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50 anos depois de 64: Militarização das escolas

Até o ex-comandante do BOPE do Rio de Janeiro criticou: “pode melhorar a curto prazo, mas não resolve nada” (O Globo, 6/4/14). Ele criticava o fato do governo do estado de Goiás ter decidido colocar 10 oficiais da PM para serem os diretores de 10 escolas!

Até o ex-comandante do BOPE do Rio de Janeiro criticou: “pode melhorar a curto prazo, mas não resolve nada” (O Globo, 6/4/14). Estaria o Comandante Paulo Storani criticando mais uma das medidas de segurança tomadas no Rio? Não, ele criticava o fato do governo do estado de Goiás ter decidido colocar 10 oficiais da PM para serem os diretores de 10 escolas!

Afinal, o que a PM tem que professores e funcionários não tem? A mesma matéria do Globo explica o que aconteceu:

Um grupo de adolescentes se perfila em formação militar, enquanto uma soldado armada os passa em revista. Nenhum deles masca chicletes. As garotas não usam batons ou esmaltes chamativos. Nas conversas não se toleram gírias. Todos são obrigados a cantar o Hino Nacional na chegada, a caminhar marchando e a bater continência diante do diretor. Não estamos num quartel, mas num dos dez colégios da rede estadual de Goiás cuja administração começou a ser transferida para a Polícia Militar desde janeiro, numa medida desenhada para amainar os repetidos casos de violência ocorridos numa região desassistida a apenas 40 quilômetros do Distrito Federal.[i]

O comandante precisa a crítica: “É a certificação do fracasso de um processo pedagógico no Brasil. É aquele pensamento: “ah, não temos como resolver o problema? Então chama a polícia”. Estão dando o gerenciamento da escola a um órgão que não tem essa função — raciocina. — A população tinha uma expectativa, é o desespero de querer qualquer coisa para melhorar uma situação”

O chamado Entorno de Brasília – Aguas Lindas, Valparaiso, Novo Gama, Luziânia, Cidade Ocidental e outras é formado por cidades que antigamente eram simplesmente fazendas ou pequenas vilas perdidas no interior. Com a construção e o crescimento de Brasília, a especulação imobiliária levou muitas famílias de trabalhadores para fora do Distrito Federal em busca de locais mais baratos. E gerou um crescimento acelerado de uma região sem serviços públicos adequados, marcados pela miséria e criminalidade. O portal http://www.entornoonline.com.br/noticias/leiamais_antigas.asp da uma amostra da situação: a maioria das notícias é sobre crimes, abandono das cidades, obras inacabadas, transportes precários e caros. O tráfico de drogas disseminou-se e em muitas cidades “manda” como manda nos morros do Rio ou nas favelas de São Paulo. Qual a solução? Melhorar o transporte? Melhorar as escolas? Pagar bem professores, trabalhadores, asfaltar?

É evidente que estas seriam soluções que poderiam beneficiar os moradores, a maioria trabalhadores do Distrito Federal. Ao invés disso, temos a militarização das escolas como “solução das soluções” mais barata.

E, inclusive para mostrar que é “mais barata” as Associações de Pais e Mestres das escolas públicas cobram uma taxa “voluntária” que varia de 40 a 70 reais por mês. O Comandante de “Ensino” da PM, Coronel Julio Cesar Mota, explica candidamente que como os pais percebem que o ensino “melhorou” a taxa de adesão chega a 100%! Uma boa adesão, certamente, igual aos votos nas ditaduras onde 100% votam nos candidatos indicados. E, claro, o código disciplinar das novas escolas proíbe que se critique a PM!

Existe solução para a criminalidade e o tráfico que não passe pela “militarização” das escolas? Claro que sim. Começando com estatização dos transportes, investimentos em infraestruturas, com bibliotecas, laboratórios, parques, quadras de esporte e profissionais gabaritados e bem pagos para tocar tudo isso.

Asfaltamento, água para todos, esgoto, coleta de lixo, etc. Falta tudo isso, mas temos PM nas escolas. Isso sem falar na política de “guerras as drogas” que trata os usuários como traficantes e livra a cara dos traficantes reais (é só lembrar o episódio do helicóptero cheio de cocaína que pousa na fazenda de um senador da república em Minas Gerais). Os únicos que podem verdadeiramente combater o tráfico de drogas são os trabalhadores e sua organização livre que possa se organizar em milícias populares e expulsar os traficantes dos bairros como estão fazendo muitas cidades no México.

A “experiência” de Goiás precisa ser combatida urgentemente. O silencio dos sindicatos de professores, da CNTE, da CUT e demais entidades sindicais é preocupante. O silencio da UNE, UBES e demais entidades sindicais é preocupante. A Esquerda Marxista se posiciona contra esta ocupação e mantem a luta por educação, saúde e transportes públicos e gratuitos.



[i] Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/educacao/policia-impoe-disciplina-militar-em-escolas-publicas-de-goias-12112410#ixzz2yIi9QZRm

 

 

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