemente armados que os defrontavam.

O presidente Obama elogiou a ação desses “heróis”. Mas há muito pouco heroísmo ao entrar em um dormitório na calada da noite para atirar mortalmente em um homem desarmado e também ferir sua esposa. Além disso, parece que esses eventos foram testemunhados pela filha de Bin Laden de doze anos de idade que, segundo consta, afirma que Bin Laden foi mantido vivo por dez minutos antes de atirarem nele. Não sabemos se isto é verdade, mas aqui vemos a verdadeira face do imperialismo EUA. Este não foi um ato heróico, mas um assassinato a sangue frio e premeditado.

O presidente Barack Obama insiste em que os Navy Seals o teriam detido se o pudessem fazer, mas isso é uma mentira. Como indiquei ontem, este foi o trabalho de um esquadrão da morte, com instruções claras para liquidar sua vítima, a quem não seria dada a possibilidade de se render. Nesse caso, não poderia haver as famosas últimas palavras para se ficar na história. Eles o silenciaram com seus tiros antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, particularmente se isto fosse algo como: “eu me rendo”.

“Legítima defesa”?

O fato é que os porta-vozes da Casa Branca mentiram desde o início sobre todo o assunto. Isto, por si mesmo, não deveria ser um problema, uma vez que a função dos diplomatas (e dos governos burgueses em geral) é mentir e enganar as pessoas. Mas o mentiroso deve ser inteligente o suficiente para dizer suas mentiras de forma plausível, e, uma vez dita a mentira, deve-se mantê-la de forma consistente. Um mentiroso que muda a sua história a cada 24 horas e se contradiz a cada passo, logo irá descobrir que ninguém mais acreditará em nada do que diz.

O fato de se enviar um esquadrão da morte Navy Seal, em vez de se enviar um drone [pequeno avião operado por controle remoto] ou um B2 [avião invisível aos radares] para bombardear o complexo, derivou da convicção de que o alvo era realmente Bin Laden. As autoridades americanas afirmam ter provas de DNA, provas de reconhecimento facial e provas fotográficas. Mas não liberaram nada disto. Em vez disso, a mensagem é: “Confiem em mim, afinal eu sou Obama”. Esta mensagem pode produzir algum efeito nos EUA, onde muitas pessoas estavam ansiosas por notícias da morte do homem por trás dos eventos de 11 de setembro de 2001. Mas não é suficiente para silenciar as dúvidas de muitas pessoas no Paquistão e em todo o mundo, particularmente à luz de todas as desinformações plantadas nos últimos dias.

Do ponto de vista estritamente militar, a operação foi ao mesmo tempo ousada e meticulosa em seu planejamento e execução. Seu objetivo era muito claro: a liquidação física de Bin Laden. No entanto, esta não é uma mera questão militar. É também uma questão profundamente política. E, em política, psicologia e tempo são determinantes. Tendo isto em consideração, os americanos demonstraram sua habitual falta de jeito, bem como ausência de habilidades diplomáticas básicas. A função da diplomacia é esconder as coisas, desfocar a imagem e confundir a opinião pública sobre seus objetivos reais. No entanto, ocultar deliberadamente os fatos é uma coisa; outra coisa é confundir e hesitar.

As forças especiais fizeram bem o seu trabalho de acordo com seus objetivos e normas de ação. Mas sempre ocorrem alguns erros. Parece que fizeram um trabalho tão bom ao esmagar o rosto da vítima, que o tornaram totalmente irreconhecível. O problema é que as pessoas na região estão dizendo agora que ele não foi morto de forma alguma. As autoridades americanas estavam considerando a possibilidade de liberar as fotos do corpo para rebater essas alegações. Mas isto pode trazer mais malefícios que benefícios. Poderia ultrajar a opinião pública, em especial no mundo islâmico: “Há sensibilidades sobre a conveniência disto”, disse o porta-voz Jay Carney. “Pode-se dizer que é uma fotografia horrível”.

A Casa Branca necessitou de três dias para se decidir a não divulgar as fotografias do corpo de Bin Laden, o que revela indecisão e vacilação da parte do governo americano. Isto não é tão surpreendente porque ele é, sem dúvida, indeciso e vacilante. Pior ainda, fez parecer que tinha algo a esconder. E, de fato, tem muito a esconder. A recusa de divulgar as fotos vai abastecer as teorias conspiratórias. E foi duplamente estúpido porque na era da internet as imagens serão certamente divulgadas de qualquer forma. A experiência recente com o Wikileaks deveria ter-lhes ensinado algo. Então, vão acabar no pior dos mundos. Para citar Talleyrand, “É pior que um crime; é um erro”.

