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50 anos da Revolução Cultural: uma análise marxista

Há cinquenta anos, no ano de 1966, o então líder chinês Mao Tsé-Tung anunciava sua mais nova campanha: a Revolução Cultural. Começava aí um dos episódios mais traumáticos do século 20 e até mesmo da milenar história chinesa. As ondas de choque que balançaram tão intensamente essa nação asiática ficariam marcadas na consciência de toda uma geração, e até hoje o estudo desse assunto estimula debates intensos e apaixonados.

Mas qual foi o verdadeiro significado da Revolução Cultural? Mesmo depois de cinco décadas, as diferentes teorias seguem em permanente desencontro. Para a propaganda burguesa, por exemplo, a trágica e sangrenta sequência dos principais acontecimentos é mais uma prova do caráter “utópico e violento” de qualquer regime comunista…

Deixando de lado os absurdos da burguesia, a discussão do tema gera controvérsias mesmo nos meios da esquerda. Apesar do gigantesco caos social e econômico que caracterizou o período, não são poucos os que defendem a existência de um suposto “legado” da Revolução Cultural, que deve ser defendido e tomado como exemplo de “mobilização de massas”.

Tais confusões não são limitadas ao estudo da Revolução Cultural. O stalinismo jogou uma verdadeira nuvem de fumaça sob seus crimes. A história do chamado “socialismo real”, termo pomposo criado para definir monstruosas ditaduras burocráticas, até hoje é envolta em distorções e mentiras. E o mesmo faz o maoísmo, seu irmão mais novo. Dessa forma, o estudo dessa época se faz necessário sob uma ótica realmente marxista. E os cinquenta anos do início da Revolução Cultural nos dão uma ótima oportunidade para isso.

As Origens da Tragédia

Após 17 anos de existência, a República Popular da China, desfecho final de um processo revolucionário que durou décadas, se encontrava em um estado de profunda calamidade política, econômica e social. O regime do Partido Comunista Chinês (PCC), após promover reformas e avanços sem precedentes na longa história chinesa, começava mesmo a perder legitimidade diante dos trabalhadores e da juventude chinesa.

Politicamente, assim como a União Soviética stalinista, a China liderada por Mao era um regime burocrático altamente centralizador, que não permitia qualquer desenvolvimento político, cultural ou econômico minimamente independente daquilo que era determinado por Pequim. Uma única tentativa de promover certa liberdade intelectual a fim de impulsionar o desenvolvimento da atrasada economia chinesa terminara de forma breve e brutal. Conhecida como a Campanha das Cem Flores, lançada uma década antes (1956-1957) serviu apenas para desnudar a contradição insuperável entre o domínio de uma burocracia e a liberdade de pensamento e o pleno desenvolvimento econômico de uma sociedade.

E era justamente na economia que a situação do país era mais desesperadora. Mesmo depois de extinguir as relações de produção herdadas das dinastias imperiais, realizar a reforma agrária e confiscar as propriedades do capital externo, os planejadores do partido se viam diante de uma calamidade econômica. Uma tentativa de desenvolver o país unificando as comunas rurais com a indústria pesada, que passou para a história como “Grande Salto Adiante”, resultou em uma terrível epidemia de fome que ceifou dezenas de milhões de chineses, a maioria camponeses, a principal base de apoio social do PCC.

Para piorar ainda mais a situação, a China maoísta encontrava-se isolada internacionalmente. No ano de 1959, o país perdeu seu principal aliado e protetor: a União Soviética. Desde 1956, quando Kruschev realizou seu discurso denunciando os crimes do regime de Stalin, os politburos dos partidos comunistas dos dois países já vinham trocando críticas e acusações cada vez mais afiadas. Mas sob a aparência de simples discordâncias políticas, estava a recusa dos burocratas de Pequim de submeter-se plenamente ao controle de seus colegas de Moscou. Mesmo antes da vitória maoísta em 1949, Stalin já deixava claro que não confiava nos comunistas liderados por Mao, e seus sucessores no Kremlin herdariam essa desconfiança.

Diante de tantas dificuldades enfrentadas por seu governo, Mao viu seu prestígio pessoal perder força diante das massas e mesmo da própria burocracia. Rivais de longa data, como Liu Shaoqi e Deng Xiaoping, ganharam espaço nesse período, e era preciso dar um basta ao avanço de seus rivais dentro do partido. Mas mais importante do que as disputas palacianas, oferecer ao povo chinês uma válvula de escape para o latente descontentamento diante da situação do país era uma questão de sobrevivência para o regime de Pequim. Estas foram as verdadeiras motivações do líder chinês ao anunciar o início da Revolução Cultural naquele ano de 1966.