A primeira mentira foi dizer que o esquadrão da morte enviado no encalço do líder da Al-Qaeda “poderia tê-lo pego vivo, se tivesse se rendido”. Está claro para todos que a Bin Laden não foi dada nenhuma oportunidade para se entregar vivo e que foi morto a tiros sem quaisquer sutilezas preliminares. Esta ação foi posteriormente justificada por razões de “legítima defesa”. Primeiro se declarou que ele foi morto enquanto oferecia resistência armada, ou seja, em uma “troca de tiros”. Uma mentira tão descarada, que foram obrigados a se retratar no dia seguinte. Não houve troca de tiros e Bin Laden estava desarmado. Nenhum detalhe foi dado sobre o tipo de “resistência” oferecida por ele, nem, é claro, como um homem desarmado, vestido de pijama, poderia apresentar algum tipo de ameaça a um esquadrão de homens fortemente armados.

Percebendo a fragilidade patética deste argumento, eles mais tarde mudaram tudo. Teria sido realmente um caso de legítima defesa, mas de legítima defesa nacional. Um homem desarmado, em pijama, não representava ameaça para o esquadrão da morte, mas representava ameaça à nação americana. Que significa isto? Que Bin Laden estava por trás dos acontecimentos de 11 de setembro e de outros atos terroristas no passado e que, possivelmente, realizaria operações semelhantes no futuro. Estas são acusações muito graves e que merecem o castigo mais pesado. Mas estamos tratando aqui de crimes que já ocorreram no passado ou que poderiam ocorrer no futuro. Contudo, como um homem em roupas de dormir poderia representar um “risco real e presente” para a nação americana naquela madrugada de 2 de maio não ficou muito claro.

Como uma enguia se contorcendo em um anzol, a voz da Casa Branca tenta embelezar ainda mais o argumento sobre a legítima defesa: Bin Laden seria um “comandante inimigo” e, numa guerra (lembrem-se da “guerra ao terrorismo”), um exército em operação tem o direito de atirar no comandante das forças inimigas. Aqui, entramos nas leis do combate, que são muito claras e que não podem ser utilizadas para justificar o que fizeram a Bin Laden. No curso de uma batalha, um exército teria o direito de matar não apenas o comandante inimigo, mas qualquer combatente armado do outro lado (lembremo-nos que o negócio da guerra é matar pessoas). Mas mesmo nos tempos antigos não era considerado permissível matar um inimigo que se rendia, e menos ainda se estivesse desarmado e, ainda menos se não se encontrasse em uma situação de combate. O último caso não é normalmente conhecido como baixa de guerra, mas sim como homicídio.

O Daily Telegraph – um jornal conservador e de direita – criticou hoje (05 de maio) o governo dos EUA por não dizer a verdade sobre esta missão: “Foi uma missão para matar e ninguém deve temer admitir isto. Bin Laden era um homem morto assim que a equipe Navy Seal desembarcou. Não há nada de errado nisto, mas a administração Obama deveria ter sido honesta sobre o assunto, em vez de fabricar contos acerca de que Bin Laden tinha uma arma na mão, ou próxima de sua mão e resistindo (sem dizer como resistiu)”.

Foi feita justiça?

Barack Obama chamou de “justiça” o assassinato de Bin Laden. Mas a justiça tem tradicionalmente significado devido ao processo legal, onde até mesmo uma pessoa acusada do crime mais hediondo tem o direito de comparecer perante um tribunal, para ter uma audiência perante um juiz e um júri, com um advogado que conduza sua defesa, em outras palavras, um julgamento justo. Bin Laden não teve julgamento. Ele foi apenas executado. Seu juiz e júri estavam sentados a milhares de quilômetros de distância observando a sentença ser executada. O veredicto foi decidido antecipadamente.

Se ele realmente era culpado desses crimes, por que não trazê-lo de volta aos EUA para julgá-lo? O sistema legal americano é altamente eficiente e tem à sua disposição as mais severas punições para os criminosos, inclusive a pena de morte. Seria bastante simples colocá-lo em um dos helicópteros e entrega-lo à mercê de um juiz americano. Em vez disso, os membros do esquadrão Navy Seal agiram como juízes, júri e carrascos.

Do ponto de vista da “guerra ao terrorismo”, a captura de Bin Laden (que era perfeitamente possível) teria sido mais vantajosa devido às informações que poderiam ser adquiridas em seu interrogatório e de seus mensageiros (que também foram mortos). A razão porque o establishment dos EUA não o queria vivo deve-se ao fato de que um julgamento (que teria de ser público) poderia revelar alguns fatos muito desconfortáveis concernentes às passadas ligações entre Bin Laden, a CIA e a Inteligência Paquistanesa. O fato é que os americanos não poderiam permitir que Bin Laden comparecesse perante um tribunal, onde ele poderia revelar danosas informações sobre seus contatos com a CIA durante sua guerra encoberta contra o exército soviético no Afeganistão ou suas relações com o Príncipe Turki, chefe do serviço de inteligência da Arábia Saudita.

Terrorismo de Estado

Não contentes em justificar o assassinato, as autoridades dos EUA, em seguida, avançam para justificar o uso da tortura nos interrogatórios de prisioneiros. Sugerem que o que levou à descoberta do paradeiro de Bin Laden foi o uso de “técnicas avançadas de interrogatório” (leia-se, tortura), que, afirmam, proporcionou informações importantes, incluindo as informações extraídas dos prisioneiros em Guantánamo. Isto escancara o vazio da alegada oposição de Obama à tortura e ao presídio de Guantánamo, que permanece funcionando, apesar de todas as promessas de fechá-lo.

Para justificar essas coisas, seremos convenientemente informados de que Bin Laden era um assassino em massa e que, portanto, não merecia clemência. Não temos nenhuma simpatia por Bin Laden e por seus métodos. Mas os métodos usados nesse caso são métodos terroristas, nem mais nem menos. Se isto é aceitável, então o que resta da suposta superioridade moral da democracia e da civilização ocidentais? E sobre a propaganda dos valores cristãos e humanitários? Todo o seu argumento é que as “democracias ocidentais” não usam os mesmos métodos dos terroristas e que, portanto, seus métodos são melhores que os deles.

A única diferença é que este tipo de terrorismo é promovido pelo Estado, que se supõe ser ungido com o óleo santo. Este tipo de terrorismo é, como a Virgem Maria, sem culpa ou mancha. Isto é terror puro, terror honrado, terror que não requer justificativa. Esta é uma espécie de terror que permite a um presidente americano lançar bombas atômicas sobre o Japão e ainda argumentar que foi um método humanitário que visava “salvar vidas (americanas)”, embora na verdade o Japão já estivesse de joelhos e em busca da paz.

Isto permitiu que outro presidente americano empreendesse uma guerra criminosa e suja no Vietnam, que incluía banhar os civis com produtos químicos tóxicos. Outros deles foram responsáveis por invadir Cuba e instalar regimes fascistas no Brasil, no Chile, Argentina, Uruguai, Guatemala e em outros países. As invasões do Iraque e do Afeganistão também foram atos de terrorismo de Estado, que foram responsáveis pela morte de centenas de milhares de pessoas. Essas ações não podem ser justificadas pela referência constante às Torres Gêmeas e a outras atrocidades cometidas pela Al-Qaeda. Estes últimos foram atos criminosos, mas comparados aos já mencionados, reduzem-se à insignificância.

Hipocrisia moral

No século XVII, na Inglaterra, os condenados por pirataria eram acorrentados às margens do Tâmisa, na maré baixa, e deixados para se afogar quando as águas subiam acima de seus pescoços. Na margem oposta do rio, havia uma taverna (que ainda existe), onde o juiz se sentava confortavelmente na varanda, a beber um copo de vinho do Porto, enquanto observava os pobres miseráveis afundar sob as águas barrentas em sua agonia final. Mais tarde, os métodos foram aperfeiçoados a um simples enforcamento, que era praticado em público como uma forma barata de entretenimento popular.

No século XXI, consideramo-nos muito superiores àquelas barbaridades. No entanto, a máscara da hipocrisia moral repugnante caiu na noite de domingo passado, quando um acontecimento extraordinário ocorreu. Sempre foi uma tradição das quadrilhas mafiosas (e dos Estados que foram modelados de acordo com a Máfia) que o padrinho, o Capo, não sujasse as mãos com o sangue derramado e a violência. Este permanece discretamente na sombra, enquanto os verdadeiros profissionais da arte de matar fazem o trabalho sujo em seu nome.