A tragédia: Guardas vermelhos, gangue dos quatro e o “Grande Timoneiro”

No congresso do Partido Comunista Chinês realizado no dia 16 de maio de 1966, Mao preparara o cenário para o lançamento da Revolução Cultural. Ao invés das tradicionais discussões sobre políticas a serem adotadas nos diferentes aspectos da vida nacional, que sempre eram aprovadas por unanimidade, a reunião foi uma grande ofensiva contra os adversários de Mao na liderança do partido. Um dos principais rivais de Mao no PCC, Peng Zhen, foi expurgado ainda antes da reunião. No plenário, o líder chinês anunciou a tempestade com declarações como essa:

“Esses elementos da burguesia que se infiltraram no partido, no governo, no exército e nas várias esferas da cultura são um bando de revisionistas contrarrevolucionários. Uma vez que as condições permitam, eles vão tomar o poder e transformar a ditadura do proletariado em uma ditadura da burguesia. Alguns deles nós já desmascaramos; outros não. Alguns deles ainda têm nossa confiança e já estão sendo treinados para serem nossos sucessores…”.

A descrição de elementos que serviriam, ao mesmo tempo, a burguesia e o governo soviético já nos diz tudo o que temos que saber sobre as intenções de Mao com essa campanha. O regime sob seu comando estava isolado, e sua autoridade pessoal estava desgastada. Portanto, todos os seus adversários internos seriam tratados como se fossem agentes do imperialismo ou do Kremlin, dependendo do que fosse mais conveniente.

A partir dessa reunião, o Politburo do PCC, e com ele a maior parte das altas instâncias do partido, deixaram de existir como órgãos de decisão efetivos. A linha a ser adotada, em todos os níveis, seria aquela dada por Mao, e qualquer um que se atrevesse a desviar dela, mesmo que fosse membro do mais alto escalão do partido, poderia esperar as piores consequências.

Mas como já foi dito, a Revolução Cultural não se tratava apenas de devolver o pleno controle do país e do partido à Mao. Estava em questão dar uma resposta ao imenso descontentamento da população com a falta de liberdade e as condições de vida paupérrimas da maioria. Como sempre, a raiva era mais latente entre a juventude. Por isso, desde o início, o líder chinês deu especial atenção a eles, incentivando-os a questionar e desafiar até mesmo a própria liderança do PCC, dominada então por seus adversários.

Assim, surgiram turbas de milhões de jovens uniformizados, que desfilavam pelas cidades e pelo campo desferindo sua violência contra qualquer coisa que se enquadrasse nos chamados “quatro velhos” (velha cultura, velhas ideias, velhos hábitos e velhos costumes). Esses seguidores leais do “Grande Timoneiro”, como se referiam a Mao, ficariam conhecidos na história como Guardas Vermelhos. Com suas fardas verdes, bonés com a estrela vermelha e sempre com o “Livro Vermelho”, espécie de manual escrito por Mao, se tornariam o símbolo mais conhecido da Revolução Cultural.

Naturalmente, os adversários da campanha e de Mao não permaneceram inertes diante de um ataque tão radical. Alguns dos principais alvos da Revolução Cultural, como Deng Xiaoping e Liu Shaopi, inicialmente demonstraram acordo com a proposta, mas propuseram que as multidões de jovens que tomassem parte na campanha fossem acompanhados de perto por “grupos de trabalho” formados por quadros especiais treinados. O objetivo seria impedir qualquer excesso que ameaçasse a autoridade do partido.

Mao imediatamente se colocou a favor da plena liberdade de ação dos guardas vermelhos. O “Grande Timoneiro” se encontrou com mais de um milhão deles na Praça Tiananmen, em Pequim, no dia 18 de agosto de 1966. O próprio Mao vestia-se como um guarda vermelho. Ao seu lado estava Lin Biao, o comandante do exército e segundo homem do regime. Biao denunciava os elementos da sociedade chinesa que estariam “atrasando o progresso da revolução” e exaltava os jovens a manterem-se firmes no combate aos “quatro velhos”.