Uma das expressões mais repugnantes da hipocrisia é a forma pela qual a guerra e a matança foram higienizadas pela mídia. Até mesmo o idioma inglês foi distorcido e castrado para esconder o verdadeiro significado do que está sendo descrito. Assim, em vez de serem mortas, as pessoas são “taken out” [“retiradas”]. Não há vítimas civis, mas apenas “collateral damage” [“danos colaterais”]. E o meu favorito: se você estiver sendo despedaçado por engano, você pode se consolar com o pensamento de que está sendo apenas vítima de “friendly fire” [“fogo amigo”]. Desta forma, a guerra é rebaixada a um mero espetáculo, um show, como os combates de gladiadores da antiguidade.

No domingo passado, essa tendência atingiu um novo patamar quando a carnificina assassina sobre o último refúgio de Bin Laden foi degustada por Obama e sua comitiva, todos eles reunidos diante de uma tela de computador. Era como se estivessem assistindo a um espetáculo de televisão, como uma versão macabra do que é comumente chamado de “reality show”. Enquanto os assassinos profissionais desenvolviam seu trabalho infame, transmitiam cada detalhe sangrento para este público altamente sensibilizado no conforto e na segurança da Casa Branca. É uma pena que este momento glorioso na Casa Branca não tenha sido filmado (pelo menos, não há registro de que tenha sido disponibilizado ao público). Mas pode-se formar uma boa idéia de como foi a partir das fotos divulgadas.

Obama parecia absorvido, como um homem assistindo a um jogo de futebol e que espera ansiosamente pela vitória de seu time favorito. Os homens duros dos serviços militares e da inteligência olhando com suas faces de pedra, sem nenhuma dúvida admirando a competência de seus assassinos profissionais, tal como se admira a habilidade de um jogador de futebol. Do lado, Hilary Clinton é mostrada levantando as mãos para cobrir o rosto, revelando uma expressão de horror. Só podemos imaginar as imagens que produziram esta sua reação. Finalmente, o momento chegou. A equipe de Obama marcou um gol. “Nós o pegamos”, foi este o único comentário do presidente enquanto os matadores explodiam a cabeça de Bin Laden.

A tensão entre os EUA e o Paquistão

As relações entre o Paquistão e os EUA tornaram-se extremamente tensas na sequência da morte de Osama Bin Laden. No Paquistão, a cobertura da mídia centrou-se sobre se o governo do Paquistão ou seus militares tinham conhecimento prévio do ataque – um assunto sensível, dado o sentimento antiamericano generalizado e que se preocupa com violações à soberania do país. O Ministério do Exterior do Paquistão emitiu uma declaração forte, condenando a invasão à casa de Bin Laden, considerando-a como uma “ação unilateral não autorizada”, e advertindo que “não mais seriam toleradas no futuro”.

Que foi uma violação flagrante da soberania do Paquistão é evidente por si mesmo. Mas não é como se fosse um caso único. O fato é que a soberania do Paquistão vem sendo sistematicamente violada pelos EUA nos últimos anos. Agentes da CIA dirigem seus veículos pelas ruas de Lahore e Karachi com as janelas obscurecidas. Os americanos repreendem constantemente o governo de Islamabad como um diretor de escola admoesta um aluno indisciplinado. O Banco Mundial e o FMI dizem ao governo como gastar seu dinheiro. Drones americanos bombardeiam e matam pessoas no Paquistão quase todos os dias.

Também houve a questão sobre como os helicópteros dos EUA conseguiram penetrar o espaço aéreo paquistanês, realizar um ataque violento que durou mais de 40 minutos, e, em seguida, retornaram livremente ao Afeganistão. Mas se os americanos se sentiram capazes de realizar essa missão sem se preocuparem em informar as autoridades paquistanesas, isto se deve ao fato de que há anos que se acostumaram a tratar o Paquistão como seu próprio quintal. O atual governo do PPP [Partido Popular do Paquistão] é ainda mais servil do que todos os outros governos anteriores em sua atitude para com Washington.

O chefe da CIA, Leon Panetta, disse que o Paquistão não foi informado da operação porque os funcionários dos EUA temiam que o líder da Al-Qaeda fosse avisado com antecedência. “Ficou decidido que qualquer empenho de se trabalhar com os paquistaneses poderia comprometer a missão. Eles poderiam alertar o alvo”, disse ele à revista Time. Estas palavras são significativas. Qualquer contato com os paquistaneses significa qualquer contato com os chefes do exército, dos serviços de inteligência e do governo. Isso significa que os americanos não confiam em nenhum dos líderes do Paquistão.
O secretário do exterior do Paquistão, Salman Bashir, queixou-se amargamente disto, assegurando que o Paquistão tinha desempenhado um papel chave na luta contra a militância islâmica. “Na maioria dessas coisas que aconteceram em termos globais de combate ao terrorismo, o Paquistão desempenhou um papel central”, disse ele. “Então, é um pouco preocupante quando ouvimos comentários como este”. A expressão “um pouco inquietante” em inglês corrente [e no bom português] significa: isto é um escândalo. Anteriormente, o presidente Zardari tinha dito que as alegações americanas eram “especulações sem fundamento… que não refletem a realidade”.

Mas tais protestos não têm valor em Washington, onde os últimos acontecimentos têm gerado um grande escândalo público. A mídia está repleta de amargas recriminações contra o Paquistão. No Congresso dos EUA, Patrick Meehan, presidente de uma subcomissão da casa referente ao contraterrorismo e aos serviços de inteligência, perguntou em voz alta se aquele país era dirigido por “lealdades divididas, cumplicidade ou incompetência”. A democrata Jackie Speier caracterizou o Paquistão como “o elefante numa sala”.

Por seu lado, o serviço de inteligência paquistanês e os chefes militares estão furiosos e vexados por não terem sido informados de uma invasão que ocorreu debaixo de seus próprios narizes. O ocorrido expôs graves deficiências na defesa do Paquistão, bem como a incapacidade dos serviços de inteligência.

Os militares do Paquistão têm permanecido calmos, apesar de os funcionários do Inter-Services Intelligence (ISI) terem liberado alguns detalhes sobre o ataque com base em entrevistas com os familiares de Bin Laden que foram deixados para trás pelos matadores Navy Seals. Um oficial sênior do ISI disse que a filha de 12 anos de Bin Laden tinha testemunhado seu pai sendo morto e que ela tinha confirmado sua morte. “Ela disse que o viu ser baleado”, disse o oficial.

Ele também disse que o ISI havia invadido a casa em Abbottabad quando ela ainda estava sendo construída, em 2003, em busca de Abu Faraj Al-Libbi, um tenente da Al-Qaeda que acabou sendo capturado dois anos depois. Mas imagens de satélite de 2004 mostram um campo vazio no local da casa atual e imagens posteriores sugerem que a construção foi iniciada um ano depois, um pouco antes das autoridades dos EUA dizerem que Bin Laden e sua família se mudaram para lá. Deste pequeno incidente devemos tirar a conclusão de que ambos os lados estão mentindo para esconder o que fazem e porque fazem.

Considerações de ordem moral à parte (e, na verdade, tais considerações não têm lugar na guerra), essa ação foi um sucesso para o imperialismo dos EUA e um duro golpe para o que resta da esvaziada rede da Al-Qaeda. Além do cadáver ensanguentado de Bin Laden, os soldados americanos levaram discos rígidos de computador e uma pilha de documentos. Este material vai, sem dúvida, abastecer a CIA com informações sobre as atividades e o paradeiro dos outros agentes da Al-Qaeda no Paquistão e em outros locais. Isso será usado para novos ataques e assassinatos. Será um golpe muito mais pesado do que a liquidação de Bin Laden, que já havia se tornado uma figura mais decorativa que um líder real.

Obama disse que, ao matar Bin Laden, “estamos mais uma vez lembrando que a América pode fazer o que tudo o que tiver em mente”. A idéia implícita nestas palavras é que os EUA reivindicam o direito de intervir onde quer que seja no mundo, de violar não somente as fronteiras nacionais, mas até mesmo de enviar seus soldados para invadir as casas das pessoas e matar qualquer um que considere como inimigo. Em suma: “podemos fazer o que quisermos”. Aqui, a arrogância imperial fala alto e claro, com sua verdadeira voz.

Londres, 05 de maio de 2011.

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