Nos anos que se seguiram, os guardas vermelhos levariam esses comandos ao pé da letra. Em pouco mais de dois anos, inúmeros monumentos históricos, alguns deles com milhares de anos, estavam muito danificados ou completamente destruídos. As instituições públicas eram rotineiramente atacadas por turbas que diziam agir em nome da “luta contra o revisionismo”. A vida intelectual no país, sobretudo nas universidades, estava totalmente interrompida diante dos contínuos ataques a professores e pesquisadores, alvos recorrentes dos guardas vermelhos. “Contrarrevolucionários”, “revisionistas” e “traidores” eram caçados até mesmo nas fábricas, comunas rurais e nas ruas das pequenas vilas. Até hoje, não se sabe ao certo o número de mortos.

O desastre foi tornado ainda pior quando Mao lançou, em 1968, a “Campanha de Envio ao Campo”. O objetivo era fazer com que a camada intelectual do país sentisse o sofrimento dos camponeses, então a esmagadora maioria da população, e se purificassem de seus últimos resquícios “burgueses”. Por “intelectual”, o regime se referia a milhões de jovens estudantes nas cidades. O atraso no desenvolvimento do país foi tamanho que muitos se referiram à esses jovens como “geração perdida”.

Durante o período em que durou a Revolução Cultural, o setor do antigo establishment do regime foi substituído por elementos mais próximos de Mao. Os mais notórios foram os que compuseram a chamada “Gangue dos Quatro”, grupo que se destacava pelo radicalismo. Entre eles estava ninguém menos do que Jiang Qing, a esposa de Mao. Este grupo foi um dos principais incentivadores do imenso culto à personalidade que girava em torno de Mao. Para os apoiadores da Revolução Cultural, e principalmente para os guardas vermelhos, Mao se tornaram uma espécie de semideus.

Contudo, a situação na China já se tornara insustentável. Não bastasse o isolamento internacional e a pobreza econômica, agora a sociedade chinesa se encontrava mergulhada no mais profundo caos. Mao já se decidira pela reabertura do país ao capital externo, o que não era possível enquanto tamanho caos continuasse a imperar no país. Portanto, não é de se estranhar que o próprio Mao tenha tido a iniciativa de acabar com a Revolução Cultural apenas três anos depois de lança-la, em 1969, e a seguir, reprimir seus fiéis guardas vermelhos a ferro e fogo.

O que realmente foi a Revolução Cultural?

Decidido a dar um fim definitivo àquela situação, Mao autorizou o exército a agir contra a Guarda Vermelha, de forma a desmobilizá-la e mandar seus membros de volta para o campo e para as cidades. Por todo o país, houve resistência, e os militares foram ordenados a abrir fogo contra as turbas de jovens raivosos. Jornais de Hong Kong relataram que, em uma dada ocasião, dezenas de cadáveres de guardas vermelhos apareceram boiando no porto, fruto da repressão do exército chinês ao longo do curso do rio que desagua na cidade.

Mesmo com a decretação do fim oficial da Revolução Cultural, os últimos guardas vermelhos só seriam desmobilizados em 1976, com a morte de Mao. A disputa pelo poder que se seguiu deu a vitória à Hua Goufeng, que embora se opusesse aos excessos da Gangue dos Quatro, desejava manter-se na linha maoísta ortodoxa. Por isso, acabou sendo forçado a ceder sua posição para Deng Xiaoping, uma das primeiras vítimas do expurgo de 1966. Sob seu comando, o partido daria prosseguimento ao que Mao já iniciara enquanto vivo: a reintrodução da China no mundo capitalista.

Não pode restar qualquer dúvida sobre o real significado da Revolução Cultural na história. Trata-se de um dos mais trágicos símbolos da verdadeira natureza do maoísmo, irmão mais novo e ainda mais degenerado do stalinismo. Como tal, o culto à personalidade, a repressão estatal e a violência contra o conjunto da sociedade aparecem de forma ainda mais exacerbada, e isso fica claro no estudo da Revolução Cultural.

Por isso, não existe qualquer “legado” em um movimento concebido para servir, ao mesmo tempo, como distração para os setores mais descontentes das massas e arma na disputa entre diferentes setores de uma burocracia autoritária e repressora. O uso do termo “revolução” para descrever este episódio da história é, para os marxistas, totalmente incorreto. Ao contrário, é um dos exemplos mais claros da natureza totalitária e contrarrevolucionária dos governos burocráticos que usurparam o nome e os símbolos do socialismo. Dessa forma, os militantes honestos devem sempre se distanciar do programa e dos exemplos do maoísmo, principalmente no que se refere à Revolução Cultural.

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